miniaturadaimagem|Meliponário com mourões individuais da aldeia Pau Brasil, na Terra Indígena Tupiniquim, Aracruz, ES. Meliponicultura é a criação racional de abelhas sem ferrão (ASF), ou meliponíneos (tribo Meliponini), diferente da apicultura que se refere à criação de abelhas da espécie Apis mellifera (abelha européia, abelha africanizada; tribo Apini). Na meliponicultura, as colméias podem ser organizadas em meliponários, locais com condições adequadas de temperatura, orientação solar, umidade, oferta de alimento (flores e resinas).esquerda|miniaturadaimagem|Sistema tradicional de meliponicultura asteca em caixas, ou ollas, de barro.Os objetivos da meliponicultura estão na produção e comercialização de colméias (ou parte delas), mel, pólen, resinas, própolis, cera e outros substratos como atrativos e ninho-iscas; além do póprio serviço ecossistêmico de polinização, já que as abelhas são um dos principais agentes de polinização e a manutenção da biodiversidade. Além disso, a atividade pode não fornecer produtos vendáveis, mas simplesmente visar a proteção das espécies contra a extinção. Por fim, é possível também utilizar-se de colônias de ASF para educação infantil ambiental, já que se trata de insetos, em sua maioria, sem comportamento agressivo ou nocivo ao ser humano. miniaturadaimagem|Meliponicultor de Boa Vista do Ramos, AM. Os povos indígenas e comunidades tradicionais já manuseavam as abelhas sem ferrão e utilizavam o seu mel para diversos tratamentos de saúde (como a catarata), para alimentação e subsistência.LAGES FILHO, J. A Medicina Popular em Alagoas. Separata dos Arquivos do Instituto Nina Rodrigues. 1934. A meliponicultura já era praticada há muito tempo pelos povos nativos da América Latina, em especial aqueles do Brasil e México.
Atualmente existe uma perspectiva direcionada à tecnificação e crescimento do conhecimento científico relacionado à criação e manejo das ASF, por se tratar de uma atividade que gera produtos de alto valor agregado e relacionados à preservação dos ambientes naturais.
Atividade sustentável miniaturadaimagem|direita|Entrada do ninho de Jataí amarela (Tetragonisca angustula)No Brasil existem aproximadamente 56% espécies de abelhas-sem-ferrão das 462 que já foram descritas no mundo (alguns estudos apontam 552 espécies), muitas delas com características específicas e propícias para o desenvolvimento agroecológico sustentável, como a jataí-amarela (Tetragonisca angustula). Mesmo algumas espécies não possuindo valor agronômico zootécnico, a criação dessas colméias também se insere na meliponicultura, numa modalidade mais recreativa e conservacionista.
A meliponicultura apresenta importância econômica, ambiental e social dentro de diversos nichos e regiões onde ocorrem as abelhas, pois não necessitam de cuidados intensivos e nem investimento elevado na construção de um meliponário. A atividade, inclusive, pode ser desenvolvida por meliponicultores de todas as idades, como crianças e idosos. Além disso, as abelhas-sem-ferrão podem ser criadas em áreas residenciais, já que muitas espécies não apresentam riscos de acidentes.
O mel produzido por abelhas nativas, considerado mais saudável devido ao menor teor de açúcar, maior acidez e maior umidade em comparação com o mel de Apis, tornou-se altamente cobiçado, alcançando preços que variam de R$ 80 a R$ 300 por litro. A demanda por esse mel é impulsionada pela sua qualidade superior, atribuída às colmeias de abelhas nativas, que geralmente reúnem menos indivíduos e produzem quantidades inferiores em comparação com as colônias de abelhas africanizadas mais comuns. Enquanto estas últimas podem abrigar entre 60 mil a 120 mil insetos, as abelhas nativas brasileiras formam enxames de no máximo 5 mil indivíduos. Dessa forma, a produção mais limitada resulta em uma oferta exclusiva e valorizada, sendo que de uma única colmeia é possível obter quantidades que variam de 100 ml a três ou quatro litros de mel.
