O coletivo Kiss: Que Não Se Repita é uma associação brasileira fundada em 2013 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e formalizada como pessoa jurídica em 2025. É formado por sobreviventes e amigos de vítimas do incêndio na Boate Kiss. Atua na preservação da memória do incêndio e em ações de prevenção de incêndios e desastres em locais de grande circulação.
História O coletivo foi criado em Dezembro de 2013 por André Polga, amigo de duas vítimas fatais do incêndio. Inicialmente, surgiu como um grupo virtual de mobilização entre amigos de vítimas do incêndio. Com o passar do tempo, passou a atuar em campanhas educativas, ações de memória, organização de eventos, produção de conteúdo informativo e debates sobre políticas públicas relacionadas à prevenção de tragédias.
Em 2025, o coletivo passou a ter personalidade jurídica e registro no Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ).
Atuação Entre as principais frentes de atuação do Coletivo, estão:
Preservação da memória das vitimas do incêndio da Boate Kiss; Campanhas de conscientização sobre segurança em locais de reunião de público; Divulgação de informações sobre prevenção de incêndios; Realização de debates sobre memória coletiva, saúde mental e responsabilização; Participação em iniciativas voltadas ao aperfeiçoamento de políticas públicas de prevenção.
Desde sua criação, o coletivo atua frente a campanhas anuais durante o mês de janeiro e desenvolve ações educativas em espaços públicos e nas redes sociais. As ações do coletivo incluem campanhas de comunicação, exposições, intervenções urbanas, eventos educativos, palestras e produção de conteúdo em plataformas digitais.
O coletivo também atua no apoio a sobreviventes, familiares e amigos de vítimas em ações relacionadas à busca por justiça e documentação do caso.
Semana de Memória às Vítimas A Semana de Memória às Vítimas da Tragédia da Boate Kiss é uma semana oficial do município de Santa Maria, realizada anualmente entre 21 e 27 de Janeiro. Instituída pela Lei Municipal nº 6.839/2023, a iniciativa foi proposta pelo Coletivo e construída em conjunto com vereadora Marina Callegaro, sendo incorporada ao Calendário Oficial do Município. A legislação estabelece como lema "Lembrar para não repetir" e determina atividades de memória e prevenção de incêndios.
Entre os objetivos previstos na lei estão a realização de atos públicos, seminários, painéis, palestras, além de ações de conscientização sobre prevenção e combate a incêndios, debates sobre fiscalização de espaços públicos e privados e atividades voltadas à saúde mental de sobreviventes, familiares e pessoas afetadas por catástrofes. A semana também incentiva a formação de uma cultura de prevenção, estimulando futuras gerações a compreenderem as causas da tragédia e a exigirem condições adequadas de segurança nos ambientes que frequentam.
A primeira edição da Semana de Memória ocorreu em janeiro de 2024, reunindo uma programação organizada pelo Coletivo Kiss: que não se repita, pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, pela Prefeitura Municipal de Santa Maria e por outras instituições. Entre as atividades estiveram intervenções urbanas, exposições, homenagens às vítimas, debates públicos e campanhas educativas voltadas à prevenção de novas tragédias.
Desde sua criação, a Semana de Memória tornou-se o principal marco anual das ações desenvolvidas pelo Coletivo Kiss: que não se repita, servindo como plataforma para o lançamento de projetos como Eu Não Sou Apenas um Número (2024), Sobrevivi para Contar (2025) e Alerta Kiss (2026), todos voltados à preservação da memória, à educação e à prevenção de desastres.
Projetos Ao longo de sua trajetória, o coletivo desenvolveu campanhas e projetos voltados à preservação da memória, à promoção de saúde mental, à educação para prevenção e à conscientização pública sobre os impactos da tragédia. Entre as campanhas realizadas pelo coletivo, destacam-se:
Janeiro Branco - Sobreviventes da Kiss (2020) Janeiro Branco - Sobreviventes da Kiss é uma campanha de conscientização sobre saúde mental desenvolvida pelo Coletivo Kiss: que não se repita e lançada em janeiro de 2020, em alusão ao movimento nacional Janeiro Branco e ao sétimo aniversário do incêndio da Boate Kiss. A iniciativa tratou dos impactos psicológicos de longo prazo do incêndio, dando visibilidade às experiências de sobreviventes e incentivando a busca por acolhimento e cuidado em saúde mental.
A campanha reuniu sobreviventes do incêndio em uma série de retratos fotográficos acompanhas por relatos pessoais, em materiais audiovisuais, sobre as consequências emocionais e físicas da tragédia. As imagens foram produzidas voluntariamente pelo fotógrafo Derli Soares Júnior e retratavam sobreviventes que conviveram com sequelas físicas e psicológicas decorrentes do incêndio, abordando temas como queimaduras, trauma, ansiedade, depressão, estresse pós0traumático, resiliência e reconstrução da vida após o incêndio.
As imagens da campanha foram apresentadas nas redes sociais do coletivo e também no Corredor Arte do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas, onde permaneceram abertas à visitação pública entre janeiro e fevereiro de 2020. O projeto ganhou repercussão nacional por meio de reportagens em veículos de imprensa e foi posteriormente retratada na minissérie Todo Dia a Mesma Noite, produzida pela Netflix e inspirada no livro homônimo de Daniela Arbex.
O projeto atuou na conscientização à sociedade sobre a importância do acompanhamento psicológico de longo prazo para pessoas afetadas por desastres e reforçou a necessidade de políticas públicas voltadas à assistência integral às vítimas e sobreviventes. A iniciativa também contribuiu para ampliar as discussões sobre as consequências invisíveis do incêndio, destacando que seus impactos permanecem mesmo anos após o incêndio.
