Antônio Heliton de Santana (Santa Rita, 4 de agosto de 1950 - João Pessoa, 4 de setembro de 2011), mais conhecido como Heliton Santana foi um escritor, dramaturgo, diretor de teatro, ator, ativista social que lutava contra o preconceito racial e social, portador de uma mensagem de resistência da cultura dos oprimidos a todas as formas de desqualificação presentes na sociedade brasileira, e de defesa da construção de uma sociedade movida pela solidariedade.
Biografia. Antônio Heliton de Santana nasceu a 04 de agosto de 1950 no bairro do Cercado – depois bairro da Liberdade – na cidade de Santa Rita, situada na região metropolitana de João Pessoa. Filho de Severino Joaquim de Santana, mecânico de automóveis e motorista, e de Maria da Penha Santana, operária da Companhia de Tecidos Tibiri quando solteira, cursou desde o Ensino Primário até a conclusão do 2º. Científico, em 1971, no Colégio Estadual de Santa Rita. Em 1972, ingressou no curso de Enfermagem da UFPB, iniciando sua militância na Associação Universitária Santritense (AUS). Também naquele ano, iniciou sua vida como docente de Educação Artística no Colégio Augusto dos Anjos, onde criou seu primeiro grupo de teatro, o TELL (Teatro Luiza Lacet). Graduou-se em Enfermagem em 1975 e, no ano seguinte, fez uma especialização em “Aperfeiçoamento em Penitenciarisno”. Em 1979, fez concurso público para enfermeiro no Estado, e foi chamado para trabalhar no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira.
Ainda na década de 1970, conhece D. José Maria Pires, arcebispo da Paraíba de 1965 a 1995, com quem estabelece uma relação de pai e filho que permaneceu durante toda a sua vida. Em 1992, participou do grupo fundador, liderado por D. José Maria Pires, do Centro de Educação e Documentação Popular (CEDOP) e do Movimento de Teatro Popular (MTP) ao CEDOP vinculado. Prestou assessoria a várias associações e sindicatos vinculados à Igreja católica. Também sua militância no Movimento Negro se deu através da Igreja católica: no início da década de 1980, D. José Maria Pires patrocinou a vinda de São Paulo para a Paraíba de um representante do Grupo União e Consciência Negra, que assessorou Heliton na criação, em Santa Rita, do grupo Kumbi, formador dos Agentes Pastorais Negros (APN’s), que se inseriu no Movimento Negro da Paraíba, com Heliton exercendo a editoria, ao lado de Fátima Solange e do pe. Luiz Zadra, do jornal “Negra Voz”, primeiro jornal da imprensa negra na Paraíba, patrocinado pela arquidiocese da Paraíba. Participou como formador das pastorais do Índio, do Menor, da Juventude do Meio Popular, da Terra, e do Movimento dos Adolescentes e Crianças (MAC).
Em outubro de 1980, é celebrado seu casamento com Marta Lúcia das Chagas, nascida em Alagoa Grande/PB, em 24 de julho de 1958. A luta do casal pela valorização da cultura afro-indígena está expressa nos nomes dados às duas filhas do casal: Andila Nahusi e Caiala Nahahy (Caiala é um dos nomes de Iemanja e Nahahy significa “deusa morena”, em tupi-guarani).
TEATROMARQUES, Gêlda Karla da Silva. O TEATRO POPULAR DE HELITON SANTANA EM SANTA RITA (PB): memória cultural e atuação política a partir do TELL (Teatro, Luta e Libertação). Tese/UEPB, 2025,
Heliton Santana começou sua jornada no teatro na infância, no antigo Bairro do Cercado, atualmente conhecido como Liberdade, em Santa Rita-PB. Ele foi incentivado por alguns vizinhos que anualmente montavam um auto de Natal. Essas primeiras experiências, realizadas em um ambiente doméstico, gradualmente o introduziram no mundo do teatro. Em 1973, Heliton fundou o grupo TELL (Teatro Luiza Lacet – nome da professora de Língua Portuguesa do Ginásio em que Heliton foi professor), a partir da montagem do espetáculo “Brasil Caboclo” de Zé da Luz. Inicialmente, o grupo TELL produzia esquetes, performances de atores e pequenos espetáculos. No entanto, em 1978, o TELL passou a se autodenominar um grupo de Teatro Popular, adotando o nome "Teatro, Luta e Libertação", com o intuito de criar um teatro acessível às massas populares e promover discussões sobre direitos sociais com uma perspectiva política e engajada. O TELL apresentou inúmeros espetáculos, incluindo "Cristo nasceu" (1976-77), "Prostituição" (1982), "Descobrimento ou Invasão?" (1983), "Axé, Resistência Negra" (1985), "Alô, Alô, Brasil" (1986) e "Abandonados" (1987). “Axé, Resistência Negra”, foi filmado pela BBC de Londres, no Recife, em 1985. Os espetáculos eram apresentados gratuitamente, pois os integrantes acreditavam que o teatro popular era uma forma de militância que necessitava conscientizar a população carente e excluída sobre seus direitos. As cenas teatrais aconteciam em todo lugar: igreja, centro comunitário, escola, sítio, favela, margem de estrada. Para Heliton, “valia ir aonde o povo estivesse presente. Socializar o teatro, devolvendo-o ao povo, consistia numa das principais metas do grupo.” (SANTANA, 1999, apud LIMA, 2019, p. 135). Em 1989, o TELL foi dissolvido e Heliton Santana fundou o grupo "Anima-Ação". Neste grupo, Heliton criou e dirigiu diversos espetáculos, destacando-se "Nuestra América" e "De grão e grão a galinha enche o papo", que fizeram turnê na Itália em 1992 e 1995, respectivamente. Sua mulher, Marta Santana, escreveu e atuou no monólogo "Damas na vida", encenado na Bélgica em 1997.
