Abu Becre Maomé ibne Alcácime Alambari (), mais conhecido como Ibne Alambari (; Ambar, – Baguedade, ), foi um filólogo, gramático, estudioso do Alcorão e tradicionalista árabe. Filho do também filólogo e tradicionalista Abu Maomé Alambari, estabeleceu-se ainda jovem em Baguedade, onde estudou língua e literatura árabes, gramática, léxico, poesia, leituras corânicas, exegese e hádice. Foi discípulo sobretudo de e tornou-se um dos principais representantes da escola filológica de Cufa.

Conhecido pela amplitude de seus conhecimentos e por sua memória excepcional, Ibne Alambari desenvolveu em Baguedade uma extensa atividade de ensino e transmissão, tendo entre seus discípulos . Ensinou na Grande Mesquita de Almançor e foi encarregado durante certo período da educação dos filhos do califa abássida Arradi . As fontes o apresentam como transmissor de hádice confiável e como autoridade nas ciências linguísticas e religiosas. Associado ao hambalismo, levou uma vida austera e devota e não se casou.

Sua extensa produção abrangeu as leituras e outras ciências corânicas, a gramática, o léxico e a literatura árabe. Entre seus trabalhos destacam-se o Kitāb Īḍāḥ al-waqf wa-l-ibtidāʾ fī Kitāb Allāh, sobre as regras de pausa e início na recitação do Alcorão, o al-Zāhir fī maʿānī kalimāt al-nās, o Kitāb al-Aḍdād e o al-Mudhakkar wa-l-muʾannath. Desempenhou também papel importante na preservação e interpretação da poesia árabe antiga, reunindo e comentando divãs e antologias. Entre esses trabalhos figuram seu comentário às Mufadaliyat e o Sharḥ al-Qaṣāʾid al-sabʿ al-ṭiwāl al-Jāhiliyyāt, dedicado às sete cássidas tradicionalmente reunidas entre as Muallaqat.

Vida e formação

Abu Becre Maomé ibne Alcácime Alambari, nasceu em 18 de Rajabe de 271 A.H. (9 de janeiro de 885), em Ambar, nas proximidades de Baguedade. Era filho de Abu Maomé Alambari, tradicionalista e filólogo que se tornou um de seus primeiros mestres. Ainda jovem, mudou-se com o pai para Baguedade, onde prosseguiu sua formação, circunstância pela qual também aparece nas fontes com a nisba Albaguedadi. Estudou língua e literatura árabes, léxico, gramática, poesia, leituras corânicas, exegese e hádice. Seu principal mestre foi , então uma das maiores autoridades da escola filológica de Cufa, e recebeu ensinamentos também de Ismail ibne Isaque Aljadami e .

Nas leituras corânicas, tanto ele quanto seu pai estudaram com , tio paterno de Alcácime. A formação recebida de Talabe e de seu pai vinculou-o estreitamente à tradição filológica cufana, da qual viria a ser considerado um dos principais representantes. Ibne Alambari tornou-se conhecido sobretudo pela amplitude de seus conhecimentos e por sua memória excepcional. Ele próprio afirmava conservar de memória, em matérias de exegese, hádice e poesia, uma quantidade de informações equivalente ao conteúdo de treze caixas de livros. As fontes destacam igualmente seus conhecimentos de língua e literatura árabes e afirmam que nenhum outro estudioso de sua época havia assimilado tão profundamente a tradição da escola de Cufa. Brockelmann também ressalta sua memória extraordinária e sua vida austera.

Em Baguedade, Ibne Alambari desenvolveu intensa atividade docente e de transmissão. Na Grande Mesquita de Almançor, seu pai ensinava hádice em uma parte do edifício, enquanto ele próprio ministrava aulas em outra. Entre os numerosos estudantes que frequentaram suas lições encontrava-se . As fontes o qualificam como transmissor de hádice confiável e veraz, além de autoridade em diferentes ramos das ciências árabes e religiosas. Durante certo período, foi também encarregado da educação dos filhos do califa abássida Arradi . Sua vida pessoal foi marcada pela austeridade. Nunca se casou e levou uma existência reclusa e devota, sendo associado ao hambalismo. Continuou ensinando ainda durante a vida do pai e adquiriu reputação tanto como tradicionalista quanto como filólogo. Morreu em Baguedade em 10 de Dulrija de 328 A.H. (16 de setembro de 940), aos 55 anos.

Obras

A produção atribuída a Ibne Alambari abrange sobretudo as leituras corânicas, a gramática, o léxico e a literatura árabe. Parte considerável de seus escritos foi preservada, editada ou é conhecida por manuscritos, enquanto numerosos outros títulos são registrados apenas nas fontes bibliográficas. Algumas obras que lhe foram atribuídas, contudo, pertencem provavelmente a outros autores.

Leituras e ciências corânicas

Entre seus trabalhos sobre as leituras corânicas destaca-se o Kitāb Īḍāḥ al-waqf wa-l-ibtidāʾ fī Kitāb Allāh, dedicado às regras de pausa e início na recitação do Alcorão. A importância alcançada pela obra contribuiu para que Ibne Alambari fosse referido pelo título de imame. O texto foi publicado em dois volumes por Muḥyī al-Dīn ʿAbd al-Raḥmān Ramaḍān, em 1971. Brockelmann igualmente registra a obra entre os escritos do autor sob o título al-Iḍāḥ fī l-Waqf wa-l-Ibtidāʾ. Também pertence a esse domínio o Kitāb al-Hāʾāt fī Kitāb Allāh, sobre ocorrências da letra hāʾ no texto corânico, obra posteriormente publicada por Muḥammad Ḥasan Āl Yāsīn. O Kitāb al-Alifāt, conhecido ainda por títulos como Kitāb Sharḥ al-alifāt, Kitāb Mukhtaṣar fī dhikr al-alifāt e Kitāb al-Hamza, trata dos alif ou hâmeza pronunciados ou omitidos na ligação das palavras durante a recitação corânica. Diferentes versões do texto foram editadas no . Brockelmann conhecia-o como Mukhtaṣar fī Dhikr al-Alifāt. A esse conjunto pertence ainda o Kitāb Marsūm al-khaṭṭ, posteriormente editado em Nova Deli. As fontes atribuem-lhe vários outros escritos relacionados ao Alcorão. Entre eles figuram o Naqḍ masāʾil Ibn Shanabūdh, refutação das leituras consideradas irregulares de , o al-Radd ʿalā man khālafa Muṣḥaf ʿUthmān, em defesa do códice de Otomão, e o al-Radd ʿalā al-mulḥidīn fī al-Qurʾān. São igualmente mencionados uma Risāla fī al-mushkil, o Kitāb al-Mushkil fī maʿānī al-Qurʾān, que abrangia o texto corânico até a sura Ta-Ha, o Ḍamāʾir al-Qurʾān, o Tafsīr al-ṣaḥāba e uma obra sobre o ab-rogante e ab-rogado, intitulada al-Nāsikh wa-l-mansūkh.

Língua e literatura

No campo lexicográfico, uma de suas obras mais importantes é o al-Zāhir fī maʿānī kalimāt al-nās, também conhecido por variantes como al-Zāhir fī al-lugha. Nela, Ibne Alambari explicou o significado de palavras, expressões, locuções e provérbios empregados nas orações, súplicas, fórmulas de glorificação e conversas cotidianas sem que seus usuários necessariamente conhecessem seu sentido. A obra baseia-se em grande medida no al-Fākhir fī al-amthāl, de Almufadal ibne Salama, e tornou-se uma das fontes utilizadas posteriormente por importantes dicionários árabes, entre eles o Lisān al-ʿArab. Também foi objeto de compêndios elaborados por autores posteriores. Brockelmann registra igualmente o al-Zāhir entre as obras preservadas de Ibne Alambari. Seu Kitāb al-Aḍdād trata das palavras árabes às quais são atribuídos significados opostos, constituindo, segundo Işık, o mais extenso léxico dedicado especificamente ao fenômeno. A obra recebeu diferentes edições desde o e foi posteriormente abreviada e reorganizada por outros estudiosos. Já o al-Mudhakkar wa-l-muʾannath, dedicado aos gêneros masculino e feminino na língua árabe, é caracterizado pela mesma fonte como uma das obras mais completas escritas sobre o assunto. Também esse texto foi preservado e recebeu diferentes edições modernas. Ambas as obras são mencionadas por Brockelmann entre os escritos conhecidos do filólogo.

