O catarismo (do grego καϑαρός, katharós, "puro") foi um movimento cristão de ascese extrema na Europa Ocidental entre os anos de 1100 e 1200, que teve suas raízes no movimento pauliciano na Armênia e no bogomilismo na Bulgária, que tiveram influências dos seguidores de Paulo de Samósata.Vários autores. Lexicon - dicionário teológico enciclopédico. Loyola; 2003. ISBN 978-85-15-02487-2. p. 98.

Esse movimento teve considerável presença no norte da Itália e no sul da França e a Igreja Católica Romana passou a considerá-lo uma ameaça à religião ortodoxa.Nevill Drury. Dicionário de Magia E Esoterismo. Editora Pensamento; [cited 28 September 2013]. ISBN 978-85-315-1361-9. p. 159. As principais manifestações do catarismo centralizavam-se na cidade de Albi, motivo pelo qual, muitas fontes se referem aos seus adeptos como albigenses.Stefan Cunha Ujvari. A história e suas epidemias: a convivência do homem com os micro-organismos. Senac; 2003. ISBN 978-85-87864-30-7. p. 20.

Embora o termo "cátaros" tenha sido usado durante séculos para identificar o movimento, ainda é discutível se o movimento se identificava mesmo com este nome.Mark Gregory Pegg, On Cathars, Albigenses, and good men of Languedoc, Journal of Medieval History 27 (2001) 181–195 Em textos cátaros, os termos "homens bons" (Bons Hommes) ou "bons cristãos" são os termos comuns de autoidentificação.Julien Théry, L’hérésie des bons hommes Comment nommer la dissidence religieuse non vaudoise ni béguine en Languedoc c (XII - début du XIV siècle) ?, "Heresis 36-37 (2002) p. 75-117

A ideia de dois deuses ou princípios, sendo um bom e outro mau, foi fundamental para as crenças dos cátaros. O Deus bom era o Deus do Novo Testamento e criador do reino espiritual, em oposição ao Deus mau, que muitos cátaros identificavam como Satanás, o criador do mundo físico do Antigo Testamento. Toda a matéria visível teria sido criada por Satanás, e portanto teria sido contaminada com o pecado. Isto incluía o corpo humano. Esse conceito é oposto ao da Igreja Católica, monoteísta, cujo princípio fundamental é que há somente um Deus que criou todas as coisas visíveis e invisíveis. Os cátaros também pensavam que as almas humanas eram almas de anjo sem sexo, aprisionadas dentro da criação física de Satanás e amaldiçoadas a se reencarnarem até os fiéis cátaros alcançarem a salvação por meio de um ritual chamado Consolamentum.

No início de seu reinado (1198), o Papa Inocêncio III tentou acabar com o catarismo enviando missionários e persuadindo as autoridades locais a agirem contra eles, mas, no ano de 1208, o legado papal Pierre de Castelnau, um monge Cisterciense, foi assassinado quando voltava para Roma, após excomungar o Conde Raimundo VI de Toulouse a quem acusava de ser muito indulgente com os cátaros.Jonathan Sumption. The Albigensian Crusade. Faber & Faber; ISBN 978-0-571-26657-9. p. 15–16. Isso levou Inocêncio III a declarar Pierre de Castelnau como um mártir e convocar a Cruzada Albigense.Jacques Madaule. The Albigensian crusade: an historical essay. Fordham University Press; 1967. p. 56–63.

A Cruzada Albigense duraria até 1229 e os cátaros continuariam a ser perseguidos pela inquisição até 1350, sendo que, após esse ano, deixou de haver registros que indicassem a continuidade do movimento.

Origens

A origem das crenças dos cátaros não é clara, mas a maioria das teorias concorda que elas se originaram no Império Bizantino e se propagaram através das rotas de comércio, que espalharam ideias heréticas desde o Primeiro Império Búlgaro até os Países Baixos.

O nome búlgaros (Bougres) também foi aplicado aos albigenses, e eles mantiveram associação com o movimento cristão similar dos bogomilos ("Amigos de Deus") da Trácia. "Que houve uma transmissão substancial de rituais e ideias do bogomilismo para o catarismo está além de qualquer dúvida razoável."Malcolm D. Lambert. The Cathars. Wiley; ISBN 978-0-631-20959-1. p. 31.

