Grêmio Recreativo Escola de Samba São Clemente (ou simplesmente São Clemente) é uma escola de samba brasileira da cidade do Rio de Janeiro que foi idealizada e fundada por Ivo da Rocha Gomes, João Marinho e Aílton Teixeira. Sua melhor colocação no Grupo Especial do Carnaval foi o 6° lugar em com enredo "E o Samba Sambou" que criticava a mercantilização do carnaval. Este enredo foi reeditado pela escola 29 anos depois, no carnaval de 2019.
A escola ao longo dos anos notabilizou-se pelos enredos cheios de bom humor e críticas sarcásticas aos mais diversos temas. A São Clemente também possui equipes de futebol de areia de várias categorias, sendo um dos poucos grandes times dessa modalidade a não pertencer ao eixo Copacabana-Leblon.
A sede da São Clemente como instituição sempre esteve no bairro de Botafogo, onde permanece até hoje, bairro este com o qual a agremiação possui profundas ligações. Porém, atualmente, a quadra para os ensaios da escola está localizada na Avenida Presidente Vargas, na Cidade Nova.
A partir de 1984, com a construção do sambódromo, os desfiles da São Clemente passaram a acontecer na Passarela do Samba, onde desfilou ininterruptamente até 2025, quando acabou sendo rebaixada à Série Prata, que desfilia na Intendente Magalhães. Em 2022 a escola completou 23 participações entre as grandes escolas do Grupo Especial, sendo que, por 11 vezes consecutivamente, entre 2011 e 2022.
Um dos grandes nomes da escola é Renato de Almeida Gomes, filho do fundador. Renatinho, como é conhecido, participa ativamente dos desfiles da agremiação desde os dez anos de idade. Já participou da comissão de frente, da ala, foi diretor de bateria, batizada de "Bateria Fiel", durante 17 carnavais, diretor de esporte e vice-presidente até chegar a presidência em 2002. Na sua gestão, iniciada em 2002, a escola conquistou três dos seus cinco títulos, em 2003, 2007 e 2010.
Lugar de origem A São Clemente tem sua origem no bairro de Botafogo, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. São comuns, nas composições da escola, citações e referências à Zona Sul, como, por exemplo, nos sambas de 1995 ("Zona Sul é São Clemente / De estilo irreverente"); 2011 ("Meu Rio sua beleza inspira o mar azul / Canta Zona Sul!"); 2015 ("Ao gênio maior da avenida / Canta Zona Sul, feliz da vida"); entre outros. No carnaval de 1997, a São Clemente homenageou o bairro de Botafogo, desfilando o enredo "A São Clemente Botafogo na Sapucaí".
Nome, cores e apadrinhamento Foram mantidos o nome (São Clemente) e as cores (preto e amarelo) herdados do bloco de carnaval e do time de futebol. Diversas composições da escola citam as cores da agremiação, como os sambas de 2006 ("Levanta a poeira, sou mais São Clemente / O preto e amarelo, orgulho da gente"); de 2009 ("Tira a máscara e revela / Veja que é preta e amarela / São cores de um grande amor"); e de 2016 ("De preto e amarelo pintou meu amor! / Hoje tem São Clemente? Tem, sim senhor!").
A Unidos de Vila Isabel é a escola-madrinha da São Clemente. A escola azul-e-branco teve grande importância no início das atividades da escola de Botafogo. Eurico Moreira, que aprovou a São Clemente em seu desfile-teste, era diretor da Vila Isabel e conseguiu com o presidente da agremiação, Seu China, que a escola dividisse seu barracão com a São Clemente. Os carnavalescos da Vila Isabel, Dario e Gabriel do Nascimento, também foram compartilhados. Assim, a Unidos de Vila Isabel se tornou oficialmente madrinha da São Clemente.
