Vale de Caracas, também referido historicamente como vale dos Caracas e, nas primeiras fontes coloniais, como vale de São Francisco, é a região de vales e encostas da Cordilheira da Costa onde se desenvolveu a cidade de Caracas. O seu núcleo histórico corresponde à área atravessada pelo rio Guaire, entre as serras que a separam do litoral e as elevações interiores que conduzem ao vale do Tuy. Foi um espaço central da ocupação indígena do centro-norte da actual Venezuela e, depois de meados do século XVI, da conquista e do povoamento colonial castelhano.

Denominação e delimitação

Na sua relação geográfica de 1578, o governador Juan de Pimentel chamou ao espaço onde se situava Santiago de León de Caracas «vale de San Francisco». Descreveu-o como uma campina com cerca de três léguas de comprimento e meia légua de largura, inclinada para sul, separada de Caraballeda por uma serra e marcada por um clima fresco, húmido e chuvoso.

Pimentel identificou o Guaire e o Tuy como os dois rios principais da província. Segundo a sua descrição, o Guaire passava junto da cidade de Santiago de León e acabava por se juntar ao Tuy, que recolhia grande parte das águas da região antes de desaguar no mar das Caraíbas.

A noção histórica de «região de Caracas» era mais ampla do que o vale estrito. Incluía o litoral central, os vales cordilheirenses, as zonas altas da Cordilheira da Costa e parte dos vales do Tuy, território que a historiografia designa como subárea de Caracas.

Geografia e clima

O vale de Caracas é um compartimento relativamente elevado, situado aproximadamente entre 800 e pouco mais de 1 000 metros de altitude. A altitude e a proximidade do equador explicam as temperaturas moderadas que historicamente levaram a que o clima de Caracas fosse descrito como uma «primavera perpétua», embora as condições variem de forma apreciável conforme a altitude, a exposição das encostas e o grau de urbanização.

A drenagem do vale organiza-se sobretudo em torno do rio Guaire, que atravessa a área urbana de oeste para leste e integra a bacia do Tuy. O vale é limitado a norte pelas vertentes meridionais do Waraira Repano e por outros relevos da Cordilheira da Costa, que o separam do litoral central venezuelano.

Os registos meteorológicos das estações de La Carlota, a 835 metros de altitude, e do Observatório Cagigal, a 1 035 metros, indicam temperaturas médias anuais de 21,9 °C e 20,8 °C, respectivamente, para o período de 1951 a 1980. A amplitude térmica anual é reduzida: nas mesmas séries, a diferença entre o mês mais quente e o mais fresco foi de 3,1 °C em La Carlota e de 2,8 °C no Observatório Cagigal.

A precipitação apresenta marcada sazonalidade. Nas séries de 1951 a 1980, a precipitação anual média atingiu 873 mm em La Carlota e 837 mm no Observatório Cagigal; a estação chuvosa estende-se em geral de maio a novembro, concentrando-se a maior parte da chuva entre agosto e novembro.

A expansão urbana modificou parcialmente as condições climáticas locais. Com base nos registos do Observatório Cagigal entre 1891 e 2000, um estudo citado por Foghin-Pillin identificou uma tendência de aumento da temperatura média anual de 0,34 °C por década, interpretada como manifestação de uma ilha de calor urbana.

Arqueologia e ocupação pré-colonial

Um estudo arqueológico recente assinala evidências de ocupação indígena pré-colonial em mais de trinta sítios do vale de Caracas, embora apenas uma parte reduzida tenha sido objecto de escavações sistemáticas.

No sítio de La Guairita, na periferia sudeste de Caracas, foram identificadas duas ocupações cerâmicas pré-coloniais. A mais antiga foi datada de cerca de 1700 a.C.; a outra, de aproximadamente 1440 d.C., indicando ocupação nas vésperas ou durante os primeiros tempos da invasão castelhana.

A arqueologia urbana também sugere que a fundação de Caracas incidiu sobre uma área antes ocupada por uma aldeia indígena nas encostas meridionais do Waraira Repano, aproximadamente na área delimitada pelas actuais esquinas de Carmelitas, Santa Capilla e Veroes.

