Ascendina Santos é o nome artístico de Clementina da Silva, destacada atriz, dançarina e cantora negra que integrou a Companhia Carioca de Burletas do Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, Brasil, considerada figura de grande relevância para a história do Teatro de Revista no Rio de Janeiro em 1920.

Biografia No dia 15 de janeiro de 1926 a atriz, cantora e dançarina Ascendina Santos, ou Ascendina dos Santos, conforme variação das fontes e pesquisas, fez a sua estreia no palco do Teatro Carlos Gomes, com a peça de teatro de revista, de temática carnavalesca "Ai, Zizinha!", de Freire Junior. Integrando a Companhia Carioca de Burletas, fazendo grande sucesso e alcançando o reconhecimento por parte da crítica, e por esse motivo passou a ser mencionada em diferentes periódicos:"No dia seguinte à première (o francesismo era moda na época) da burleta carnavalesca Ai, Zizinha!, que verificou-se a 15 de janeiro de 1926, no teatro Carlos Gomes, o crítico do venerando matutino carioca registrou sobriamente a ocorrência. Sintetizando sua assinatura com a inicial L. disse: […] 'o êxito sensacional da noite e os melhores aplausos couberam à Sra. Ascendina Santos, dama de cor que fez ontem sua estreia'. Na mesma data, sem ademanes literários, outro crítico, Mário Nunes, registrava: 'a peça apresentou a maior novidade de 1926 – Ascendina Santos, artista negra como azeviche, que canta, dança e representa de maneira que obteve fartos e calorosos aplausos da plateia'"EFEGÊ, J. Meninos, eu vi. Rio de Janeiro: Funarte, 2007 miniaturadaimagem|Ascendina dos Santos, no Jornal O Malho, 1926 A atriz lotou, reiteradas vezes, o teatro Carlos Gomes, tornando-se um "chamariz" para a casa, e obteve bom retorno financeiro. Apresentou-se em outros palcos no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.Brito, Deise Santos de. Um ator de fronteira : uma análise da trajetória do ator Grande Otelo no teatro de revista brasileiro entre as décadas de 20 e 40 / Deise Santos de Brito – São Paulo : D. S. Brito, 2011. O talento de Ascendina Santos, entretanto, não à protegeu do racismo, que de modo oportunista, se valia da glória e repercussões e reconhecimento da mesma, para promover discursos discriminatórios à artista e à comunidade negra em geral.

Ex-cozinheira, a atriz foi descoberta por Pascoal Segreto, da Companhia Carioca de Burletas do Teatro Carlos Gomes. Sua pele retinta e sua origem como trabalhadora doméstica, foi motivo de ataques na imprensa que lhe atribuiu adjetivos negativos e irônicos que demonstram a força e violência do racismo em relação à uma atriz negra como Ascendina.ABREU, Da Senzala aos Palcos, 2017, p. 98 Problematizava-se, ainda, o risco da mesma servir de inspiração para que outras mulheres negras retintas, encorajando-as ao abandono de ocupações e posições sociais, que foram cristalizadas no imaginário social racista como únicos lugares possíveis para mulheres negras, pela ribalta.GOMES, Flávio dos Santos; LAURIANO, Jaime; SCHWARCZ, Lilia Moritz. Enciclopédia negra: biografias afro-brasileiras. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. O periódico O Malho, por exemplo, lançou mão de entrevistas falsas, atribuídas à atores da Companhia Negra de Revista e outros artistas negros, como Ascendina, para promover sua ridicularização. A entrevista fictícia atribuída à atriz foi publicada em 13 de fevereiro de 1926, o texto reforçava o estereótipo de pessoa negra iletrada, hipersexualidade, com discriminação de gênero e classe, questionando suas habilidades artísticas, e atacando os movimentos negros.

