Uma cana-de-açúcar geneticamente modificada é uma cana que passou por alterações em seu material genético por meio da engenharia genética, conferindo características desejáveis, como resistência a insetos e tolerância à seca e herbicidas, podendo resultar em uma cana-de-açúcar transgênica. O Brasil se tornou o primeiro país a aprovar para comercialização o cultivo de cana-de-açúcar geneticamente modificada em 2017, a cana recebeu genes que conferem a habilidade de resistir a broca-da-cana. Na safra 2022/23, a área cultivada com cana transgênica no Brasil quase dobrou, alcançando 70 mil hectares. Ainda assim, esse número corresponde a uma fração pequena do total de canaviais do país, que ocupam aproximadamente 8,3 milhões de hectares. Essa tecnologia tem beneficiado os agricultores, proporcionando maior lucratividade, rendimento e menor uso de pesticidas.
Exemplos de cana-de-açúcar transgênica
Cana Bt O Brasil foi o primeiro país a aprovar, em 2017, a comercialização de uma cana-de-açúcar geneticamente modificada, desenvolvida pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), registrada como CTC20Bt (CTB-141175/01). Essa variedade recebeu o gene cry1Ab, responsável por produzir a toxina da bactéria Bacillus thuringiensis — já utilizada em outras culturas geneticamente modificadas, como soja e milho —, conferindo resistência a insetos, em especial à broca-da-cana. Outras variedades de cana transgênica foram desenvolvidas, embora todas essas variedades Bt tenham a característica de resistência à broca-da-cana, as diferenças na produtividade, ciclo de colheita e adaptação a tipos de solo específicos permitem que o produtor escolha a melhor variedade para sua fazenda.
Cana BtRR A cana BtRR é uma variedade de cana-de-açúcar que combina duas características geneticamente modificadas: resistência à broca-da-cana e tolerância ao herbicida glifosato. A tecnologia foi desenvolvida em parceria entre a Embrapa e a startup PangeiaBiotech. A cana expressa uma versão da enzima 5-enolpiruvilshiquimato-3-fosfato sintase (EPSPS), associada a síntese dos aminoácidos essenciais fenilalanina, tirosina e triptofano, da cepa CP4 da bactéria Agrobacterium sp. que não é inibida pelo glifosato, combinado a um gene que que produz duas proteínas inseticidas Cry diferentes da bactéria Bacillus thuringiensis. A variedade ainda não recebeu aprovação para cultivo comercial da CTNBio, embora tenha autorização para testes de campo.
Cana NXI A Indonésia aprovou uma cana-de-açúcar geneticamente modificada, conhecida como NXI-4T, para alimentação e cultivo, desenvolvida para resistência à seca. Esta cana-de-açúcar foi desenvolvida pela PT Riset Perkebunan Nusantara (Pesquisa de Plantação Nusantara) que coopera com a Universidade Jember. A planta foi modificada usando Agrobacterium tumefaciens e o plasmídeo pMHL2113. Agrobacterium transferiu o gene betA da bactéria Rhizobium meliloti, associado a produção de betaína, uma substância que ajuda as plantas a se protegerem do estresse hídrico.
Cana CABB O Paquistão aprovou, em junho de 2024, duas variedades de cana-de-açúcar geneticamente modificada para plantio comercial, uma resistente a insetos (CABB-IRS) e outra tolerante a herbicidas (CABB-HTS). Essas variedades foram desenvolvidas pelo professor Muhammad Sarwar Khan, reitor da Universidade de Agricultura de Faisalabad, e sua equipe do Centro de Bioquímica Agrícola e Biotecnologia. Trata-se da primeira cultura transgênica utilizada para alimentação autorizada para cultivo em larga escala no país.
