O cinismo ( kynismós, em latim cinicus) foi uma corrente filosófica fundada por Antístenes, discípulo de Sócrates e como tal praticada pelos cínicos (, latim: Cynici). Para os cínicos, o propósito da vida era viver na virtude, de acordo com a natureza.Hilton Japiassú, Danilo Marcondes. Dicionário básico de filosofia. Zahar; 1993. ISBN 978-85-378-0341-7. p. 46. Como criaturas racionais, as pessoas podem obter felicidade por meio de um treinamento rigoroso e vivendo de uma maneira que seja natural para elas mesmas, rejeitando todos os desejos convencionais de riqueza, poder e fama - em vez disso, eles deveriam levar uma vida simples, livre da necessidade de posses - e até mesmo desrespeitando as convenções sociais aberta e ironicamente.
O primeiro filósofo a definir o cinismo foi Antístenes, ex-aluno de Sócrates no final do século V a.C. Ele foi seguido por Diógenes de Sinope, que vivia dentro de um jarrão de cerâmica em Atenas,Laërtius & Hicks 1925, VI:23; Jerome, Adversus Jovinianum, 2.14. e que levou o cinismo aos seus extremos lógicos e passou a ser visto como o arquétipo do filósofo cínico, sua autarkeia (autossuficiência) e a apatheia perante as vicissitudes da vida eram os ideais do cinismo.Ivo Jose Triches. Fundamentos Filosóficos Da Educação. IESDE BRASIL SA; ISBN 978-85-387-0657-1. p. 72. Ele foi seguido por Crates de Tebas, que doou uma grande fortuna para que pudesse viver de acordo com o cinismo em Atenas.
O cinismo se espalhou durante a ascensão do Império Romano no século I quase se tornando um movimento de massa, e assim, os cínicos eram encontrados mendigando e pregando ao longo das cidades do império. A doutrina finalmente desapareceu no final do século V, embora alguns afirmem que o cristianismo primitivo adotou muitas de suas ideias ascéticas e retóricas.
Por volta do século XIX, a ênfase sobre os aspectos negativos da filosofia cínica levou ao entendimento moderno de cinismo a significar uma disposição de descrença na sinceridade ou bondade das motivações e ações humanas e como caraterização de pessoas que desprezam as convenções sociais. Para encorajar as pessoas a renunciarem aos desejos criados pela civilização e convenções, os cínicos empreenderam uma cruzada de escárnio antissocial e assim mostrar as frivolidades da vida social.Simon Blackburn. Dicionário Oxford de filosofia. Jorge Zahar Editor; 1997. ISBN 978-85-7110-402-0.
Origem do termo O nome "cínico" ( kynikos, igual a um cão, κύων (kyôn)|cão (genitivo: kynos).Kynikos, "A Greek-English Lexicon", Liddell and Scott, at Perseus Uma explicação existente em tempos antigos de porque os cínicos eram chamados de cães era porque o primeiro cínico, Antístenes, ensinava no ginásio Cinosargo, um ginásio e templo para nothoi atenienses.Violence and Abuse in Society: Understanding a Global Crisis. ABC-CLIO; ISBN 978-0-313-38276-5. p. 87. "Nothoi" é um termo que designa aquele que não possui a cidadania ateniense por ter nascido de uma escrava, estrangeira, prostituta, de pais cidadãos mas não legalmente casados, ou ainda, bastardos de mulheres hilotas.Ian Morris; Walter Scheidel. The Dynamics of Ancient Empires: State Power from Assyria to Byzantium. Oxford University Press; 2009. ISBN 978-0-19-988817-7. p. 333.Diógenes Laércio, vi. 13. Cf. The Oxford Companion to Classical Literature, 2nd edition, p. 165.
A palavra Cynosarges significa ou pode significar ainda "alimento de cão", "cão branco", ou "cão rápido".Jacques Brunschwig; Geoffrey Ernest Richard Lloyd; Pierre Pellegrin. A Guide to Greek Thought: Major Figures and Trends. Harvard University Press; 2003. ISBN 978-0-674-02156-3. p. 322. Parece certo, contudo, que a palavra "cão" também foi lançada aos primeiros cínicos como um insulto por sua rejeição descarada quanto às convenções sociais e sua decisão de viver nas ruas.
