José Evaristo d'Almeida (ou José Evaristo de Almeida) (Séc XIX, Portugal — ?, Guiné-Bissau) foi um escritor, escrivão e deputado português do século XIX. Sua principal obra publicada foi o romance O Escravo (1856),ALMEIDA, José Evaristo d’. O Escravo . 2 ed. Colecção Para a História das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Linda-a-Velha: ALAC — África, Literatura, Arte e Cultura, 1989. que retrata contexto do arquipélago de Cabo Verde em meio à vigência do sistema colonial e escravocrata português. Hoje, esta obra é reconhecida na literatura cabo-verdiana, com elementos da formação da identidade cabo-verdiana.ANDRADE, Jorge Gomes. A Identidade Cultural cabo-verdiana no romance O Escravo, de José Evaristo d´Almeida. 2020. 96 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Língua Portuguesa, Língua Segunda / Língua Estrangeira, Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes - São Vicente, Universidade de Cabo Verde, Mindelo, 2020. Disponível em: . Acesso em: 9 ago. 2025.

Vida

Nascimento e morte As datas e localidades de nascimento e morte de José Evaristo d'Almeida são incertas. Segundo informações coletadas por Manuel Ferreira,FERREIRA, Manuel. Dados bibliográficos. In: O Escravo. 1856. 2 ed. Colecção Para a História das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Linda-a-Velha: ALAC — África, Literatura, Arte e Cultura, 1989. José Evaristo d'Almeida nasceu em Portugal no século XIX e faleceu na Guiné-Bissau no século XX. Ele morou em Cabo Verde durante muitos anos, onde deixou descendentes, como os poetas Silvestre Faria e Amiro Faria, a quem Manuel Ferreira colheu estas informações.

Contudo, parte dessas informações são questionadas por outros pesquisadores. Alberto LopesLOPES, A. F. Mendes. Uma leitura do romance O escravo, de José Evaristo D’Almeida. Dissertação (Mestrado), Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Porto, 2010. interpreta um outro texto de José Evaristo intitulado "Epístola a...",ALMEIDA, José Evaristo de. Epístola a… Lisboa : Imp. Nacional, 1852. - 8 p.; 19 cm. Acervo da Biblioteca Nacional Digital. Disponível em: https://bndigital.bnportugal.gov.pt/records/item/87285-epistola-a?offset=1 Acesso em: 19 fev. 2025. poema de caráter mais pessoal, como possíveis informações autobiográficas do escritor.

“Tres lustros só contava, e já da Patria

Os beneficos ar’s me não sorriam;

’Nas africanas plagas definhava

A mais bella porção de juventude;

Por constante doença atormentado,

Via, em ocio, decrescer os bellos dias” (ALMEIDA, 1852, p. 2)

A partir dessa estrofe, há a interpretação de que José Evaristo d’Almeida chegou em Cabo Verde, ou, ao menos, em África, aos 15 anos. Mais à frente no poema, José Evaristo escreve:

“Reclamei de café pequena taça,

E, mal os labios meus tocaram n’elle,

Logo o reconheci, como oriundo

D’ilhas de Cabo Verde, onde eu passara

Uns doz’annos de bem custosa vida,” (ALMEIDA, 1852, p. 4-5)

Assim, a partir da hipótese de que Evaristo viveu doze anos em Cabo Verde, ele retornou a Portugal aos 27 anos, sendo então provável que ele havia nascido no máximo em 1825 e improvável que ele tenha falecido no século 20.

