miniaturadaimagem|Capa Frontal do Jornal Folhetim do Zaire de 1982 Fundado em 10 de setembro de 1982 por Morency Teixeira, conhecido como “Moura do Cavaco”. O título do periódico remete ao antigo país africano do Zaire (atual República Democrática do Congo), a referência ao nome ganhou destaque entre grupos do movimento negro brasileiro após a Copa do Mundo de 1974, quando a partida entre Brasil e Zaire suscitou discussões sobre identidade racial e solidariedade com os povos africanos.REDAÇÃO. A esquina do Zaire e a data de Zumbi. Matinal Jornalismo, Porto Alegre, 27 maio 2021. Disponível em: Matinal Jornalismo. Acesso em: 8 set. 2026. Em Porto Alegre, a expressão “do Zaire” tornou-se associada a espaços de sociabilidade negra, sendo posteriormente adotada pelo jornal como elemento de identificação cultural e política. O periódico circulou durante a década de 1980 e destacou-se por abordar temas relacionados à cultura negra, à história afro-brasileira, à luta contra a discriminação racial e ao carnaval - muitas vezes, inclusive, incluía como subtítulo do folhetim os dizeres “informativo carnavalesco” ou “mini informativo do samba e do carnaval”, indicando sua inclinação à cultura do carnaval.
O surgimento do Folhetim do Zaire está relacionado ao renascimento dos Movimentos Negros e ao contexto de reabertura política de 1979 com a promulgação da Lei da Anistia. O jornal é integrante do conjunto da Imprensa Negra gaúcha composta pelos seguintes periódicos: O Exemplo (Porto Alegre, 1892-1930), A Cruzada (Pelotas, 1905), A Alvorada (Pelotas, 1907-1965), A Revolta (Bagé, 1925), A Navalha (Santana do Livramento, 1931), O Tição (Porto Alegre, 1978), o Folhetim do Zaire (Porto Alegre, 1982-2005), além dos informativos das Sociedades negras Floresta Aurora, Marcílio Dias e Satélite Prontidão e dos boletins de vários grupos militantes do Movimento Negro. O Folhetim do Zaire se manteve em atividade até 2006, porém direcionou seu interesse para a comunidade carnavalesca de São Leopoldo, tendo em vista que o editor fundador fixou residência na cidade.OLIVEIRA, Gênesis de. Imprensa negra gaúcha e redemocratização: trajetórias do Folhetim do Zaire. Revista Letras em Revista, Porto Alegre, v. 11, n. 2, p. 45-62, 2020.
Produzido artesanalmente, o jornal era datilografado e reproduzido através de mimeógrafos e copiadoras, bem como seu financiamento partia de seus próprios integrantes. No período, de 1982 a 1988, a diretoria do folhetim era composta por Waldemar Moura Lima (conhecido como “Pernambuco”), Odilon das Neves Vieira, Carlos Medina e Jorge Ramos, entre os editores assistentes estavam Bira Campos, Sérgio Cidade, Paulo Ricardo Moraes, Pernambuco e Jorge Ramos. A composição dos grupos de direção e edição reunia indivíduos atuantes nas discussões acerca da negritude, como Pernambuco e Paulo Ricardo Moraes, além de personalidades ligadas ao samba, a exemplo de Carlos Medina e Jorge Ramos.
Sua periodicidade era variável, embora seus organizadores buscassem publicá-lo semanalmente. A distribuição ocorria principalmente em locais de grande circulação da população negra de Porto Alegre, especialmente no centro da cidade, principalmente na esquina da Rua da Praia com a Avenida Borges de Medeiros, nas sextas-feiras à noite, lugar conhecido na cidade como Esquina Democrática, ou entre o movimento negro também chamado de Esquina do Zaire. Já o ponto de concentração dos organizadores do informativo era o bar do "Dudu", localizado na Galeria Pio XII, na Rua Vigário José Inácio esquina com a Rua General Vitorino.
O Folhetim do Zaire divulgava eventos culturais voltados à população negra, como festas Black, Funk e Break, atividades de escolas de samba, apresentações teatrais e iniciativas educacionais voltadas à comunidade afro-brasileira da cidade. O periódico também destacava o teatro negro como instrumento de conscientização política e fortalecimento das identidades afro-brasileiras. Um de seus principais temas era o resgate da história afro-brasileira, especialmente a valorização do Quilombo dos Palmares e da figura de Zumbi dos Palmares; o jornal defendia o reconhecimento do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, como símbolo da resistência negra e da luta contra o racismo. Segundo Roberto Santos sobre os jornais Folhetim do Zaire e Tição:SILVA, Mariana Gonçalves da. Entre esquinas, escadarias e encruzilhadas: corpografias negras urbanas. 2020. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social e Institucional) - Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2020. Disponível em: Repositório Digital Lume UFRGS. Acesso em: 8 set. 2026.
Considerado um importante artefato da imprensa negra gaúcha, o Folhetim do Zaire contribuiu para a valorização da cultura afro-brasileira e para a construção de espaços de representação e mobilização da comunidade negra em Porto Alegre durante os anos 1980.
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