Otto Dumovich (Rio de Janeiro, c. 1957) é um escultor, desenhista e artista plástico brasileiro, responsável por mais de 25 monumentos públicos em bronze espalhados por diversas cidades do país. Notabilizou-se pela criação de estátuas hiper-realistas de personalidades da cultura e da política brasileira, com ênfase no movimento e na verossimilhança fisionômica. Suas obras estão presentes no Palácio do Itamaraty (Brasília), na Academia Brasileira de Letras e em logradouros do Rio de Janeiro e Porto Alegre.
Biografia
Primeiros anos e formação Nascido no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, Otto Dumovich é filho de imigrantes. Desde a infância demonstrava interesse pela relação entre desenho e volume, chegando a esculpir rostos em seus lápis. Autodidata, o artista afirma não ter sofrido influência direta de outros escultores, tendo iniciado sua trajetória no desenho bidimensional antes de incorporar a terceira dimensão ao seu trabalho.
Carreira no cinema Antes de dedicar-se integralmente à estatuária, Dumovich construiu carreira como storyboard artist no cinema brasileiro. Participou de 12 longas-metragens e 9 curtas, produzindo milhares de desenhos para diretores renomados. Destacam-se os 3.250 storyboards realizados para Walter Salles Jr. em A Grande Arte (baseado em obra de Rubem Fonseca), desenvolvidos em três meses e meio, e os 650 desenhos para Héctor Babenco em Brincando nos Campos do Senhor. Trabalhou ainda no curta Mil e Uma, de Suzana de Moraes, filha de Vinicius de Moraes.
Carreira como escultor A transição para a escultura ocorreu por intermédio de sua paixão pela música, especialmente o choro e o jazz – gêneros que conheceu através do programa radiofônico Jam Session, de Jô Soares. O interesse estético pelos instrumentos de sopro, particularmente o saxofone, levou-o a conceber a série Tributo aos Metais: quatorze esculturas de 45 cm em bronze, expostas no Museu da República, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (dentro da programação do Free Jazz) e no Galpão Fábrica, em São Paulo.
Foi durante a exposição no Museu da República que Alfredinho Vianna, filho de Pixinguinha, visitou a mostra e encantou-se com uma peça, sugerindo a Dumovich a criação de uma homenagem ao pai na Travessa do Ouvidor, no Centro do Rio – local onde o compositor era assíduo frequentador. O patrocinador inicial contratara uma escultura de 1,30 m, mas o escultor, insatisfeito, arcou com os custos adicionais para entregar a obra em 1,80 m, versão que se encontra atualmente no local.
A partir de então, Dumovich passou a realizar encomendas públicas e privadas, empregando predominantemente a técnica da fundição em bronze. Suas obras caracterizam-se pelo realismo fisionômico e pela captação de gestos característicos dos homenageados, conferindo sensação de movimento às peças.
Principais obras
Rio de Janeiro A cidade do Rio de Janeiro concentra o maior número de obras do escultor. Entre as mais significativas estão:
Braguinha – Inaugurada em 19 de fevereiro de 2004, na esquina da Avenida Princesa Isabel com a Rua Barata Ribeiro, em Copacabana. A estátua em bronze tem 2,20 m de altura e pesa 450 kg. O compositor, então com 94 anos, compareceu à cerimônia e, apesar do estágio avançado de doença neurodegenerativa, cantou integralmente as letras de suas canções. Segundo relato do escultor, durante o processo de modelagem a filha do homenageado, Maria Cecília, informara que Braguinha frequentemente perguntava “Cadê eu?” ao passar pelo local onde a estátua seria instalada. Cartola – Escultura inaugurada em 2006, localizada na Rua Visconde de Inhaúma, na Mangueira. Retrata o compositor com óculos escuros e violão, sobre pedestal de concreto. Dumovich doou uma maquete em bronze à viúva Dona Zica, entregue pessoalmente em frente ao jardim que inspirou a canção As rosas não falam. O artista também doou ao Museu da Imagem e do Som (MIS) exemplares em bronze de Pixinguinha e Cartola. Pixinguinha – Instalada na Travessa do Ouvidor, Centro. Mede 1,80 m de altura e representa o compositor com seu instrumento. A obra foi viabilizada após iniciativa do filho do homenageado. Dorival Caymmi – Localizada em Copacabana. Durante o processo de criação, Dumovich encontrou o músico no MIS e ambos travaram diálogo sobre pintura, após Caymmi notar as mãos do escultor manchadas de tinta. Manuel Bandeira – Inaugurada em 2007, em frente à sede da Academia Brasileira de Letras, no Centro. Retrata o poeta sentado à escrivaninha, em atitude de recolhimento. Joaquim Nabuco – Inaugurada em 17 de março de 2011, no Largo Manuel Bandeira, também junto à ABL. A escultura tem 1,90 m de altura e pesa 220 kg. Encomendada pela Academia Brasileira de Letras em parceria com a Prefeitura do Rio, como parte das comemorações do centenário de falecimento do abolicionista pernambucano. Dumovich concebeu a obra em estilo clássico, com “toque de barroco na torção de tronco”, retratando Nabuco em passo firme, apontando para o solo da instituição que ajudou a fundar. Ismael Silva – Localizado no bairro do Estácio, representa o fundador da primeira escola de samba com seu violão. Sérgio Arouca – Instalado em frente ao castelo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), homenageia o sanitarista. Dom Helder Câmara – Localizado na Avenida Dom Helder Câmara, em Pilares, zona norte do Rio. Estudante de Arte – Escultura no Parque Lage, encomendada pela Prefeitura do Rio por intermédio de Vera Dias, chefe da Divisão de Monumentos e Chafarizes. Retrata um jovem desenhando em prancheta Tom Jobim e seu filho no ato de plantio de uma palmeira imperial. Na inauguração, Lontra Jobim, mãe do maestro, emocionou-se ao reconhecer os traços do filho falecido em baixo-relevo.