Ibne Alambari compôs ainda uma cássida de 103 versos sobre palavras raras e incomuns da língua árabe, acompanhada de seu próprio comentário e conhecida por títulos como Qaṣīda fī mushkil al-lugha wa-sharḥuhā, Risāla fī al-lughāt al-gharība al-ʿArabiyya e Gharīb al-lugha. Seu al-Amālī, chamado também al-Majālis ou al-Mujālasāt, reunia notas sobre língua, literatura, léxico, gramática, poesia, exegese, hádice e relatos históricos; apenas uma sessão da obra chegou à atualidade, e alguns pequenos textos preservados separadamente podem ter sido originalmente partes dela. Também comentou uma conhecida composição de Ibne Duraide sobre os nomes maqṣūr e mamdūd, no Sharḥ Ghāyat al-maqṣūd fī al-Maqṣūr wa-l-mamdūd. Especial importância para a transmissão da poesia pré-islâmica possui o Sharḥ al-Qaṣāʾid al-sabʿ al-ṭiwāl al-Jāhiliyyāt, comentário das sete cássidas tradicionalmente reunidas entre as Muallaqat e atribuídas a Inru Alcaice ibne Hujer, Tarafa ibne Alabede, Zuair ibne Abi Sulma, Antara ibne Xadade, Anre ibne Cultume, e Labide. A obra foi editada integralmente por ʿAbd al-Salām Muḥammad Hārūn em 1963, enquanto partes dos comentários individuais já haviam sido publicadas anteriormente por Oskar Rescher. A existência do comentário às sete muallaqat é igualmente registrada por Brockelmann.

Outro trabalho relacionado à poesia antiga é o comentário ao divã de Amir ibne Atufail, no qual Ibne Alambari reuniu materiais transmitidos por seu mestre Talabe e acrescentou observações próprias. Também preparou o Sharḥ al-Mufaḍḍaliyyāt, baseado no comentário que seu pai, Alcácime Alambari, fizera às Mufadaliyat de Almufadal Adabi: Ibne Alambari reorganizou esse material e lhe acrescentou contribuições próprias. O comentário foi posteriormente publicado por Charles James Lyall juntamente com uma tradução inglesa. A ele se atribui ainda o Kitāb al-Jāhiliyyāt, antologia de sua própria seleção de poesia árabe antiga acompanhada de comentário. As fontes registram igualmente que reuniu e comentou os divãs de Alaxa, Zuair ibne Abi Sulma, Anabiga Adubiani, e outros poetas. Entre os demais títulos associados a seus estudos linguísticos e literários encontram-se Gharīb al-ḥadīth, al-Wāḍiḥ fī al-naḥw, al-Muwaḍḍaḥ fī al-naḥw, al-Kāfī fī al-naḥw, um comentário ao al-Kāfī, al-Maqṣūr wa-l-mamdūd, Adab al-kātib, um comentário ao Adab al-kātib de Ibne Cutaiba, al-Hijāʾ, al-Lāmāt, al-Wasīṭ, comentários à Bānat Suʿād de Cabe ibne Zuair e a outros textos, além do al-Nawādir e do Akhbār Ibn al-Anbārī. Nem todos os títulos transmitidos sob seu nome, contudo, são considerados autênticos. Işık observa que Khalq al-insān, Khalq al-faras e al-Amthāl, embora atribuídos a Ibne Alambari em algumas fontes, pertencem provavelmente a seu pai, Alcácime Alambari. A obra ʿAjāʾib ʿulūm al-Qurʾān, igualmente atribuída a ele e preservada em manuscrito em Alexandria, deve ser posterior, pois contém nomes de personagens de épocas subsequentes.

Bibliografia

Categoria:Ambar (cidade) Categoria:Árabes do século IX Categoria:Árabes do século X Categoria:Pessoas do Califado Abássida