Os tamimitas ou Banu Tamime (), também conhecidos simplesmente como Tamim, foram uma vasta confederação tribal árabe pertencente ao ramo modarita dos adenanitas, descendente de Tamime ibne Murra. Constituíram um dos maiores e mais influentes agrupamentos tribais da Arábia durante o período pré-islâmico e os primeiros séculos do islão, ocupando extensas áreas do Négede, de Iamama, do Barém e das regiões vizinhas ao golfo Pérsico. Divididos em numerosos ramos e subclãs, os tamimitas mantiveram estreitas relações políticas, comerciais e militares com os lacmitas de Hira, o Império Sassânida e os coraixitas de Meca. Sua economia baseava-se principalmente na pecuária nômade e seminômade, embora muitos de seus membros também se estabelecessem em oásis e aldeias da Arábia oriental, participando ativamente do comércio regional e da administração de importantes mercados. Durante a vida de Maomé, diferentes ramos da confederação adotaram posições distintas diante do islão, participando tanto das delegações enviadas ao profeta quanto dos acontecimentos das Guerras da Apostasia. Posteriormente, destacaram-se nas conquistas do Califado Ortodoxo, no povoamento de Baçorá, Cufa, Coração e outras regiões orientais do califado, exercendo grande influência política, militar, religiosa e literária ao longo dos períodos omíada e abássida. Entre seus membros figuraram numerosos chefes tribais, comandantes militares, estudiosos, poetas e líderes religiosos, incluindo alguns dos principais representantes do carijismo.
Fontes
Os primeiros relatos dedicados aos tamimitas foram compilados em monografias hoje perdidas. Entre elas figuravam Akhbār Tamīm e Kitāb Ḥilf Tamīm baʿḍihā baʿḍan, de (m. 806), um cliente da tribo, além de Kitāb ʿAdī ibn Zayd al-ʿIbādī e Ḥilf Kalb wa-Tamīm, de Ibne Alcalbi, e Kitāb Ayyām Banī Māzin wa-Akhbārihim, de Abu Ubaida, dedicado às guerras pré-islâmicas dos mazimitas, um dos ramos dos tamimitas. Antes de serem reunidas nessas obras, as tradições genealógicas e históricas da tribo eram preservadas e transmitidas oralmente por informantes pertencentes aos próprios tamimitas ou a seus clientes. Grande parte do conhecimento moderno acerca da genealogia e da história da confederação deriva desses relatos, posteriormente incorporados por genealogistas e historiadores muçulmanos. Essa origem, contudo, também favoreceu o surgimento de tradições concorrentes e de controvérsias quanto ao prestígio e às prerrogativas de determinados clãs e personagens, refletindo rivalidades entre narradores tamimitas e seus adversários. Exemplos dessas divergências incluem a controvérsia sobre se realmente exerceu um cargo hereditário de árbitro na feira de Ucaz ou apenas recebeu esse título após solucionar uma disputa específica, bem como a tradição segundo a qual Hanzala ibne Arrabi teria atuado como escriba de Maomé, embora algumas fontes afirmem que redigiu apenas uma única carta em nome do profeta. Outro episódio amplamente explorado pela tradição é a história do arco de , oferecido como garantia ao xá sassânida para assegurar o direito de pastagem dos rebanhos tamimitas durante um período de seca. Enquanto os tamimitas apresentavam o episódio como prova do prestígio de seu chefe, autores ligados a tribos rivais procuravam minimizar seu significado.
Genealogia
Os tamimitas descendiam de Tamime ibne Murra ibne Ude ibne Tabica ibne Ilias ibne Modar ibne Nizar ibne Maade ibne Adenane, sendo tradicionalmente classificados entre as principais tribos adenanitas do ramo de Modar. A tradição genealógica faz remontar sua ascendência a Tamime ibne Murra, cujos três filhos — Zaíde Manate, Anre e Alharite — deram origem aos três grandes ramos da confederação tribal. O ramo de Zaíde Manate era o mais numeroso e subdividia-se principalmente nos clãs de Sade e Maleque. Os saditas (Banu Sade) eram considerados tão numerosos que, segundo a tradição, igualavam em população todas as demais tribos de modaritas reunidas. Deles descendiam figuras como , enquanto seus diversos subgrupos recebiam designações próprias derivadas de ancestrais comuns. Já os descendentes de Maleque organizavam-se sobretudo em torno dos Banu Hanzala, considerados um dos ramos mais prestigiosos da confederação. Destes originaram-se, entre outros, os clãs de Iarbua (iarbuaítas), Darime (darimitas) e Barajime (barajimitas), dos quais saíram personagens como , e Jarir ibne Atia, além de numerosos chefes militares, poetas e estudiosos.
O ramo darimita, pertencente à linhagem dos Banu Hanzala, era frequentemente apontado como o mais influente entre os tamimitas. Dele derivavam clãs como os mujaxitas (Mujaxi), naxalitas (Naxal), manafitas (Manafe), saducitas (Sadus) e abanitas (Abane), dos quais procederam personalidades como Alacra ibne Habis, Alfarasdaque e Alharite ibne Suraije. O segundo grande ramo da confederação descendia de Anre ibne Tamime, cuja principal subdivisão era constituída pelos ambaritas, além dos clãs mazimitas (Mazime), hirmazitas (Hirmaz) e gailanitas (Gailane). O terceiro e menos numeroso ramo descendia de Alharite ibne Tamime, cujos membros eram mais frequentemente conhecidos pelo gentílico Xacari, derivado de seu descendente Xácira, em vez da designação alharita. Essa organização em grandes ramos e numerosos subclãs conferiu aos tamimitas uma estrutura descentralizada, na qual diferentes segmentos da confederação frequentemente atuavam de forma independente ou mesmo adotavam posições distintas diante dos principais acontecimentos políticos e militares da Arábia pré-islâmica e dos primeiros séculos do islão.
História
Período pré-islâmico
Os tamimitas ocupavam extensas áreas da Arábia Central e Oriental, distribuindo-se principalmente pelo Négede, em torno de Iamama, estendendo-se até o golfo Pérsico, Baçorá, Barém e , nas proximidades de Cufa. Controlavam importantes áreas de pastagem, como Hasne Banu Iarbua, Alfalaje e Adana, que sustentavam sua economia predominantemente pastoril. Os relatos dos Dias Árabes situam territórios tamimitas entre Iamama e Hajer, e os poderosos , um dos principais grupos da tribo, disputavam com os membros da confederação rebiaíta dos alaazimitas (Alaazim) as férteis pastagens de . Donner considera inclusive possível que a formação de Alaazim tivesse, entre suas funções, a defesa de seus integrantes contra grupos nômades rivais como os iarbuítas. Embora muitos tamimitas mantivessem um modo de vida nômade ou seminômade, numerosos grupos habitavam permanentemente os oásis e aldeias de Uaxime e da Arábia oriental, conciliando a criação de rebanhos com atividades agrícolas e comerciais. A posição geográfica da confederação favoreceu sua participação nas rotas comerciais que ligavam o sul da Arábia ao Iraque e ao golfo Pérsico. Em Almuxacar, território dos tamimitas, realizava-se uma das principais feiras da península, enquanto muitos membros da tribo também participavam ativamente do mercado de Ucaz, onde alguns de seus chefes exerciam funções de arbitragem em disputas comerciais. A economia da tribo baseava-se sobretudo na criação de camelos e outros rebanhos, mas sua inserção nas redes de comércio fez dos tamimitas importantes intermediários entre a Arábia interior, Hira e o Império Sassânida.