Memorial Antônio Heliton Santana faleceu no ano de 2011 dia 4 de setembro, aos 61 anos, devido a uma doença renal crônica. Sua recém-viúva, Marta Santana, no final daquele ano, reuniu diversos documentos e objetos relacionados ao fazer cultural de Heliton, e alguns documentos pessoais dele, em diversos lugares da casa, e colocou-os em um grande baú. No baú, Heliton geralmente guardava os acessórios e figurinos utilizados nas encenações de seus grupos de teatro.
Esse acervo foi deixado aos cuidados do amigo da família, o professor Valdir Efun Lourenço e Lima de Santa Rita, do Departamento de Ciência da Informação da UFPB. Durante o período em que esteve sob sua guarda, o conteúdo do baú foi objeto de pesquisa que resultou na tese de doutoramento do professor Valdir, publicada em livro, em 2022, com o título “O arquivo pessoal de Heliton Santana como fonte de informação e memória: a militância social na Paraíba”.
A história do Memorial Heliton Santana tem início no ano de 2023, quando o Campus Santa Rita do Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB), através de sua Direção Geral, assume a curadoria do Acervo Pessoal de Heliton Santana. O acervo foi objeto de pesquisas que resultaram em 14 Dossiês em que foram descritas e identificadas um total de 1.514 peças: 205 objetos tridimensionais, 381 escritos, 178 sonoros, 750 imagens.
São documentos/objetos relacionados à militância de Heliton Santana no Movimento do Teatro Popular no Nordeste (MTP), nas décadas de 1970 a 2000; no movimento dos Agentes Pastorais Negros da Paraíba (APNs-PB), nas décadas de 1980 a 2000, nas associações e pastorais promovidas pela Arquidiocese da Paraíba quando à frente D. José Maria Pires (1965-1995) e, depois, D. Marcelo Pinto Carvalheira (1995-2004), através do Centro de Documentação Popular da Arquidiocese da Paraíba (CEDOP); além de objetos e documentos pessoais de Heliton Santana.
Em outubro de 2024, o Memorial Heliton Santana foi inaugurado com a exposição “O Teatro de Heliton Santana”, que permanece aberta à visitação do público no campus Santa Rita do IFPB, localizado na BR 230, KM 42, S/N, no bairro Popular da cidade de Santa Rita/PB. Em 10 de novembro de 2025, o MHS obteve seu Registro junto ao IBRAM. Mais informações sobre o Memorial Heliton Santana podem ser obtidas pelo Instagram @memorialhelitonsantana.
Heliton Santana viveu a vida sempre no coletivo e em coletivos abertos, com uma abertura e uma disponibilidade para o outro sempre criando associações, promovendo movimentos, fazendo parcerias. Colocava sempre uma condição: "o compromisso com a realidade vivida, com o sonho de bem-estar e felicidade coletiva e a combatividade do povo”.LIMA, V. O arquivo pessoal de Heliton Santana como fonte de informação e memória: a militância social na Paraíba. João Pessoa: Tese/UFPB, 2019.
Espetáculos
TEATRO ESTUDANTIL LUIZA LACET (TELL) - 1972
Brasil Caboclo, de Zé da Luz (1973)
TEATRO, LUTA E LIBERTAÇÃO (TELL) - 1976
Cristo Nasceu (1976) Canto e Recanto (1979) A Lapinha (1980) Prostituição (1982) Descobrimento ou Invasão? (1983) Axé, Resistência Negra (1985) Alô, Alô, Brasil (1986) Abandonados (1987) Axé (1988)
GRUPO DE TEATRO ANIMA-AÇÃO - 1989
Semeando Estrelas (1989) Nuestra America (1991) Bloco da Moradia (1993) De Grão em Grão a Galinha enche o Papo (1993) Desta Vez a Coisa Vai (1994) Daruê (1995) Vendedor de Sonhos (1998)