direita|thumb|250px|Capa da primeira edição “A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo”, é um livro do naturalista inglês Charles Darwin, que teve sua primeira edição publicada por John Murray, em 24 de fevereiro de 1871 no Reino Unido. A obra disserta sobre a teoria evolutiva, aplicando teorias importantes de Darwin como a seleção sexual e seleção natural. Além disso, o livro discute suas questões fazendo interfaces com diferentes áreas, incluindo psicologia evolucionista, ética evolutiva, musicologia evolutiva, diferenças entre raças humanas, diferenças entre sexos, o papel dominante das mulheres na escolha do parceiro e a relevância da teoria evolutiva para a sociedade.

Conteúdo do livro Publicada inicialmente em dois volumes em 1871, a "Descendência do Homem" trata de dois tópicos: a descendência ou origem do homem a partir de outras espécies, não sendo ele, portanto, uma criação especial; e o processo de seleção sexual, que ocorre, para Darwin, paralelamente ao processo de seleção natural. O plano inicial era que a obra consistisse em três partes, sendo a terceira sobre a expressão das emoções, mas esta acabou se separando e se tornando um livro independente publicado no ano seguinte. Na segunda edição da obra (1874), os três últimos capítulos, sobre a seleção sexual no ser humano, são separados como uma terceira parte do livro. No entanto, algumas reedições da obra tomam por base a primeira edição, devido ao hábito de Darwin de fazer revisões excessivas em resposta à crítica. Abaixo são resumidas as teses de Darwin sobre os dois grandes tópicos do livro.

Descendência do homem miniaturadaimagem|275x275px|Uma das muitas caricaturas feitas retratando Darwin como macaco, satirizando sua crença no parentesco do ser humano com este animal. Publicada na revista The Hornet em 1871. Na primeira parte da obra, a tese central de Darwin é que o homem descende de uma forma de vida menos organizada. Suas evidências provém da embriologia e da anatomia comparadas, por meio das quais observa as semelhanças entre as estruturas presentes no ser humano e em outras espécies de mamíferos. Disto conclui que todos esses seres devem descender do mesmo progenitor. O meio pelo qual se deu a evolução do homem é o mesmo que se aplica às outras espécies, ou seja, a seleção natural. O homem, como os outros animais, apresenta variações individuais herdáveis em seus caracteres físicos e mentais; como a população cresce mais rapidamente que seus meios de subsistência, os indivíduos precisam lutar por sua existência, ocorrendo a seleção natural. A partir destes princípios, Darwin descreve como imagina a evolução dos animais: dos Quadrumana (antiga classificação para alguns primatas, que incluiria um ancestral dos seres humanos) a um marsupial primitivo, e daí a um animal semelhante a um réptil ou anfíbio, chegando por fim, a outro semelhante a um peixe.

Darwin responde a objeções que buscam defender a excepcionalidade do homem apontando o quanto se diferencia dos outros animais pelas capacidades intelectuais, pela disposição moral e pela crença em Deus. Com relação às capacidades intelectuais, elas também são caracteres herdáveis e sujeitos à variação, de modo que a sobrevivência dos organismos mais inteligentes pode ser favorecida em um processo de seleção natural, seja no homem ou em outros animais. Algo semelhante é dito da disposição moral, que deriva essencialmente dos instintos sociais, especialmente da simpatia. Como esses instintos favorecem a sobrevivência dos grupos animais, devem ter sido adquiridos por seleção natural. Já a crença em Deus não pode ser usada como um diferenciador do ser humano em relação a outras espécies porque sequer é algo inato ou instintivo, não sendo compartilhado por todos os membros da espécie.

Seleção sexual Para Darwin, a seleção sexual é um mecanismo distinto da seleção natural (que dizia respeito especificamente à sobrevivência). Mais modernamente, a seleção sexual é vista como uma faceta da seleção natural. A seleção sexual se refere ao sucesso de alguns indivíduos sobre outros do mesmo sexo em assegurar a produção de descendentes. Ela se dá tanto por meio da disputa entre rivais (geralmente machos) por território e acesso aos membros do sexo oposto (geralmente as fêmeas) quanto por meio da disputa pela atenção dos membros do sexo oposto, que escolhem os indivíduos que mais lhes agrada. A atuação de um mesmo princípio em diferentes grupos animais explica a uniformidade que se observa nas diferenças sexuais em diversas espécies. Darwin nota que, embora em animais mais simples a seleção sexual não tenha produzido efeitos significativos (pois muitos são animais sésseis ou que não apresentam diferenciação sexual), os efeitos deste tipo de seleção são enormes entre os artrópodes e vertebrados. O autor observa que diferentes espécies seguem em larga medida o mesmo padrão: os machos precisam chamar a atenção das fêmeas e disputar com seus rivais; eles são maiores e mais fortes que as fêmeas, frequentemente mais adornados, coloridos, ou dotados de glândulas odoríferas específicas e órgãos capazes de produzir emissões vocais características. Os caracteres chamativos do sexo masculino se desenvolvem gradualmente, à medida que os machos que possuem os caracteres mais salientes são preferidos pelas fêmeas. O dimorfismo sexual resultante pode ser exemplificado com o caso do faisão-argus (Argusianus argus), que usa suas asas, que parecem adornadas com olhos, para atrair as fêmeas. O autor nota que a ideia de que as fêmeas de outras espécies tenham padrões de gosto tão semelhantes aos nossos pode gerar resistência, mas observa que as células nervosas de todos os vertebrados evoluíram a partir de um ancestral comum, de modo que não é estranho que possuam funções semelhantes e, assim, sejam excitadas pelos mesmos estímulos.miniaturadaimagem|237x237px|Macho de faisão-argus exibindo suas asas. Darwin teorizou que o padrão semelhante a olhos seria produzido por seleção sexual, para atrair as fêmeas.Darwin sustenta que os efeitos da seleção sexual que se passaram com os demais vertebrados também ocorreram ao ser humano. Assim, os homens se tornaram maiores, mais fortes, mais corajosos e combativos que as mulheres. Alguns efeitos mais específicos, como o surgimento da barba nos homens e a redução dos pelos nas mulheres, também teriam resultado da seleção de caracteres mais atraentes para o sexo oposto. A redução dos pelos nas mulheres teria ainda sido herdada por ambos os sexos, ocasionando a diminuição dos pelos na espécie em geral. O autor afirma também que essas mudanças devem ter sido produzidas em um passado remoto, em que o homem se guiava mais por suas paixões e menos pela razão, sendo esta uma época mais propícia para a ação da seleção sexual.

