1720 foi um ano bissexto do século XVIII no Calendário Gregoriano. No Brasil colonial, o ano foi dominado pela Revolta de Vila Rica, ocorrida entre 28 de junho e 19 de julho de 1720 na então Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, considerada o primeiro movimento de resistência de caráter nativista contra a metrópole portuguesa nas regiões mineradoras, e precursor histórico da Inconfidência Mineira de 1789. No mesmo ano, o rei dom João V ordenou a separação da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro em duas unidades independentes — Capitania de Minas Gerais e Capitania de São Paulo —, como uma das consequências políticas da revolta. Dois religiosos participaram ativamente do movimento: o Frei Vicente Botelho e o Frei Francisco de Monte Alverne, que integraram a liderança dos revoltosos.

Eventos

Contexto: as Casas de Fundição e o quinto real

Desde a Carta Régia de fevereiro de 1719, o governador Conde de Assumar havia anunciado a instalação das Casas de Fundição nas minas, onde todo o ouro extraído seria obrigatoriamente fundido, selado e tributado com o quinto real (20% de imposto) antes de circular. A medida proibia a circulação do ouro em pó — forma mais comum de pagamento nos arraiais — e criava um sistema de controle rigoroso que os mineradores consideravam inviável e opressor. Além das Casas de Fundição, o governador tinha ordem de aplicar uma carta régia que extinguia funções e aumentava o poder do governador, e de introduzir um contingente de Dragões de Cavalaria para policiamento da região.

A revolta: entre 28 de junho e 19 de julho

Em 28 de junho de 1720, um grupo de grandes mineradores liderado por Pascoal da Silva Guimarães — o mais rico proprietário de lavras de Vila Rica —, pelo Dr. Manoel Mosqueira da Rosa, pelo Frei Vicente Botelho e pelo Frei Francisco de Monte Alverne, articulou uma revolta que rapidamente ganhou a adesão das camadas populares e médias dos arraiais. O tropeiro e fazendeiro Filipe dos Santos transformou-se no principal agitador popular do movimento, mobilizando mais de dois mil homens em torno das exigências de extinção das Casas de Fundição e saída do governador.

Os revoltosos ocuparam pontos estratégicos de Vila Rica e marcharam em direção a Mariana, onde exigiram do Conde de Assumar o compromisso de revogar as Casas de Fundição. O governador, estrategicamente, negociou com os líderes mais ricos, prometeu atender as reivindicações e solicitou que os revoltosos depusessem as armas. Aproveitando a trégua, reorganizou a força policial e, em 19 de julho, prendeu todos os implicados. As casas de Pascoal da Silva Guimarães, no morro do Ouro Podre, foram incendiadas pela soldadesca. Filipe dos Santos foi enforcado e esquartejado no cadafalso, sem sequer ter passado por julgamento formal com a participação de magistrados regulares. Seu corpo foi exposto nas estradas como advertência.SCIELO BRASIL. O Discurso e a Noticia: manuscritos sobre a revolta de 1720. Tempo, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/tem/a/ktCSmffsbcddqgmWrmVCKXB/. Acesso em: 2026.

A participação dos Frei Vicente Botelho e Frei Francisco de Monte Alverne na liderança da revolta ilustra a dimensão do descontentamento que havia se espalhado por todas as camadas da sociedade colonial mineira — incluindo o clero regular. A revolta foi considerada pela historiografia como de "amplitude meramente local", sem objetivo emancipacionista, mas como expressão da crescente consciência da identidade colonial distinta da portuguesa.IMPRESSÕES REBELDES — UFF. Revolta de Vila Rica. Rio de Janeiro: UFF, 2024. Disponível em: https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revolta/revolta-de-vila-rica/. Acesso em: 2026.

Separação das capitanias

Como consequência direta da revolta, o rei dom João V expediu, no mesmo ano de 1720, o decreto que separou a Capitania de São Paulo e Minas do Ouro em duas entidades autônomas: a Capitania de Minas Gerais e a Capitania de São Paulo. A medida fortalecia o controle direto da Coroa sobre as minas, reduzindo a área de jurisdição de cada governador e facilitando a fiscalização. O Conde de Assumar permaneceu como governador de Minas Gerais até 1721.CURSOMACIEL. A Revolta de Vila Rica ou Revolta Filipe dos Santos — 1720. Disponível em: https://cursomaciel.com.br. Acesso em: 2026.

Mortes

15 de julho — Filipe dos Santos, tropeiro e fazendeiro, líder popular da Revolta de Vila Rica, executado por enforcamento e esquartejamento por ordem do governador Conde de Assumar, em Vila Rica, Minas Gerais (n. data desconhecida).

Quadro político CargoTitularRei de PortugalDom João V (reinado: 1706–1750)Governador-Geral do Estado do BrasilVasco Fernandes César de Meneses (1720–1735)Governador da Capitania de Minas GeraisPedro de Almeida Portugal e Vasconcelos, Conde de Assumar (1717–1721)

Ver também

Revolta de Vila Rica Filipe dos Santos Conde de Assumar Capitania de Minas Gerais Casas de Fundição Brasil colonial 1719 no Brasil 1721 no Brasil

Referências

Categoria:1720 no Brasil Categoria:Anos do século XVIII no Brasil Categoria:Década de 1720 no Brasil Categoria:Brasil Colônia