miniaturadaimagem|Representação artística do projeto brasileiro de submarino nuclear, um dos principais pontos do PAEMB O Plano de Articulação e Equipamento da Marinha do Brasil (PAEMB, originalmente "PEAMB") definiu os projetos e metas de aquisição de material a ser iniciados no período de 2010 a 2030 e concluídos até 2047. Encaminhado pela Marinha do Brasil ao Ministério da Defesa em 2009, conforme a diretriz da Estratégia Nacional de Defesa (END), a intenção era uni-lo aos planos das outras duas forças para ter seu financiamento aprovado pelo Congresso Nacional, o que não chegou a ocorrer. As ambições do PAEMB estavam muito aquém do que permitia a crise econômica iniciada em 2014, mas vários projetos derivados do planejamento na época seguiram adiante, como o Programa de Desenvolvimento de Submarinos e as fragatas da classe Tamandaré.
Elaborado num período de rápido crescimento econômico e ambições de projeção internacional do Brasil, no qual os gastos militares estavam em alta na América Latina, o PAEMB descongelava ambições militares de longo prazo interrompidas pela escassez orçamentária do final do século XX. Com a END, o Brasil comprometia-se a compensar anos de estagnação tecnológica nas Forças Armadas. O documento prestigiava duas grandes linhas do pensamento naval, a diversificação de capacidades e a autonomia tecnológica. Para a Marinha, determinava a defesa das fronteiras fluviais na Amazônia e Pantanal e dos recursos da plataforma continental, onde grandes jazidas de petróleo e gás natural acabavam de ser descobertas no pré-sal.
As metas de equipamento consistiam em 282 navios e embarcações, 288 aeronaves, 248 veículos blindados e várias outras plataformas, praticamente dobrando a Marinha em tamanho. A Esquadra existente no Rio de Janeiro seria complementada por uma 2.ª Esquadra no Norte ou Nordeste. Um sistema de vigilância em rede cobriria o teatro de operações marítimo, o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz). Os meios principais seriam de cinquenta embarcações de superfície, incluindo dois porta-aviões, quatro navios multipropósito/anfíbios e trinta escoltas (fragatas e corvetas), e 21 submarinos (quinze convencionais e seis nucleares). A prioridade seria a negação do uso do mar pela Força de Submarinos, sem prejuízo a outras metas, como o "caráter expedicionário por excelência" do Corpo de Fuzileiros Navais.
Se realizado, o Brasil se tornaria uma potência naval regional. Mas mesmo na sua época já havia dúvidas sobre a viabilidade financeira: o custo era estimado em 84,4 bilhões de dólares, em valores de 2010. A ambição original do PAEMB (que seria revisado em 2013) foi deixada de lado. O efetivo foi expandido de sessenta para oitenta mil militares e a Marinha prosseguiu com alguns projetos, como os submarinos da classe Riachuelo, e compras de oportunidade de navios usados, mas as baixas de antigos navios foram mais numerosas do que os comissionamentos de novos nas primeiras décadas do século XXI.
Condicionantes A Marinha de 2009 miniaturadaimagem|Esquadra em formação: em primeiro plano, o porta-aviões São Paulo|esquerda A Marinha do Brasil tinha um efetivo de 67 mil militares em 2009, incluindo incluindo 3 200 conscritos. A Aviação Naval tinha um esquadrão de 23 aviões de ataque A-4 Skyhawk e oito esquadrões de helicópteros de modelos Sikorsky Sea King, Eurocopter Super Puma, Helibras Esquilo, Bell Jet Ranger e Westland Lynx. O Corpo de Fuzileiros Navais tinha um efetivo de 15 520 militares, com três batalhões de infantaria e unidades de apoio numa divisão anfíbia e oito grupamentos regionais. Além do preparo para a guerra naval, a instituição se ocupava de atividades como a segurança marítima, busca e salvamento, assistência hospitalar na Amazônia e logística do Programa Antártico Brasileiro.