Suas doutrinas têm numerosas semelhanças com a dos bogomilos e a dos paulicianos,Alphandéry, Paul Daniel (1911). "Albigenses". In Chisholm, Hugh. Encyclopædia Britannica. 1 (11th ed.). Cambridge University Press. p. 505. assim como com a dos marcionistas (que estavam na mesma área dos paulicianos), dos maniqueístas e dos cristãos gnósticos dos primeiros séculos depois de Cristo, embora muitos estudiosos, principalmente Mark Gregory Pegg, tenham apontado que seria errôneo extrapolar as conexões históricas diretas com base nas semelhanças teóricas percebidas pelos estudiosos modernos.

João Damasceno, escreveu, no , notas sobre uma seita anteriormente chamada de "Cátaros", em seu livro "Sobre Heresias", título tirado do resumo fornecido por Epifânio de Salamis em seu Panarion, e diz: "Eles rejeitam aqueles que se casam pela segunda vez e rejeitam a possibilidade de penitência, isto é, o perdão dos pecados após o batismo".Saint John of Damascus. Writings: The Fount of Knowledge- The Philosophical Chapters, on Heresies, the Orthodox Faith. Vol. 37. CreateSpace Independent Publishing Platform; ISBN 978-1-4701-4924-6.

É provável que tenhamos apenas uma visão parcial de suas crenças, porque quase todos os escritos dos cátaros foram destruídos por causa da ameaça doutrinária percebida pelo papado;Cullen Murphy. God's Jury: The Inquisition and the Making of the Modern World. Houghton Mifflin Harcourt; ISBN 978-0-618-09156-0. p. 26–27. quase todo o nosso conhecimento existente dos cátaros é derivado de textos de seus adversários. As conclusões sobre a ideologia dos cátaros continuam a ser ferozmente debatidas, com comentaristas regularmente acusando seus adversários de especulação, distorção e preconceito.

Existem alguns textos dos próprios cátaros que foram preservados por seus adversários, como o Rituel Cathare de Lyon, que permite uma visão limitada do funcionamento interno de sua fé, mas estes ainda deixam muitas perguntas sem resposta. Um grande texto que sobreviveu, O Livro dos Dois Princípios (Liber de duobus principiis),Antoine Dondaine. Un traité néo-manichéen du XIIIe siècle, le liber de Duobus Principiis: suivi d'un Fragment de rituel Cathare. Instituto Storico Dominicano; 1939. elabora os princípios da teologia dualista a partir do ponto de vista de alguns dos cátaros albanenses (uma seita cátara que defendia um dualismo absoluto).

Em 1143, Eberwin de Steinfeld escreveu o primeiro relato descrevendo a existência de um grupo, em Colónia (sul da Alemanha), que propagava crenças semelhantes àquelas que, posteriormente, seriam conhecidas como "catarismo".Ver R.I. Moore, The Origins of European Dissent e a coletânea de ensaios Heresy and the Persecuting Society in the Middle Ages: Essays on the Work of R.I. Moore para uma reflexão sobre as origens dos cátaros, e prova da identificação de hereges no Ocidente, como os identificados em 1025 em Monforte, fora de Milão, como sendo os cátaros. Ver também Heresies of the High Middle Ages, uma coleção de documentos pertinentes sobre as heresias ocidentais na Alta Idade Média, editado por Walter Wakefield e Austin P. Evans.

No ano de 1167, foi realizado Concílio de Saint-Félix, em Saint-Félix-Lauragais, que contou com a a presença de muitas figuras locais e do "papa" bogomilo Nicetas, do bispo cátaro do norte da França e do líder dos cátaros da Lombardia.Edward Peters. Heresy and Authority in Medieval Europe. University of Pennsylvania Press; ISBN 978-0-8122-0680-7. p. 121.

Os cátaros foram um fenômeno nativo da Europa Ocidental latina cristã que se espalhou pelas cidades da Renânia (particularmente Colônia), do norte da França de meados do e, principalmente, do sul da França (Languedoc) e norte da Itália da segunda metade do século XII. Conseguiram sua maior popularidade no sul da França e no norte da Itália.

