miniatura|Manifestantes pró-palestinos em Columbus (Ohio), 2023, exibindo um cartaz onde se lê "Isreal (sic) são os novos nazistas". Comparações entre o Estado de Israel e a Alemanha nazista têm sido feitas desde a década de 1940, inicialmente no contexto mais amplo do pós-Segunda Guerra Mundial. Tais comparações constituem um elemento retórico fundamental do antissionismo em relação ao conflito israelo-palestino. Se as comparações entre Israel e a Alemanha do Terceiro Reich são inerentemente antissemitas, é uma questão em debate.
O britânico Arnold J. Toynbee, autor do livro Um Estudo de História, associou o sionismo ao nazismo e manteve essa visão mesmo quando questionado por diversos acadêmicos. Essa análise acadêmica ocorreu dentro do contexto mais amplo de comparações frequentes na cultura popular internacional que equiparam várias entidades aos nazistas históricos. O acadêmico britânico David Feldman, diretor do Instituto Pears para o Estudo do Antissemitismo, comentou que essas comparações muitas vezes não se tornam antissemitas porque ocorrem dentro do contexto de um recurso retórico comumente empregado, "usado em muitos argumentos sobre muitos tópicos, frequentemente de forma casual, sem qualquer conteúdo especificamente antissemita", ao comparar entidades muito diferentes aos nazistas.
Historicamente, uma grande variedade de figuras políticas e governos fizeram essa comparação, sendo um exemplo o governo soviético no contexto da Guerra dos Seis Dias e das divisões da Guerra Fria na década de 1960. Entre os políticos do século XXI que a fizeram, podemos citar o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente venezuelano Hugo Chávez, o presidente colombiano Gustavo Petro e o deputado liberal britânico David Ward, dentre outros.
No século XX Na década de 1940 As comparações entre sionismo e nazismo são anteriores à fundação do Estado de Israel, em maio de 1948. Já em 1945, o oficial do exército britânico e político Edward Spears, comparou o sionismo político à ideia nazista de Lebensraum (ou "espaço vital"). Em 2024, o termo ("Lebensraum") foi utilizado explicitamente pelo colunista Dan Ehrlich, numa postagem (posteriormente excluída) no site do periódico The Times of Israel, referindo-se à necessidade crescente de um território que pudesse sustentar uma população do tamanho da israelense.
O linguista judeu alemão e antifascista Victor Klemperer, sobrevivente do Holocausto, optou, após 1945, por não se estabelecer em Israel e permanecer na Alemanha. Klemperer escreve em sua obra LTI - Lingua Tertii Imperii ("A Língua do Terceiro Reich") que o sionismo e o nazismo são essencialmente ideologias nacionalistas neorromânticas.
Em 1948, diversas outras figuras públicas judaicas, incluindo Hannah Arendt e Albert Einstein, assinaram uma carta aberta comparando o Tnuat Haherut, um dos primeiros partidos políticos nacionalistas judeus, fundado por Menachem Begin, ao nazismo. As opiniões de Hannah Arendt sobre o sionismo e Israel variaram consideravelmente ao longo do tempo. Einstein, por outro lado, sempre apoiou a ideia de uma pátria judaica em Israel (então Palestina sob Mandato Britânico), mas não a de um Estado judeu.
Na década de 1960 Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e no contexto da Guerra Fria, a administração soviética comparou oficialmente as táticas israelenses às da Alemanha nazista.
Na década de 1970 Depois da vitória do Likud nas eleições legislativas israelenses de 1977, metáforas do Holocausto começaram a ser usadas pela direita israelense para descrever seus oponentes de esquerda.
Na década de 1980 O filósofo israelense Yeshayahou Leibowitz, ao introduzir o termo "judeonazistas", argumenta que a contínua ocupação militar dos territórios palestinos levaria à degradação moral das Forças de Defesa de Israel (IDF), com indivíduos cometendo atrocidades em nome dos interesses de segurança do Estado. Em 1988, o filósofo e historiador Yehuda Elkana, também sobrevivente do Holocausto, alertou que a tendência em Israel de encarar todas as ameaças potenciais como existenciais e todos os oponentes como nazistas, levaria a um comportamento semelhante ao dos nazistas entre os judeus.
