Prepocunate foi um cacique indígena associado à resistência contra a conquista espanhola da região centro-norte da actual Venezuela na segunda metade do século XVI.

Prepocunate é referido entre «los caciques», ao lado de Paramaconi, Guarimaycen, Urymauri e Parnamacai, numa recitação administrativa de 20 de Maio de 1594, publicada por José Antonio de Armas Chitty a partir da documentação dos serviços de Garci González de Silva.. A narrativa de José de Oviedo y Baños inclui-o entre os dirigentes indígenas relacionados com a grande mobilização de 1568 contra os castelhanos na região de Caracas e, mais tarde, com os conflitos do vale de Mamo... A sua classificação étnica não é uniforme nas fontes: Oviedo separa-o, na narrativa da mobilização, do grupo que identifica explicitamente como tarma, enquanto Nectario María o apresenta posteriormente entre os dirigentes dos tarmas..

Os episódios mais pormenorizados da sua biografia dependem sobretudo de narrativas retrospectivas. Oviedo atribuiu-lhe o golpe mortal contra Julián de Mendoza em Mamo, afirmando que Prepocunate morreu posteriormente em combate contra as forças de Garci González de Silva, num ciclo de acontecimentos que situou em 1570.. A historiografia moderna não conservou uma cronologia uniforme: o Diccionario de Historia de Venezuela situou em 1573 a submissão dos tarmas e a morte de Prepocunate. A acta camarária de Março de 1573 que menciona Mamo, contudo, documenta uma comissão de prospecção mineira, não fazendo qualquer referência a Prepocunate, batalha ou morte..

Nome e documentação histórica

A forma Prepocunate encontra-se tanto na historiografia como na edição documental de Armas Chitty. Pablo Ojer empregou a variante Prepocuna ao resumir documentação relativa aos serviços de Garci González de Silva..

O documento de 1594 publicado por Armas Chitty oferece um controlo importante sobre a identidade, uma vez que a enumeração transmite, separadamente, «Paramaconi», «Guarimaycen», «Urymauri», «Prepocunate» e «Parnamacai», todos abrangidos pela designação plural «los caciques», permitindo distinguir Prepocunate de Paramaconi e de Parnamacay.

Paralelamente, existe uma tradição bibliográfica que remete para uma probanza de Garci González de Silva de 1590. Luis R. Oramas escreveu em 1926 que González de Silva foi buscar gente aos reais de minas para se dirigir ao rio Mamo, «donde estaban los Caciques Prepocunate, y Parmanacay», acrescentando que depois os tomou «en Encomienda»; a nota da passagem remete para as Probanzas de González de Silva.. A formulação é a narrativa de Oramas acompanhada de uma remissão arquivística, e não a transcrição diplomática da cláusula subjacente. Ojer voltou a trabalhar a probanza e escreveu sobre os «caciques de los Zaramas llamados Prepocuna y Parmanacay», relacionando-os com as montanhas do rio Mamo. As duas obras não transmitem de forma idêntica a datação do processo: Oramas associa a probanza a 21 de Maio de 1590,. enquanto Ojer indica 21 de Março no seu aparelho documental..

Oviedo y Baños empregou ainda Prepocunate como nome de um povoado numa passagem em que enumera «pueblos de Guaremaisen, Parnamacay y Prepocunate».. Em outros trechos da mesma obra, porém, Prepocunate é inequivocamente uma pessoa, nomeadamente quando surge entre os chefes do vale de Mamo.

Prepo e propostas etimológicas

No século XIX, Arístides Rojas tratou o topónimo Prepo em duas direcções lexicográficas diferentes. Em Estudios indígenas, de 1878, apresentou Prepo como nome de uma quebrada ou ribeira, interpretando-o como corrupção de Prepoco, palavra que relacionou semanticamente com cana ou canavial.. Em Cien vocablos indígenas, de 1882, afirmou, por outro lado, que «Prepo» seria contracção de «Prepocunate»..