Após as perseguições, sobreviveram, em Languedoc, até 1325 e, no norte da Itália, até a Inquisição os extirpar entre 1260 e 1300.Ver Montaillou: the Promised Land of Error, de Emmanuel LeRoy Ladurie, para uma respeitável análise do contexto social destes últimos cátaros franceses, e Power and Purity, de Carol Lansing, para uma consideração sobre o catarismo do século XIII em Orvieto.

Crenças

Os cátaros, em geral, formavam um partido antissacerdotal em oposição à Igreja Católica, protestando contra o que consideravam ser a corrupção moral, espiritual e política da Igreja.

G. K. Chesterton, autor inglês católico-romano, afirmou: "…o sistema medieval começou a ser quebrado em pedaços intelectualmente, muito antes de mostrar o menor indício de estar caindo aos pedaços moralmente. As enormes primeiras heresias, como os albigenses, não tinham a menor desculpa de superioridade moral." Jennifer Deane comenta que de facto, poucos clérigos católicos em qualquer parte da Europa ocidental pareciam particularmente santos em comparação com os ascéticos, inspiradores "homens bons". O factor mais importante para o sucesso do catarismo, diz Michael Thomsett, foi a bem conhecida avareza e a mundanização do clero. Nesse tempo, padres e bispos levavam vidas luxuosas, possuíam castelos, usavam as melhores roupas, e tinham muita riqueza. Em comparação, o comum dos camponeses levava uma vida de privações e pobreza.

Bernardo de Claraval, apesar de louvar algumas atitudes dos cátaros, disse no Sermão 65 sobre o Cântico dos Cânticos, sobre a heresia albigense: (…) se você questionar os heréticos sobre a sua fé, nada é mais cristão; se sobre sua conversão diária, nada é mais inocente, e o que ele diz, ele prova por ações. No que diz respeito à sua fé, pode ver que vai frequentemente à igreja, mostra respeito aos clérigos, faz ofertas, confessa-se, toma parte nos sacramentos. O que pode ser mais ortodoxo? No que respeita à sua vida e conduta, ele não engana ninguém, não passa à frente de ninguém, não faz violência a ninguém. Além disso, suas faces são pálidas de jejum, ele não come o pão da preguiça, ele trabalha com suas mãos e assim faz a sua vida. Onde está então a raposa? Tínhamo-la; como é que nos escapou das mãos? Como despareceu tão subitamente? Vamos prosseguir. Vamos pesquisar. Pelos seus frutos a conheceremos.E certamente a destruição da vinha é a evidência da raposa. As mulheres estão deixando seus maridos, os homens estão deixando de lado suas esposas, e todos eles migram para esses hereges! Clérigos e padres, jovens e adultos entre eles, estão deixando suas congregações e igrejas, e são encontrados frequentemente na companhia de tecelões de ambos os sexos. Não é isso um dano sério? Não é este o trabalho das raposas? Quando o bispo Fulk, um dos principais líderes das perseguições anticátaras, execrou um cavaleiro de Languedoc por não perseguir os hereges com mais diligência, ele recebeu a resposta: "Nós não podemos. Fomos criados no meio deles. Temos parentes entre eles e vemos que levam uma vida de perfeição."Stephen O'Shea. The Perfect Heresy: The Revolutionary Life and Death of the Medieval Cathars. Profile Books; 2001. ISBN 978-1-86197-350-4. p. 42. Os cátaros acreditavam que Satanás havia enganado vários anjos a cair do céu e depois os encarcerou em corpos. O objetivo da vida era renunciar aos prazeres e atrativos do mundo e, através de encarnações repetidas, fazer o caminho de volta ao céu. Para esse fim, os cátaros observaram uma hierarquia estrita:Mark, J. J. (2 de abril de 2019). Cathars. Ancient History Encyclopedia

Perfecti - aqueles que renunciaram ao mundo, os sacerdotes e bispos Credentes - crentes que ainda interagiam com o mundo, mas trabalhavam para a renúncia Simpatizantes - não crentes que ajudavam e apoiavam as comunidades cátaras.

Principais crenças As crenças cátaras incluíam: Reconhecimento do princípio feminino no divino - Deus era homem e mulher. O aspecto feminino de Deus era Sophia, "sabedoria"); essa crença incentivou a igualdade de gênero nas comunidades cátaras. Metempsicose (reencarnação) - a alma renasce continuamente a menos que renuncie completamente ao mundo e assim escape da reencarnação.