Cabo Verde Por mais que ainda não se saiba comprovar exatamente quanto tempo, é certo que José Evaristo d'Almeida viveu em Cabo Verde. Isso porque ele escreve em várias edições do Boletim Official do Governo-Geral de Cabo Verde. Este boletim iniciou suas publicações em 1842, sendo um marco do início da imprensa cabo-verdiana e da imprensa nos países africanos de língua portuguesa. Depois de poucas publicações em vida entre as décadas de 1840-1850, José Evaristo foi esquecido pela crítica, literatura e história portuguesas. O autor foi reencontrado por acaso por Manuel Ferreira, em 1965, em viagem para Cabo Verde, onde encontra Amiro Faria e Silvestre Faria. Ambos se reconhecem como descendentes do autor, informando que ele morou em Cabo Verde, e disponibilizam a Manuel Ferreira um exemplar de O Escravo, o único exemplar conhecido à época. Amiro e Silvestre Faria também informam Ferreira de que José Evaristo d'Almeida deixou descendentes em Cabo Verde, apesar de que, naquele período, Amiro Faria morava em Moçambique, e Silvestre Faria, nos Estados Unidos da América.

Um segundo elemento é a publicação do poema "Epístola a..." de José Evaristo d'Almeida, pela Imprensa Nacional Portuguesa, em Lisboa em 1852. Nesse poema de caráter pessoal, ele traz informações sobre seus "doz’annos de bem custosa vida" em Cabo Verde. Por esse texto ter sido publicado em Lisboa em 1852, isso indica que ele já havia retornado de Cabo Verde para Portugal.

Em terceiro lugar, João Nobre de Oliveira OLIVEIRA, João Nobre. A Imprensa Cabo-verdiana: 1820-1975. Macau, 1998. encontra informações e textos de José Evaristo no Boletim Official do Governo Geral de Cabo Verde. O pesquisador escreve: “Evaristo d’Almeida foi escrivão e funcionário da Fazenda, colocado em Cabo Verde pelo menos desde 1 de Julho de 1884, data da sua nomeação como Oficial de Contadoria Geral de Cabo Verde. Além disso, foi redactor do Boletim Oficial do Governo-geral de Cabo Verde, tendo também sido eleito, em 1884, deputado pelo arquipélago às cortes de Lisboa.” (OLIVEIRA apud LOPES, 2010, p. 32) Por mais que as informações biográficas sejam condizentes com o conteúdo do Boletim Official, a data que Oliveira coloca é bastante questionável. Muito provavelmente a nomeação de José Evaristo ocorreu em 1842, pois já no Boletim nº 2 de 27 de agosto de 1842 Evaristo publica um Edital apresentando-se como 1º Escriturário servindo de Escrivão Deputado.

Além disso, a pesquisadora Isanilda SoaresSOARES, Isanilda Conceição Ferreira Silva. Racial Stereotypes in Fictions of Slavery: Uncle Tom´s Cabin by Harriet Beecher Stowe and O Escravo by José Evaristo D’ Almeida. Tese (Doutorado), Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2013. escreve que José Evaristo d'Almeida foi eleito deputado de Cabo Verde em 1849, data que faz mais sentido considerando que em 1852 Evaristo já se encontrava em Portugal atuando como deputado, segundo o Diario da Camara de Deputados de Portugal.TOPA, Francisco. Para aquém de O Escravo: Os poemas de José Evaristo Almeida. REVELL - Revista de Estudos Literários da UEMS, ANO 4, v. 2, Número 7, Dezembro de 2013. Disponível em: https://periodicosonline.uems.br/index.php/REV/article/view/380/350 Acesso em: 16 mar. 2025.

Ver também FERREIRA, Manuel. Cabo Verde. In: Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa — I. Amadora, Portugal: Biblioteca Breve; Instituto de Cultura Portuguesa, 1977.

FERREIRA, Manuel. Notícia: O aparecimento do único exemplar conhecido de O Escravo, romance caboverdiano de José Evaristo D’Almeida. In: O Escravo. 1856. 2 ed. Colecção Para a História das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Linda-a-Velha: ALAC — África, Literatura, Arte e Cultura, 1989.

OLIVEIRA, João Nobre. A Imprensa Cabo-verdiana: 1820-1975. Revista e ampliada pelo autor. Praia: Ilhéu Editora, 2024.

Categoria:Escritores de Portugal do século XIX