O EE-T1 Osório é um carro de combate médio desenvolvido nos anos 80 pela empresa brasileira Engesa. Seria o primeiro main battle tank (MBT) legítimo brasileiro, competitivo no mercado internacional, ao contrário do Tamoyo da Bernardini, adequado às condições operacionais e financeiras do Exército Brasileiro. Já foi chamado de "mais sofisticado produto da indústria bélica nacional". Sob a denominação de "Al Fahd" participou de uma concorrência para o Exército Saudita, mas a opção pelo M1 Abrams inviabilizou sua produção. Não teve comprador e a Engesa faliu em 1993.
História Decisões iniciais No início dos anos anos 80 os principais MBTs eram o M1 Abrams, o Leopard 2, o Challenger 1, o AMX-40 e o T-80. A Arábia Saudita queria substituir seus 800 M60 e AMX-30. Os Emirados Árabes Unidos precisavam de 300 unidades. Também havia demanda no Omã, Grécia e Turquia. O Exército Brasileiro precisava aposentar seus 350 M41 Walker Bulldog, mas, talvez por ter prioridade defensiva e pouco orçamento para a manutenção, o que ambicionava no lugar não era um main battle tank. Seu peso seria no máximo 36 toneladas, sua largura no máximo 3,2 metros para caber nas ferrovias brasileiras e sua produção compatível com equipamentos existentes e sem importações. O projeto que cumpriu essas exigências foi o MB-3 Tamoyo.O Osório — Uma lição importante. Defesa BR. Consultado em 20 de janeiro de 2021. Os custos do desenvolvimento dos carros de combate brasileiros seriam arcados pelos próprios desenvolvedores.
Entretanto a Engesa, até então produtora de blindados sobre rodas — os sucessos EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, para os quais ainda havia mercado — anunciou em 1982 sua entrada no mercado dos tanques. Seu projeto atendia à largura exigida mas, ao contrário das 36 toneladas do Tamoyo, tinha 42, pois era mais avançado, tendo no horizonte o mercado externo. O peso dos MBTs estrangeiros ia de 44,5 a 62 toneladas.Osório — Invenções brasileiras. Associação Nacional dos Inventores. Consultado em 21 de janeiro de 2021. A Arábia Saudita tentara comprar o Leopard 2, mas a Alemanha Ocidental não venderia para fora da OTAN; estava assim à procura de um fornecedor. O presidente da Engesa, José Luiz Whitaker Ribeiro, confiava no sucesso com a versatilidade da empresa e a presença em caixa de 30% do valor estimado.
Como a Engesa não tinha experiência com carros de combate e seu pessoal estava ocupado, procurou uma parceria internacional.Engesa EE-T1 Osório (27 de dezembro de 2015). Forças Terrestres. Consultado em 21 de janeiro de 2021. A Thyssen-Henschel alemã ofereceu um projeto chamado Leopard 3, mas a comitiva brasileira descobriu que não poderia concorrer com os MBTs: era um veículo de combate de infantaria relacionado ao TAM argentino, feito a partir do Marder. Procuraram a Porsche, mas o governo alemão vetou a parceria. A blindagem desenvolvida pela Armscor sul-africana era interessante, mas as dificuldades políticas causadas pelo apartheid impediram a parceria. Uma aliança foi enfim encontrada com a Vickers britânica, que fez a torre. Como José Luiz queria terminar em um ano e meio, terceirizar a torre era crucial. O restante do projeto coube aos engenheiros da Engesa.
Para os sauditas, ricos com o petróleo, seria feito o EE-T2 (batizado Al Fahd em homenagem ao monarca), com um canhão de 120 mm e optrônicos mais avançados. Já o Exército Brasileiro ficaria com o EE-T1, com canhão de 105 mm e custos compatíveis com os orçamentos brasileiros. Esta versão foi batizada "Osório" em homenagem ao patrono da cavalaria brasileira. "EE-T2" era usado dentro da empresa para a versão internacional mas não foi oficializado; o nome era ou "EE-T1 Osório" ou "Al Fahd".
