Duo Ouro Negro foi um grupo musical criado em 1956 por Raúl Indipwo e Milo MacMahon em Angola, à data uma das províncias ultramarinas de Portugal. O grupo teve uma das carreiras da música popular em Portugal de maior visibilidade internacional, foi um pioneiro no multiculturalismo e um grande embaixador da música e cultura africanas no mundo.
O grupo criou música que sobrepõe diferentes domínios musicais que costumavam ser estanques, associou-se com músicos de vários países e cantou em diversas línguas africanas e europeias. Integrado numa indústria fonográfica em expansão conseguiu a atenção da imprensa musical internacional e, em sucessivas digressões, atuou nos melhores palcos de todo o mundo.
Biografia
Princípio da carreira Ambos naturais de Angola, Raúl Indipwo e Milo MacMahon conheciam-se desde a infância e estudaram juntos no liceu em Benguela. Mais tarde, em 1956, reencontram-se e iniciam um projecto musical centrado no folclore angolano de várias etnias e línguas recorrendo ao violão e a harmonias vocais na interpretação dos temas. Começaram por se chamar apenas "Ouro Negro" e só a partir de 1959 é que se passaram a designar "Duo Ouro Negro". O nome do grupo, sugerido pela locutora da Rádio Clube do Congo Português Maria Lucília Dias, designava localmente tudo o que fosse excepcional.
Subiram pela primeira vez ao palco do Cinema Restauração em Luanda em 1957. Após várias apresentações nas zonas de eleição de lazer e de espectáculo da cidade, incluindo o frequentado Cine-esplanada Avis, conseguem ir a Portugal Continental atuar em Lisboa, por intermédio do empresário Ribeiro Belga. Atuam com bastante sucesso no Cinema Roma e no Casino do Estoril. Os dois primeiros discos, gravados em 1959, contaram com a colaboração do músico multi-instrumentista brasileiro Sivuca e do seu conjunto. "Muxima" e "Kuricutéla" são alguns dos temas. O terceiro disco, cuja gravação foi dirigida pelo maestro Joaquim Luís Gomes no início de 1961, foi lançado em Portugal e na África do Sul.
Regressam a Angola em 1961, pouco antes do eclodir da Guerra Colonial Portuguesa, e entra para o grupo um terceiro elemento, José Alves Monteiro. Nesta nova formação em trio gravam cinco Extended Play (EPs), entre 1961 e 1962. "Cuando Calienta el Sol" de 1962 teve a colaboração do conjunto Thilo's Combo. Outro disco gravado com a formação em trio denominado "Garota" inclui uma versão do tema do folclore turco, "Uska Dara", que tinha sido gravada em 1953 pela cantora norte americana Eartha Kitt e uma versão do original brasileiro datado de 1930, "Mãe Preta", cuja letra mostra uma forte crítica à escravatura. Ainda em 1962 sai uma coletânea de temas dos "Ouro Negro" denominada "A Visit to Portugal" com canções gravadas em colaboração com a fadista Berta Cardoso. Este Long Play (LP) foi lançado no Canadá e nos Estados Unidos da América.
Carreira internacional Entre 1962 e 1963 são convidados para fazer uma série de digressões pela Europa, com a atuação em países como a Suíça, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Espanha, intercaladas com concertos em Angola e Moçambique e também estadas em Portugal Continental.
Já de novo com a formação em duo lançam três EPs de canções originais em francês, "Volume 1" em 1964, "La Kwela" com os temas "La Kwela", "La Kwela de l'Angola", "Heno Vakwe" e "N'Doa", em 1965 e "Volume 2" em 1966. Estes discos são lançados em França pela empresa discográfica Colombia e recebidos com sucesso.
Em 1964, fazem versões dos Beatles ("Agora Vou Ser Feliz" é versão de "I Wanna Hold Your Hand") e Charles Aznavour ("La Mamma"). Outro disco lançado em 1965 na forma de EP, "Kwela", inclui as canções "Meadowlands", "M'Bude", "N'Doa" e "Mundo D'Iaxala" e tem a colaboração do "Conjunto Mistério". Em 1965 participaram no programa musical da Televisão Portuguesa, "Minuto Zero", com apresentação de José Mensurado.
