Astório I Manfredi (em italiano: Astorgio; Faença, 1345 – Faença, 28 de novembro de 1405) foi um condotiero italiano que exerceu a função de senhor da cidade de Faença.
Biografia Primeiros anos Segundo filho de João di Ricciardo e de Genebra di Mongardino, Astório teria nascido por volta de 1345, embora não existam evidências capazes de determinar com precisão sua data de nascimento, tampouco a de seu irmão mais velho, Francisco. Em 1356, ambos foram enviados como reféns a Pádua, juntamente com membros da família Carrara, em decorrência da obrigação imposta ao pai de restituir Faença ao cardeal Egidio de Albornoz, legado apostólico na Itália. O matrimônio com Leta di Guido da Polenta ocorreu, com segurança, somente após 1369. Esta havia se casado, em 1366, com Francisco di Guido Gonzaga, de quem enviuvara três anos depois. É provável que parte da infância e da juventude tenha sido passada em Bagnacavallo, única possessão que permaneceu sob o domínio paterno até 1368-1369. Durante esse período, teria adquirido experiência militar ao acompanhar o pai nas campanhas empreendidas, em sua maioria, a serviço de Barnabé Visconti.
Retomada de Faença Em 1375, no contexto da Guerra dos Oito Santos, conflito deflagrado entre Florença e o Papado, a cidade passou a apoiar ativamente os senhores da Romanha em sua oposição à Santa Sé. Nesse cenário, recebeu armamentos e apoio para empreender a recuperação dos territórios que haviam pertencido ao pai e dos quais, naquele momento, praticamente nada restava aos dois irmãos. Estabelecido em Granarolo, iniciou incursões no território de Faença. As operações suscitaram a preocupação do cardeal legado Roberto de Genebra, que enviou a Faença o condotiero inglês John Hawkwood, incumbindo-o de conter tais iniciativas. Paralelamente, havia se reconciliado com João di Alberghettino, primo de seu pai, e prosseguia de maneira obstinada na retomada dos castelos anteriormente pertencentes à família, sobretudo daqueles localizados no Vale do Lamone, entre os quais Brisighella e Laderchio.
A própria Faença, submetida ao domínio direto da Igreja, tampouco atravessava circunstâncias favoráveis. Após manter na cidade, por mais de um ano, as tropas de Hawkwood, Roberto de Genebra, já privado de recursos financeiros, vendeu-a ao marquês Nicolau II d'Este, na primavera de 1377. Para assegurar o controle do núcleo urbano, o novo senhor enviou uma pequena guarnição sob o comando de Selvático Boiardo. Astório, contudo, soube aproveitar prontamente a oportunidade e, contando com o apoio florentino, entrou na cidade em julho daquele ano, proclamando-se seu senhor sob o título de dominus et capitaneus generalis.
Nicolau não se conformou de imediato com a perda de Faença. Amparado, entretanto, pelo apoio de Florença e Milão, Astório conseguiu constrangê-lo a celebrar a paz em 22 de maio de 1379. Nos termos do acordo, recuperou a posse da cidade mediante o pagamento de 24 mil florins de ouro, a ser efetuado no prazo de quatro anos. Pelos oito anos subsequentes, Faença permaneceria sob seu domínio como feudo de Nicolau; transcorrido esse período, passaria a exercer sobre ela plena autoridade senhorial. O papa Urbano VI ratificou o entendimento e, ainda naquele ano, concedeu-lhe o vicariato apostólico sobre a cidade.
Desse modo, após duas décadas, restabeleceu-se a senhoria dos Manfredi sobre Faença. A concessão do vicariato apostólico conferiu ao poder exercido por Astório uma dimensão jurídica e institucional mais claramente definida. Embora temporário e submetido a obrigações formalmente mais rigorosas do que aquelas impostas aos vigários imperiais, esse instrumento constituía, em comparação com uma autoridade exercida de fato ou mediante delegação dos órgãos comunais, uma importante modalidade de legitimação. Além disso, proporcionava uma estrutura formal capaz de conferir maior estabilidade ao exercício do poder.