A frota era uma mistura heterogênea de embarcações de diferentes origens, especialmente dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França e Alemanha, e as táticas e procedimentos eram também de inspiração ocidental. Uma minoria crescente, especialmente nos submarinos e pequenos combatentes de superfície, havia sido construída no Brasil, embora normalmente com projetos e componentes estrangeiros. Programas navais passados estabeleceram capacidades de projeto, pesquisa e construção, mas elas não eram conservadas totalmente por falta de continuidade. Nenhum dos programas foi cumprido integralmente e os pedidos não tinham economia de escala. Havia um projeto de longa data para a obtenção de um submarino nuclear, para o qual o Programa Nuclear da Marinha conseguiu a tecnologia de enriquecimento de urânio nos anos 1980 e desenvolvia o protótipo de um reator.
Segundo uma tese da Escola de Pós-Graduação Naval da Marinha dos Estados Unidos, publicada em 2005, a Marinha do Brasil era "uma das mais capazes na América Latina. O Brasil pode não ter grandes números de navios, mas os navios que escolheu adquirir são de maior qualidade [...] Nenhum outro país na América Latina tem os meios de operar um porta-aviões com toda a manutenção e responsabilidade que acompanham tal unidade". "O Brasil é claramente a potência naval dominante na América do Sul simplesmente pela existência do seu porta-aviões". O São Paulo, ex-Foch, havia sido adquirido da Marinha Francesa em 2000 para substituir o Minas Gerais. Os A-4 Skyhawk operavam do seu convés, tendo sido adquiridos após a retirada da antiga restrição às asas fixas na Marinha em 1998.
O São Paulo conferia prestígio, mas o navio foi pouco usado em serviço brasileiro, e as operações embarcadas com o A-4 Skyhawk foram interrompidas após uma série de falhas mecânicas em 2004. Mesmo que o navio e sua ala aérea estivessem plenamente operacionais, sua capacidade de defesa aérea e ataque antinavio seria muito restrita. A ala aérea carecia de aeronaves de reabastecimento em voo e alarme aéreo antecipado, o Skyhawk era armado unicamente de canhões, munições não guiadas e mísseis ar-ar de alcance visual e nenhum dos navios tinha mísseis superfície-ar de médio ou longo alcance. Seria suicídio um Skyhawk atacar uma defesa missilística multicamadas — que o Brasil não tinha.
miniaturadaimagem|NDD Ceará, NDCC Mattoso Maia e helicóptero Super Puma Também havia dois navios-tanque e cinco navios de transporte de grande porte: dois navios de desembarque de doca (NDDs) da classe Ceará (Thomaston), dois navios de desembarque de carros de combate (NDCCs) e o navio de transporte Ary Parreiras, prestes a ser substituído pelo NDCC Almirante Saboia. O porta-aviões e os navios anfíbios conferiam modesta capacidade de projeção de poder para intervir em crises fora do país.
As escoltas eram quatorze: seis fragatas da classe Niterói (Vosper Mk 10), incorporadas em 1976–1980 e modernizadas em 1996–2006, três fragatas da classe Greenhalgh (Tipo 22), construídas no início dos anos 1980 e transferidas ao Brasil em 1995–1997, quatro corvetas da classe Inhaúma, dos anos 1990, e a corveta Barroso, prestes a entrar em operação em 2009. As Niterói eram exceção entre os navios maiores por terem sido construídas em parte no Brasil. Os submarinos eram cinco, de projeto alemão e em maioria construídos no Brasil: os quatro da classe Tupi (Tipo 209) e uma versão modificada, o Tikuna. As embarcações de patrulha fluviais e costeiras eram 35, das classes Grajaú, Piratini, Pedro Teixeira e Roraima.
O comandante da Marinha, almirante Júlio Soares de Moura Neto, reconhecia "um estado crítico de obsolescência material e tecnológica". Em 2008, só dois dos 23 Skyhawks estavam em condições de voo. De cinco submarinos, só um estava em bom estado. Entre os 58 helicópteros existentes, 27 não voavam e 31 operavam com restrições. Desde 1999 a Marinha havia desativado 22 navios e reposto doze. Até 2010 havia previsão de desativar mais 17. As embarcações viviam atracadas por falta de recursos para as patrulhas,, Livro II, cap. 4. e a escassez de recursos significava esgotar os equipamentos com operações no limite da vida útil., Livro II, cap. 16. No ano 2000 a Marinha havia feito 1 810 dias de mar, contra uma média anual de 2 500 nos anos 1960., Livro II, cap. 12.