Relação com povos originários O conhecimento sobre essas abelhas e a meliponicultura nas Américas remonta a tempos ancestrais. Em diversos países latino-americanos, com exceção do Chile, há evidências da relação de povos originários com esses insetos, tanto por meio da exploração extrativista como por técnicas rudimentares de criação.
Na América Central, descendentes das civilizações maias e astecas mantêm uma relação significativa com as abelhas-sem-ferrão, indo além do uso alimentar. Algumas espécies desempenham papéis importantes na cosmologia e na medicina tradicional dessas culturas, sendo que as abelhas nativas foram domesticadas pelos povos pré-colombianos, com práticas tradicionais de criação ainda em uso.
No Brasil, ao contrário de relatos de criação tradicional em outros países, a prática era praticamente inexistente. Com exceção de práticas de semi-domesticação documentadas na aldeia Gorotire, onde os Kayapó realizavam a extração do mel sem prejudicar as abelhas, a exploração extrativista e predatória era comum. Antes da introdução da abelha A. mellifera e da expansão da produção de açúcar, o mel das abelhas nativas desempenhava um papel crucial como principal adoçante natural para os povos indígenas, fornecendo energia em suas jornadas de caça e busca por alimentos.
Principais espécies brasileiras
Todas as espécies de meliponíneos são eussociais, ou seja, possuem uma estrutura de trabalho dividido por castas, onde as operárias (abelhas fêmeas) realizam a maioria das atividades de sustento do enxame, como construção e manutenção dos discos/cachos de cria, coleta e processamento de alimento, limpeza e proteção da colônia e cuidado com as crias. A rainha é responsável pela postura dos ovos. Os machos são responsável pela fecundação das princesas (rainhas virgens) e tarefas secundárias dentro da colônia. miniaturadaimagem|Número de espécies válidas de abelhas sem ferrão no Brasil. Recortes de estado e regiões. Estudo publicado em 2023.|435x435px No Brasil há aproximadamente 259 espécies de abelhas-sem-ferrão (sendo que estudos apontam de 462 a 550 no mundo). A maior parte dessa biodiversidade está alocada na região Norte, que abriga 197 espécies. A regiões Centro-Oeste e Nordeste possuem 99 e 97 espécies respectivamente. Nem todas as espécies se adaptam à criação racional pelos seres humanos. As espécies mais conhecidas e manejadas estão listadas abaixo.
Nomes comunsNomes científicosScaptotrigonasCanudoScaptotrigona depilisBenjoi, benjoinScaptotrigona polystictaMandaguari-pretaScaptotrigona posticaMandaguari-amarelaScaptotrigona xanthotrichaMeliponasGuarupu, guaraipoMelipona bicolorJandaíra Melipona subnitidaManduriMelipona marginataManduri-preto, uruçu, uruçu-boiMelipona fuliginosaMandaçaia (2 espécies)Melipona quadrifasciata Melipona mandacaiaMandaçaia-de-buraco, mandaçaia-da-terra, uruçu-do-chãoMelipona quinquefasciataTiúbaMelipona compressipesUruçu-nordestina, uruçu-verdadeiraMelipona scutellarisUruçu-amarela (3 espécies)Melipona flavolineata Melipona rufiventris
Melipona monduryUruçu-boca-de-rendaMelipona seminigraUruçu-preta ou negraMelipona capixabaPlebeiasMirim-drorianaPlebeia droryanaMosquitoPlebeia minimaMirim-guaçúPlebeia remotaFrieseomelittasMarmeladaFrieseomelitta variaMocinha-pretaFrieseomelitta languidaOutrasJataí-amarelaTetragonisca angustulaIraíNannotrigona testaceicornisBoráTetragona clavipes Espécies notáveis Algumas outras espécies, apesar de não serem comumente criadas por meliponicultores, são bastante conhecidas e interagem de diversas formas com meliponários e ambientes agrícolas. Nomes comunsNomes científicosBoca-de-sapoPartamona helleriTataíra, caga-fogoOxytrigona tatairaSanharãoTrigona truculentaArapuáTrigona spinipesLimão, sete-portasLestrimelitta limao
