Januária do Brasil (Rio de Janeiro, 11 de março de 1822 – Nice, 13 de março de 1901), cognominada "a Princesa da Independência", foi a segunda filha do imperador Pedro I e da imperatriz consorte Maria Leopoldina, e, portanto, membro da família imperial brasileira. Era irmã do imperador Pedro II do Brasil e da rainha Maria II de Portugal. De 1835 a 1845, deteve o título de Princesa Imperial do Brasil, como herdeira presuntiva de seu irmão, o imperador Pedro II, que era então menor de idade, e considerou-se a possibilidade de declará-la regente, embora isso nunca tenha se concretizado.Montgomery-Massingberd, Hugh, ed. (1977). Famílias Reais do Mundo de Burke, Volume 1: Europa e América Latina. Londres: Burke's Peerage. pág. 49. ISBN  0-85011-023-8.

Biografia

Infância thumb|left|Retrato de Januária, 1830, atribuído a Simplício Rodrigues de Sá D. Januária, nasceu infanta de Portugal, em 11 de março de 1822 no Palácio de São Cristóvão, Rio de Janeiro, Reino do Brasil. Quando nasceu, sua família estava de luto pela morte de seu irmão, João Carlos, Príncipe da Beira, meses antes. Era a segunda filha varoa do então herdeiro do trono português, Pedro de Alcântara, e de sua esposa, a arquiduquesa Leopoldina da Áustria. Por ter nascido no processo da independência do Brasil, foi chamada de "a Princesa da Independência". Seus avós paternos eram o rei João VI de Portugal, e sua esposa, a rainha Carlota Joaquina da Espanha, e os avós maternos eram o imperador Francisco I da Áustria, último monarca do Sacro Império Romano-Germânico, e sua esposa, a imperatriz Maria Teresa de Nápoles e Sícilia. A princesa cresce ao lado dos irmãos, Maria da Glória, Pedro de Alcântara, Paula Mariana, Francisca e sua meia irmã Isabel Maria, Duquesa de Goiás, filha do seu pai com a amante, Domitila de Castro, Marquesa de Santos.

Aos quatro anos de idade, ficou órfã de sua mãe, a imperatriz Leopoldina, depois de abortar um menino, e anos depois vê seu pai casar com a sua nova “mãe” a princesa Amélia de Leuchtenberg.

Aos nove anos de idade, seu pai abdicou como Imperador do Brasil e regressou a Portugal para restaurar a coroa de sua filha mais velha, Maria II, que havia sido usurpada pelo seu irmão mais novo, Miguel I. Januária não acompanha o pai, e fica no Brasil pois ela herdaria o trono caso seu irmão morresse. A princesa continuou a se comunicar com o seu pai por meio de cartas.

Ela começou a viver com seus irmãos mais novos e vários tutores e sua infância foi marcada por uma educação rigorosa. Por ser ela, a mais velha dos príncipes que aqui ficaram, também era dela a responsabilidade de dar notícias ao pai e a sua nova mãe. Assim em 1833, a princesa Paula Mariana morreu antes dos 10 anos, Januária através de uma carta relatou o ocorrido ao pai:

"Amado, papai. Apesar de nossas constantes súplicas ao céu, nossa querida irmã Paula Mariana foi embora. Não encontramos consolo. Nossa amada irmã não está mais conosco. Além disso, o pequeno Pedro adoeceu gravemente. Chegamos a pensar que ele estava com a mesma febre de Paula Mariana, mas graças a Deus ele melhorou e já está sentado em sua sala de estudos. Para agradecer, nós, irmã Chica e eu, sua filha Januária, não comeremos açúcar até o aniversário de Pedro, dia 2 de dezembro. Querido papai, estamos desesperados e com grande consternação. Temos muita saudade de vós e também da nossa irmã Maria da Glória e de todos aqueles que estão contigo em Lisboa. Com a promessa de ser sempre filhos obedientes e amorosos, Januária, Francisca e Pedro."

Também foi à Januária que a Imperatriz Amélia dirigiu a notícia por carta da morte de D. Pedro I.

Princesa Imperial thumb|left Com a abdicação de Pedro I do Brasil em 1831 e imediata mudança para a Europa para reconquistar a coroa portuguesa para a sua filha primogênita Maria da Glória, a sucessão do trono brasileiro precisava ser modificada. Foi expedida pela Assembleia dos Deputados uma lei nomeando Januária como Princesa Imperial do Brasil. O regente, padre Diogo Antônio Feijó, disse apenas que aceitava o documento em nome da Princesa Imperial.