Carreira como condotiero Tendo adquirido renome como capitão, Manfredi organizou sua própria companhia de mercenários, denominada Companhia da Estrela. Entre 1379 e 1380, a serviço de Bernabò Visconti, marchou, sem êxito, contra Gênova. No retorno a Faença, deparou-se com a rebelião de seu irmão Francisco que, diante da perda temporária da disputa pela cidade, refugiou-se em Solarolo. Sua situação, contudo, revelou-se precária e, em 1381, entregou o castelo ao Município de Bolonha em troca de três mil florins, de uma pensão vitalícia de 60 florins mensais e de um palácio situado no município. Os cronistas contemporâneos afirmam, em geral, que Francisco faleceu pouco depois. Messeri, entretanto, situa sua morte em 1393, após novo confronto com o irmão, ocorrido em razão do apoio prestado, em 1386, à tentativa de Taddeo Pepoli de retornar a Bolonha.
Astório, por sua vez, consolidava progressivamente seu domínio sobre Faença e, durante esses anos, atuou militarmente na Romanha, alternando o serviço entre João Galeácio Visconti e Florença, enquanto buscava ampliar sua influência sobre Cesena e Forlì. Em 1389, integrou uma liga antiviscontea organizada por Florença e Bolonha, comandando 400 soldados de infantaria e 250 cavaleiros. No ano seguinte, tentou novamente ocupar Cesena, sem obter sucesso. Ainda em 1390, dirigiu-se a Roma para prestar ato de submissão a Bonifácio IX, de quem recebeu a confirmação do vicariato sobre Faença por mais dez anos, mediante o pagamento de um tributo anual de 1,500 florins. Na mesma ocasião, foi agraciado com a honraria pontifícia da Rosa de Ouro.
Em 1391, renovado o compromisso com a liga antiviscontea, marchou com 50 lanças em direção à planície do Pó, a fim de auxiliar Francisco Novello da Carrara, que, desde o ano anterior, havia recuperado a senhoria de Pádua e liderava a coalizão contrária aos Visconti. O conflito terminou com um acordo que assegurava Feltre e Belluno aos Visconti, sem, contudo, incluir Pádua, conforme estabelecido pela Paz de Gênova, de 20 de janeiro de 1392. Poucos meses depois, em 11 de abril, firmou-se a Liga Defensiva pelo Tratado de Bolonha, reunindo os antigos aliados guelfos — Florença, Bolonha e Pádua — e diversos senhores emiliano-romanhóis, entre os quais Alberto d’Este, Ludovico Alidosi de Ímola, os da Polenta de Ravena e o próprio Manfredi.
A guerra foi retomada em 1394, quando a sucessão de Nicolau III a Alberto d’Este passou a ser ameaçada por Azzo IX, secretamente apoiado por Novello da Carrara. Com o auxílio de Florença e Bolonha, ao lado da qual Manfredi combatia, Nicolau derrotou Azzo em Portomaggiore, em abril de 1395. Capturado, foi confiado a Manfredi, que o conduziu como prisioneiro até Faença. O apoio prestado a Nicolau III resultou na concessão do castelo de Savignano, dos bens pertencentes aos Montanari derrotados e do auxílio de Ferrara nas operações militares contra Lugo e Barbiano.
Nesse período, alcançou o ápice de seu prestígio. Em 27 de setembro de 1397, uma bula pontifícia confirmou o vicariato sobre Faença e estendeu a concessão, a ele e a seu filho João Galeácio, já associado ao governo, às localidades de Fusignano, Montemaggiore e Donegaglia. Em 1396 — ou, segundo outros autores, em 1397 — João contraiu matrimônio com Gentile di Galeotto Malatesta de Rimini, irmã de Carlos.
A pressão exercida pelos Visconti sobre a Itália central intensificava-se, mantendo Florença e Bolonha — onde os Pepoli, antigos aliados de Manfredi, haviam sido destituídos — em estado de crescente vigilância. Nesse contexto, as relações entre Bolonha e Manfredi deterioraram-se de maneira abrupta. Até então, mantivera com a grande comuna emiliana vínculos oscilantes, embora predominantemente favoráveis. Em Bolonha, inclusive, possuía pelo menos um palácio, no qual se destacava seu lema, "Wan ich mach".