Povos indígenas

A região era ocupada por várias comunidades indígenas que a documentação colonial designava como «nações» ou «parcialidades». A classificação não equivale necessariamente a grupos étnicos homogéneos no sentido contemporâneo, mas permite reconhecer distintas comunidades e territórios indígenas no momento da conquista.

Pimentel registou, entre outras, as designações caracas, toromaymas, aruacos, teques, guaiqueris, quiriquires, meregotos, mariches, taramas, guarenas, chagaragatos, esmeregotos e bauiracotos. Indicou que a designação «Caracas» fora aplicada pelos castelhanos à província porque os primeiros indígenas com quem contactaram pertenciam a uma «nação» costeira com esse nome.

Segundo a reconstrução de Izaskun Landa, os taramainas ocupavam o vale do Guaire; os mariches localizavam-se nas serranias a leste do vale até à foz do Guaire; os teques viviam junto das nascentes dos rios Valle, San Pedro e Macarao; os quiriquires ocupavam o Tuy médio; e os meregotos encontravam-se nas cabeceiras do Tuy. A autora enquadra estes grupos entre as populações de filiação linguística caribe da subárea de Caracas.

A própria cidade de Santiago de León foi fundada numa comarca que Pimentel denominou Toromayma. O governador registou também o topónimo indígena Catuchaquao para a área imediata da povoação, relacionado, segundo a sua explicação, com um curso de água local.

Pimentel afirmou que os indígenas da província falavam uma língua geral chamada «caraca», embora reconhecesse diferenças entre as várias «nações» e acrescentasse que se entendiam mutuamente.

Aldeias e subsistência

Segundo a relação de 1578, as comunidades indígenas não residiam em povoações grandes e permanentes, mas em bairros ou aldeias geralmente formados por três, quatro ou seis casas. Alguns desses conjuntos, embora separados entre si, constituíam povoações mais extensas.

A agricultura era complementada pela caça, pela pesca e pela recolha. As populações do interior trocavam alimentos por sal e peixe com as comunidades costeiras, revelando circuitos de intercâmbio entre os vales interiores e o litoral. Pimentel referiu cultivos e recursos como milho, mandioca, batata-doce, frutas, mel e árvores utilizadas para a produção de recipientes.

Primeiras tentativas de povoamento castelhano

As primeiras tentativas castelhanas de ocupação estável da região antecederam a fundação de Caracas. Pimentel relatou que Francisco Fajardo chegou ao litoral da província em 1558, acompanhado pela mãe, Isabel, indígena da ilha de Margarita, e por um pequeno grupo de homens. Segundo a relação, a capacidade de Isabel para comunicar com as populações locais facilitou inicialmente o contacto.

Em 1560, Fajardo estabeleceu a povoação de El Collado no local onde mais tarde se situaria Caraballeda. O governador Pablo Collado concedeu-lhe poderes para povoar, repartir terras e encomendar os indígenas da área.

Posteriormente, Juan Rodríguez Suárez entrou no vale, chamou-lhe vale de San Francisco e fundou uma povoação no mesmo local onde mais tarde seria estabelecida Santiago de León de Caracas. A iniciativa foi efémera: Rodríguez Suárez foi morto em combate por indígenas, e a força enviada sob o comando de Luis de Narváez também foi quase inteiramente derrotada.

Após esses confrontos, os habitantes castelhanos abandonaram a povoação de San Francisco. Fajardo retirou-se de El Collado para Margarita depois de sucessivos ataques e emboscadas, ficando a região novamente sob controlo indígena.

A investigação de Landa considera estas experiências antecessoras do povoamento de Caracas, distinguindo-as da ocupação iniciada em 1567, a primeira a manter continuidade territorial e institucional.