No dia 4 de agosto de 1836, Januária (então com 14 anos de idade) entrou no salão do Paço do Senado, trazendo um rico vestido de ouro sobre o qual se divisava a insígnia da Grã Cruz da Imperial Ordem do Cruzeiro e, na presença dos deputados, com a mão sobre o missal, declarou solenemente com voz comovida:

Juro manter a religião Católica, Apostólica, Romana; observar a Constituição Política da Nação Brasileira e ser obediente às leis e ao Imperador.

Desta forma, Januária tornou-se Princesa Imperial do Brasil (herdeira do trono), até o nascimento de um filho de seu irmão Pedro II.

Campanha para regente thumb|left|Retrato por Arnaud Pallière, c. 1830–1840 Em 1836, o governo regencial entrou em crise e, nessa época Januária entrou em cena, pois era a filha mais velha do imperador Pedro I. Alguns deputados liberais moderados passaram a defender que a regência fosse entregue à princesa D. Januária, irmã de D. Pedro II e Princesa Imperial do Brasil, então com quatorze anos, para que ela pudesse assumir a regência.

Devido à falta de apoio condicional, esta ideia não fez progressos. Permitir que comandantes e menores participassem é contra-intuitivo. Em 1837, Feijó renunciou e nomeou um adversário político, o senador Pedro de Araújo Lima, de Pernambuco. Embora o levante ainda estivesse ocorrendo, o comando do país começou a se normalizar. Logo depois, o parlamento lançou o Golpe da Maioridade e levou o jovem Pedro II ao poder.

Casamento Desde a época do início das conversas sobre o casamento de D. Pedro II, já se começava a cuidar do da irmã, D. Januária. Na falta de D. Pedro II, ela era a primeira na linha de sucessão, na falta de herdeiros do irmão, ela e seus filhos herdariam a coroa. Com isso, enquanto não se resolvesse o casamento de D. Pedro II, e esse começasse a fornecer herdeiros, Januária era, literalmente, um bem do Estado. Qualquer príncipe estrangeiro que se casasse com ela tinha que concordar em permanecer no Brasil, ao menos até que D. Pedro II tivesse o primeiro filho e esse fosse reconhecido herdeiro pela Assembleia. Os planos de se arrumar um arquiduque austríaco foram iniciados, pois a memória de D. Leopoldina estava viva demais e a preferência do povo por um arquiduque seria mais aceitável. Porém, os austríacos novamente não se interessaram.FORTE, Nicola – Viaggio nella memoria persa del Regno delle Due Sicilie – Ed. Imaeganaria, Ischia (Napoli) 2007

A Rússia e a França tentaram sugerir príncipes das casas dinásticas para Januária, mas sem sucesso. Ao fim, cinco nações lançaram os olhos para os príncipes brasileiros entre 1835 e 1841: Portugal, França, Rússia, Espanha, Áustria e Sardenha.

Foram cogitados os nome do príncipe Fernando Filipe, Duque de Orleães, filho do rei Luís Filipe I e herdeiro ao trono da França, e do príncipe Augusto de Saxe-Coburgo-Koháry, mas nenhum dos dois tiveram sucesso.Rezzutti, Paulo (2019). D. Pedro II, A História Não Contada. São Paulo: Casa da Palavra/LeYa. p. 160 a 164

Em janeiro de 1838, chegou ao Rio de Janeiro o Príncipe de Joinville, nascido em 1818, era o terceiro filho do rei dos franceses Luís Filipe I e da rainha Maria Amélia. E o rei de Sardenha enviou o príncipe Eugênio de Saboia nascido em 1816. O rei Carlos Alberto pediu, por via diplomática, a mão da princesa Januária para Eugênio. Dona Januária não o teria recusado, e também Dom Pedro II o achou muito simpático e inteligente, mas as pretensões foram tantas, por parte do rei, que as negociações fracassaram. O Príncipe de Joinville pediu oficialmente a mão de D. Francisca a D. Pedro II. Os preparativos para o casamento foram aos poucos sendo acelerados, D. Pedro II permitiu que o protocolo fosse quebrado e assim a irmã mais nova, e não a mais velha, pôde se casar primeiro.