Sua destacada contribuição para o teatro negro no Brasil, pode ser percebida, apesar de sua breve carreira. A atriz viveu momentos de destaque influenciou muitos revistógrafos a criar personagens em outras revistas, nas quais atrizes negras performavam a Ascendina.LEAL, Lea Maria S. O desenho precursor de uma performance negra no entreato do Teatro de Revistas branco (1920-1930). PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG. v. 11, n. 23, set-dez. 2021 Disponível em <https://eba.ufmg.br/revistapos> Na revista Pirão de Areia, de Marques Porto., apresentada em 7 de abril de 1926, a artista Rosa Negra atuou em um quadro denominado "Ascendices", uma referência que Rosa e um grupo de Black-Girls fazia a Ascendina.Brito, D. S. de. (2017). Deslocamento de artistas negras(os) no início do século XX: invólucro, desobediência e ocupação. Revista Aspas, 7(1), 114-125. https://doi.org/10.11606/issn.2238-3999.v7i1p114-125

Na revista Café com Leite, de Freire Junior, apresentada no Teatro São José, a personagem Ascendina fora interpreta, de modo caricato, pela atriz branca Mariska. A revista ficou em cartaz de 26 de fevereiro a 7 de abril de 1926, e era apresentada no mesmo dia e horário em que a atriz negra Ascendina Santos atuava no Teatro Carlos Gomes, na revista Ai, Zizinha!, do mesmo autor, e que consagrou a estreia da artista, em cartaz de 15 de janeiro a 10 de março de 1926. Enquanto Ascendina se destacava por seu trabalho no Teatro Carlos Gomes, se construiu uma revista onde a atriz Mariska interpretava um caricatura estereotipada de Ascendina. O sucesso de uma atriz negra de pele escura, indo além dos espaços da musica e da dança no teatro, gerou ambiguidades em um contexto de promoção do embranquecimento racial e da construção de uma identidade nacional miscigenada e harmônica, em debate. Através do efeito cômico, a atriz branca em sua performance buscava destacar diferenças com o intuito de reforçar estereótipos de pessoas negras como ignorantes e incapazes de assimilar a cultura branca, ao interpretar a atriz negra Ascendina. A revista Café com Leite, é uma esforço para obstruir o reposicionamento de artistas negros, como Ascentida Santos, no imaginário social coletivo, mesmo em contextos onde essas pessoas negras estejam em positiva evidência, como no grande sucesso vivenciado pela atriz por sua atuação na revista Ai, Zizinha.Almeida, Paulo Roberto de. A presença negra no Teatro de Revista dos anos 1920 / Paulo Roberto de Almeida. – 2016.

Em Juiz de Fora, Minas Gerais, a atriz foi escolhida por José Eutrópio para protagonizar a personagem principal da peça Uma noite pelo Paraibuna. A atriz interpretou a personagem Maria do Rosário, uma mulher casada, talvez mãe, certamente trabalhadora "pobre e operosa". O papel interpretado apresentava outras possibilidades de histórias negras serem representadas nos palcos, fora de estereótipos comumente mobilizados pelas revistas, como o da "mulata sensual", ou do "malandro preguiçoso". Protagonizando a peça, a atriz afirmava a inclusão de artistas negros nos elencos, em contraposição ao recorrente uso da prática do blackface, costume amplamente utilizado, no qual artistas brancos pintavam suas peles de preto e interpretavam de modo caricatural e racista estereótipos de comportamentos atribuídos à pessoas negras.

O surgimento de Ascendina, bem como de outros artistas, como os integrantes da Companhia Negra de Revistas, idealizada por D'Chocolat, representava a uma via de recuperação da narrativa pública e espaço para afro-brasileiros apresentarem suas percepções sobre o tema da identidade nacional, em disputa, contrariando e tencionando a ideia de mestiçagem e harmonia defendida por intelectuais como Gilberto Freyre. A trajetória da artista, mulher negra de pele retinta, ajudam a compreender os desafios enfrentados pela população afro-brasileira que buscou na arte uma meio de ascensão social e suas lutas diárias para conquistarem status de igualdade artística e social.NEPOMUCENO, Testemunho de Poéticas Negras, 2006, p.136

Em 1927, retornou de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, passando a trabalhar no Democrata Circo. Chama da "Estrela Negra", a atriz fez grande sucesso no Rio de Janeiro, finalizando sua carreira em 1929 atuando na revista "Manda quem pode" , de Antônio Quintiliano, nos palcos do Teatro Recreio.

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