Desenvolvimento Participação estrangeiraComponentePaísSuspensãoTransmissãoMotor dieselTorreCanhão 105 mmCanhão 120 mmControle de tiro/ArrefecimentoLagartas O projeto era brasileiro mas incorporando os melhores componentes do mercado, com alta tecnologia, para competir com os concorrentes mais modernos. A alta taxa de importação era comum nos armamentos brasileiros. Foi necessária uma "peregrinação" para chegar aos detentores das tecnologias e as retaliações sofridas — por exemplo, a G.L.S., subsidiária da Krauss-Maffei, convenceu outras empresas a não colaborar com o projeto do Osório — levaram a uma contínua procura por novos fornecedores. Com a importação não foram aproveitados os ganhos de escala de comprar da indústria automotiva nacional.
José Luiz convidou o professor Richard Marian Ogorkiewicz, autor de livros sobre blindados, e Christopher Foss, editor da Jane’s Armour and Artillery, para ouvir suas opiniões. Em seguida tentou contratar um especialista para desenvolver o tanque, mas ele foi perdido para uma contraproposta da Mercedes. O programa coube então ao pessoal da própria empresa, começando com a chefia de Paulo André del Negro. Após seis meses a um ano ele foi promovido a gerente de produção da fábrica de São José dos Campos e sucedido por Odilon Lobo de Andrade Neto. Os engenheiros eram jovens, com no máximo quatro anos de prática. O Exército colaborou, cedendo dois engenheiros do seu Centro Tecnológico (CTEx) para trabalhar na comunicação e manutenção.
Não houve planejamento sistemático das finanças. O montante final gasto foi de 50 a 150 ou 250 milhões de dólares. As dívidas da Engesa, especialmente com o setor público (BNDES e FINEP) chegavam a U$ 400 milhões em 1988, tanto pelo projeto do Osório quanto com a duplicação da força de trabalho e a criação de subsidiárias de pesquisa e desenvolvimento. Entre elas estava a Engepeq, que lidava com a moderna CAD/CAM usada no desenvolvimento do tanque.
Foram montados um mock-up em tamanho real e cinco protótipos: P0, com torre e canhão falsos, cores e emblemas do Exército e rodas vazadas. Desmanchado pela própria Engesa. P1, com torre de 105 mm e escapamento lateral acima da última roda de apoio. Quase todo desmanchado. Segundo P1, originado do P1. É a versão Exército Brasileiro. Ainda existente. P2, com torre de 120 mm. Era a versão para a Arábia Saudita. Ainda existente. Cabeça da série saudita, vendido para sucata antes que estivesse pronto.
Existiram assim três motores, do P1, do P2 e do cabeça. Em 1983 foi construído um mock-up em tamanho real. Em outubro de 1984 estava pronto o P0. A torre de 105 mm, desenvolvida na Vickers desde 1983, foi em 1985 instalada no chassi do P0, que tornou-se o P1. Na volta dos primeiros testes sauditas em 1985 o P1 foi desmanchado, originando o segundo P1. A torre de 120 mm chegou em 1986 e foi testada no Brasil no início de 1987, simulando as condições do Oriente Médio. O desenvolvimento arrastou-se ao último momento, a ponto de não sobrar tempo para chegar à disputa final por transporte marítimo. Um 747 da Air France levou a versão de exportação à Arábia Saudita.
O início da produção era esperado para os anos 90, e a princípio a demanda do Exército Brasileiro seria de 70 unidades. Peru e Panamá seriam compradores potenciais da versão de 105 mm.Archived Report - EE-T1 Osorio/Al-Fahd (Fevereiro de 1997). Forecast International (em inglês). O Irã foi sondado como comprador — secretamente, pois o Brasil estava do lado do Iraque na guerra entre os dois — mas não teve interesse, e tampouco o Iraque quis comprar.