Brasília
San Tiago Dantas – Monumento em bronze localizado no Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores.
Porto Alegre
Leonel Brizola – Inaugurada em 22 de janeiro de 2014, instalada entre a Catedral Metropolitana e o Palácio Piratini, na Rua Dom Sebastião. A escultura tem 2 m de altura e demandou quatro meses de trabalho. Dumovich pesquisou dezenas de fotografias do político, mas realizou “interpretação pessoal e criativa”, sintetizando gestos característicos – o dedo em riste, os braços em movimento, as sobrancelhas espessas e o sorriso – sem copiar qualquer registro específico. A obra tornou-se ponto de peregrinação de admiradores e integra o roteiro do Memorial da Legalidade. João Goulart – Escultura encomendada pela Fundação Caminho da Soberania, presidida pelo ex-deputado Vieira da Cunha, com custo de R$ 100 mil, financiado por doações. Prevista para instalação em 2024, em alusão aos 60 anos do golpe militar de 1964, será posicionada em triângulo delimitado pelas avenidas Edvaldo Pereira Paiva e Aureliano de Figueiredo Pinto, próximo à Orla do Guaíba. A obra integra projeto de preservação da memória de líderes trabalhistas gaúchos.
Estilo e processo criativo A produção escultórica de Otto Dumovich é marcada pelo diálogo entre o desenho e a modelagem tridimensional. O artista declara não seguir tradição escultórica específica, mas revela afinidade com a estética barroca, sobretudo no que concerne à “torção” e à sensação de movimento: “Meu grande barato é trabalhar o movimento. É como se pegasse o bronze, algo estático e duro, e desse liberdade e ação”.
O processo de criação envolve extensa pesquisa iconográfica, mas Dumovich ressalta que as fotografias servem apenas como referência, nunca como modelo a ser copiado: “Não copio fotos porque isso não seria arte. Faço uma interpretação pessoal e criativa, pois as estátuas são resultado de como vejo o personagem. Entretanto, no caso de um monumento público, é preciso ter verossimilhança. Todo mundo tem que ver [o homenageado] ali”.
Suas esculturas combinam acabamento clássico com tratamento expressivo das superfícies, buscando captar a “aura artística” da pessoa retratada. O crítico e público frequentemente destacam o realismo das feições e a impressão de que as figuras estão em movimento ou prestes a iniciar um gesto.
Legado e reconhecimento Otto Dumovich é considerado um dos principais nomes da estatuária pública brasileira contemporânea. Suas obras figuram em espaços de alta visibilidade e integram o patrimônio afetivo de cariocas e gaúchos. A imprensa destaca a capacidade do escultor de “imortalizar em bronze” personagens centrais da história do país, conferindo-lhes popularidade e imediato reconhecimento popular.
Além das encomendas públicas, Dumovich mantém produção de esculturas de pequeno formato, frequentemente comercializadas em galerias e casas de leilão, com temas recorrentes da música (instrumentistas) e do jazz internacional, como o trompetista Chet Baker.
O artista reside em Maricá, no litoral fluminense, e segue em atividade.
Referências
«Personagens brasileiros imortalizados em bronze pelas mãos de Otto Dumovich». O Globo. 28 de agosto de 2014 «Realismo da estátua de Brizola em Porto Alegre chama atenção dos visitantes». GZH. 5 de fevereiro de 2014 «Otto Dumovich – Trompetista Chet Baker». ToppoArtes «Estátua de Jango será instalada na Capital em homenagem a ex-presidente deposto pelo golpe de 1964». GZH. 12 de fevereiro de 2024 «Cartola – Otto Dumovich». Google Arts & Culture «Otto Dumovich – Saxofonista». Tinoco Escritório de Arte «ABL e Prefeitura do Rio inauguram estátua de bronze de Joaquim Nabuco». Academia Brasileira de Letras. 17 de março de 2011 «Estátua em homenagem a Manuel Bandeira». TYBA ONLINE. Junho de 2009 «Rio homenageia Braguinha com estátua em Copacabana». Agência Brasil/EBC. 18 de fevereiro de 2004 «Joaquim Nabuco – Otto Dumovich». Google Arts & Culture