O grupo lança a moda do kwela, um estilo musical do Sul de África com um ritmo próprio que os Ouro Negro transformaram numa dança inspirada nos rituais africanos, uma espécie de twist angolano, que foi considerado o ritmo do Verão de 1965. Paris rendeu-se à nova moda que também atingiu outras cidades da Europa. Participam em programas televisivos franceses entre os quais na edição nº 8 do programa televisivo da ORTF, "Ni Figue ni Raisin". Este episódio musical foi para o ar em 1965 tendo sido realizado por Jacques Rozier. Atuam no Olympia de Paris com vários espetáculos esgotados.
Em 1966 atuaram na sala Garnier da Opéra de Monte Carlo no Mónaco, por ocasião das comemorações do IV Centenário do Principado. Em Novembro de 1966 participaram na comemoração do 20º aniversário da UNICEF, um espetáculo televisivo apresentado por Danny Kaye efetuado no teatro Alhambra-Maurice Chevalier em Paris e visto em todo o mundo por cerca de 200 milhões de pessoas. alt=A capa do disco contém uma foto de perfil dos elementos do Duo Ouro Negro.Por baixo da foto tem escrito Ouro Negro com a palavra Ouro com letras douras e a palavra Negro com letras brancas em fundo negro e o nome do disco por baixo. Do lado direito destas letras tem a designação da discográfica, Columbia e da EMI Do lado direito |esquerda|miniaturadaimagem|Capa do Single Au Revoir Silvye Interpretaram os temas "Pata Pata" e "Click Song" da cantora sul-africana Miriam Makeba, tendo sido este último incluído num disco da série "Présence Mondiale" lançado em França em 1966. No final de 1966 é editado um álbum denominado "O Espectáculo é Ouro Negro". Trata-se de uma coletânea musical que inclui temas diversos como "Au Revoir Sylvie" cantado em francês, "Dio Come ti Amo" em italiano ou "Kurikutela" que faz parte do folclore angolano. Créditos deste disco são devidos ao maestro Thilo Krasmann e ao seu grupo "Thilo's Combo". Este LP saiu no Japão ainda em 1966 e, em 1972, foi lançado em Moçambique que na altura ainda era uma província ultramarina de Portugal.
Em 1967 gravam o seu 2º álbum, "Mulowa África", também com a colaboração do Thilo's Combo. Este álbum viria a ser um dos trabalhos mais internacionais do grupo. Foi lançado em Portugal e em França (com o nome "Afrika") em 1967, no Brasil e em Israel em 1968 e nos Estados Unidos da América em 1969. A música deste disco abre uma ponte entre as tradições angolanas e a cultura ocidental da época. Traços dessa cultura ocidental estão logo no primeiro tema, "Kyrie", uma oração da liturgia cristã, na abordagem instrumental com a presença do contrabaixo, da bateria ou da guitarra portuguesa e no acompanhamento vocal com o coro feminino da Emissora Nacional.
Participam no Festival RTP da Canção de 1967 com "Livro Sem Fim" (que ficou em segundo lugar) e "Quando Amanhecer". O Duo Ouro Negro também aparece noutros programas da televisão portuguesa como é o caso de TV Club da autoria de Melo Pereira. Realiza-se em Maio de 1967 no Olympia o espetáculo "Grand Gala du Music-Hall Portugais" com Amália Rodrigues e outros nomes como Simone de Oliveira, o Duo Ouro Negro e Carlos Paredes. Em Outubro de 1967 representam Portugal com o tema "Kubatokuê Mulata", no Festival Internacional da Canção de 1967 do Rio de Janeiro. Ainda no Rio de Janeiro atuaram na sala de espetáculos "Canecão" com grande êxito.
Em Janeiro de 1968 participam na Gala do MIDEM que teve lugar no Palais des Festivals em Cannes. Em Junho de 1968 deslocam-se ao Canadá e atuam no Teatro Maisonneuve em Montreal em dois espetáculos em que também atuou Amália Rodrigues. Também no ano de 1968 representam Portugal no segundo Festival Internacional de Split na Jugoslávia.