Durante a Primeira Intifada, entre 1987 e 1993, o historiador israelense-americano Omer Bartov expressou sua indignação com o apelo do Ministro das Relações Exteriores, Yitzhak Rabin, para "quebrar os ossos" dos palestinos. Ele endereçou uma carta a Rabin na qual argumentava que, segundo suas pesquisas, o exército israelense corria o risco de brutalizar-se de maneira semelhante ao exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial.
Segundo o cientista político Ian Lustick, professor da Universidade da Pensilvânia, essas comparações são uma "consequência natural, ainda que não intencional, da imersão dos judeus israelenses no imaginário do Holocausto". Acrescenta que a expressão “inversão do Holocausto”, usada para qualificar comparações com o nazismo, é geralmente usada por aqueles que consideram o Holocausto como um modelo estruturante da experiência judaica contemporânea.
Em 1983, Richard Arens, professor de direito internacional e direitos civis na Universidade Americana de Bridgeport, bem como irmão do ministro da Defesa israelense, Moshe Arens, comparou - como Edward Spears - a colonização israelense ao Lebensraum nazista.
No século XXI Declarações dos israelenses miniatura|"Soldados israelenses apenas obedecem ordens", representados na forma de uma suástica, com um soldado israelense "nascido para matar" à esquerda, e um soldado nazista da SS à direita, por Carlos Latuff (2003). Durante a retirada israelense da Faixa de Gaza em 2005 e os protestos subsequentes, alguns colonos israelenses usaram estrelas amarelas, uma referência às estrelas impostas aos judeus durante o Holocausto, a fim de se compararem simbolicamente às vítimas dos nazistas. Em um artigo de 2012 intitulado "A Mancha de uma Nuvem Leve: Soldados Israelenses, o Exército e a Sociedade na Intifada", os acadêmicos israelenses (e ex-soldados das Forças de Defesa de Israel) Nuphar Ishay-Krien e Yoel Elizur citam um soldado anônimo que serviu durante a Primeira Intifada:
Em 2016, Yair Golan, general israelense e vice-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF), provocou uma grande controvérsia durante um discurso no Yom HaShoá (dia em memória das vítimas do Holocausto). Nele, Golan fez alusão à dinâmica social observada na Europa durante o Holocausto. Na sequência das críticas do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, o general esclareceu que não tinha a intenção de comparar Israel à Alemanha nazista:
Em seguida, Golan comparou novamente a direita israelense aos nazistas, atraindo críticas dos implicados. Em 2023, durante a Guerra de Gaza, após o ataque de 7 de outubro do Hamas ao território israelense, o chefe do Conselho Municipal de Metula, David Azoulai, declarou em entrevista que:
Essas declarações foram condenadas por um porta-voz do Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, que afirmou que elas "poderiam ser interpretadas como uma incitação ao assassinato em uma escala comparável à de Auschwitz". O político Moshe Feiglin comparou os palestinos aos nazistas, declarando:
Declarações de palestinos miniatura|Caricatura por ocasião do Dia Internacional da Lembrança do Holocausto (Latuff, 2009). Acima do prisioneiro judeu, lê-se "nunca mais". Abaixo do palestino, "outra vez". Em agosto de 2022, durante uma visita a Berlim, na Alemanha, o presidente do Estado da Palestina, Mahmoud Abbas, acusou Israel de ter cometido "50 Holocaustos". Ele estava respondendo à pergunta de um jornalista sobre a próxima comemoração do 50º aniversário do massacre de Munique de 1972, cometido pelo grupo terrorista palestino Setembro Negro, que atuava internacionalmente e que na época era afiliado ao partido Fatah de Abbas. Questionado se pretendia pedir desculpas por este ataque desproporcional, Abbas respondeu enumerando alegações de atrocidades cometidas por Israel. Olaf Scholz, o chanceler alemão, faz uma careta ao ouvir a palavra "Holocausto", mas não disse nada. Mais tarde, ele condenou essas declarações, afirmando: "Especialmente para nós, alemães, qualquer relativização do Holocausto é insuportável e inaceitável". O jornal alemão Bild descreveu o incidente como antissemita.