Diógenes de Sinope, em particular, foi referido como o cão, ao ter afirmado que "os outros cães mordem seus inimigos, eu mordo meus amigos para salvá-los".Diógenes de Sínope, citado por Estobeu, Florilegium, iii. 13. 44. Mais tarde, os cínicos também buscaram transformar a palavra a seu favor, como um comentarista explicou:
Há quatro razões de por que os "cínicos" são assim chamados. Primeiro por causa da indiferença de seu modo de vida, pois fazem um culto à indiferença e, assim como os cães, comem e fazem amor em público, andam descalços e dormem em barris nas encruzilhadas. A segunda razão é que o cão é um animal sem pudor, e os cínicos fazem um culto à falta de pudor, não como sendo falta de modéstia, mas como sendo superior a ela. A terceira razão é que o cão é um bom guarda e eles guardam os princípios de sua filosofia. A quarta razão é que o cão é um animal exigente que pode distinguir entre os seus amigos e inimigos. Portanto, eles reconhecem como amigos aqueles que são adequados à filosofia, e os recebem gentilmente, enquanto os inaptos são afugentados por ele, como os cães fazem, ladrando contra eles.Escólio na Retórica de Aristóteles, citado em Luis E. Navia. Antisthenes of Athens: Setting the World Aright. Greenwood Press; 2001. ISBN 978-0-313-31672-2. p. 99.
História Os cínicos gregos e romanos clássicos consideravam a virtude como a única necessidade para a eudaimonia (felicidade) e viam a virtude como inteiramente suficiente para alcançar a felicidade. Os cínicos clássicos seguiram esta filosofia a ponto de negligenciarem tudo que não promovesse a perfeição da virtude e alcance da felicidade, assim, o título cínicos, deriva da palavra em grego κύων (significando "cão") porque supostamente negligenciavam a sociedade, a higiene, a família, o dinheiro, etc, de uma forma que lembra os cães. Eles procuraram libertar-se de convenções; tornando-se autossuficientes — possuindo autarquia — e vivendo apenas de acordo com a natureza. Eles rejeitavam todas as noções convencionais de felicidade que envolvessem dinheiro, poder, ou fama a fim de viverem de forma virtuosa e portanto feliz.
Os cínicos antigos rejeitavam os valores sociais convencionais e criticavam alguns tipos de comportamentos, como a ganância, que era vista como causadora de sofrimento. Uma maior ênfase sobre este aspecto de seus ensinamentos levou, ao final do século XVIII e início do XIX,David Mazella. The Making of Modern Cynicism. University of Virginia Press; 2007. ISBN 978-0-8139-2615-5. à compreensão moderna de cinismo como "uma atitude de desdém negativo ou cansado, especialmente uma desconfiança geral quanto à integridade ou motivos professos dos outros".Cynicism, The American Heritage Dictionary of the English Language. Fourth Edition. 2006. Houghton Mifflin Company. Esta definição moderna de cinismo está em contraste marcante com a filosofia antiga, que destacou "a virtude e a liberdade moral na libertação do desejo".Bertrand Russell. History of Western Philosophy. Routledge; 2004. ISBN 978-1-134-34366-9. p. 231.
Filosofia O cinismo é uma das filosofias mais marcantes de toda a filosofia helenística.Robert Bracht Branham; Marie-Odile Goulet-Cazé (2000). The Cynics: The Cynic Movement in Antiquity and Its Legacy. Universidade da California Press. pp. 28 – 46. ISBN 978-0-520-21645-7. O cinismo oferecia às pessoas a possibilidade de felicidade e liberdade do sofrimento em uma época de incertezas. Embora nunca tenha havido uma doutrina cínica oficial, os princípios fundamentais do cinismo podem ser resumidos da seguinte forma:Jonathan Ree; J.O. Urmson (2005). The Concise Encyclopedia of Western Philosophy and Philosophers. Routledge. p. 91. ISBN 978-1-134-89779-7.Luis E. Navia (1996). Classical Cynicism: A Critical Study. Greenwood Publishing Group. p. 140. ISBN 978-0-313-30015-8.
