Cide Hamete Benengeli é um personagem chave do romance "Dom Quixote", apresentado como suposto autor original da história. Cervantes, o verdadeiro autor, idealizou Benengeli, fingindo ser apenas o "padrasto" da obra, que teria encontrado e publicado em versão final.
Apresentação do personagem Cervantes declara, no prólogo de "Dom Quixote", que não é o "pai" da obra, mas seu "padrasto". Esta afirmação pode fazer com que os leitores se perguntem quem, então, seria o autor da história.
A resposta aparece no capítulo IX, quando Cide Hamete Benengeli é introduzido na obra como um historiador mourisco, supostamente o autor original do calhamaço manuscrito descoberto em Alcaná de Toledo, intitulado "História de Dom Quixote de la Mancha", que narra as aventuras de Dom Quixote.
Origem do nome A escolha do nome de Cide Hamete não foi mero capricho de Cervantes. Estes dois primeiros nomes seriam paronomásticos, ou seja caracterizados por som semelhante, se aproximando de uma tradução românica de sigillum Hermetis, ou selo de Hermes. Tal como o selo hermético é um componente importante da grande obra alquímica, Benengeli, por sua função, atua como selo de Hermes no romance, selando a narrativa e impedindo a entrada de "realidade" no vaso alquímico da história, que contém o "doente" Dom Quixote.
Traduzido literalmente, Cide Hamete pode ser interpretado como "um da tribo da abóbora", alusão a uma tradição literária que simboliza as cabeças e as mentiras contadas pelos poetas. Assim, Benengeli pode ser interpretado como o "senhor ou controlador, do domínio da imaginação".
Além disso, os próprios personagens da obra passam tempo tentando compreendê-lo:
Dom Quixote interpreta que "Cide", em arábico, quer dizer "senhor". O nome "Cide" (ou Cid) é comparado à forma castelhana de uma palavra árabe (sīdi, ou sīd), que pode ser traduzida como "Senhor" ou "Sir". Sancho Pança traduz o sobrenome Benengeli, inadvertidamente, como "Berenjena", palavra espanhola para beringela, justificando para isso que "os mouros são amigos de berenjenas".
Características miniaturadaimagem|Nesta ilustração de Ricardo Balaca, Cervantes discute o calhamaço manuscrito que foi encontrado. Cervantes — o "padrasto" do livro —, desconfia dos árabes por, naquela época, serem considerados "mentirosos". Assim, como narrador principal, vive criticando Benengeli, chamando-o de "falsário" e "enganador", ironicamente tudo o que um historiador não deveria ser. Tal desconfiança também se justifica pelo papel de Benengeli ser uma paródia da figura do "sábio" que registrava as façanhas dos cavaleiros nos romances de cavalaria. No entanto, por ser um "infiel" e oriundo de um povo de enganadores, falsários e sonhadores, a relação entre o que ele escreveu e a verdade pode estar comprometida.
Além de ser alvo de desconfiança por sua origem, Benengeli é criticado por seu jeito de escrever, que não é direto. O narrador o acusa de ter um estilo "exagerado, enfático e fantasioso", cheio de palavras difíceis e redundâncias. O narrador chega a zombar do historiador, chamando-o de "filósofo maometano", para depois provar que suas ideias não eram profundas, mas apenas "clichês". Em termos de função, Benengeli atua como uma das "múltiplas máscaras de Cervantes", o que, paradoxalmente, concede ao autor "liberdade para criar e controlar o que ele criou".
Tal desqualificação tem um objetivo: o narrador de "Dom Quixote" se coloca como um "censor". Ao mostrar que Benengeli é mentiroso e exagerado, o narrador principal se torna a voz sóbria, verdadeira e coerente, que diz ao leitor que "o que você está lendo não é a história mal contada do árabe, mas a versão corrigida e confiável por mim". Com isso, Benengeli, que começou como um artifício narrativo simples, torna-se o bode expiatório para que o narrador ganhe credibilidade com o leitor.
Em uma leitura mais profunda, Benengeli também assume um papel esotérico: seu nome, Cide Hamete, é comparado a sigillum Hermetis (o Selo de Hermes), o que o caracteriza como o selo hermético que protege, ou sela, a obra em curso. Por essa perspectiva, ele aprisiona Dom Quixote, a "prima materia 'doente'", dentro do "vaso alquímico" da narrativa, garantindo que nenhuma "incursão da realidade" entre no mundo da ficção, estendendo seu controle até que seja visto como "o senhor, ou controlador, do domínio da imaginação". Categoria:Personagens de literatura Categoria:Dom Quixote