Produtos derivados O açúcar, produzido a partir da cana-de-açúcar, é obtido por um processo de refino, resultando quase exclusivamente em sacarose. As poucas impurezas que permanecem após o processamento são mínimas, e tanto o DNA quanto as proteínas não são detectados pelas técnicas disponíveis, ou aparecem em quantidades insignificantes. Por esse motivo, as agências regulatórias ao redor do mundo tratam o açúcar como uma substância pura, sendo o açúcar extraído de cana transgênica considerado absolutamente idêntico ao produzido a partir de variedades convencionais. Vale destacar que, devido ao alto nível de purificação, alterações em apenas alguns genes, como ocorre em variedades geneticamente modificadas, não resultam em um açúcar com qualidade diferente daquele obtido das plantas tradicionais. Na interpretação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio):"A descrição do produto 'açúcar' contido na consulta encaminhada, permite sua qualificação como 'substância pura quimicamente definida', conforme estabelecido no parágrafo segundo do artigo terceiro da Lei 11.105/2005, pois se comprova a ausência do ADN recombinante e do organismo viável no produto;
Como consequência dessa qualificação, conclui-se que este produto 'açúcar', não se enquadra no escopo da Lei de Biossegurança, estabelecido em seu artigo primeiro, e não é um organismo geneticamente modificado e nem um derivado deste, conforme estabelecido no artigo terceiro.
Na 210ª reunião ordinária, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança concluiu, por unanimidade, que o produto 'açúcar' produzido a partir de cana de açúcar geneticamente modificada é uma 'substância pura, quimicamente definida', como estabelecido no parágrafo segundo do artigo terceiro da Lei de Biossegurança."Por consequência, o açúcar derivado dessas culturas transgênicas não é considerado um alimento geneticamente modificado nem contendo OGMs, de modo que sua rotulagem não é necessária. Em geral, existe um consenso científicoMas também veja:
Domingo, José L.; Giné Bordonaba, Jordi (1 de maio de 2011). «A literature review on the safety assessment of genetically modified plants». Environment International (4): 734–742. ISSN 0160-4120. doi:10.1016/j.envint.2011.01.003. Consultado em 21 de agosto de 2025 "Apesar disso, o número de estudos especificamente focados na avaliação de segurança de plantas GM ainda é limitado. No entanto, é importante observar que, pela primeira vez, foi observado um certo equilíbrio no número de grupos de pesquisa que sugerem, com base em seus estudos, que diversas variedades de produtos GM (principalmente milho e soja) são tão seguras e nutritivas quanto as respectivas plantas convencionais não-GM, e aqueles que ainda levantam sérias preocupações. Além disso, vale mencionar que a maioria dos estudos que demonstram que os alimentos GM são tão nutritivos e seguros quanto aqueles obtidos por melhoramento convencional foram realizados por empresas de biotecnologia ou associadas, que também são responsáveis pela comercialização dessas plantas GM. De qualquer forma, isso representa um avanço notável em comparação com a falta de estudos publicados nos últimos anos em periódicos científicos por essas empresas."
Krimsky, Sheldon (1 de novembro de 2015). «An Illusory Consensus behind GMO Health Assessment». Science, Technology, & Human Values (em inglês) (6): 883–914. ISSN 0162-2439. doi:10.1177/0162243915598381. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Comecei este artigo com depoimentos de cientistas respeitados de que não há literalmente nenhuma controvérsia científica sobre os efeitos dos OGMs na saúde. Minha investigação na literatura científica conta outra história."
Hilbeck, Angelika; Binimelis, Rosa; Defarge, Nicolas; Steinbrecher, Ricarda; Székács, András; Wickson, Fern; Antoniou, Michael; Bereano, Philip L; Clark, Ethel Ann (dezembro de 2015). «No scientific consensus on GMO safety». Environmental Sciences Europe (em inglês) (1). ISSN 2190-4707. doi:10.1186/s12302-014-0034-1. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Na declaração conjunta a seguir, o consenso alegado é demonstrado como uma construção artificial que tem sido falsamente perpetuada por diversos fóruns. Independentemente das evidências contraditórias na literatura arbitrada, conforme documentado abaixo, a alegação de que agora existe um consenso sobre a segurança dos OGM continua a ser amplamente e frequentemente divulgada de forma acrítica."