O objetivo da vida é a eudaimonia (felicidade) e clareza ou lucidez (ἁτυφια) — libertação da τύφος (nebulosidade) que significava ignorância, inconsciência, insensatez e presunção; A eudaimonia é alcançada ao se viver de acordo com a Physis (a natureza) como entendida pelo Logos do ser humano; τύφος (a arrogância) é causada por falsos julgamentos de valor, que causam emoções negativas, desejos não naturais e um caráter vicioso; A eudaimonia ou o desenvolvimento humano, dependem de autossuficiência (αὐτάρκεια), apatheia, arete, filantropia, paresia e indiferença para com as vicissitudes da vida (ἁδιαφορία); Evolui-se através de práticas ascéticas (ἄσκησις) que ajudam o indivíduo a tornar-se livre de influências — tais como riqueza, fama ou poder — que não têm valor na natureza. Exemplos incluem Diógenes de Sínope que vivia em um barril e andava descalço no inverno; Um cínico pratica o descaramento ou a desfaçatez (Αναιδεια) e desfigura o nomos da sociedade; as leis, os costumes e convenções sociais que as pessoas aceitam como o correto;M.C. Howatson (2013). The Oxford Companion to Classical Literature. Oxford University Press. p. 179. ISBN 978-0-19-954855-2. A sabedoria maior consistia na ação, não apenas no pensar.
Assim, um cínico não possui bens e rejeita todos os valores convencionais de dinheiro, fama, poder e reputação. Viver de acordo com a natureza requer apenas as necessidades básicas para a existência e qualquer um pode tornar-se livre ao libertar-se de todas as necessidades resultantes das convenções sociais. Os cínicos adotaram Héracles como seu herói e epítome do cínico ideal.Diógenes Laércio, vi. 2, 71; Dio Chrysostom, Orations, viii. 26–32; Pseudo-Luciano, Cynicus, 13; Luciano de Samósata, De Morte Peregrini, 4, 33, 36. De acordo com Luciano de Samósata, Cérbero e o cínico certamente estão relacionados através do cão.Luciano de Samósata, Diálogos dos Mortos, 21
O modo de vida cínico exigia formação contínua, não apenas no exercício de julgamentos e das impressões mentais, mas também treinamento físico:James Uden (2014). The Invisible Satirist: Juvenal and Second-Century Rome. Oxford University Press. p. 168. ISBN 978-0-19-938727-4.
Ele costumava afirmar que o treinamento era de dois tipos, mental e corporal: o último dizendo que com o exercício constante, as percepções são formadas, tal como assegura a liberdade para as ações virtuosas; e metade deste treinamento é incompleto sem o outro, boa saúde e força estão entre as coisas essenciais, seja para o corpo ou para a alma. E ele apresentava provas irrefutáveis para mostrar facilmente que com a prática de ginástica chega-se até a virtude. Nos trabalhos manuais e outras artes se pode ver que os artesãos desenvolvem habilidade manual extraordinária através da prática. Mais uma vez, o caso dos tocadores de flauta e dos atletas: que habilidade eles adquirem por sua própria labuta incessante; e, se eles tivessem transferido seus esforços para o treinamento da mente, como em seus trabalhos não teriam sido em vão ou ineficaz.Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, vi. 70
Nada disso significava que o cínico deve afastar da sociedade. São cínicos os que vivem sob o olhar público e mantém-se completamente indiferentes em face de qualquer insulto que possam resultar de seu comportamento pouco convencional. Os cínicos dizem ter inventado a ideia do cosmopolita: quando lhe foi perguntado de onde veio, Diógenes respondeu que era "um cidadão do mundo" (kosmopolitês).
O ideal cínico era evangelizar; como o cão de guarda da humanidade, era seu trabalho perseguir as pessoas sobre o erro de suas maneiras e costumes. O exemplo de vida do cínico (e o uso da mordaz sátira cínica) expunha as pretensões que se colocam na raiz das convenções cotidianas.
Embora o cinismo concentrou-se exclusivamente em ética, a filosofia cínica, teve um grande impacto no mundo helenístico. Em última análise, tornou-se uma importante influência para o estoicismo. O estoico Apolodoro de Selêucia escrevendo no século II a.C., afirmou que o cinismo é o caminho curto para a virtude.Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, vii. 121
Influências