Francisco Jesuíno Avanzi (Piracicaba, 30 de janeiro de 1949 — São Paulo,"Eternamente raça", Lance!, 9/10/2008, pág. 6 8 de outubro de 2008), popularmente conhecido como Chicão, foi um futebolista brasileiro. Jogou na posição de volante, destacou-se no São Paulo e no Atlético-MG e defendeu, ainda, a seleção brasileira, tendo sido convocado para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina.

Carreira Chicão era um volante que se destacava mais por sua disposição do que pela técnica. Era considerado um jogador raçudo e viril e, ocasionalmente, até violento,Alexandre da Costa, Almanaque do São Paulo Placar, Editora Abril, 2005, pág. 380 mas também foi chamado de "o mais acabado exemplo de raça e amor à camisa que o [São Paulo] teve em sua história"."O último valentão", Luís Augusto Símon, Jornal da Tarde, 15/11/2004, Edição de Esportes, pág. 19 Dizia-se que, "para ele, qualquer um que ameaçasse as vitórias são-paulinas era passível de punição"."Três gerações de vitoriosos", Placar número 1065, novembro de 1991, Editora Abril, pág. 33

Quando jovem, trabalhava numa fábrica de sua cidade natal como aprendiz de torneiro-mecânico, atividade que não o agradava."Ídolos", Placar, série "As Maiores Torcidas do Brasil": São Paulo, Editora Abril, 1985, pág. 28 Preferia jogar futebol pelo Filhos de Funcionários,"Um doce bárbaro", José Maria de Aquino, Placar número 381, 12/8/1977, Editora Abril, pág. 21 time amador de sua cidade natal. Em 1967, participou de uma "peneira" no São Paulo, mas, mesmo aprovado, acabou ingressando nas categorias de base do XV de Piracicaba. Lá, foi campeão de torneios juvenis. Lá, foi descoberto pelo treinador Cilinho, o técnico da equipe profissional do clube piracicabano na época, que o chamou para treinar no time principal. Foi contratado, em 1968, mas não conseguiu se tornar titular. Ele ainda jogava como meia armador.

Ainda em 1968, foi emprestado para o União Agrícola Barbarense, de Santa Bárbara d'Oeste, e firmou-se como o principal jogador da equipe.Conrado Giacomini, São Paulo — Dentre os Grandes, És o Primeiro, Ediouro, 2005, pág. 155 De lá, transferiu-se para o São Bento, de Sorocaba, e depois para a Ponte Preta, por 150 mil cruzeiros. No clube campineiro, jogou novamente em um time orientado por Cilinho, que o colocou na posição de volante. Assim, destacou-se novamente. Em 1973, foi vendido, junto com o goleiro Waldir Peres, para o São Paulo. Seu passe custou 450 mil cruzeiros, com o Tricolor pagando mais 250 mil cruzeiros pelo arqueiro, após uma negociação que durou quase um mês e que teve o Palmeiras concorrendo com o rival para contratar Chicão. "Agora, estou no clube em que deveria estar desde o início da minha carreira", disse, ao ser contratado, lembrando do teste de que participara, seis anos antes. Ele acabaria ficando no Morumbi por quase sete anos. Lá, tornar-se-ia um dos grandes ídolos da torcida tricolor.

No ano seguinte ao de sua chegada ao São Paulo, Chicão disputou a Libertadores da América, conseguindo o vice-campeonato. A derrota, na final, por 1 a 0, para o Independiente, da Argentina, chegou a ser classificada pelo próprio volante como a "maior decepção" de sua vida. Mesmo assim, seu estilo de jogo de sempre buscar a vitória e mostrar muita disposição fazia dele um ídolo para os são-paulinos. Em 1976, por exemplo, antes de um jogo entre São Paulo e Palmeiras, foi advertido com um cartão amarelo antes mesmo de a partida começar. "Eu cheguei próximo do José de Assis de Aragão e disse a ele: 'Vê se apita direito essa porcaria.' O Aragão não teve dúvida e me deu o amarelo antes do começo do jogo", lembraria, anos mais tarde, o volante.

