Geografia da Fome é um livro de autoria do médico, geógrafo e cientista social brasileiro Josué de Castro, publicado originalmente em 1946. Considerada uma obra clássica da literatura científica e sociológica brasileira, o livro é um marco por ser o primeiro levantamento sistemático e regionalizado sobre o fenômeno da fome no Brasil.OLIVEIRA, Maria Leidiana Mendes de. Geografia Da Fome: A Expressão Dramática Da Desigualdade Sócio-espacial Brasileira. 2013. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo, 2013. 172 p. A metodologia da obra baseia-se nos princípios geográficos de localização, extensão, causalidade e correlação, buscando uma visão panorâmica que integra ecologia, economia e sociologia para entender as "manchas de miséria" do país. A obra teve grande repercussão internacional, influenciando políticas de órgãos como a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), e é frequentemente comparada em importância a Os Sertões, de Euclides da Cunha.
Estrutura A estrutura do livro, em sua primeira edição, é dividida em um prefácio do autor e seis partes, que incluem um glossário. São elas:
Introdução Área Amazônica Área do Nordeste açucareiro As áreas de subnutrição: Centro e Sul Estudo do conjunto brasileiro Glossário
A obra Publicado originalmente em 1946, Geografia da Fome rompe com o silêncio científico sobre a miséria no país, definindo a fome como o maior "tabu" da civilização moderna. O subtítulo O Dilema do Brasil: Pão ou Aço reflete a crítica do autor ao modelo de desenvolvimento da época, questionando se o país deveria priorizar a industrialização acelerada (o aço) em detrimento da garantia de alimentação básica para o povo (o pão). Josué de Castro argumenta que a fome brasileira não é uma "fatalidade climática" ou um mistério da natureza, mas sim uma consequência direta de escolhas históricas e sociais, como o foco em grandes plantações de exportação que deixaram a produção de alimentos em segundo plano. Um de seus conceitos mais inovadores é o de "fome oculta" ou parcial: uma situação em que populações inteiras se alimentam diariamente, mas sofrem de doenças graves por falta de vitaminas e proteínas essenciais.
Para demonstrar sua tese, o autor divide o território brasileiro em cinco áreas alimentares distintas, mostrando que a carência de comida se manifesta de formas diferentes conforme a região. Ele identifica a “fome endêmica” (permanente) na Amazônia e no Nordeste açucareiro, onde o domínio de um único produto, como a borracha ou a cana-de-açúcar, impediu que o povo cultivasse sua própria comida. No Sertão nordestino, a fome é classificada como “epidêmica”, pois surge em crises agudas e violentas durante os períodos de seca. Já as regiões Centro e Sul são descritas como áreas de "subnutrição", onde, apesar da maior abundância de recursos, a dieta da população ainda é incompleta e de baixa qualidade biológica. Unindo diferentes áreas do conhecimento, a obra transformou o Brasil em um laboratório para provar que o combate à fome depende da consciência política e da reforma das estruturas econômicas do país.
Edições A primeira edição (1946-1947) foi publicada nos últimos dias de dezembro de 1946. O sucesso foi tão grande que a edição esgotou-se em um tempo muito mais curto do que o previsto por autor e editor. Em 1947, foi lançada a segunda edição, que, devido à pressa para suprir a demanda, não pôde ser ampliada como o autor desejava, mantendo a composição original apenas com a correção de erros tipográficos.
A 8.ª edição foi publicada quando o livro completava 15 anos (c. 1961), marcou a reinclusão de um apêndice (originalmente da 2ª edição) que detalhava as reações do autor às primeiras críticas recebidas, servindo para explicar a evolução de seu pensamento.
A 9.ª edição é considerada pelo autor como a "edição definitiva". Foi apresentada em uma forma atualizada e ampliada em dois volumes, consolidando o texto após anos de novas pesquisas e dados colhidos em seu "laboratório natural" (o Brasil).
Uma edição popular também foi publicada com o objetivo de tornar o livro acessível às classes trabalhadoras. Esse projeto é resultado da colaboração com o editor Arquimedes de Mello Netto através da Casa do Estudante do Brasil. O autor acreditava que a solução para a fome dependia do esclarecimento das massas sobre o problema alimentar.
A 10.ª edição foi publicada postumamente em 1984 pela editora Antares e inclui prefácio de figuras como André Mayer (ex-presidente da FAO) e Alceu Amoroso Lima. No prefácio desta edição, Amoroso Lima ressalta o valor permanente e o sentido profético da obra, passadas décadas de sua publicação original.
Legado
Uma nova perspectiva internacional O legado mais duradouro de Geografia da Fome foi a superação do “tabu” em torno do tema. Ao adotar a palavra “fome” para tratar de deficiências alimentares como resultado de uma uma estrutura socioeconômica desigual, Josué de Castro demonstrou como a expressão “subnutrição” não seria suficiente para abordar situações de escassez aguda de alimentos. Sua abordagem ganhou proporção internacional quando, em 1952, ele foi eleito presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cargo que exerceu até 1956, podendo confrontar diretamente a visão tecnocrática dos países desenvolvidos. miniaturadaimagem|Josué de Castro (à direita), então presidente da FAO e Harry S. Truman (à esquerda), presidente dos Estados Unidos, na Casa Branca, 1952 Castro também procurou expandir o seu método de análise em escala geográfica global, publicando em 1950 o livro Geopolítica da Fome, mapeando o tema em todos os continentes e adentrando em temas como colonialismo e fazendo críticas às teorias neomalthusianas. A obra de Josué de Castro foi traduzida para mais de 25, tornando-se referência nas relações internacionais e nos debates sobre segurança alimentar.
Fome e alimentação Antes e durante a elaboração de Geografia da Fome, Castro manteve uma estreita relação intelectual com o historiador brasileiro Luís da Câmara Cascudo. No final da década de 1930, os dois pesquisadores planejaram escrever juntos um livro sobre a história da cozinha brasileira, abordando a relação entre os hábitos alimentares da população e a questão da fome. Porém, Castro pesquisava a “fome”, enquanto Cascudo focava na “comida” de forma etnográfica, e essa divergência os levou a desistir do projeto. Mesmo assim, no prefácio de Geografia da fome, Castro agradece Cascudo pelas sugestões dadas.
Adaptação cinematográfica O impacto de Geografia da Fome despertou o interesse do cineasta italiano Roberto Rossellini. Em agosto de 1950, Rossellini viajou ao Brasil com o objetivo de preparar um filme-documentário inspirado no livro de Josué de Castro, chegando a se reunir com ele e a fazer registros fotográficos do Rio de Janeiro, Recife, Bahia e do Sertão pernambucano. Porém, o projeto sofreu forte oposição política e midiática no Brasil. O político Carlos Lacerda acusou o cineasta de fazer “propaganda comunista” para expor as misérias do povo brasileiro, e o governo do Brasil se recusou a oferecer apoio financeiro à iniciativa. O projeto acabou fracassando, mas influenciaria profundamente a carreira de Rossellini em seus trabalhos posteriores.
Prêmios
Prêmio Pandiá Calógeras, da Associação Brasileira dos Escritores Prêmio José Veríssimo, da Academia Brasileira de Letras
Ligações externas Obras - Josué de Castro
Categoria:Livros de história do Brasil Categoria:Livros de 1946