Em resposta, Abbas afirmou que sua réplica não tinha a intenção de negar a singularidade do Holocausto, que ele diz condenar nos termos mais veementes, mas sim de discutir os "crimes e massacres cometidos contra o povo palestino desde a Nakba, pelas forças israelenses", declarou.
Declarações de políticos internacionais Em julho de 2018, o presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, dirigindo-se a membros da Grande Assembleia Nacional em Ancara, declarou que "o espírito de Hitler" sobrevive em Israel, comentando especificamente que acredita que "não há diferença entre a obsessão de Hitler por uma raça pura e o entendimento de que estas terras antigas são reservadas aos judeus". Ele também denominou Israel como "o estado mais sionista, fascista e racista do mundo". Essas declarações foram condenadas pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que descreve o regime de Erdoğan como uma "ditadura das trevas" e afirma que Erdoğan está "massacrando sírios e curdos e prendeu dezenas de milhares de seus próprios cidadãos".
Em 18 de fevereiro de 2024, o presidente brasileiro Lula da Silva provocou controvérsia com uma declaração, comparando as ações de Israel na guerra de Gaza ao Holocausto. Benjamin Netanyahu reagiu à declaração afirmando que ela banalizava "o Holocausto e tenta prejudicar o povo judeu e o direito de Israel se defender".
No Reino Unido miniatura|Protesto contra a guerra israelense de 2009 na Faixa de Gaza, estabelecendo paridade entre o tratamento dispensado por Israel aos palestinos e o tratamento dispensado pelos nazistas aos judeus (Edimburgo, Escócia, 2009). No Reino Unido, o ex-deputado de Bradford East, o liberal democrata David Ward, criou polêmica depois de assinar o Livro da Memória no Parlamento no Dia em Memória do Holocausto de 2013, escrevendo:
Mais tarde, ele afirma que uma "operação em grande escala" distorceu o que ele quis dizer. Após o exame minucioso da controvérsia de janeiro de 2013, os líderes liberais democratas ameaçaram Ward com uma ação disciplinar formal sobre seus argumentos. O músico britânico Roger Waters, do grupo de rock Pink Floyd, conhecido em particular pelo seu antissionismo e pelo seu apoio ao movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) contra Israel e por vezes acusado de antissemitismo, compara repetidamente Israel à Alemanha nazista. Numa entrevista à revista CounterPunch em 2013, ele acusou o lobby judeu de ser muito poderoso nos Estados Unidos e disse:
O rabino e escritor estadunidense Shmuley Boteach classifica a comparação como antissemita, escrevendo no The Observer:
Em 2017, durante um chat de vídeo ao vivo de uma hora no Facebook, Waters comparou novamente Israel à Alemanha nazista.
Nos Estados Unidos miniatura|Ativistas Ammar Aziz e Concepcion Picciotto em frente à Casa Branca, com cartazes contra Israel e o governo dos Estados Unidos. miniatura|Cartaz exibido por um manifestante em um protesto contra a guerra em São Francisco, em 16 de fevereiro de 2003. Num especial da Netflix, o comediante Dave Chappelle fez uma piada sobre William Ellison, um ex-escravo da Carolina do Sul que mais tarde se tornou proprietário de escravos. A piada final é: “e, surpreendentemente, fazem um filme sobre ele. Ironicamente, chama-se ‘Judeus no Espaço’”. A organização britânica Campaign Against Antisemitism (CAA ou "Campanha Contra o Antissemitismo") afirma que a piada de Chappelle implica que “os judeus submetem outros às atrocidades que sofreram durante o Holocausto”. A piada é denunciada por um porta-voz da CAA: