thumb|O escritor Prêmio Nobel Thomas Mann pertencia a uma família patrícia hanseática (a família Mann) e retratou o patriciado em seu romance de 1901 Os Buddenbrooks. thumb|O banqueiro alemão Johann Hinrich Gossler casou-se com a herdeira patrícia de Hamburgo, Elisabeth Berenberg, tornando-se proprietário do Banco Berenberg. Seus descendentes alcançaram os mais altos cargos da "república aristocrática", inclusive como senadores e chefes de Estado.

Na Europa pós-Roma Antiga, os patrícios constituíam uma classe social hereditária de famílias de elite que monopolizavam a autoridade política e o domínio econômico em centros urbanos autônomos, particularmente nas cidades-estado italianas e nas cidades imperiais livres do Sacro Império Romano-Germânico, emergindo como uma ordem social distinta a partir do século XI, em meio ao declínio das estruturas feudais e à ascensão do comércio. O patriciado teve origem no mundo antigo, onde cidades como a Roma Antiga possuíam uma classe social de famílias patrícias, cujos membros eram inicialmente os únicos autorizados a exercer diversas funções políticas. Com o crescimento das cidades europeias nos séculos XII e XIII, o patriciado — um grupo restrito de famílias com uma posição constitucional especial — era, na visão de Henri Pirenne, a força motriz desse processo.Pirenne, Medieval Cities: Their Origins and the Revival of Trade (1927) apresenta uma formulação tardia e desenvolvida da "tese de Pirenne", cujas origens remontam a artigos sobre a origem das constituições urbanas publicados em 1895; ver Henri Pirenne#Tese de Pirenne. No século XIX, na Europa Central, o termo tornou-se sinônimo da alta burguesia e não pode ser confundido com o patriciado medieval da Europa Central. Nas repúblicas marítimas da Península Itálica, bem como nas regiões de língua alemã da Europa, os patrícios constituíam, de fato, o corpo governante das cidades medievais. Particularmente na Itália, passaram a integrar a nobreza e o termo tornou-se um título nobiliárquico.

O ingresso no patriciado por esse mecanismo era denominado erweibern.Alfred Otto Stolze, Der Sünfzen zu Lindau. Das Patriziat einer schwäbischen Reichsstadt (Bernhard Zeller, Lindau/Konstanz, 1956) discute esse mecanismo de acesso ao patriciado; "Se a filha de um membro da família Sünfzen se casasse com o consentimento dos pais, o marido, 'que de outra forma não poderia ingressar na família Sünfzen', era aceito mediante o pagamento de dois florins, ou como um filho mais novo.".Em qualquer caso, apenas os patrícios do sexo masculino podiam ocupar, ou participar das eleições para, a maior parte dos cargos políticos. Frequentemente, como em Veneza, os não patrícios possuíam poucos ou nenhum direito político. Eram mantidas listas das pessoas que detinham esse estatuto, sendo a mais célebre o Libro d'Oro ("Livro de Ouro") da República de Veneza.

Após a queda dos Hohenstaufen, em 1268, as repúblicas urbanas transformaram-se progressivamente em principados, como o Ducado de Milão e a Senhoria de Verona. As entidades menores foram absorvidas por estados monárquicos ou, por vezes, por outras repúblicas, como ocorreu com Pisa e Siena, incorporadas por Florença. Em consequência desses desenvolvimentos, qualquer papel especial exercido pelos patrícios locais passou a restringir-se aos assuntos municipais.

As poucas constituições patrícias remanescentes, notadamente as de Veneza e Gênova, foram abolidas pelos exércitos franceses durante o período posterior à Revolução Francesa, embora muitas famílias patrícias tenham permanecido social e politicamente influentes, e algumas conservem essa posição até os dias atuais.Na era moderna, o termo "patrício" também passou a ser empregado em sentido mais amplo para designar a alta burguesia (não devendo ser confundida com a aristocracia) em diversos países; em alguns deles, refere-se vagamente às classes superiores não nobres, sobretudo antes do século XX.T. K. Derry, A History of Scandinavia, Londres, George Allen & Unwin, 1979, p. 193, O patricius na Antiguidade Tardia e na Alta Idade Média

Houve um período intermediário durante o Império Romano Tardio e o Império Bizantino em que o título era concedido aos governadores das regiões ocidentais do Império, como a Sicília.Estilicão, Aécio e outros magistri militum do século V exemplificam bem a função e a abrangência do cargo de patricius nesse período.

Mais tarde, tal como ocorreu com os judicados da Sardenha, a função adquiriu uma conotação judicial e passou a ser utilizada por governantes frequentemente de fato independentes do controle imperial, como Alberico II de Espoleto, "Patrício de Roma" entre 932 e 954.Nos séculos IX e X, os imperadores bizantinos utilizaram estrategicamente o título de patrikios para obter o apoio dos príncipes locais do sul da Itália em sua disputa com o Império Carolíngio pelo controle da região.

A lealdade do Principado de Salerno foi assegurada em 887 por meio da investidura do príncipe Guaimário I de Salerno, e novamente em 955, quando o título foi concedido a Gisulfo I de Salerno.Em 909, o príncipe de Benevento, Landulfo I de Benevento, procurou pessoalmente e recebeu o título em Constantinopla para si e para seu irmão, Atenulfo II de Benevento.

Ao estabelecer a aliança que triunfou na Batalha do Garigliano em 915, o estratego bizantino Nicolau Picingli concedeu o título a João I de Gaeta, Docíbilis II de Gaeta, Gregório IV de Nápoles e João II de Nápoles.Nessa época, geralmente existia apenas um "Patrício" para cada cidade ou território. Em diversas cidades da Sicília, como Catânia e Messina, o cargo unipessoal de patrício permaneceu integrado ao governo municipal por um período muito mais longo.Amalfi foi governada por uma sucessão de patrícios, sendo o último deles eleito duque. Formação dos patriciados europeus

Embora frequentemente descritas dessa forma por engano, as famílias patrícias das cidades italianas não eram originalmente membros da nobreza territorial, mas sim integrantes da pequena propriedade fundiária, bem como bailios e administradores dos senhores feudais e dos bispos, contra cujos poderes remanescentes lideraram as lutas pela formação das comunas urbanas. Na República de Gênova, os registros mais antigos de sociedades comerciais aparecem em documentos do início do século XI; neles, o investidor passivo típico era um membro da pequena nobreza local com algum capital para aplicar. Na expansão do comércio, posições de destaque foram ocupadas por indivíduos que já desfrutavam de situações vantajosas dentro da ordem feudal, obtendo rendas provenientes de aluguéis, pedágios alfandegários ou taxas de mercado. Posteriormente, nos séculos XII e XIII, juntaram-se a essa primeira classe patrícia famílias enriquecidas pelo comércio, como os Doria, os Cigala e os Lercari. Em Milão, os primeiros cônsules eram escolhidos entre os vavassores, os capitanei e os cives. H. Sapori identificou os primeiros patriciados das cidades italianas, que assumiram as funções públicas e financeiras do senhor local, como provenientes desses pequenos vassalos, detentores de arrendamentos hereditários e rentistas que administravam os trabalhos agrícolas em suas propriedades.H. Sapori, artigo apresentado no International Historical Congress de 1950, citado por Hibbert (1953), nota 10.

Em determinado momento, tornou-se necessário obter o reconhecimento da independência da cidade, e frequentemente de sua constituição, do papa ou do imperador do Sacro Império Romano-Germânico. As cidades "livres" do Império continuavam a dever lealdade ao imperador, porém sem a existência de governantes intermediários.

Durante a Baixa Idade Média e o início da Idade Moderna, os patrícios também adquiriram títulos de nobreza, muitas vezes simplesmente por meio da aquisição de domínios no contado circundante que incluíam um feudo hereditário. Na prática, porém, a posição social e a riqueza das famílias patrícias das grandes repúblicas superavam as da maior parte da nobreza, à medida que a economia de mercado se expandia e a rentabilidade e os privilégios da propriedade fundiária se enfraqueciam, sendo os patrícios reconhecidos como pertencentes a uma condição equivalente.

A República de Gênova possuía uma classe separada e muito mais restrita de nobres, originária de magnatas rurais que associaram seus interesses ao emergente Estado citadino.

Algumas cidades, como Nápoles e Roma, que nunca haviam sido repúblicas após a Antiguidade clássica, também possuíam classes patrícias, embora a maioria de seus membros detivesse igualmente títulos de nobreza.A República de Ragusa era governada por um patriciado rigoroso, formalmente estabelecido em 1332 e modificado apenas uma vez, após o terremoto de Dubrovnik de 1667.Posteriormente, o termo "patrício" passou a ser empregado de forma mais ampla para designar os aristocratas e a burguesia de elite em diversos países. Transformações no interior dos patriciados

Em algumas cidades italianas, um patriciado inicial proveniente da pequena nobreza e dos oficiais feudais passou a interessar-se diretamente pelo comércio, sobretudo pelo comércio têxtil e pelo comércio de longa distância de especiarias e artigos de luxo, transformando-se nesse processo. Em outras cidades, a rigidez do patriciado levou ao surgimento de poderosos grupos excluídos de suas fileiras e, em consequência de golpes urbanos, os grandes interesses mercantis derrubaram os grandi, sem, contudo, destruir a ordem urbana, limitando-se a preencher os órgãos formais com membros oriundos dos novos grupos ou a reformar as constituições para conceder maior poder ao povo. Florença, em 1244, aderiu relativamente tarde ao auge dessas transformações, cujo período principal se estendeu entre 1197, quando Luca seguiu esse caminho, e 1257, quando Gênova adotou mudanças semelhantes. No entanto, Florença passaria por novas convulsões, que reduziram o poder da classe patrícia, no movimento que culminou nas Ordenações de Justiça de 1293 e na Revolta dos Ciompi de 1378.

Entre as grandes repúblicas, apenas a República de Veneza conseguiu preservar um governo exclusivamente patrício, que subsistiu até as conquistas de Napoleão Bonaparte. Em Veneza, onde o patriciado exclusivo reservava para si todo o poder de dirigir a Serenissima Repubblica e erguia barreiras legais para proteger o Estado, aumentou-se a vigilância sobre a composição do patriciado nas gerações posteriores à Batalha de Chioggia. Os venezianos cujos direitos patrícios fossem contestados eram obrigados a apresentar aos avogadori di comun, instituição responsável pelo julgamento dessas reivindicações, uma genealogia denominada prova di nobiltà ("prova de nobreza"). Tal exigência aplicava-se particularmente às elites coloniais venezianas das regiões periféricas do império marítimo veneziano, como em Creta, importante colônia veneziana entre 1211 e 1669 e zona de fronteira entre as esferas de poder veneziana, bizantina e posteriormente otomana. Para os venezianos residentes em Veneza, a prova di nobiltà constituía apenas um rito formal de passagem para a vida adulta, confirmado pela família e pelos vizinhos; já para a elite colonial veneziana em Creta, os privilégios políticos e econômicos estavam associados aos privilégios sociais e, para a República, a existência de um patriciado local em Creta, ligado a Veneza por laços de fidelidade expressos através das linhagens familiares, possuía importância fundamental. Recrutamento para os patriciados