miniaturadaimagem|O Centre Block, em Colina do Parlamento
A República Popular da China fez tentativas de interferir nas eleições federais canadenses de 2019 e 2021, além de ameaçar políticos canadenses, segundo o Serviço Canadense de Inteligência de Segurança (CSIS) e a Comissão de Interferência Estrangeira do Parlamento do Canadá. No final de 2022, a emissora Global News noticiou uma suspeita de tentativa da RPC de infiltrar o Parlamento do Canadá, financiando uma rede de candidatos para concorrer na eleição federal canadense de 2019. No início de 2023, o jornal The Globe and Mail publicou uma série de reportagens informando que o CSIS, em diversos documentos sigilosos, apontava que o Ministério da Segurança do Estado (MSE) e o Departamento de Trabalho da Frente Unida da China haviam empregado campanhas de desinformação e doações não divulgadas para apoiar candidatos preferenciais durante a eleição federal canadense de 2021, com o objetivo de garantir que os liberais vencessem novamente, mas apenas com uma minoria parlamentar. Em fevereiro de 2023, o CSIS concluiu que o governo chinês havia interferido nas eleições de 2019 e 2021. Em maio de 2024, uma investigação oficial da Comissão de Interferência Estrangeira do parlamento constatou que a China interferiu em ambas as eleições.
Partidos políticos de oposição no Canadá exigiram uma investigação pública sobre o que chamaram de falhas do governo canadense de Justin Trudeau em alertar parlamentares sobre as atividades da China, notificar parlamentares visados pela China, e proteger melhor os processos democráticos canadenses. Em maio de 2023, o governo canadense expulsou o diplomata chinês Zhao Wei, acusado de intimidar um político canadense. Rejeitando uma investigação pública completa, Trudeau nomeou o ex-Governador-geral do Canadá David Johnston para apurar as alegações. Johnston apresentou um relatório preliminar em maio de 2023. Em seu relatório, ele descreveu a interferência da China como um perigo para a democracia canadense, afirmou que algumas das reportagens da imprensa estavam parcialmente incorretas, e que os serviços de inteligência e o governo do Canadá precisavam fazer diversas melhorias para combater a ameaça e proteger os membros do Parlamento. Embora diversos partidos de oposição tivessem pedido uma investigação judicial em larga escala sobre as alegações, Johnston recomendou não fazê-lo, afirmando que as informações de inteligência eram consideradas "ultrassecretas" e não poderiam ser discutidas em uma investigação totalmente aberta. Johnston pretendia continuar sua investigação com audiências públicas e um relatório final em outubro de 2023, mas, em vez disso, renunciou ao cargo de relator especial em 9 de junho.
Após a renúncia de Johnston, Trudeau encarregou o ministro dos Assuntos Intergovernamentais, Dominic LeBlanc, de negociar com os partidos de oposição a possibilidade de uma investigação pública sobre a questão. Em setembro de 2023, Justin Trudeau nomeou a juíza de Quebec Marie-Josée Hogue para presidir a "Investigação Pública sobre Interferência Estrangeira nos Processos Eleitorais Federais e nas Instituições Democráticas". Seu mandato inclui investigar a interferência estrangeira vinda da China, mas também de outros Estados considerados hostis ao Canadá, como a Rússia. Em maio de 2024, a investigação divulgou seu relatório preliminar, constatando que a China se envolveu em interferência estrangeira em ambas as eleições, mas que a interferência não afetou o resultado final de nenhuma delas. O relatório final, divulgado em janeiro de 2025, identificou a desinformação disseminada em redes sociais como uma grande ameaça à democracia canadense.
Contexto
Segundo ex-autoridades de inteligência canadenses e americanas, as operações chinesas no exterior, no Canadá, cresceram a ponto de representar uma ameaça alarmante à segurança dos Estados Unidos, que conduziram uma investigação secreta sobre o assunto. Essas operações supostamente consistiam em espionagem, cooptação de políticos e autoridades governamentais, interferência eleitoral e controle de indivíduos e empresas com laços com a China, inclusive por meio de delegacias de polícia estrangeiras.
Por ocasião da eleição de 2021, o Partido Conservador do Canadá havia adotado uma postura dura em relação à China, que incluía uma proposta de retirada do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, liderado por Pequim, redução da dependência de importações chinesas, e proibição do uso de equipamentos de rede da Huawei. O governo chinês descreveu a postura como "difamação da China" e ameaçou que isso "provocaria contra-ataques".
Alertas antecipados de autoridades de inteligência Em junho de 2017, o conselheiro de Segurança Nacional do Canadá redigiu um Memorando para o Primeiro-Ministro, informando ao primeiro-ministro Justin Trudeau que agentes da RPC estavam "auxiliando candidatos canadenses a cargos políticos". Esse documento, com cópia enviada ao secretário do Conselho Privado, afirmava ainda que autoridades tinham provas documentadas de que a China tentava se infiltrar em "todos os níveis do governo", e alegava que "há um substancial corpo de evidências de que autoridades chinesas perseguem ativamente uma estratégia de engajamento para influenciar autoridades canadenses de formas que podem comprometer a segurança do Canadá e a integridade das instituições canadenses".