Em 1975, conquistou seu primeiro título pelo São Paulo — e também da carreira — ao vencer o Campeonato Paulista. No ano seguinte, foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira que disputaria alguns torneios amistosos. Estreou na vitória por 2 a 1 sobre o Uruguai, em jogo pela Taça do Atlântico e manteve-se como titular nas quatro partidas seguintes, até romper os ligamentos do joelho direito aos 23 minutos do segundo tempo do jogo contra a Argentina em 19 de maio.Ivan Soter, André Fontenelle, Mario Levi Schwartz, Dennis Woods e Valmir Storti, Todos os Jogos do Brasil, Editora Abril, 2006, pág. 303 A lesão não foi grave, e ele voltou a jogar menos de um mês depois, em 13 de junho, em partida do São Paulo contra o América de São José do Rio Preto.Alexandre da Costa, Almanaque do São Paulo Placar, Editora Abril, 2005, pág. 183

Sua maior glória, no entanto, viria em 1977, quando ajudou o time do Morumbi a vencer seu primeiro Campeonato Brasileiro, mesmo depois de se especular sua saída para o Corinthians. O título foi conquistado em cima do Atlético-MG na final, e Chicão foi considerado o melhor jogador em campo."No fim do abecedário", Veja número 497, 15/3/1978, Editora Abril, pág. 80 Foi também acusado de quebrar, propositalmente, a perna do atleticano Ângelo, ao pisar nela depois de um carrinho dado por Neca. A partir daí, a torcida atleticana passou a xingá-lo e odiá-lo,"A revolta de Minas contra o São Paulo", Jornal da Tarde, 8/3/1978, pág. 20 embora um ano e meio depois o próprio Ângelo tenha afirmado que o pisão não alterara o quadro clínico de seu joelho, porque a lesão se devia apenas à entrada de Neca. Esse depoimento do atleticano fez com que o processo civil fosse arquivado.

Em 1978, por sua garra, foi convocado para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, em que o Brasil ficou com a terceira colocação. O treinador Cláudio Coutinho queria contar com um jogador como ele para jogos mais tensos contra adversários que usassem a catimba. Coutinho tinha assistido à partida do São Paulo contra a Ponte Preta, em 1 de fevereiro, quando Chicão foi o melhor jogador em campo, e saiu dizendo que o futebol do volante era "feito de competição pura"."Chicão — Ele já não se preocupa com exibições. Se quiserem garra na Seleção…", Jornal da Tarde, 23/2/1978, pág. 21 "Eu só havia atuado meio tempo contra o Peru e meio tempo contra a Áustria. Saí jogando contra a Argentina no lugar de Cerezo, porque o Coutinho queria mais pegada", contou o ex-jogador ao site de A Gazeta Esportiva em 2003."Chicão: um volante à moda antiga" , Raul Drewnick, A Gazeta Esportiva, 2003

Foi nesta partida que Chicão teve sua atuação mais famosa pela Seleção — e sua única como titular em uma Copa do Mundo. Coutinho pediu ao volante que impusesse seu jogo sem ser expulso. Ele se estranhou com o atacante argentino Mario Kempes logo no início do duelo, e, coincidência ou não, o artilheiro da equipe adversária teve fraco desempenho em toda a partida.Enciclopédia do Futebol Brasileiro Lance, Areté Editorial, 2001, pág. 48 "Os argentinos queriam fazer aquela catimba de sempre e não conseguiram. Eu cheguei arrepiando e eles se encolheram", lembrou ele, também em entrevista ao site de A Gazeta Esportiva. No início do segundo tempo, levou um cartão amarelo, por uma entrada em Kempes,Ivan Soter, André Fontenelle, Mario Levi Schwartz, Dennis Woods e Valmir Storti, Todos os Jogos do Brasil, Editora Abril, 2006, pág. 327 apesar de ter cometido apenas duas faltas, além de uma não marcada. "A imagem que ficou foi a do implacável Chicão literalmente caminhando sobre Ardiles", escreveria a revista Placar, um ano depois."Guerra é guerra", Maurício Cardoso, Placar número 496, 26/10/1979, Editora Abril, pág. 20 Ganhou dos argentinos o apelido de "Matador"."Festa do interior", Ari Borges e Betise Assumpção, Placar número 814, 27/12/1985, Editora Abril, pág. 44 "Tenho certeza de que 'dei o meu recado'", diria o volante, poucos dias depois da partida. Em 2009, entretanto, o jornalista Mauro Beting reviu a partida e não ficou impressionado com a atuação do volante: "Não foi aquele monstro sanguinário pintado — e que muitas vezes foi, mesmo. Jogou muito menos que o imenso Batista, o melhor em campo, ao lado do imperial Oscar na zaga brasileira".