Álvaro García-Castro retomou no século XXI a possibilidade de o nome Prepo conservar memória de Prepocunate, mas qualificou expressamente a hipótese pela ausência de prova suficiente..

Associação étnica e natureza da liderança

A associação de Prepocunate aos tarmas é recorrente na historiografia do século XX, embora não seja transmitida de forma uniforme pelas fontes narrativas. Na passagem de Oviedo y Baños sobre a grande mobilização indígena, Prepocunate aparece entre os caciques vindos «de la costa y serranías intermedias»; só depois o cronista introduz separadamente um contingente de tarmas dirigido por Paramaconi, Urimaure e Parnamacay. Horacio Biord Castillo reproduz esta estrutura textual ao analisar a resistência indígena da região.

Nectario María, por sua vez, apresentou Urimaure, Prepocunate e Parmanacay entre os chefes tarmas chamados à mobilização; nas páginas dedicadas a Mamo voltou a referir Prepocunate e Parmanacay como dirigentes tarmas.. A recitação administrativa de 1594, por sua vez, chama Prepocunate de «cacique», mas não lhe acrescenta qualquer etnónimo.

A própria categoria cacique necessita de contextualização. A documentação publicada de 1594 prova que o termo era aplicado a Prepocunate por uma fonte administrativa espanhola. Biord Castillo, contudo, advertiu contra a projecção automática de categorias coloniais como cacique, principal e jefe sobre sistemas indígenas de autoridade, sugerindo para o contexto regional modelos de liderança baseados em prestígio, capacidade de persuasão, parentesco e consenso, com centralização eventualmente reforçada em situação de guerra..

A recitação quinhentista de 1594 não acrescenta a Prepocunate qualquer etnónimo e, por si só, não sustenta classificações posteriores como aruaco, arbaco ou guaraúno.

Resistência à conquista

Mobilização de 1568 e Maracapana

A tradição sobre a grande mobilização indígena contra o estabelecimento espanhol em Caracas inclui Prepocunate entre os dirigentes convocados. A Cronología de historia de Venezuela, da Fundación Empresas Polar, apresenta entre os chefes da costa e das serras próximas Naiguatá, Uripatá, Guaicamacuto, Anarigua, Mamacuri, Querequemare, Prepocunate, Araguaire e Guarauguta; em seguida, trata separadamente o contingente dos tarmas, atribuído a Paramaconi, Urimaure e Parnamacay. A própria cronologia qualifica esta tradição como insuficientemente documentada e transmite versões diferentes para o desenlace da concentração.

A narrativa costuma ser relacionada com Guaicaipuro e com a concentração de Maracapana, mas a presença de Prepocunate dentro da mesma mobilização não demonstra uma relação formal de subordinação pessoal ao chefe dos teques. Nectario María também descreve uma aliança regional, mas apresenta Prepocunate entre os dirigentes tarmas. Biord Castillo enquadra as chefias regionais em formas de liderança e articulação política variáveis, susceptíveis de se reforçarem em contexto de guerra, sem as equiparar a uma estrutura estatal permanente.

Biord Castillo chamou ainda a atenção para a maneira como Oviedo representa essas alianças, considerando exagerados os números de combatentes transmitidos pelo cronista, e criticando a imagem etnográfica produzida por uma narrativa escrita muito depois da conquista.

Na tradição de Maracapana, Prepocunate é individualizado entre vários dirigentes da mobilização, mas as fontes citadas não lhe atribuem um acto pessoal específico durante a concentração.

Vale de Mamo

A associação mais desenvolvida de Prepocunate a um espaço concreto encontra-se na narrativa de Oviedo y Baños sobre o vale de Mamo, também chamado pelo cronista de vale das Goiabas. Oviedo introduz «los Caciques Parnamacay, Prepocunate y los demás del valle de Mamo» no episódio da morte de Julián de Mendoza. Nectario María conservou a associação entre os dois dirigentes e Mamo na sua reconstrução da conquista de Caracas.