Espécies brasileiras ameaçadas de extinção miniaturadaimagem|Status de conservação das espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). De acordo com o ICMBio, em 2018 existiam quatro espécies de meliponíneos classificados com o status "ameaçado" (EN) no Brasil. +Livro Vermelho Espécies Brasileiras Ameaçadas de Extinção 2018ICMBio. 2018. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção: Volume VII - Invertebrados. In: ICMBio. (Org.). Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção. Brasília: ICMBio. 727p.Nome ComumNomes científicosOcorrênciaJ. M. F. Camargo, S. R. M. Pedro & G. A. R. Melo, 2023. Meliponini Lepeletier, 1836. In Moure, J. S., Urban, D. & Melo, G. A. R. (Orgs). Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region - versão on-line. Acessado em 09/12/2023ClassificaçãoUruçu-amarelaMelipona rufventrisGO, MS, MG, SPENUruçu-amarelaMelipona scutellarisAL, BA, CE, PB, PE, RN, SEENUruçu-capixabaMelipona capixabaESENPartamona littoralisPB, RNEN
Captura de enxames miniaturadaimagem|Entrada de ninho de mandaguari preta (S. postica) em árvore de Brasília, DF. O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) publicou em 2004 uma resolução, destacando a importância das abelhas silvestres nativas para o ecossistema brasileiro. Essas abelhas, seus ninhos e criadouros são considerados bens comuns, conforme previsto na Constituição Federal. O documento reconhece a relevância econômica da meliponicultura local e regional, bem como a importância das abelhas na estabilidade dos ecossistemas e na sustentabilidade da agricultura. Além disso, destaca o comprometimento do Brasil com a conservação e uso sustentável de polinizadores, conforme acordado na Convenção sobre a Diversidade Biológica.
Confecção de ninhos-isca A Resolução nº 346/2004 permite capturas de enxames da natureza através de ninhos-isca ou de métodos não destrutivos ao meio ambiente. Isso significa que a extração e exploração de colméias naturais são proibidas, exceto em casos de empreendimentos licenciados que incorrem em desmatamento da área.miniaturadaimagem|Mandaçaia (Melipona quadrifasciata) carregando pólen em suas corbículas.|esquerdaNogueira-Neto possui uma seção em seu livro Vida e Criação de Abelhas Indígenas sem Ferrão que trás informações sobre a remoção de ninhos naturais. Esse trecho deve ser interpretado, especialmente após a legislação do CONAMA, como tutorial para casos de resgates de colônias em árvores ou estruturas que serão suprimidas. A prática de remoção de ninhos naturais para criação racional sem motivo de perigo da colônia alvo não é permitida pela legislação brasileira.
Ninhos-isca são recipientes, caixas, colmeias ou objetos que possuem a finalidade de capturar uma colônia de abelhas que esteja naturalmente enxameando (processo de duplicação da colônia mãe, que resulta em uma colônia filha em um novo local disponível). Sugestões de materiais e tutoriais para confeccção desses dispositivos podem ser encontrados em livros, como no Manual Tecnológico de Aproveitamento Integral dos Produtos das Abelhas Nativas sem Ferrão ou em canais do YouTube especializados em meliponicultura.
A confeccção de ninhos-isca pode ser feita de diversas formas, mas no geral, os meliponicultures costumam empregar os seguintes materiais e técnicas: +ObjetivoMateriais utilizadosEspaço para colôniaGarrafa PET, caixas de madeira, colmos de bambu, galões, etcIsolamento térmicoPapelão, jornal, papel, tecido, etcIsolamento luminosoPlástico preto, sacos de lixo, etcCheiro atrativoLíquido atrativoOrifício de entradaBuracos simples, "joelhos" de encanamento, tubos de bambu, etc Fechamento e montagemTesouras, lacres, fitas adesivas, estiletes. esquerda|miniaturadaimagem|Ninho-isca com bocal de entrada (opcional) instalado em uma árvore.|301x301px Os ninhos-isca mais comuns são confeccionados com garrafas tipo pet de 1,5 a 5 litros embebidas internamente com líquido atrativo (própolis, resinas, geoprópolis e cerume diluídos em álcool) e envoltas com papelão ou jornal e lona plástica preta, imitando o interior oco de árvores. Para produzir o atrativo, geralmente o meliponicultor deixa o produto ser dissolvido durante algumas semanas, agitando-o diariamente.
Locais de instalação