Ainda em 1968 é apresentada na RTP a opereta africana "A Rua d'Iliza" com música, texto, coreografia e direção de cena de Raúl Indipwo e Milo Mac-Mahon. O mote central deste musical, Iliza (Gomara Saia), é uma adaptação de um tema tradicional da marrabenta de Moçambique. Nesta opereta além do Duo Ouro Negro participaram outros artistas como o grupo "Sheiks" e a cantora angolana Lilly Tchiumba. Este programa foi selecionado para representar a Televisão Portuguesa no Festival de Milão.
O EP "Carolina" lançado no início de 1968 é uma amostra do ecletismo, em termos de estilos musicais, do grupo. Este disco inclui o tema "Katéria", um exemplo da música acústica do folclore angolano, com o som de instrumentos musicais autóctones como o dikanza ou o kissange Inclui também o fado "Timpanas" com letra de Júlio Dantas e música de Frederico de Freitas composto originalmente para a voz de Amália Rodrigues, o tema "Carolina" de Chico Buarque e uma nova versão da canção de toada própria dos anos 60 "Garota" da autoria de José Mário e Raúl Indipwo. O ecletismo é também evidente em termos de ritmos musicais. De facto, o grupo inclui nas suas canções não só ritmos angolanos como o semba, o merengue ou o kwela, mas também outros como o rock, jazz, soul, funk, ritmos brasileiros, latino-americanos, cabo-verdianos e sul-africanos.
Ainda em 1968 fazem espetáculos nos Estados Unidos da América e em Chicago assinam contrato com a Columbia Artists Management. Atuam no exclusivo Waldorf Astoria em Nova Iorque. Recebem em Fevereiro de 1969, o Prémio da Casa da Imprensa para melhor conjunto vocal na categoria de música ligeira do ano de 1968.
Participam no Festival RTP da Canção de 1969 com "Tenho Amor Para Amar" que fica novamente em 2º lugar.
Ainda em 1969 viajam até à Argentina onde fazem dois espetáculos no teatro Maipu em Buenos Aires e quatro shows televisivos. Gravam o LP "Latino", cantado em espanhol, nos estúdios da discográfica Odeon em Buenos Aires com a colaboração da orquestra de Jorge Leone. O mesmo álbum é lançado em Portugal em 1970 com o título "Sob o Signo de Yemanjá". Este álbum inclui a canção "El Fuego Compartido" composta após uma atuação na Faculdade de Direito de Buenos Aires como apoio aos ideais políticos dos estudantes. O tema desse LP "Muamba, Banana e Cola" é um dos grandes sucessos de 1969.
Ainda em 1969 Sivuca volta a gravar com o grupo, desta vez uma compilação denominada "Africaníssimo", onde juntaram alguns temas gravados no início da carreira, como é o caso de "Upa Neguinho" da autoria de Edu Lobo. Deste álbum consta também a canção "Deknni" cujo nome designa um tipo de dança de Goa.
Em Agosto de 1969 Raúl e Milo estiveram entre a multidão que constituiu o público do Festival de Woodstock. O álbum "Mulowa Afrika" que tinha sido lançado em Portugal em 1967 é editado nos Estados Unidos da América em finais de 1969 com o nome "The Music of Africa Today". Nessa altura iniciam uma digressão de três meses por esse país onde atuam em 43 cidades e 20 universidades de diversos Estados. Têm contacto com o movimento negro norte-americano e com a luta pelos seus direitos civis. Ouvem ao vivo música que lá se faz incluindo jazz, rhythm and blues e soul. Todas essas experiências foram determinantes para a concepção do álbum "Blackground" e para o abandono progressivo do universo da música ligeira com regresso às origens do Duo. Começam a focar-se mais nas sonoridades, história e etnografia de África e a enriquecer os seus temas com a "world music" que foram ensaiando ao longo do seu percurso.
Em Dezembro de 1969 Raúl Indipwo e Milo MacMahon atuaram num palco improvisado numa zona de guerra na Guiné-Bissau para as tropas que combatiam pelas Forças Armadas Portuguesas na Guerra Colonial.
Década de 1970 Em 1970 o Duo Ouro Negro participou no espetáculo de celebração do Dia de Portugal na Exposição Universal de Osaka no Japão. Seguem em digressão pela Ásia, que incluiu a atuação no Afeganistão, Índia e Tailândia.