O Discurso da Associação Internacional dos Trabalhadores a Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos é uma carta escrita por Karl Marx entre 22 e 29 de novembro de 1864, em nome da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), organização internacional de socialistas, comunistas, anarquistas e sindicalistas, endereçada ao então presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln, por meio do embaixador Charles Francis Adams.MARX, Karl. "A Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América". Marxists Internet Archive. Consultado em 08-12-2025.

Na carta, Marx e a Associação felicitam Lincoln por sua vitória em se reeleger na eleição presidencial de 1864 nos Estados Unidos e o parabeniza, assim como à União, por lutar contra a escravidão nos Estados Unidos durante a Guerra Civil Americana. O embaixador Adams transmitiu a resposta de Lincoln à carta, na qual Lincoln agradece brevemente à Associação por seu apoio à União. A resposta foi endereçada a Randal Cremer, um abolicionista e sindicalista, embora também tenha sido entregue ao próprio Marx e seus companheiros.NICHOLS, John. "Reading Karl Marx with Abraham Lincoln" (2011). International Socialist Review. Consultado em 08-12-2025.BLACKBURN, Robin. "Lincoln and Marx" (2012). Jacobin. Consultado em 08-12-2025.BLACKBURN, Robin. "Marx and Lincoln: An Unfinished Revolution" (PDF). Libcom.org. Consultado em 08-12-2025.MAGNESS, Phillip W. "Was Lincoln Really Into Marx?". American Institute for Economic Research. Consultado em 08-12-2025. A carta foi uma entre milhares de mensagens de congratulações recebidas por Lincoln do exterior.

A carta foi publicada primeiramente na Alemanha em 30 de dezembro de 1864 na socialista Der Sozialdemokrat, e em inglês no dia 7 de janeiro de 1865 na The Bee-Hive, jornal sindical britânico.MARX, Karl. "Address of the International Working Men's Association to Abraham Lincoln, President of the United States of America". Marxists Internet Archive. Consultado em 08-12-2025.

Contexto Pouco antes e durante a Guerra Civil Americana, Marx se interessou e começou a escrever sobre as lutas dos escravizados americanos e a questão da escravidão nos Estados Unidos no contexto da guerra.BROCKELL, Gillian. "You know who was into Karl Marx? No, not AOC. Abraham Lincoln". The Washington Post. Consultado em 08-12-2025. Marx apoiou a União na Guerra Civil, mas argumentou que a União só venceria se adotasse medidas abolicionistas mais revolucionárias. Apesar desse apoio, não há evidências de que seus comentários tenham influenciado a opinião britânica ou ajudado o esforço de guerra da União. Há também evidências de que Marx desgostava de Lincoln e da causa da União, a menos que atendessem ao objetivo marxista de fomentar uma revolução comunista: thumb|upright|Retrato de Karl Marx. "A maneira como o Norte está conduzindo a guerra é exatamente o que se esperaria de uma república burguesa, onde a impostura reinou suprema por tanto tempo. O Sul, uma oligarquia, é mais adequado ao propósito, especialmente uma oligarquia onde todo o trabalho produtivo recai sobre os negros e onde os 4 milhões de “white trash” são filibusteiros por vocação. Apesar disso, aposto minha vida que esses caras sairão pior, apesar de Stonewall Jackson. É, claro, possível que algum tipo de revolução ocorra antes no próprio Norte."

— Karl Marx, 10 de setembro de 1862MARX, Karl. "Marx-Engels Correspondence 1862". History is a Weapon. Consultado em 09-12-2025.

Embora Marx e Lincoln tivessem concepções diferentes sobre negócios e trabalho assalariado, ambos odiavam o que viam como exploração e consideravam o valor do trabalho mais importante que o valor do capital. O próprio Lincoln escreveu um ensaio em que considerava a separação entre trabalho e capital, que este último dependia do primeiro, mas que o primeiro não dependia do capital; no entanto, sua defesa pelo trabalho apoiava particularmente a doutrina do trabalho livre, e não a teoria do valor-trabalho defendida por Marx: thumb|upright|Abraham Lincoln em 1863. "O iniciante, prudente e sem um tostão no mundo, trabalha por salários por um tempo, economiza um excedente com o qual compra ferramentas ou terras para si mesmo; depois trabalha por conta própria por outro período e, por fim, contrata um novo iniciante para ajudá-lo."

— Abraham Lincoln

Em janeiro de 1860, Marx diz em correspondência a seu amigo e patrono Friedrich Engels que as duas coisas mais importantes acontecendo no mundo eram “por um lado o movimento dos escravos na América iniciado pela morte de John Brown, e por outro o movimento dos servos na Rússia”. Marx equiparava os proprietários de escravizados do sul dos EUA à aristocracia europeia e argumentava que o fim da escravidão “não destruiria o capitalismo, mas criaria condições muito mais favoráveis para organizar e elevar o trabalho, fosse branco ou negro”.