Recepção atual

Percepções de Darwin em "Descendência do Homem" reforçadas pela ciência contemporânea A obra de Darwin, "Descendência do Homem", completou 150 anos de sua publicação em 2021, o que levou a uma retomada da obra a partir do olhar, principalmente, das ciências naturais contemporâneas. Nesse sentido, o trabalho de Richerson, Gavrilets e Waal, levanta os três principais tópicos que se referem a contribuições da obra reafirmadas pela ciência atual: que os humanos são descendentes de uma forma orgânica preexistente; que a cultura foi importante para a evolução humana; e que a cooperação humana e moral evoluíram tendências de ajuda mútua e sacrifício.

O primeiro tópico desmistifica um distanciamento radical entre a existência humana e a existência de outros animais. A evolução humana tem um ponto em comum com outras espécies. Darwin, nesse sentido, coloca que entre seres humanos e outras espécies existe mais um distanciamento quantitativo que qualitativo. Dessa forma, Darwin desmistifica uma série de rupturas aparentemente incontornáveis entre humanos e outras animais, como a fabricação de ferramentas, a aprendizagem cultural e imitação, a empatia e pró-sociabilidade, o planejamento e previsão, a memória episódica e a metacognição. miniaturadaimagem|213x213px|Mãos de macacos - anatomia que não proporciona precisão nos movimentos. A antropologia oriental, nesse sentido, com o trabalho de Kinji Imanishi, reconhece em outros animais a transmissão de hábitos e de conhecimentos. A cultura não seria, dessa forma, uma ruptura entre animais não humanos e humanos. O que configura um salto da espécie humana em relação a outras diz respeito mais ao grau de complexidade dessa cultura e sua forma de transmissão. miniaturadaimagem|231x231px|Mãos humanas - cuja anatomia possibilita precisão nos movimentos. Questiona-se, porém, por que esse salto quantitativo da espécie humana no que diz respeito à cultura. Este teria a ver com a dependência humana da cultura para sua adaptação ao ambiente. Os processos de cooperação, por exemplo, parecem ser mais essenciais à sobrevivência humana que a outras espécies; e essa dependência específica contribui para o desenvolvimento de uma série de outras habilidades, como por exemplo a linguagem, essencial na complexificação da cultura. Pode-se dizer assim que o ser humano precisa do fator social e de cooperação para sua sobrevivência, e essa necessidade estimula, como em um ciclo, o desenvolvimento cultural humano. A cooperação humana foi um tema estudado por diversos antropólogos, dentre eles Kropotkin, que refuta com isso a noção de uma competição por uma seleção natural dos mais aptos: a sobrevivência humana se daria muito mais por uma propensão à cooperação do que pela competição.

As características desenvolvidas pelo ser humano que podem ser elencadas como resultado de uma alta dependência à cultura são: o desenvolvimento da linguagem, o bipedismo, a reprodução cooperativa, a culinária, modelos de transmissão da cultura, a seleção sexual para grandes cérebros etc.

Uma das explicações para o salto na evolução humana em relação a outras espécies com uma boa aceitabilidade na atualidade é a de que desenvolvemos mãos precisas o suficiente para a construção de ferramentas. O desenvolvimento manual das ferramentas seria um incentivador do crescimento do cérebro humano, conduzindo-nos a um caminho evolutivo que tende ao desenvolvimento da cultura.

Ainda em relação a importância da cultura para a evolução humana, a moralidade, as instituições e as normas sociais vão ser elencadas por Darwin como de grande importância: são essas formas de organização humana que sobrepõem os interesses sociais aos individuais e possibilitam a continuidade da espécie humana.

Seleção sexual e avanços científicos Desde a publicação de “A Descendência do Homem e a Seleção em Relação ao Sexo”, muitas descobertas foram feitas e críticas foram tecidas a respeito de como a visão pessoal de Darwin e de outros homens da época sobre “gosto” e beleza enviesou sua teoria de forma machista.

Para além disso, pesquisas que comprovaram que quase tudo pode ser um mecanismo para a escolha do parceiro de acasalamento, inclusive faculdade mental, contradizem a teoria de que a seleção sexual se daria de forma majoritariamente morfológica. E, vale ressaltar que outro avanço importante foi identificar que muitos dos parâmetros para escolha de parceiros não evoluíram devido a seleção sexual mas sim por necessidade em outros contextos. A preferência por determinadas cores em parceiros, por exemplo, pode ser um reflexo da evolução de determinados sensores de cor para alimentação ou segurança. No entanto, há casos em que isso pode ser prejudicial, o que pode ser chamado de conflito sexual, nesses casos, sensores desenvolvidos para predação ou busca por alimento se confundem e são levados à machos da mesma espécie, relação essa que é benéfica apenas para o macho, o qual atrai a fêmea sem grandes esforços, mas é prejudicial à fêmea que acaba por ter sua atividade de busca postergada por uma confusão sensorial.