Chicão permaneceu no São Paulo até o fim de 1979, tendo atuado em 312 jogos e marcado dezenove gols. Foi para o Atlético-MG, onde teve dificuldades para ser aceito por sua nova torcida, por causa do incidente na final do Brasileiro de 1977, mas, ao chegar a Belo Horizonte, conseguiu cativar a torcida depois de ser contratado para jogar justamente ao lado de Ângelo."Os bravos também choram", Placar número 1089, novembro de 1993, Editora Abril, pág. 18 Já com 31 anos, chegou para ser exemplo para o jovem time que estava sendo montado. "Nós [os veteranos] puxamos a fila no treino, chegamos mais cedo ao clube, tranquilizamos o pessoal em campo", explicou o jogar à Placar."Nestes você pode confiar", Placar número 513, 29/2/1980, Editora Abril, pág. 20 Em Minas Gerais, conquistou o Campeonato Mineiro de 1980.

Em 10 de setembro de 1981 o Santos anunciou a contratação de Chicão e de Palhinha junto ao Atlético, por 26,5 milhões de cruzeiros."Os vingadores", Fábio Sormani, Placar número 592, 18/9/1981, Editora Abril, pág. 24 A decisão do time mineiro, que colocou os jovens De Rosis e Helinho no lugar dos dois, foi criticada pela imprensa."De volta, os meninos do Galo", Sérgio Augusto Carvalho, Placar número 592, 18/9/1981, Editora Abril, pág. 24 Menos de um ano depois, Chicão foi emprestado ao Londrina, para o Campeonato Paranaense. O jogador reclamou de ter sido pego de surpresa pela transação: "É incrível como os dirigentes do Santos dispõem dos seus jogadores. Fazem negócios sem sequer nos consultar. Francamente, estou decepcionado, pois é a primeira vez que isso acontece comigo ao longo dos meus quinze anos de futebolista profissional. E o pior é que nem eu mesmo sei dos motivos do meu empréstimo. Pelo que sei — e falo isso medindo a reação da torcida, que é bastante exigente —, eu vinha muito bem no Santos, dando cabal desempenho das funções que me eram atribuídas em campo."

Insatisfeito no Paraná, rescindiu o contrato antes mesmo do fim do ano: "Eu não aguentava mais lá. Agora, vou lá no Santos ver se consigo passe livre, como foi prometido." Para conseguir seu intento, chegou a ameaçar aposentar-se, caso o Santos não lhe concedesse passe livre. "Primeiro, financeiramente sou uma pessoa que conseguiu a estabilidade", avaliou. "Segundo, quero fazer uma avaliação comigo mesmo, para ver se tenho condições de disputar a Taça de Ouro ou mesmo a Taça de Prata, porque sei que time para eu jogar é que não vai faltar. E terceiro é que eu ainda não sei como vou me sentir depois que encerrar a carreira".

Nos anos seguintes, jogou ainda no Corinthians de Presidente Prudente e no Botafogo de Ribeirão Preto, antes de chegar ao Mogi Mirim, em abril de 1984, como o veterano que o clube buscava para liderar um elenco jovem. Foi uma das peças-chave"Festa do interior", Ari Borges e Betise Assumpção, Placar número 814, 27/12/1985, Editora Abril, pág. 43 no acesso do time à primeira divisão paulista, em 1985. Nessa campanha, ficou de fora de apenas 3 das 36 partidas do time, sendo uma por expulsão, uma por cartões amarelos e só uma por contusão. Encerrou a carreira em 1986, aos 37 anos: com os quatro meniscos operados, não conseguiu mais continuar. Além disso, sofria de um problema crônico no nervo ciático. No entanto, sua determinação e raça não deixavam que isso o atrapalhasse quando jogava. Sofria ainda de problemas estomacais que mais de uma vez fizeram com que ele vomitasse em campo — mas seguia jogando do mesmo jeito que antes.

Seleção Brasileira No total, vestiu a camisa do Brasil em nove partidas oficiais e duas não oficiais, com sete vitórias, três empates e uma derrota. Não marcou gols. Sua primeira partida oficial foi em 25 de fevereiro de 1976, pelas Taças do Atlântico e Oswaldo Cruz, contra o Uruguai (vitória por 2 a 1), enquanto a última foi contra o Paraguai, em 24 de outubro de 1979, pela Copa América (derrota por 2 a 1)."A história em seus pés", Placar número 1094, maio de 1994, Editora Abril, pág. 77

Aposentadoria e morte