Testes miniaturadaimagem|Os candidatos Enquanto o chassi ainda era desenvolvido, testes de blindagem foram realizados no CTA (Centro Tecnológico Aeroespacial), com a utilização de canhões de 25 mm suíços, comprados pela própria Engesa, em túnel balístico com modelos reduzidos de blindagem e aumento de velocidade dos projéteis, imitando-se assim o disparo de armas de 105mm e 120mm.Bacchi, Reginaldo da Silva. MBT Osório. Military Zone. Consultado em 27 de janeiro de 2021.
A Engesa pediu aos sauditas para testar o P1 no seu território, de forma a conhecer o local da avaliação definitiva e demonstrar que o tanque era uma realidade. Foi de Jumbo 747 a Riade, encontrando ali o Challenger 1. Era incoerente apresentar um veículo longe de definitivo, e de fato, os sauditas aceitaram-no mas exigiram que voltasse com uma torre de 120 mm, tal como seus concorrentes. O Challenger fundiu o motor.
Os testes oficiais para o Exército, com o canhão de 105 mm, ocorreram de 1986 a 1987, originando o RTEx (Relatório Técnico Experimental) e RETOp (Relatório Técnico Operacional). Os militares gostaram do veículo, imaginando uma futura aquisição, e os resultados permitiram melhorias. Foram 3.269 km rodados (750 km no terreno arenoso da Marambaia) e 50 tiros disparados. Também foi percorrido terreno montanhoso. O P2 também foi testado na Marambaia.
A avaliação final saudita em 1987 foi com o Osório, M1A1 Abrams, AMX-40 e Challenger 1, avaliados em conjunto, exceto para o Abrams. Cada participante tinha por sorteio um oficial superior, quatro capitães, oito sargentos e um mês para treiná-los. Foram testados: 2.350 km rodados (200 km em treinamento, 400 km asfalto, restante em deserto; 6 foram em marcha a ré; um tanque de 35 toneladas foi rebocado por 10 km) Consumo de 2,1 km/l no deserto e 3,4 km/l em estrada pavimentada Superação de trincheiras de 3 m de largura, partida em rampas de 65%, rodar em rampa lateral de 30%, aceleração, frenagem e pivotamento (giro de 180 graus) Veículo parado por seis horas com o motor ligado Remoção de lagartas em 10 minutos e instalação em 20 149 ou 150 tiros – 20 em treinamento, 30 tiros em alta temperatura em Sharouah, 88 tiros em Khamis Mushait e 17 tiros ao final. Com o veículo estacionado os alvos estavam a até 4 km, e com ele em movimento, até 1,5 km. Os alvos podiam estar estacionados ou em movimento. 82 foram com ambos estacionados.
O Challenger 1 fundiu o motor, o AMX-40 rodou 600 km e o Osório teve desgaste em dez bandas de borracha do rolamento das rodas. No teste final de tiro os acertos foram: Osório (8/12), Abrams (5/12), Challenger 1 (1/12) e AMX-40 (0/12). O Osório foi o único a acertar o tiro em alvo padrão OTAN a 4 km. Os tanques francês e britânico foram rejeitados, deixando o Osório e Abrams numa "short list" como passíveis de compra. O Osório, porém, teve desempenho superior ao Abrams em alguns quesitos.
Em 1988 seguiram-se testes em Abu Dhabi, pois os Emirados Árabes Unidos queriam acrescentar veículos mais modernos à sua frota de OF-40s. A avaliação foi com o Osório, AMX-40, C1 Ariete, Challenger 1 e um tanque chinês, avaliados em separado. Foram rodados 2.000 km. O resultado saudita para a torre foi considerado. Não houve resultado declarado e os EAU acabaram comprando o Leclerc em 1993.
Derrota na concorrência miniaturadaimagem|Abrams na Guerra do Golfo|esquerda Como seus concorrentes iniciaram o desenvolvimento na década anterior, os projetistas do Osório tiveram segurança em implantar a eletrônica embarcada, como giro e elevação acionados eletronicamente, conferindo uma vantagem qualitativa. Por outro lado o motor e a suspensão utilizados ainda não tinham eficiência comprovada no setor de defesa, e as empresas concorrentes eram bem consolidadas no Oriente Médio, seguramente apoiadas por seus governos e tinham tanques em uso e de desempenho conhecido.