As quatros partes do mundo: História de uma mundialização (no original: Les quatre parties du monde: histoire d’une mondialisation), do historiador francês Serge Gruzinski. Suas obras abordam as múltiplas facetas da colonização espanhola na América, particularmente aquelas ligadas ao estudo da história do México.O livro foi publicado pela primeira vez em 2004 pela Éditions de La Martinière e em 2014 foi publicado em conjunto pelas editoras UFMG/ edusp. O livro está dividido em quatro partes: I) Mundialização ibérica; 2) Cadeia dos mundos; 3) As coisas do mundo; e 4) A esfera de cristal. Possui gama generosa de ilustrações, mapas e fotografias de objetos dos séculos XVI e XVII.

Prólogo No prólogo, Gruzinski utiliza eventos contemporâneos, como os atentados às Torres Gêmeas e a procissão da Virgem de Nazaré em Belém do Pará, para refletir sobre a mundialização. Ele questiona como se estabelecem as relações entre diferentes povos e culturas, destacando que a mundialização gera não apenas mestiçagens, mas também desigualdades e barreiras. Ao focar na Amazônia, Gruzinski propõe descentralizar o olhar, ampliar a perspectiva além da Europa e dos Estados Unidos, direcionando o olhar para uma periferia frequentemente vista como um inesgotável reservatório de exotismo e primitivismo, argumentando que a compreensão da mundialização deve ser abordada a partir de regiões como Brasil, México, África e Ásia. Para ele, a História é uma ferramenta fundamental para entender esses processos e mostrar que a mundialização tem antecedentes muito anteriores ao mundo contemporâneo.

Descrição da obra A obra de Gruzinski se divide em quatro partes. Na primeira, "A mundialização ibérica” (entre os capítulos 1 e 3), o autor associa intimamente o conceito de "modernização" à noção de "modernidade". A mundialização no seu entendimento se refere à escala planetária dos horizontes de atuação e às interconexões humanas, construído sob o marco da dominação dos continentes pela monarquia católica colonial. Esse processo também foi marcado pela formação de sociedades mestiças e pela interação entre diferentes culturas, adaptações, mestiçagem e resistências. alt=|miniaturadaimagem|417x417px|Único exemplar do mapa de Waldseemüller que mostra o novo continente haviam descoberto, em reconhecimento a percepção de Vespúcio, Waldseemüller batizou o novo continente de "América" e mudou a compreensão europeia de um mundo dividido em três partes para um mundo dividido em quatro partes Na segunda parte “A cadeia dos mundos” (capítulos 4 a 6), o autor mostra como essas conexões ocorreram na prática, destacando cidades como Cidade do México, Lima, Potosí e Goa. Esses espações tornaram-se centros onde culturas diversas conviviam, se misturavam e também entravam em conflito. A mestiçagem cultural, linguística e social parece como uma característica importante desse período, embora as desigualdades e a exploração dos povos colonizados permanecessem presentes.

Na terceira parte “As coisas do mundo” (capítulos 7 a 11), Gruzinski analisa o papel de viajantes, religiosos, administradores e intelectuais que produziram conhecimentos sobre os territórios conquistados. esses saberes ajudavam a administrar o império e reforçava o domínio da coros e da igreja. Ao mesmo tempos demonstrava um contato constante com outras culturas, ainda que esse contato fosse limitado pelos interesses coloniais.

Na quarte e última parte “A esfera de cristal” (capítulos 12 a 16), o autor demonstra os limites da mestiçagem. Apesar das trocas culturais, a cultura europeia continuava ocupando uma posição dominante. Elementos indígenas eram frequentemente adaptados aos padrões ocidentais, revelando que a mundialização também foi um processo de ocidentalização.

Comentários sobre a obra Além de apresentar uma proposta inovadora ao defender uma história conectada, de acordo com o Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, a obra de Serge Gruzinski também desperta reflexões importantes. Um dos seus maiores méritos seria romper com a visão de história limitada às fronteiras nacionais, mostrando que os acontecimentos dos séculos XVI e XVII só podem ser compreendidos a partir das relações estabelecidas entre Europa, África, Ásia e América.

De acordo com o Boletim, contudo, a obra dedica pouca atenção às relações de trabalho que sustentaram essa mundialização. Sistemas como a escravidão africana e outras formas de exploração aparecem apenas de maneira secundária, embora tenham sido fundamentais para a manutenção do império ibérico e para o funcionamento da economia colonial. Esse é um limite importante, pois compreender a mundialização também exige compreender as formas de exploração que a tornaram possível.

Outro aspecto que chama atenção é a ênfase dada à Nova Espanha, especialmente à Cidade do México, que recebe muito mais destaque do que outras regiões da América, provavelmente porque seus estudos são em grande parte voltados para a história do México. Ainda assim, isso não diminui a importância do livro, que oferece uma interpretação consistente sobre as conexões globais e contribui significativamente para os estudos de História Global.

Referências

Categoria:Escritores Categoria:História Categoria:Livro