A Expedição de Almuraici ou Gázua de Almuraici (), também conhecida como Expedição dos Mustaliquitas ou Gázua dos Mustaliquitas (), foi uma expedição militar liderada por Maomé contra os mustaliquitas, ramo dos cuzaaítas, ocorrida em 5 A.H. (626–627). Liderados por Alharite ibne Abi Dirar, os mustaliquitas haviam reunido forças junto à fonte de Almuraici, onde foram derrotados pelos muçulmanos; dez de seus homens morreram e entre 600 e 700 foram capturados, enquanto os vencedores se apoderaram de numerosos animais e outros bens.
A expedição teve importantes desdobramentos nas relações entre os mustaliquitas e os muçulmanos. Entre os cativos estava Juairia binte Alharite, filha do chefe da tribo, que posteriormente foi libertada e se casou com Maomé. O casamento foi seguido pela libertação de outros prisioneiros mustaliquitas e pela conversão de grande parte da tribo ao Islã. Durante os acontecimentos ocorreu também uma disputa entre membros dos muajiritas e dos ançares que envolveu Abedalá ibne Ubai e é tradicionalmente associada à revelação de parte da sura al-Munāfiqūn.
Durante a viagem de regresso a Medina ocorreu ainda o Episódio da Calúnia, no qual Aixa foi acusada de adultério após ter sido encontrada e conduzida de volta à caravana por Safuane ibne Almuatal. A tradição islâmica associa o episódio à revelação dos versículos 11–22 da sura Anur, que rejeitaram as acusações contra ela. A cronologia da Expedição de Almuraici é objeto de divergência nas fontes: embora seja frequentemente situada em 5 A.H. (626–627), pouco antes da Batalha da Trincheira, há também a opinião de que ocorreu depois dessa batalha.
Antecedentes
Os mustaliquitas eram um ramo dos cuzaaítas estabelecido principalmente na região de Cudaide, na rota entre Meca e Medina, possuindo também territórios em Alfur e vivendo nas proximidades de Rabigue, Usfã e . Entre suas principais fontes de água encontravam-se Xuda e Almuraici. Embora vários ramos dos cuzaaítas tenham se aproximado de Maomé após o início dos conflitos entre os muçulmanos e os coraixitas, os mustaliquitas permaneceram aliados destes últimos, com os quais já mantinham vínculos como integrantes dos alabixitas. Quando os coraixitas começaram a mobilizar seus aliados para a Batalha da Trincheira, o chefe dos mustaliquitas, Alharite ibne Abi Dirar, estabeleceu seu acampamento junto à fonte de Almuraici e procurou reunir guerreiros das tribos vizinhas para combater os muçulmanos. Ao tomar conhecimento desses preparativos, Maomé decidiu organizar uma expedição contra os mustaliquitas.
Expedição
Maomé partiu de Medina em 2 de Xabã de 5 A.H. (27 de dezembro de 626), à frente de um exército de 700 homens, dos quais trinta eram cavaleiros. Ao saberem da aproximação de uma força muçulmana numerosa, algumas das tribos que haviam se unido aos mustaliquitas abandonaram Alharite e dispersaram-se. Quando o exército de Maomé chegou à fonte de Almuraici, os mustaliquitas recusaram-se a converter-se ao Islã e teve início o confronto, que terminou com a vitória dos muçulmanos. Dez adversários foram mortos e entre 600 e 700 foram feitos prisioneiros. Os muçulmanos apoderaram-se ainda de dois mil camelos, cinco mil ovelhas e outros bens. A única baixa entre os muçulmanos foi Hixame ibne Subaba, morto acidentalmente por um companheiro que o confundiu com um inimigo. Após a vitória, Maomé enviou Abu Nanla Atai a Medina para anunciar o resultado da expedição e regressou à cidade em 1.º de Ramadã de 5 A.H. (24 de janeiro de 627). Embora essa cronologia situe a expedição pouco antes da Batalha da Trincheira, também existe a opinião de que a Expedição de Almuraici ocorreu depois dela.
Desdobramentos
Disputa entre os muçulmanos
Após o confronto, ocorreu junto à fonte de Almuraici uma disputa por água entre Jajá Alguifari, que naquele momento servia Omar e estava associado aos muajiritas, e Sinane ibne Uabara, membro dos ançares. Durante a altercação, Sinane pediu o auxílio dos ançares, enquanto Jajá chamou os muajiritas. O episódio provocou a intervenção de Abedalá ibne Ubai, que se manifestou contra os emigrantes e teria declarado que, quando regressassem a Medina, "os mais poderosos" expulsariam dela "os mais fracos". A tradição islâmica relaciona essa declaração ao versículo oito da sura al-Munāfiqūn e associa os primeiros oito versículos da sura aos acontecimentos da expedição.
Juairia binte Alharite
Entre os prisioneiros encontrava-se Juairia binte Alharite, filha de Alharite ibne Abi Dirar, que antes da expedição era casada com um primo paterno. Após a morte de seu marido, Juairia coube a Tábite ibne Caice ou, segundo outra tradição, a um primo deste. Ela acordou o pagamento de uma quantia para obter sua liberdade e procurou Maomé para solicitar auxílio. Maomé pagou a quantia e propôs-lhe casamento, que Juairia aceitou. O casamento levou os muçulmanos que possuíam outros prisioneiros mustaliquitas a libertá-los sem exigir pagamento, por considerarem que, em virtude do casamento, eles haviam se tornado parentes por afinidade de Maomé. Segundo Önkal, a libertação dos cativos foi seguida pela conversão de quase toda a tribo ao Islã, incluindo Alharite ibne Abi Dirar. O casamento também contribuiu para reduzir a hostilidade existente entre os mustaliquitas e os muçulmanos.
Outra tradição apresenta circunstâncias diferentes para a libertação e o casamento de Juairia. Segundo esse relato, Alharite dirigiu-se a Medina levando camelos para resgatar a filha, mas escondeu dois deles no Uádi Alaquique antes de chegar à cidade. Quando Maomé lhe perguntou pelos animais escondidos, Alharite teria concluído que Deus lhe revelara a informação e se convertido ao Islã. Nessa versão, Alharite pagou o resgate de Juairia e posteriormente a entregou em casamento a Maomé. Seu filho Abedalá e outros mustaliquitas também teriam se convertido nessa ocasião.
Episódio da Calúnia
Durante o regresso da expedição ocorreu o chamado Episódio da Calúnia (ifk), envolvendo Aixa, esposa de Maomé, e Safuane ibne Almuatal. Durante uma parada, Aixa afastou-se do acampamento e, ao regressar, percebeu que havia perdido um colar. Enquanto procurava o objeto, a caravana retomou a marcha, pois os responsáveis por transportar seu palanquim não perceberam sua ausência. Ao retornar ao local do acampamento e descobrir que os demais haviam partido, Aixa permaneceu ali esperando que voltassem para procurá-la e acabou adormecendo. Safuane ibne Almuatal, que seguia na retaguarda do exército e tinha a função de recolher objetos esquecidos durante a partida, encontrou Aixa e conduziu-a em seu camelo até alcançar novamente a caravana. O episódio deu origem a rumores de adultério envolvendo ambos, cuja difusão é tradicionalmente associada sobretudo a Abedalá ibne Ubai. A controvérsia prolongou-se após o retorno a Medina até a revelação dos versículos 11–22 da sura Anur, que declararam falsas as acusações contra Aixa.
Bibliografia
Categoria:Expedições lideradas por Maomé Categoria:Mustaliquitas Categoria:626 Categoria:627