A documentação arquivística oferece um controlo parcial sobre esse ciclo de acontecimentos. Uma informação de méritos de Garci González de Silva conservada no Arquivo Geral das Índias menciona a «muerte que le avían dado al capitán don Julián de Mendoça» no contexto das «montañas del río de Mamo».Arquivo Geral das Índias (AGI), PATRONATO,80,N.2,R.4, Méritos y servicios: García González de Silva: Dorado, informação de méritos, 1590, imagem 4.

Julián de Mendoza

O relato individual mais extenso foi publicado por Oviedo y Baños em 1723, mais de um século depois dos acontecimentos. Segundo o cronista, Julián de Mendoza apresentou-se como encomendero das comunidades do vale e mandou recado a Parnamacay, Prepocunate e aos restantes chefes para que fossem trabalhar nas suas lavouras. Alguns indígenas foram a Santiago de León e levaram a Mendoza redes de dormir, frutos e mantimentos. Mendoza interpretou a entrega como sinal de obediência e de aceitação da encomienda e pediu licença a Bartolomé García, então responsável pelo governo local, para visitar os povoados e tomar posse do repartimento. Teria seguido então para a foz do rio Mamo acompanhado por apenas dois soldados.

Na versão de Oviedo, foi Prepocunate quem atingiu Julián de Mendoza pelas costas com um machete e o matou. Os dois soldados que o acompanhavam ter-se-iam refugiado numa casa junto do rio, vindo a morrer depois de o edifício ser incendiado. A informação de méritos de 1590 confirma a morte de Mendoza no contexto de Mamo, sem nomear o autor do golpe mortal.

Arístides Rojas retomou o episódio em 1882 e, na entrada «Prepo», associou directamente Prepocunate à morte de Julián e aos acontecimentos de Mamo. Telasco MacPherson fez o mesmo em 1891, mas assinalou a dependência da narrativa ao escrever, no verbete dedicado a Prepocunate, que a atribuição do golpe era feita «según dice Oviedo»..

Parnamacay

Parnamacay aparece repetidamente ao lado de Prepocunate no ciclo narrativo de Mamo, mas as fontes não fornecem parentesco, sucessão ou uma hierarquia formal entre ambos. Oviedo coloca os dois entre os chefes do vale, Oramas menciona-os conjuntamente numa narrativa baseada nas probanzas de Garci González, e a recitação administrativa de 1594 enumera-os como nomes distintos.

A distinção de identidade é especialmente importante porque Paramaconi é uma terceira personagem. A enumeração quinhentista publicada por Armas Chitty contém simultaneamente Paramaconi, Prepocunate e Parnamacai, tornando imprópria a fusão dos nomes por semelhança gráfica.

O encontro posterior de Francisco de Vides oferece outro controlo narrativo. Oviedo escreve que Vides regressou a Caracas com perda da bagagem, «que le ganó Parnamacay en un encuentro»; nessa passagem, Prepocunate não é individualizado. Nectario María situa o episódio entre o final de 1569 e o início de 1570, atribuindo igualmente a perda dos apetrechos a Parmanacay.

Expedições espanholas

Depois da morte de Julián de Mendoza, Oviedo narra uma primeira expedição punitiva conduzida por Sancho del Villar. Segundo o cronista, Bartolomé García enviou Sancho com cerca de quarenta homens; a coluna avançou para a zona de Anaocopón, sofreu cinco mortos e três feridos graves e acabou por retirar. Nectario María relacionou estas tentativas com documentação de méritos de Garci González. Segundo a transcrição que publicou, Sancho del Villar declarou ter entrado anteriormente «dos o tres veces» com outros capitães e regressado derrotado, e mais tarde ter acompanhado Garci González numa acção vitoriosa..

Uma entrada posterior de Francisco de Vides terminou igualmente em retirada na narrativa cronística. Como referido, Oviedo individualiza Parnamacay na perda da bagagem espanhola, não Prepocunate.

Garci González de Silva

Tradição da campanha militar