Soneto 148 é um soneto que faz parte da série de 154 Sonetos de Shakespeare, em sua segunda parte, dedicada à Dama Negra.

Estrutura É essencialmente um soneto inglês, com 3 quartetos e um dístico, com esquema rímico característico dessa forma de soneto: ABAB CDCD EFEF GG. Foi construído com versos decassílabos, com ritmo de pentâmetro iâmbico.

Sinopse O Soneto 148 continua a sombria análise sobre a percepção no contexto do amor obsessivo. O poeta não se limita a lamentar a traição; questiona os seus próprios olhos. O amor pôs olhos que não correspondem à verdadeira visão, que se tornou falha. (Primeiro quarteto) Ele questiona a sua própria visão, a ponto de não conseguir discernir a verdade. Vê a Dama Negra como bela, mesmo quando ela não o é, e não consegue distinguir onde termina o erro e onde começa a realidade.

O poeta, mais uma vez questiona a sua própria visão e descreve como conflitante com seu julgamento e com a visão de mundo em geral a imagem que seus olhos têm de sua amada.

Mas, se os olhos não são enganosos, então o discernimento se perdeu. Mesmo quando a visão é precisa, a mente censura falsamente. O amor, portanto, corrompe tanto a visão quanto o discernimento. (Segundo quarteto)

O poeta oferece uma explicação. O olhar do amor não pode ser verdadeiro porque está atormentado pela vigília e pelas lágrimas. A vigilância ciumenta exaure a visão; o choro a turva. A comparação com o sol eleva a questão. Nem mesmo o sol consegue enxergar até que o céu esteja limpo. Se isso é verdade para o sol, então não é de admirar que o amante distorça sua visão. (Terceiro quarteto)

O soneto mostra como o desejo transforma a amada numa ilusão e torna o amante cúmplice da sua cegueira.

Traduções Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta Ó, vida! Que olhos o amor me deu Que não correspondem ao que vejo? Ou, se for verdade, o que houve com meu julgamento, Que censura mal o que corretamente veem?

Se for justo o que meus falsos olhos vislumbram, O que é o mundo se dissermos que ele não o é? E se não for, então, o amor bem prova Seu olhar não ser tão verdadeiro: não,

Como é possível? Ah, como pode o Amor ver bem, Se está tão ocupado em mirar e prantear? Não há surpresa, assim, que meus olhos vejam mal; O próprio sol não vê senão quando o dia está claro.

Ah, astuto amor! Cegas-me com tuas lágrimas, Para que meus bons olhos não vejam tuas iníquas falhas.

Tradução de Paulo Camelo Quais olhos pôs o amor em minha mente incomparáveis à visão real! Se são reais, será que falsamente essa censura os corresponde mal?

Se o que meus olhos falsos visam belo, importa ser, talvez, o que não é? Se assim não for, o amor demonstra anelo em seu olhar que os homens botam fé.

Ou não seria assim? O amor real não pode aflito estar, se a mente chora? Eu me admiro como eu vejo mal, porém o sol não vê, se falta aurora.

Astuto amor! Se eu choro, eu fico cego e faltas vis não vejo, isso eu não nego.

Tradução de Milton Lins Ó, eu! Olhos de Amor, esteé o momento, Que não tem relação com a verdade! E se assim for, adeus meu julgamento, Censura falsa ao quanto é realidade?

Se os falsos olhos são de algum gagá, Que meio existirá para negá-lo? Se assim não for, o amor denotará, O olho do Amor não pode contestá-lo.

Mas como pode o Amor ter olho certo, Tendo um sermão no olhar ou com o pranto? Ninguém pensou então ser incorreto; O próprio sol não vê o seu encanto.

Com lágrimas o amor de ver me impede, Temendo o que teu mal no fim concede.SHAKESPEARE, William - Sonetos de William Shakespeare / tradutor: Milton Lins. Recife: FacForm, 2005. ISBN 978-85-98896-04-5

Tradução de José Arantes Júnior Os olhos do amor e os olhos dos homens Que olhos o amor pôs em minha feição Que não se afeiçoam com o meu visual? Por onde deixei meu juízo ter evasão Que censuras falsas se vê como ideal?

Se é belo o que os falsos olhos vêem Que quer dizer se a vida diz que não? Mas se os olhos do amor se comprazem Não são veros como os dos homens são?

Como olhos do amor serão verdadeiros Com lágrimas turvando a visualização? Assim, turvo minha vista por inteiro, O sol também não enxerga na cerração;

Se lágrimas formam cegueira na visão Então os teus defeitos desaparecerão.

Categoria:Sonetos de William Shakespeare