A alternância entre as facções bolonhesas, contudo, precipitou a crise em 1399. Tendo apoiado os Maltraversi em oposição aos Bentívolo, Manfredi entrou em confronto com o conde João Barbiano, seu adversário desde 1395. Capturado durante os combates, Barbiano foi posteriormente executado, em setembro daquele ano, por recomendação de Manfredi.
Guerra contra Bolonha Em meio à turbulência provocada pelos conflitos entre as facções bolonhesas, conseguiu obter de Gaspar Bernardini e Antônio delle Caselle, cidadãos de Bolonha, o castelo de Solarolo. Em resposta, o Município de Bolonha contratou o ccondotiero Alberico da Barbiano e organizou uma ofensiva contra Manfredi. Procurou negociar, oferecendo-se para restituir Solarolo, mas a proposta não foi aceita. Os Carrara, os Este e Pino Ordelaffi, senhor de Forlì, também aderiram à coalizão formada contra os Manfredi.
Na primavera de 1400, Ordelaffi avançou pelo oeste em direção a Faença e ao Vale do Lamone, enquanto Barbiano e Otto de' Terzi se aproximaram pelo norte, com o propósito de sitiar a cidade. Recebeu, então, o apoio de Carlos e Pandolfo Malatesta, senhores de Rimini e seus parentes. Particularmente no outono daquele ano, Carlos procurou persuadir o duque de Milão a apoiar Manfredi. Como resposta, aconselhou-se que fosse pessoalmente a Milão, em segredo, deixando Faença sob a responsabilidade do filho, a fim de oferecer a cidade aos Visconti. O duque, entretanto, já havia assumido compromisso com a coalizão adversária, autorizando Alberico da Barbiano a combater em nome de Bolonha.
Após retornar a Faença, tentou ainda, sem êxito, obter o apoio de Veneza. Diante do prolongamento do cerco, fez partir da cidade seu filho, acompanhado da mãe, de sua esposa Gentile e de Isabetta, cunhada e esposa de Carlos Malatesta, tomando o caminho de Milão. O grupo, contudo, foi capturado por Nicolau III, que mantinha razões de ressentimento contra Manfredi. Para assegurar a libertação dos familiares, viu-se obrigado a entregar a Veneza Azzo, mantido prisioneiro em Faença desde 1395. Com esse episódio, encerraram-se também as negociações com Milão.
A guerra de Faença prolongou-se até os primeiros meses de 1401. A ascensão de João I Bentívolo ao poder em Bolonha modificou a política da comuna em relação a Manfredi e possibilitou sua sobrevivência por mais algum tempo. Negociou-se, então, com Bentívolo a cessão de Solarolo, acompanhada, segundo alguns autores, do pagamento de mil florins. O acordo resultou na celebração da paz em 7 de julho de 1401.
Morte A conjuntura política da Romanha deteriorou-se em razão do recrudescimento da pressão exercida pelos Visconti. O duque de Milão preparava-se para marchar contra Bolonha, onde também havia chegado o legado pontifício Baldassarre Cossa. Em junho de 1402, após derrotarem João I em Casalecchio, as tropas visconteeas ingressaram na cidade.
A morte repentina de João Galeácio Visconti, em 3 de setembro de 1402, interrompeu de maneira abrupta a expansão dos Visconti em direção à Itália central. A situação de Manfredi, contudo, não se tornou mais favorável. Durante 1403 e 1404, sofreu a perseguição de Alberico da Barbiano e André Fortebraccio (Braccio da Montone), que deram continuidade a um conflito já essencialmente particular contra ele.
Em setembro de 1404, a posição tornou-se insustentável. Enviou, então, o filho João Galeácio para negociar com Paolo Orsini, capitão de Cossa, chegando-se a um acordo pelo qual Faença seria cedida à Santa Sé por dez anos, enquanto o Vale do Lamone permaneceria sob sua administração durante cinco, em troca de uma pensão anual de 2,400 florins paga pelo Papado. Carlos Malatesta, empenhado em assegurar as melhores condições possíveis para Manfredi, assumiu a custódia das fortalezas de Faença e do território circundante. Diante disso, os Manfredi refugiaram-se em Rimini. Privado de Faença, sobre a qual alimentava ambições pessoais, Alberico da Barbiano rebelou-se contra o legado pontifício. Em 1405, acabou derrotado por Malatesta.