Cyphocharax muyrakytan é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, descrita em 2018 e endêmica da bacia do baixo rio Tapajós, no estado do Pará. Seu nome específico faz referência aos muiraquitãs, amuletos associados aos povos indígenas da Amazônia, especialmente à antiga cultura tapajônica. Pertence ao gênero Cyphocharax, o mais diverso da família, cuja monofilia permanece objeto de debate entre os especialistas. A espécie distingue-se de seus congêneres pela combinação de corpo relativamente alongado, perfil dorsal quase retilíneo e coloração predominantemente clara e prateada, sem manchas ou faixas escuras conspícuas no corpo ou nas nadadeiras.

De pequeno porte, alcançando cerca de 5,7 centímetros de comprimento padrão, C. muyrakytan habita lagos e tributários de planícies sazonalmente inundadas associados a florestas de igapó. Ocorre tanto em ambientes de águas negras do rio Arapiuns quanto em águas claras do rio Tapajós, em águas ácidas e de baixa condutividade. Embora pouco se saiba sobre sua biologia, a espécie não é considerada migratória e é descrita como frequente e abundante em sua área de ocorrência. Atualmente, não existem informações detalhadas sobre sua alimentação, reprodução ou comportamento.

A situação de conservação da espécie é interpretada de maneira distinta em avaliações nacionais e globais. A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) a classifica como Em Perigo devido à sua distribuição restrita e às potenciais ameaças associadas à implantação de hidrelétricas, à mineração e ao desmatamento na bacia do Tapajós. Em contraste, a avaliação mais recente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) considera a espécie Menos Preocupante, destacando sua abundância local, a ausência de ameaças imediatas identificadas e sua ocorrência em áreas protegidas da Amazônia brasileira.

Etimologia

O nome genérico Cyphocharax deriva do grego kýphos (), que significa “curvado” ou “corcunda”, e chárax (), nome aplicado na Antiguidade a um peixe marinho não identificado. O epíteto específico muyrakytan deriva do tupi muyrakytã, aportuguesado como muiraquitã, denominação de um amuleto empregado por povos indígenas do vale amazônico, especialmente pelos integrantes da extinta cultura tapajônica. Esses objetos eram geralmente esculpidos em pedra verde, apresentavam com frequência a forma de um sapo sentado e possuíam valor simbólico e ritual. O nome foi escolhido em referência à região do baixo rio Tapajós, onde a espécie ocorre, e constitui um substantivo em aposição, mantendo-se invariável em relação ao gênero gramatical do nome genérico.

Taxonomia

Cyphocharax muyrakytan é uma espécie de peixe caraciforme da família dos curimatídeos, pertencente ao gênero Cyphocharax. Foi descrita em 2018 por Gustavo C. Bortolo, Flávio C. T. Lima e Bruno F. Melo com base em exemplares provenientes da bacia do baixo rio Tapajós, incluindo o rio Arapiuns, no estado do Pará. À época da descrição, Cyphocharax reunia 42 espécies válidas e constituía o gênero mais diverso dos curimatídeos, compreendendo mais de um terço das espécies conhecidas da família. Apesar dessa diversidade, análises filogenéticas morfológicas anteriores não haviam identificado sinapomorfias que sustentassem de maneira inequívoca a monofilia do gênero, e estudos posteriores também recuperaram Cyphocharax como um agrupamento possivelmente não monofilético. O holótipo, catalogado como ZUEC 14100, mede 54,3 milímetros de comprimento padrão e foi coletado em 13 de fevereiro de 2015 em um lago situado aproximadamente dois quilômetros ao norte da comunidade de Santa Sofia, no rio Arapiuns, município de Santarém, Pará. A série de parátipos compreende mais de uma centena de exemplares depositados em diferentes coleções ictiológicas, provenientes da mesma localidade e de outros ambientes do baixo Tapajós e do Arapiuns, incluindo o igarapé Mato Grosso, na comunidade de Jaguarari; o igarapé Dominguinho, na comunidade de Piquiatuba; o igarapé Capixaua ou Vista Alegre; e um lago situado em Arapiranga. Os exemplares examinados apresentam entre aproximadamente 30 e 58,9 milímetros de comprimento padrão.

A espécie foi reconhecida principalmente pela combinação entre a coloração corporal clara e prateada, a ausência de faixas ou manchas escuras conspícuas no corpo e nas nadadeiras, o perfil dorsal e ventral quase retilíneo e determinadas características merísticas e morfométricas. Os autores consideraram que C. muyrakytan provavelmente integra um agrupamento de espécies de Cyphocharax caracterizado pela ausência de pigmentação escura no corpo e nas nadadeiras, embora essa hipótese tenha sido baseada em estudos filogenéticos ainda não publicados à época. Entre os congêneres de aparência mais semelhante estão C. festivus, C. leucostictus, C. nigripinnis e C. plumbeus, sendo as duas últimas registradas em simpatria com a nova espécie no baixo Tapajós. Durante as comparações taxonômicas, os autores também observaram dificuldades na separação entre C. festivus e C. plumbeus. Diversos exemplares anteriormente identificados como C. festivus no Tapajós e em outras áreas da Amazônia central não apresentavam os caracteres morfométricos atribuídos a essa espécie, aproximando-se de C. plumbeus. Por essa razão, a ocorrência de C. festivus nas porções central e oriental da Amazônia, incluindo a bacia do Tapajós, foi considerada duvidosa, e os autores recomendaram estudos que combinassem dados morfológicos e moleculares para esclarecer os limites entre as duas espécies ou entre as linhagens integrantes desse possível complexo taxonômico.