Durante meados do século XIX, Marx era amigo de Charles Anderson Dana, editor-chefe do jornal New-York Tribune, tendo o conhecido em Colônia, Alemanha, em 1848. Em 1852, Dana contratou Marx como correspondente britânico do jornal. O autor revolucionário escreveria cerca de 500 artigos para o Tribune na década seguinte, a maioria publicada sob seu nome. Entretanto, grande parte desses artigos eram breves resumos de notícias sobre eventos na Europa e apenas uma pequena minoria continha algo semelhante a análise econômica marxista. Marx permaneceu relativamente desconhecido nos Estados Unidos nessa época, com poucos jornais republicando seus textos, e com entrevistas raras. Houve quem suspeitasse que o nome “Karl Marx” fosse um pseudônimo usado para ampliar a produção de outros redatores.

Lincoln, por sua vez, como vários Republicanos da época, era um “leitor assíduo” do jornal Tribune, o que torna possível que ele tenha lido artigos de Marx. O presidente lia o jornal por sua cobertura da política americana, e a linha editorial do Tribune apoiava as doutrinas Republicanas e whigistas de abolicionismo, industrialização, protecionismo comercial. Durante a presidência de Lincoln, Marx incentivou-o, em artigos para o Tribune, a adotar uma postura mais dura contra a escravidão. Em 1863, Lincoln emitiu a histórica Proclamação de Emancipação, finalmente dando a Marx e aos abolicionistas o que desejavam.

Marx também escreveu vários artigos para jornais europeus e correspondências durante a Guerra Civil nos EUA. Esses textos explicavam o que estava em jogo na guerra e argumentavam contra a alegação de que a escravidão nada tinha a ver com o conflito. Marx defendia que a guerra também fora causada pelo medo das elites sulistas de perderem seu poder nas instituições federais dos EUA.

Conteúdo A carta começa por “parabenizar o povo americano” pela reeleição de Lincoln após sua vitória nas eleições de 1864, acrescentando que “Se a resistência ao Poder Escravista foi a palavra de ordem reservada de sua primeira eleição, o grito de guerra triunfante de sua reeleição é Morte à Escravidão.”

A carta condena “uma oligarquia de 300.000 proprietários de escravos” por macular os Estados Unidos e argumenta que a guerra contra a escravidão elevaria a classe trabalhadora do país da mesma forma que a Guerra de Independência elevou a classe média. A carta também afirma que a abolição da escravidão permitiria que os afro-americanos “atingissem a verdadeira liberdade do trabalho”.

A carta termina dizendo que Lincoln “lideraria seu país através da incomparável luta pelo resgate de uma raça acorrentada e pela reconstrução de um mundo social”.

Resposta A resposta de Lincoln começa agradecendo à Associação Internacional dos Trabalhadores por seu apoio e declarando que a derrota do Sul seria uma vitória para toda a humanidade.

A resposta afirma que os Estados Unidos se abstêm de “intervenção ilegal”, mas acrescenta que, como as nações existem para “promover o bem-estar e a felicidade da humanidade por meio de relações benevolentes e de exemplo”, isso motivou o conflito do país contra a escravidão.

Interpretações contemporâneas Nos EUA Em julho de 2019, Gillian Brockell, escrevendo para o The Washington Post, argumentou que a carta de Marx a Lincoln, entre outras evidências históricas, provava que “os dois homens eram amigáveis e influenciaram um ao outro”, que “Lincoln lia regularmente Karl Marx”, e que Lincoln “estava cercado de socialistas e buscava neles conselhos”.

Phillip W. Magness, escrevendo para o American Institute for Economic Research (AIER), argumentou que a interpretação de Brockell está errada, que ela “interpreta mal suas fontes e chega a conclusões equivocadas sobre a relação entre os dois contemporâneos históricos. Ao contrário do que ela afirma, não há evidências de que Lincoln tenha lido ou absorvido as teorias econômicas de Marx. Na verdade, é improvável que Lincoln sequer soubesse quem Karl Marx era, distinto das milhares de pessoas que lhe enviaram cartas de congratulação após sua reeleição.”

Em março de 2022, Boyd Cathey, escrevendo para o Abbeville Institute (uma organização simpática aos Confederados escravagistas), argumentou que os laços de Lincoln com Marx, incluindo a carta de Marx endereçada a Lincoln, “deveriam ser alarmantes para os conversadores dos EUA” e “para os verdadeiros crentes na Constituição dos Fundadores”.CATHEY, Boyd. "Abraham Lincoln and the Ghost of Karl Marx" (2002). Abbeville Institute. Consultado em 08-12-2025.

Ligações externas Carta na íntegra, traduzida por José Barata Moura no Marxists Internet Archive. Escritos de Marx e Engels sobre a Guerra Civil Americana (PDF) no Marxists Internet Archive. Cartas entre Karl Marx e Abraham Lincoln. LavraPalavra. "O livro que resgata a correspondência entre Marx e Lincoln". Nexo Jornal, 2022. A Carta em inglês.

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