Bandeira miniaturadaimagem|250x250px|Versão antiga da bandeira da escola A bandeira, ou pavilhão, da escola possui dezesseis raios de cores intercaladas (oito pretos e oito amarelos), partindo de duas circunferências concêntricas centrais, uma preta e outra amarela, em direção às extremidades da bandeira. Na circunferência maior, de cor preta, estão: ao centro, o logo da escola; acima, a inscrição "G.R.E.S." (Grêmio Recreativo Escola de Samba); e abaixo, a inscrição "São Clemente". A bandeira pode sofrer pequenas variações a cada ano, como, por exemplo, as disposições das cores dos raios e as cores das letras das inscrições. O logo da escola consiste em um pandeiro amarelo, com um desenho preto estilizado da Enseada de Botafogo, com o Pão de Açúcar ao fundo. Durante muitos anos, a bandeira da escola continha o desenho do Bondinho do Pão de Açúcar, com detalhes em verde. A partir do desfile de 2014, o desenho deu lugar ao logotipo da agremiação. Com isso, a bandeira da escola ficou totalmente nas cores preto e amarelo. A bandeira anterior ainda é utilizada nos desfiles, pelo segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira da agremiação.
História São Clemente Futebol Clube Em 1951, um grupo de moradores do bairro, liderados por Ivo da Rocha Gomes, decidiu criar um time de futebol. Foi nomeado de São Clemente Futebol Clube em referência à Rua São Clemente, onde morava a maioria dos jogadores. A equipe tinha as cores azul e branco, inspiradas na Seleção Carioca de Futebol. O grupo treinava no campo da UFRJ e participava de campeonatos no Rio de Janeiro e em outras cidades.
Bloco Carnavalesco São Clemente Além da paixão pelo futebol, Ivo Gomes também gostava de samba e carnaval. Em 1952, o time se reuniu na Rua São Clemente, número 176, em frente à Vila Gauí, onde se preparava para uma excursão à Bananal, em Japeri, onde disputariam mais um campeonato. Enquanto aguardava o ônibus que levaria o grupo, Ivo Gomes avistou, na porta de uma quitanda, duas barricas vazias, que imediatamente transformou em instrumentos de percussão, iniciando uma batucada. No mesmo momento, os jogadores tiveram a ideia de criar um bloco carnavalesco para desfilar pelas ruas do bairro. O bloco teria o mesmo nome do clube de futebol e da rua onde moravam os integrantes; e também as mesmas cores do time. Os primeiros ensaios foram realizados na garagem da loja de autopeças Cia. Iansã, na Rua São Clemente. No mesmo ano, o Bloco Carnavalesco São Clemente, de cores azul e branco, desfilou pela primeira vez. O primeiro samba do grêmio foi composto por Nelson Escurinho.
Meses mais tarde, ao assistir um jogo amistoso entre Fluminense (seu time de coração) e Penãrol, Ivo Gomes ficou impressionado com a combinação de cores do time uruguaio, preto e amarelo, e sugeriu aos integrantes do bloco carnavalesco trocar as cores da agremiação. A sugestão foi aceita, e, no ano seguinte, o Bloco São Clemente desfilou com as cores preto e amarelo, sendo a primeira agremiação a adotar o preto como cor oficial. Em 1956, Ivo se casou com Marina Almeida. O casal teve quatro filhos que, anos mais tarde, comandariam a escola de samba São Clemente. No início da década de 1960, o Bloco São Clemente havia crescido, chegando a fazer três desfiles durante o carnaval. No domingo, desfilava na Rua Arnaldo Quintela (em Botafogo); segunda-feira na Rua Lopes Quintas (no Jardim Botânico); e na terça-feira de carnaval, desfilava na Rua São Clemente. Também recebia convites para apresentações em festas e bailes de carnaval.
Fundação Em 1961, durante o baile de carnaval da Associação das Escolas de Samba do Brasil (mais tarde, AESCRJ), dois representantes da São Clemente, Paulo Negão e João Marinho, receberam do compositor Carlos Correa Lopes, a sugestão de transformar o Bloco em escola de samba. A ideia foi aceita, mas, para que a transição fosse aprovada, o diretor da Associação, Eurico Moreira, determinou que fosse realizado um desfile de avaliação. Os representantes da São Clemente convocaram uma reunião com todos os blocos carnavalescos de Botafogo, com o intuito de criar uma escola de samba que agregasse todas as agremiações do bairro. Porém, a ideia foi recusada por todos os grupos. Para confeccionar a apresentação, foi feito um mutirão com os próprios integrantes do bloco.