As relações políticas dos tamimitas variaram ao longo do período pré-islâmico. Inicialmente mantiveram estreita cooperação com o Reino Lácmida de Hira e com o Império Sassânida, participando da proteção das rotas comerciais e integrando a instituição da ridafa, por meio da qual determinados chefes tribais atuavam como representantes do rei de Hira entre os beduínos. Em contrapartida, obtinham privilégios políticos e acesso aos mercados controlados pelos sassânidas, especialmente ao grande oásis de Hajar, cuja produção de tâmaras era essencial para as tribos da região. Essas relações, contudo, nem sempre foram pacíficas. Ataques tamimitas a caravanas persas provocaram represálias militares, como o massacre de Almuxacar, embora posteriormente a cooperação entre ambas as partes tenha sido restabelecida e perdurado até a queda do Império Sassânida. Essa flexibilidade política também é perceptível na Batalha de Di Car, quando segmentos dos tamimitas combateram ao lado do exército sassânida enviado de Hira; Donner observa, contudo, que os tamimitas estavam entre as tribos que dispunham de maior autonomia para adotar políticas independentes em relação aos sassânidas. Os tamimitas também mantiveram estreitos vínculos com Meca. Sua aproximação com os coraixitas foi favorecida tanto por interesses comerciais quanto por laços de parentesco, já que , irmã de Tamime ibne Murra, era tradicionalmente considerada mãe de , ancestral epônimo dos coraixitas. Comerciantes de Meca negociavam regularmente produtos pertencentes aos tamimitas, enquanto casamentos entre membros das duas confederações reforçavam essa aliança. Antes do advento do islão, a maioria dos tamimitas seguia o politeísmo árabe e venerava o ídolo , embora o contato prolongado com os sassânidas tenha difundido o zoroastrismo entre alguns grupos da Arábia oriental, ao passo que aqueles estabelecidos em Hira sofreram influência do cristianismo.
Surgimento do islamismo
Os primeiros contatos dos tamimitas com o islão foram marcados pela diversidade de posições assumidas por seus diferentes ramos. Antes mesmo da Hégira, alguns tamimitas mantinham relações pessoais com Maomé, entre eles , enquanto , antigo marido de Cadija binte Cuailide, também pertencia à tribo. Ao mesmo tempo, os sassânidas continuavam a nomear governadores provenientes do ramo de Abedalá ibne Zaíde para administrar o Barém, sendo Almondir ibne Sauá o ocupante desse cargo quando Maomé iniciou sua pregação. Em 9 A.H. (630), Maomé enviou Alalá ibne Alhadrami ao Barém para convidar Almondir e a população local a abraçarem o islão. O governador aceitou o convite e permaneceu no cargo como representante do profeta, sendo acompanhado por parte da população árabe e persa da região. A tradição também preserva diversas cartas trocadas entre Maomé e Almondir, que morreu pouco tempo depois do profeta. Outros grupos tamimitas aderiram ao islão durante a campanha que culminou na Conquista de Meca. Sob a liderança de Alacra ibne Habis, participaram das campanhas de Hunaine e do Cerco de Taife. Após a vitória em Hunaine, porém, recusaram-se inicialmente a libertar os prisioneiros que haviam capturado, levando Maomé a estabelecer o pagamento de resgates. Alacra, por sua vez, foi incluído entre os muallafat al-qulub, grupo de chefes tribais contemplados com generosas doações destinadas a fortalecer sua adesão ao islão, recebendo cem camelos.
Ainda em 9 A.H., um incidente envolvendo o ramo dos ambaritas provocou nova aproximação entre a tribo e Medina. Após um desentendimento com um coletor de impostos enviado por Maomé, uma expedição comandada por Uiaina ibne Hisne capturou diversos membros do clã e os conduziu a Medina. Em resposta, os tamimitas enviaram uma delegação para negociar sua libertação. Pouco depois, uma segunda embaixada, composta por cerca de setenta ou oitenta representantes de diversos ramos da confederação, chegou à cidade sob a liderança de Alacra ibne Habis e de chefes como , , , , , e . Segundo a tradição islâmica, os visitantes chamaram Maomé em voz alta diante de seus aposentos, comportamento que motivou a revelação dos versículos dois a cinco da sura Alhujurat. Após serem recebidos pelo profeta, receberem presentes e obterem a libertação dos prisioneiros, declararam sua conversão ao islão. Nos últimos anos de sua vida, Maomé nomeou diversos tamimitas como coletores do zacate entre seus próprios clãs, consolidando a integração de parte da confederação à nova comunidade muçulmana. Apesar disso, a adesão permaneceu desigual entre seus numerosos ramos, circunstância que se tornaria evidente logo após a morte do profeta, quando diferentes segmentos da tribo assumiriam posições opostas durante as Guerras da Apostasia.
Período califal