Trudeau recebeu um relatório sigiloso do Comitê de Parlamentares sobre Segurança Nacional e Inteligência (NSICOP) em agosto de 2019. O relatório alertava que autoridades públicas em todos os níveis de governo estavam sendo visadas, e que o governo havia sido "lento para reagir à ameaça de interferência estrangeira" e "precisa melhorar". Uma cópia com trechos ocultados do relatório foi posteriormente divulgada em março de 2020.
Autoridades de segurança teriam dado um "briefing urgente e sigiloso" a autoridades do Partido Liberal do Canadá três semanas antes da eleição federal de 2019, "alertando-as de que um de seus candidatos fazia parte de uma rede de interferência estrangeira chinesa" — referindo-se a Han Dong —, mas o alerta foi ignorado pelo Partido Liberal. Interferência durante a eleição de 2019 O plano de infiltrar a eleição de 2019 foi tornado público por meio de uma reportagem investigativa da Global News, em 7 de novembro de 2022.
Fontes não confirmadas e anônimas da reportagem afirmaram que a inteligência coletada sugeria que um grupo de fachada do Partido Comunista Chinês (PCC) mobilizou cerca de CA$ 250 mil para financiar a rede de infiltração por meio de um assessor de um candidato à eleição e de um membro da Assembleia Legislativa de Ontário, ambos atuando como intermediários. Os beneficiários das doações supostamente incluíam ao menos 11 candidatos e membros de suas equipes de campanha, 13 ou mais assessores federais, um deputado provincial (MPP) de Ontário, e autoridades públicas não eleitas, segundo um "Relatório Especial" do Gabinete do Conselho Privado (PCO) de janeiro de 2022. O "Relatório Especial" do PCO foi elaborado a partir de informações extraídas de 100 documentos do Serviço Canadense de Inteligência de Segurança (CSIS). As fontes também disseram que os candidatos eram membros dos dois principais partidos políticos do Canadá (o Partido Liberal do Canadá e o Partido Conservador do Canadá), e que alguns deles eram "afiliados conscientes do Partido Comunista Chinês."
Em 24 de fevereiro de 2023, a Global News informou que suas fontes de inteligência, com conhecimento dos assuntos do CSIS, relataram que Dong era um suposto "afiliado consciente" nas redes de interferência eleitoral da China. Fontes afirmam que o primeiro-ministro Justin Trudeau e altas autoridades do Partido Liberal ignoraram os alertas do CSIS sobre Dong, o que foi negado por Trudeau.
O mesmo artigo também afirmou que um "informante interno liberal" e ex-deputado provincial de Ontário, Michael Chan, teria possivelmente articulado a saída de Geng Tan em Don Valley North em favor de Dong antes da eleição federal de 2019, porque o PCC estava insatisfeito com Tan. Chan, Dong e a embaixada chinesa negaram as acusações, com Dong descrevendo os vazamentos como "seriamente imprecisos". Dong e o Partido Liberal também disseram que sua vitória na indicação de 2019 havia seguido todas as regras do partido. Segundo uma autoridade de inteligência anônima e documentos de inteligência vistos pela Global News, o CSIS também vinha investigando Dong devido a um suposto encontro entre ele e uma autoridade sênior do Departamento de Trabalho da Frente Unida do PCC, no estado de Nova Iorque.
Dong negou as alegações feitas contra ele, dizendo que sua indicação de 2019 foi "aberta e seguiu as regras", e que ele não era um afiliado consciente. Em março de 2023, ele disse ainda não ter sido contatado pela RCMP, pela Eleições Canadá ou pelo CSIS a respeito das alegações, e que queria que a verdade viesse à tona.
Em março de 2023, a Global News informou que Vincent Ke era o deputado provincial de Ontário supostamente responsável por atuar como intermediário financeiro do consulado chinês, como parte dos esforços de interferência eleitoral. No mesmo dia, Ke negou as alegações e renunciou ao cargo de secretário parlamentar e à bancada do Partido Conservador Progressista de Ontário, passando a atuar como independente. O gabinete do Premiê de Ontário havia recebido um briefing do CSIS sobre Ke em novembro de 2022. Em abril de 2023, Ke disse ter notificado a Global News por difamação, quanto à cobertura feita sobre ele.
Interferência durante a eleição de 2021 Um ano após a eleição federal canadense de 2021, políticos do Partido Conservador, incluindo o ex-líder Erin O'Toole, atribuíram a interferência do governo chinês como um fator que contribuiu para a derrota do partido. Em uma entrevista de 2022 ao podcast UnCommons, com Nathaniel Erskine-Smith, O'Toole opinou que veículos de mídia da RPC poderiam ter custado aos conservadores até "oito ou nove cadeiras". O Partido Conservador acredita que seus candidatos foram alvo de interferência estrangeira em 13 distritos federais. O Partido Conservador foi regularmente informado pelo CSIS sobre interferência estrangeira durante a campanha eleitoral de 2021. O partido acredita que a influência estrangeira incluiu trabalhadores de campanha pagos por governos estrangeiros, publicidade ilegal, e manipulação e desinformação em redes sociais, incluindo o WeChat e o Weibo.