E contraste:
Panchin, Alexander Y.; Tuzhikov, Alexander I. (17 de fevereiro de 2017). «Published GMO studies find no evidence of harm when corrected for multiple comparisons». Critical Reviews in Biotechnology (2): 213–217. ISSN 0738-8551. PMID 26767435. doi:10.3109/07388551.2015.1130684. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Aqui, demonstramos que diversos artigos, alguns dos quais influenciaram forte e negativamente a opinião pública sobre os cultivos transgênicos e até mesmo provocaram ações políticas, como o embargo aos transgênicos, compartilham falhas comuns na avaliação estatística dos dados. Considerando essas falhas, concluímos que os dados apresentados nesses artigos não fornecem nenhuma evidência substancial de danos causados pelos transgênicos.Os artigos apresentados, sugerindo possíveis danos causados pelos transgênicos, receberam grande atenção pública. No entanto, apesar de suas alegações, eles, na verdade, enfraquecem as evidências dos danos e a falta de equivalência substancial dos transgênicos estudados. Ressaltamos que, com mais de 1.783 artigos publicados sobre transgênicos nos últimos 10 anos, espera-se que alguns deles tenham relatado diferenças indesejadas entre transgênicos e cultivos convencionais, mesmo que tais diferenças não existam na realidade."
Yang, Y. Tony; Chen, Brian (abril de 2016). «Governing GMOs in the USA: science, law and public health». Journal of the Science of Food and Agriculture (em inglês) (6): 1851–1855. ISSN 0022-5142. doi:10.1002/jsfa.7523. Consultado em 22 de agosto de 2025 "Portanto, não é surpreendente que os esforços para exigir rotulagem e proibir OGMs tenham sido uma questão política crescente nos EUA (citando Domingo e Bordonaba, 2011). De modo geral, um amplo consenso científico sustenta que os alimentos transgênicos atualmente comercializados não apresentam riscos maiores do que os alimentos convencionais... As principais associações científicas e médicas nacionais e internacionais declararam que nenhum efeito adverso à saúde humana relacionado a alimentos transgênicos foi relatado ou comprovado na literatura revisada por pares até o momento.Apesar de várias preocupações, hoje, a Associação Americana para o Avanço da Ciência, a Organização Mundial da Saúde e muitas organizações científicas internacionais independentes concordam que os OGMs são tão seguros quanto outros alimentos. Comparada às técnicas convencionais de melhoramento genético, a engenharia genética é muito mais precisa e, na maioria dos casos, menos propensa a gerar um resultado inesperado." de que os alimentos atualmente disponíveis derivados de culturas geneticamente modificadas não representam um risco maior para a saúde humana do que os alimentos convencionais, mas que cada alimento geneticamente modificado precisa ser testado caso a caso antes da introdução.Algumas organizações médicas, incluindo a , defendem maior cautela com base no princípio da precaução:
"Em nossa visão, o potencial de que alimentos transgênicos causem efeitos nocivos à saúde é muito pequeno, e muitas das preocupações expressas se aplicam com igual força aos alimentos obtidos por meios convencionais. No entanto, preocupações com segurança não podem, até o momento, ser completamente descartadas com base nas informações atualmente disponíveis.
Ao buscar otimizar o equilíbrio entre benefícios e riscos, é prudente adotar uma postura cautelosa e, acima de tudo, aprender com o conhecimento e a experiência acumulados. Qualquer nova tecnologia, como a modificação genética, deve ser examinada quanto a possíveis benefícios e riscos para a saúde humana e o meio ambiente. Como ocorre com todos os alimentos novos, as avaliações de segurança relacionadas a alimentos transgênicos devem ser feitas caso a caso.