Enquanto isso, através de um contato com o secretário do rei das Duas Sicilias, um pequeno reino Italiano, o diplomata Brasileiro em Portugal conseguiu saber que o rei tinha uma irmã mais nova em idade de casar. Depois do pedido oficial da mão da princesa, casavam-se por procuração em Nápoles, Dom Pedro II com a princesa Teresa Cristina das Duas Sicílias.

As coisas se ajeitariam com a chegada da esposa de D. Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina, que viria para o Brasil com um irmão, o príncipe Luís Carlos, Conde d'Áquila, que veio acompanhar a imperatriz em sua viagem à sua nova pátria. Tanto Januária como o Conde d’Áquila gostaram um do outro e durante os festejos do casamento de Dom Pedro II, viram-se, o grande que foi o pesar da princesa, quando o príncipe voltou a Nápoles.

Os diplomatas e políticos entraram novamente em ação e acertaram o casamento. Costurou-se um acordo no qual a princesa só poderia fixar residência definitiva na Europa após o nascimento de um herdeiro de D. Pedro II e de D. Teresa Cristina. Enquanto isso, o casal, junto, e o príncipe, separadamente, só poderiam se ausentar do Brasil com permissão do imperador e da Assembleia.

O príncipe retornou ao Rio de Janeiro no início de 1844. O casamento de D. Januária foi cercado de muito mais pompa que o de sua irmã. D. Pedro II disponibilizou como moradia ao futuro cunhado o Paço da Cidade. O conde d’Áquila partiu no domingo, dia 28 de abril, para se encontrar com a noiva e os imperadores no Palácio de São Cristóvão. De lá, um grande cortejo seguiu até o Paço da Cidade. Passaram pelas ruas cheias de gente, coloridas por flores e pelas colchas nos balcões. No Paço, com a corte reunida e a chegada do corpo diplomático e dos ministros, seguiram para a Capela Imperial. Depois da cerimônia houve recepção no Paço, parada militar e um jantar. O Paço da Cidade agora ficava sendo a residência oficial da princesa imperial e de seu marido. No acordo matrimonial constavam:

Art. II. Logo que se verifique o matrimônio, Sua Alteza Real o Príncipe D. Luis Carlos Maria, Conde d'Aquila, esposo de Sua Alteza Imperial a Princesa Imperial do Brasil D. Januária Maria, será considerado como Príncipe da Casa e da Família Imperial do Brasil, e gozará de todos os direitos e prerrogativas que pela Constituição do Império competem a tais Príncipes. Tomará o título de Príncipe Imperial, que atualmente pertence á sua futura Augusta Esposa; quando, porém, Sua Majestade o Imperador tiver descendência, os dois Augustos Esposos tomarão o titulo de Príncipe e Princesa do Brasil, conservando com tudo o Tratamento de Alteza Imperial, seguem-se amplas dotações, para si e para os filhos, que serão também, Príncipes do Império.''

As coisas se mantiveram unidas sob a batuta de Aureliano Coutinho, Paulo Barbosa e Marianna Magalhães Coutinho. Paulo Barbosa, mordomo do Paço, sofreu logo um choque quando o conde d’Áquila dispensou seus serviços dizendo que ele próprio administraria sua casa. Desse estranhamento inicial nasceriam as primeiras rusgas entre D. Pedro II e o Conde d'Áquila. Ouvindo sempre seu mordomo, que inventava ao imperador, que Januária e o cunhado, planejava tomar seu poder, D. Pedro II se deixaria levar pela trama e acabaria se ressentindo do cunhado. D. Januária e o Conde d'Áquila passaram a ser destratados, ignorados por ministros, pelo mordomo e até mesmo pelo imperador, que em cerimônias ou visitas particulares não lhes dirigia a palavra.

O Conde d'Áquila sentindo-se humilhado pede permissão a Pedro II para voltar a Nápoles com sua esposa. Depois de ter sofrido várias recusas do soberano, o príncipe ameaça fugir do país se a permissão não for concedida. Finalmente, o conde e a condessa de Áquila embarcam no navio francês White Queen em 23 de outubro de 1844.CALMON, Pedro -História de Dom Pedro II, 5 vol. –Livraria José Olympio Ed., Rio 1975

Vida em Nápoles thumb|esquerda