Diagnose

Cyphocharax muyrakytan distingue-se da maioria das espécies do gênero pela ausência, nos adultos, de faixas longitudinais, manchas escuras sobre o corpo ou marcas pigmentadas na superfície lateral do pedúnculo caudal, bem como pela ausência de pigmentação escura nas nadadeiras dorsal e adiposa. Esse padrão de coloração clara e uniforme também ocorre em C. abramoides, C. aspilos, C. derhami, C. festivus, C. leucostictus, C. magdalenae, C. microcephalus, C. pinnilepis, C. plumbeus e C. stilbolepis, das quais a espécie pode ser separada por diferenças na escamação, nas proporções corporais e em caracteres particulares de pigmentação. A espécie possui entre 35 e 38 escamas perfuradas na linha lateral, com média de 36, desde o supracleitro até a articulação hipural. Essa contagem é inferior às 77–97 escamas de C. abramoides, às 39–45 de C. leucostictus e às 54–62 de C. stilbolepis, mas superior às 29–33 de C. festivus, às 29–32 de C. microcephalus e às 30–34 de C. plumbeus. Distingue-se de C. derhami pela ausência de uma faixa escura estendida da porção posterior da órbita até a margem posterior do opérculo e de C. pinnilepis pela ausência de campos de escamas sobre os lobos da nadadeira caudal. Separa-se de C. aspilos e C. magdalenae pela menor largura interorbital, equivalente a aproximadamente 25–33% do comprimento da cabeça, contra 47–52% e 43–47%, respectivamente. Cyphocharax muyrakytan é particularmente semelhante a C. nigripinnis quanto às proporções corporais e à coloração geral. Entretanto, C. nigripinnis apresenta uma mancha escura bem definida na extremidade da nadadeira adiposa, ausente em C. muyrakytan, além de possuir perfil dorsal mais convexo e corpo proporcionalmente mais alto. A altura corporal corresponde a 23,6–28,7% do comprimento padrão em C. muyrakytan, com média de 26,7%, enquanto em C. nigripinnis varia entre 27,7 e 32,3%, com média de 30,6%. C. plumbeus e C. festivus também apresentam corpos mais altos, com médias de aproximadamente 29,5% e 31,1% do comprimento padrão, respectivamente. Assim, o perfil corporal quase retilíneo e a baixa altura relativa do corpo constituem alguns dos caracteres mais distintivos da espécie.

Descrição

Cyphocharax muyrakytan apresenta corpo relativamente alongado e moderadamente comprimido lateralmente. A maior altura corporal corresponde a 23,6–28,7% do comprimento padrão. O perfil dorsal da cabeça é suavemente convexo desde a margem do lábio superior até a vertical que passa pelas narinas anteriores, tornando-se quase reto desse ponto até a extremidade do processo supraoccipital. O perfil dorsal do corpo é reto ou apenas discretamente convexo entre o processo supraoccipital e a origem da nadadeira dorsal, inclina-se posteroventralmente ao longo da base dessa nadadeira e permanece reto a ligeiramente convexo até a origem da nadadeira adiposa. Entre a adiposa e os raios procorrentes dorsais da caudal, torna-se levemente côncavo. O perfil ventral é suavemente convexo ou quase reto desde a extremidade da mandíbula até a origem da nadadeira anal, enquanto a superfície ventral do pedúnculo caudal é ligeiramente côncava. A combinação entre os perfis dorsal e ventral quase retos confere à espécie uma forma corporal incomum entre seus congêneres, que normalmente apresentam contornos mais convexos. A superfície dorsal do corpo apresenta uma quilha mediana pouco evidente anteriormente à nadadeira dorsal e torna-se transversalmente arredondada atrás de sua base. A região anterior às nadadeiras pélvicas é levemente achatada no sentido transversal e possui uma série mediana de escamas de tamanho semelhante ao das escamas ventrolaterais adjacentes. A porção posterior às pélvicas é transversalmente arredondada. O comprimento da cabeça representa 25,1–31,8% do comprimento padrão, com média de 27,1%. Vista lateralmente, a cabeça é algo pontiaguda em seu contorno geral, mas arredondada na região da boca e do focinho. A mandíbula superior é mais longa que a inferior e a boca é ligeiramente subterminal. As narinas encontram-se muito próximas entre si; a anterior é circular a oval e a posterior possui forma crescente, sendo separadas por uma fina dobra de pele.

A pálpebra adiposa é bem desenvolvida e estende-se posteriormente até a região anterodorsal do opérculo. Sua abertura, situada sobre o centro do olho, possui formato verticalmente ovalado. Nos exemplares maiores, a abertura é proporcionalmente menor porque a pálpebra recobre parcialmente as regiões anterior e posterior da pupila. O diâmetro da órbita corresponde a 29,7–37,5% do comprimento da cabeça, o comprimento do focinho a 25,4–35%, a largura interorbital a aproximadamente 25,7–37,7% e o comprimento pós-orbital a 34–43,8%. A linha lateral é completa e todas as suas escamas apresentam poros ligados a um canal laterossensorial primário reto. Existem entre 35 e 38 escamas perfuradas desde o supracleitro até a articulação hipural, seguidas por duas escamas perfuradas sobre a base da nadadeira caudal. Ocorrem seis fileiras transversais de escamas entre a origem da dorsal e a linha lateral e geralmente cinco entre a linha lateral e a origem da anal, embora ocasionalmente possam ocorrer quatro ou seis. Entre o ânus e a origem da nadadeira anal existem duas ou três escamas. A série mediana dorsal, entre a extremidade posterior do processo supraoccipital e a origem da dorsal, compreende onze ou doze escamas. As escamas da porção anterior do corpo possuem tamanho semelhante ao das situadas na região posterior do pedúnculo caudal e diminuem ligeiramente em direção às extremidades do corpo.