Lista de embarcações A Marinha somava 97 embarcações em serviço em 2009:
Condições domésticas miniaturadaimagem|Presidente Lula a bordo do São Paulo|esquerda Os gastos militares chegaram a 1,7% do Produto Interno Bruto brasileiro em 2009, tendo crescido desde 2005 após estacionar em 1,4% entre 2000 e 2004. Era a reversão de um período de negligência após o final da ditadura militar, no qual as Forças Armadas permaneceram as maiores do continente, mas estagnaram tecnologicamente. Dificuldades econômicas nos anos 1980 e 1990 interromperam a modernização iniciada nos anos 1970 com a aquisição da classe Niterói., The 'PAEMB' dream fleet. As lacunas no inventário foram preenchidas com as "compras de oportunidade" de materiais usados.
Nas relações civil-militares, as novidades eram documentos pelos quais o governo fixava uma agenda para o setor, a Política de Defesa Nacional (PDN) de 1996 e 2005 e a Estratégia Nacional de Defesa (END) de 2008, e a extinção dos ministérios do Exército, Marinha e Aeronáutica para formar o Ministério da Defesa. A nova pasta, à qual foram nomeados civis, buscava reduzir a influência dos militares no Executivo e integrar e racionalizar a estrutura de defesa. A Marinha resistiu à perda do seu ministério, mas na prática, o Estado-Maior da Armada não perdeu sua autonomia na formulação da estratégia naval. Atores políticos e acadêmicos não interferiram no pensamento da burocracia naval. Os principais projetos estratégicos, embora comprometidos naquele momento, seriam retomados assim que as condições melhorassem.
Na primeira década do novo milênio a economia brasileira foi uma das que mais rapidamente cresceu no mundo. A demanda pelas commodities brasileiras era alta e o país integrava o bloco de potências emergentes, o BRICS. Um setor econômico seria particularmente relevante à Marinha: o petróleo e gás natural. Em 2007 a Petrobras anunciou a descoberta de novas jazidas ao largo do litoral do Sudeste. A distâncias de até trezentos quilômetros do litoral, dois quilômetros na coluna d'água e mais uma profundidade no subsolo da plataforma continental, a camada pré-sal oferecia reservas suficientes para tornar o Brasil um exportador de petróleo. As perspectivas de progresso socioeconômico eram otimistas.
Entretanto, a defesa esteve fora das preocupações do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003–2010) até 2007. O setor econômico do governo preferia deixar a pauta de lado, pois retirar as Forças Armadas da obsolescência custaria dezenas de bilhões de dólares, mesmo que distribuídos ao longo de várias décadas. Ao final de 2007 foi anunciada uma expansão de 50% no orçamento de defesa, com aumentos de salários dos militares e investimentos em tecnologia militar moderna. Segundo o jornalista Roberto Lopes, foi ainda antes da descoberta do pré-sal que Lula foi convencido da utilidade da força militar: a causa seria o contato com líderes internacionais como o francês Jacques Chirac. O presidente tinha motivos internos para investir na boa vontade dos militares após atritos na crise aérea de 2006. Havia insatisfação com o Ministério da Defesa, que não conseguia efetivamente dirigir as Forças Armadas ou defender seus interesses dentro do governo, e pesquisas indicavam alta confiança da população nos militares.
Os almirantes desejavam que a Presidência da República e a área econômica do governo conectassem as descobertas no pré-sal à condição da Marinha. A partir de março de 2008, trouxeram à imprensa as deficiências materiais da sua instituição., Livro II, cap. 3. Em dezembro, após quinze meses em desenvolvimento, o governo publicou a Estratégia Nacional de Defesa, pela qual prometeu ambiciosos programas de modernização militar. Após um crescimento de 5,1% em 2008, a economia contraiu 1,3% em 2009, mas o Fundo Monetário Internacional projetava recuperação em 2010.
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