Conquista e fundação de Caracas

Em 1567, o governador Pedro Ponce de León nomeou Diego de Losada capitão e tenente-general para voltar a ocupar a região. Pimentel afirma que Losada entrou na província em Março desse ano com 136 castelhanos e restabeleceu as povoações anteriormente abandonadas: San Francisco passou a chamar-se Santiago de León e El Collado tornou-se Nuestra Señora de Caraballeda.

A data exacta da fundação de Santiago de León de Caracas não é conhecida por documento directo, sendo provável que tenha ocorrido entre Abril e Setembro de 1567; a tradição que aponta para 25 de Julho baseia-se na associação do nome Santiago à festividade do apóstolo, mas não há prova documental conclusiva para esse dia.

A ocupação castelhana não encerrou imediatamente a resistência indígena. Em 1568, Guaicaipuro reuniu chefes da região de Caracas na savana de Maracapana para atacar Santiago de León, mas as forças de Losada venceram o confronto. Pouco depois, Francisco Infante foi encarregado de capturar Guaicaipuro, que morreu durante a operação.

A resistência dos mariches prolongou-se. Depois da tomada de posse de Diego de Mazariegos como governador, em Dezembro de 1570, foi organizada uma expedição de oitenta homens contra esse grupo. O cacique Tamanaco foi capturado após combates com a força dirigida por Pedro Alonso Galeas e Garci González de Silva, acabando condenado e morto.

Repartimentos de terras e encomiendas

A fundação da cidade foi acompanhada pelo repartimento de terras e solares entre os conquistadores e primeiros moradores. Segundo Landa, entre 1567 e 1572 foram concedidas 1 449 fanegadas de terra a vinte e cinco vizinhos, concentradas sobretudo nas veigas férteis do Guaire, nas suas quebradas tributárias e nas margens do rio Valle.

Os repartimentos prosseguiram à medida que diminuía a resistência indígena. Até 1599, a investigação de Landa contabiliza 6 291 fanegadas atribuídas a sessenta e quatro proprietários, abrangendo os vales e ribeiras do Guaire e, a partir de 1592, áreas do Tuy.

Um documento de repartição de 1568, analisado por Landa, permite observar que as terras indígenas não cultivadas eram tomadas e redistribuídas pelo cabildo aos primeiros conquistadores e vizinhos. O texto previa que os indígenas presentes conservassem apenas as terras necessárias ao seu sustento.

A conquista esteve, assim, ligada à instituição da encomienda. Os indígenas submetidos eram repartidos entre encomenderos, que obtinham a sua força de trabalho para a agricultura, a criação de gado e outras actividades económicas, sob a obrigação formal de assegurar instrução cristã e protecção.

Pimentel calculou, em 1578, que existiriam entre sete e oito mil indígenas em toda a província de Caracas, dos quais cerca de quatro mil se encontrariam nas proximidades de Santiago de León e Caraballeda. A estimativa não se refere apenas ao vale, mas ao conjunto da província então descrita.

O governador atribuiu a diminuição populacional às epidemias de varíola, sarampo, disenteria e constipações, às guerras de conquista e ao trabalho exigido pelos castelhanos.

Em 1580, uma epidemia de varíola e sarampo atingiu o vale de Caracas. A doença, relacionada a um navio negreiro português fundeado diante de Caraballeda, matou mais de metade da população indígena da área.

Doutrinas e povos de índios

A partir da década de 1570, as encomiendas da região foram agrupadas em torno de doutrinas itinerantes de evangelização. Segundo Landa, a chegada de frades franciscanos solicitada por Mazariegos e a organização promovida pelo bispo Pedro de Ágreda contribuíram para a formação destas unidades religiosas e administrativas.

Em 1579, a população indígena da jurisdição de Caracas era estimada entre seis e sete mil pessoas, distribuídas por cinquenta ou sessenta encomiendas. Em 1582, o bispo Juan Martínez de Manzanillo referia a existência de oito ou nove doutrinas, das quais apenas cinco ou seis dispunham de assistência espiritual regular.

Estas doutrinas serviram de base para a posterior fundação de povos de índios. Na jurisdição de Caracas, este processo abrangeu, entre outros, Petare, Baruta, El Valle, La Vega e Antímano.