O desfile de avaliação foi realizado no Clube de Regatas do Flamengo, na Gávea. O júri, formado por Austeclínio da Silva, Eurico Moreira, Joaquim Teotônio, João Paiva dos Santos, José Calazans, José Ferreira, Procópio Caetano, Servan Heitor de Carvalho e Walter Januário, aprovou por unanimidade o desfile. No mesmo dia, em 25 de outubro de 1961, foi fundada a escola de samba São Clemente.
Participaram da fundação da escola: Adalberto de Almeida, Aílton da Conceição (Aílton Fala Grosso), Benildo Mendes Vieira de Carvalho, Carlos Correa Lopes (Carlinhos Pato Roco), Carmindo Moacir (Moacir do Chocalho), Conceição Farias, China da Caixa de Guerra, Daniel Teixeira, Dona Zélia, Elpídio dos Santos, Henrique Torquatro (Dunga), Hugo da Rocha Gomes, Ivan da Silva Vaz (Guiga), Ivo da Rocha Gomes, João Marinho, Jorge Andrade, Marina da Conceição Gomes, Nelson do Piston, Paulo Negão, Paulo Ney Xavier (Paulo Negão), Rodolfo Pinto de Oliveira, Romualdo (Mundinho), Sebastião Costa, Waldomiro (Miro da Neném) e Zélia Baptista.
Década de 1960 Sua estreia nos desfiles oficiais das escolas de samba ocorreu em 1962, na Avenida Rio Branco, pelo terceiro grupo. O enredo da escola exaltou as riquezas do Brasil: geografia, vegetação, pedras preciosas, ferro, borracha, café, indústria e o petróleo.
No ano seguinte, 1963, a escola iniciou uma trilogia sobre a cidade do Rio de Janeiro. O primeiro enredo exaltou o Rio Antigo, dos tempos dos lampiões a gás, carruagens, tostão e vintém, destacando o Morro do Castelo e o Mosteiro de São Bento. A escola ficou muito próxima do acesso ao segundo grupo, garantido o terceiro lugar
Em 1964, a São Clemente conquistou seu primeiro título no carnaval carioca. O enredo retratou o período de 45 anos, iniciado em 1763, ano em que a sede do Vice-Reino do Brasil foi transferida de Salvador, na Bahia, para a cidade do Rio de Janeiro. Esse período durou até a chegada da família real para o Brasil em 1808. O enredo era baseado no livro O Rio de Janeiro no Tempo dos Vice-Reis, do jornalista e poeta simbolista Luís Edmundo. Na época, o governo patrocinava incontáveis festas populares (festa do Divino, cavalhadas, congadas, serração da velha), uma versão brasileira da política do pão e circo romana.
Em 1965, já no segundo grupo, a São Clemente terminou sua trilogia sobre Rio, abordando os quatro séculos de glórias da cidade, através de suas relíquias e memórias, como os bondes, as obras do Mestre Valentim e os carnavais do Zé Pereira.
No carnaval de 1966, a escola conquistou mais um título, com o enredo "Apoteose ao Folclore Brasileiro". O enredo partiu da formação brasileira originada das três raças. Do branco, a herança foi nas danças e na indumentária. Do índio, as lendas e contos. Dos negros africanos, a ampliação e edificação da música, por meio de instrumentos, que mais tarde originaria o samba, além de crendices e superstições que somadas às dos índios e brancos colocam o folclore brasileiro como um dos mais pujantes do mundo. Depois do abre-alas, um painel alegórico aos temas selecionados, e da comissão de frente, formada pela diretoria da escola, cada ala se encarregou de mostrar as regiões brasileiras. O primeiro carro, em homenagem à Região Norte, representou a Lenda da Boiúna (Cobra Grande). Nela, os caboclos da Amazônia acreditavam que uma cobra gigantesca tinha poderes mágicos e recusaram matá-la para evitarem sua própria ruína. O segundo carro foi uma homenagem ao Nordeste, com a representação de Iemanjá. Para representar o terceiro carro, da Região Centro-Oeste, foram trazidas diversas figuras como a do saci pererê, curupira e caipora. O último carro, da Região Sul, trouxe o Negrinho do Pastoreio. As lendas foram acrescidas de outras manifestações regionais, como o maracatu, reisado, boi bumbá, pastoril, Folia de Reis e Pau de Fita, dando maior amplitude ao sentido folclórico de cada região.