100 meses sem justiça (2021) Ação desenvolvida em parceria com a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), voltada à preservação da memória e à cobrança por responsabilização. A iniciativa recebeu divulgação institucional da Câmara dos Deputados.
Tempo Perdido (2023) Projeto de memória desenvolvido para as atividades que marcaram os dez anos do incêndio. A iniciativa utilizou recursos de inteligência artificial para projetar como estariam, uma década depois, algumas das vítimas fatais do incêndio, propondo uma reflexão sobre o futuro interrompido, a ausência e a responsabilidade coletiva diante do desastre.
A campanha foi apresentada oficialmente em 27 de Janeiro de 2023, durante a programação organizada pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM), pelo Coletivo Kiss: que não se repita e pelo Eixo Kiss do Coletivo de Psicanálise de Santa Maria, como parte das atividades alusivas aos dez anos do incêndio.
Por meio da reconstrução digital das vítimas, o projeto estimulou o debate sobre as vidas interrompidas pelo incêndio reforçando a importância da preservação da memória como instrumento de prevenção e responsabilização social.
Eu não sou apenas um número (2024) O projeto apresentou formas de humanizar as 242 vítimas fatais do incêndio da Boate Kiss, reforçando que cada uma delas possuía uma história, família, sonhos e vínculos afetivos, em contraposição ao tratamento estatístico frequentemente dado ao incêndio. A mensagem central do projeto foi sintetizada na frase "Eu não sou apenas um número".
Durante a semana, o coletivo realizou intervenções urbanas em locais simbólicos da cidade, instalando placas com fotografias e informações sobre vítimas da tragédia. As ações ocorreram em espaços de grande circulação e que foram cenário do fatídico dia 27 de Janeiro, como a antiga sede da Boate Kiss, a Praça Saldanha Marinho, o Centro Desportivo Municipal, o Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo e a Avenida Rio Branco, estimulando a reflexão sobre memória, prevenção e responsabilidade coletiva.
O conceito do projeto também foi difundido nas redes sociais do coletivo por meio de textos produzidos por sobreviventes. Um dos textos afirma que "todo número é o filho de alguém", destacando que as vítimas não deveriam ser reduzidas à quantidade de mortos registrada no incêndio.
A iniciativa integrou a programação oficial da Semana de Memória às Vítimas da Tragédia da Boate Kiss, instituída pela Lei Municipal nº 6.839/2023, de autoria da vereadora Marina Callegaro e construída em conjunto com o Coletivo Kiss: que não se repita.
Sobrevivi para Contar (2025) Projeto de memória e conscientização lançado em janeiro de 2025, por ocasião dos doze anos do incêndio na Boate Kiss. A iniciativa reúne fotografias e relatos de sobreviventes, famílias e pessoas diretamente atingidas pelo incêndio, preservando suas histórias e ampliando o debate público sobre memória, trauma, justiça e prevenção.
A exposição foi apresentada inicialmente em Santa Maria e posteriormente passou a circular por espaços públicos institucionais, incluindo câmaras municipais e a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. As fotografias produzidas por Eduardo Ramos, são acompanhadas por narrativas dos participantes, abordando as consequências físicas, emocionais e sociais da tragédia.
O projeto deu visibilidade às experiências de quem permaneceu vivo após o incêndio, contribuindo para que a memória da tragédia seja compreendida para além dos números de mortos e feridos, reforçando a importância da prevenção de novos desastres e da preservação dos direitos das vítimas.
Alerta Kiss (2026) Alerta Kiss é um projeto permanente de prevenção criado pelo Coletivo e lançado em 27 de Janeiro de 2026, durante as atividades que marcaram os treze anos do incêndio. A iniciativa consiste em um canal destinado ao recebimento de denúncias sobre irregularidades relacionadas à segurança em casas noturnas, bares, shows e demais locais de reunião de público no estado do Rio Grande do Sul.
O projeto permite o envio de relatos, inclusive de forma anônima, sobre situações que possam representar risco à integridade física do público, como saídas de emergências obstruídas, superlotação, ausência de equipamentos de combate a incêndio e outras conformidades. Além do canal de denúncias, o Alerta Kiss desenvolve ações de orientação à população sobre direitos dos consumidores, prevenção de incêndios e cultura da segurança.
O lançamento do projeto foi destacado como uma das principais iniciativas da programação oficial dos treze anos da tragédia, representando a ampliação da atuação do coletivo para uma frente permanente de prevenção. O projeto incentiva a participação da sociedade na identificação de riscos e contribuir para evitar que novas tragédias semelhantes à da Boate Kiss se repitam.
Repercussão
Cobertura da Imprensa O coletivo foi citado por veículos de comunicação brasileiros como BBC, G1, Zero Hora e Diário de Santa Maria em reportagens sobre memória e prevenção de incêndios. Em 2025 e 2026, manifestações públicas da organização sobre tragédias semelhantes ocorridas no exterior repercutiram na imprensa nacional, que destacou seus posicionamentos sobre padrões recorrentes de negligência em estabelecimentos de entretenimento.
Produção acadêmica A atuação do coletivo também foi analisada em pesquisas acadêmicas nas área de Comunicação, História, Memória Social e Ciências Sociais, especialmente em temas sobre memória coletiva, ativismo de vítimas, comunicação digital e justiça memorial relacionadas ao incêndio da Boate Kiss. Dissertações, teses e artigos científicos de universidades brasileiras analisam o coletivo como um dos atores envolvidos na preservação da memória da tragédia e na mobilização social por justiça e prevenção.
Legado