A língua somali (escrita latina: ; escrita árabe: ; escrita osmanya: ; AFI: ) é uma língua do ramo cuxítico da família afro-asiática, nativa à região da Grande Somália.
Possui cerca de 23,8 milhões de falantes nativos, sendo a língua mais falada na Somália e Somalilândia, e a língua oficial nesses territórios, juntamente ao árabe. É a língua mais falada no Djibuti, ainda que careça de reconhecimento oficial. Possui uma população falante significativa no Quênia (sobretudo na província do Nordeste) e na Etiópia (onde goza de reconhecimento oficial). Devido à diáspora somali, significativas comunidades imigrantes ao redor do mundo promovem a transmissão intergeracional da língua fora do Chifre da África, especialmente no Iêmen, Líbia e Emirados Árabes Unidos.
O somali passou a ter um sistema de escrita oficial apenas a partir da década de 1970, adotando o alfabeto latino. Até então, uma versão somali do árabe era utilizado como a língua escrita oficial entre seus falantes, com algumas tentativas ao longo dos anos de implementar a escrita árabe, bem como de sistemas de escritas nativos (a exemplo do osmanya), para a escrita da língua somali.
Como muitas das línguas semíticas, o somali é uma língua aglutinativa de alinhamento nominativo-acusativo, usando marcadores para caso gramatical, gênero e número. Além disso, o somali é uma língua tonal baseada em moras.
Etimologia left|miniaturadaimagem|Genealogia dos clãs somalis, com Samaale ao centro da quarta linha.
A etimologia do etnônimo "somali" (Soomaali) difere entre as interpretações e tradições orais das diferentes regiões da Grande Somália. Uma das origens remete a Samaale, tido como ancestral da maioria dos clãs somalis, sobretudo entre os predominantes na região norte do Chifre da África. Outra teoria sugere que o etnônimo deriva da expressão ("ir ordenhar"), se referindo ao ordenhamento de camelos, dadas as práticas tradicionais pastoralistas somalis ao norte da região. Enquanto isso, a tradição oral do sul, sobretudo entre famílias do clã Reewin, costuma dizer que deriva da junção de ("vaca") e ("ordenhar"), um reflexo da predominância da criação de gado bovino na região sul do país.
A ampla maioria da população somali prefere o termo "somali" ao invés de "somaliano", uma vez que o primeiro é um endônimo original da língua somali, e o segundo é um exônimo, com a adição do sufixo "-ano".
miniaturadaimagem|upright|left|Mapa medieval da cidade portuária de Mogadíscio, região de Banaadir.
O termo utilizado para os dialetos da língua somali falados na região Norte e Central é Af-Maxaad Tidhi, uma derivação da expressão "Maxaad Tidhi?" significando "o que você disse?", partindo da ideia que as línguas mutualmente inteligíveis que compõem o que seria a base para o somali padrão são aquelas que utilizam a expressão de maneira similar.
Enquanto isso, o dialeto do somali na região Central é chamado Benaadir, em referência à região de Banaadir, cujo nome vem do persa (bandar), significando "porto".
Distribuição Os falantes da língua somali estão concentrados no Chifre da África, distribuídos sobretudo entre quatro países: Somália, Djibuti, Etiópia e Quênia, dentre os quais possui reconhecimento oficial na Somália e Etiópia (ao lado do afar, amárico, oromo e tigrínia).
+Falantes nativos da língua somali por país País População Falantes nativos de somali Taxa de falantes nativos (incluindo Somalilândia) 70,29% 56,55% 6,57% 4,84%
Além disso, em decorrência da Guerra Civil da Somália, grande parte da população somali foi deslocada dentro da Somália ou emigrou do país. Diversas comunidades da diáspora somali mantêm o idioma vivo ao redor do mundo, sobretudo no Iêmen, Emirados Árabes Unidos, Líbia e Estados Unidos.
miniaturadaimagem|upright=1|left|Mapa da diáspora somali.
A instabilidade política da região tem sido, também, uma grande barreira na padronização do somali enquanto língua oficial, ainda que permaneça como o meio de comunicação escrito mais difundido entre a população somali no Chifre da África e entre as comunidades de imigrantes somali ao redor do globo.
Dialetos Os estudos ao redor da classificação dos dialetos da língua somali divergem amplamente entre autores, mas tendem a reconhecer a existência de dois ou três dialetos principais que formam um contínuo dialetal, chamado conjuntamente de Af-Maxaad Tidhi:
Somali do norte - falado pelos clãs originários da região norte do país, e que se tornaram dominantes na Somália. Forma a base do "somali padrão"; Somali central - predominante nas regiões interioranas, do sul, e por vezes litorâneas da Somália, e Benaadir - por vezes classificado junto ao somali central, predominante na costa da Somália (incluindo a capital Mogadíscio), influenciado pela língua maay, o árabe e alguns dialetos do suaíli.
A principal característica contrastante entre o somali do norte e os demais dialetos se refere à ocorrência da consoante plosiva retroflexa desvozeada em palavras como "" (raiva) e "" (garota), enquanto no somali central e benaadir essas palavras são pronunciadas com a vibrante simples retroflexa .
Línguas relacionadas
O somali é tipicamente classificado como pertencente ao ramo cuxítico oriental da família afro-asiática, como o oromo e o afar. Outras línguas que compõem o subgrupo das línguas somali, sobretudo aquelas faladas pelas famílias do clã Digil, como o maay, dabarre, jiddu e o tunni já foram consideradas dialetos do somali, mas hoje são classificadas pela Organização Internacional de Normalização como uma língua própria. Ehret & Ali (1983), guiados por pesquisas em vilas da Somália e suplementados por dados de falantes no Quênia, descrevem a seguinte classificação das línguas somali:
Soomaali I Bayso-Jiddu Jiddu Soomaali II Rendille Soomaali III Garre Tunni Soomaali IV Maay Af-Maxaad Tidhi (dialetos somali do norte e benaadir).
Apesar de impressões de falantes da língua maay sugerirem a sua inclusão no contínuo dialetal somali, estudos indicam que a inteligibilidade de falantes de língua maay com falantes de somali ocorre devido ao conhecimento do somali padrão enquanto língua franca, isto é, a inteligibilidade é explicada pela sobreposição de fatores culturais e históricos em comum, ainda que representem línguas diferentes.
História
História da língua
Os somalis são um povo cuxita, os quais habitam a região do Chifre da África há pelo menos 7 mil anos. O ramo Omo-Tana, do qual os somalis descendem, teria se separado dos cuxitas por volta da primeira metade do primeiro milênio antes da Era Comum, se dispersando para o Norte do Quênia e para a costa do Oceano Índico.
miniaturadaimagem|esquerda|Representação de expedição da rainha-faraó egípcia Hatshepsut ao Reino de Punte, atual Somália.
A costa da Somália sempre foi uma região de significativo contato marítimo comercial intercultural. Durante o Reino de Punt, manteve relações com os gregos e com o Egito faraônico. O primeiro documento histórico acerca da região foi um diário de expedição na escrita hierográfica. Posteriormente, diversas cidades-Estado foram estabelecidas sobretudo pela costa do atual território da Somália, como as atuais cidades de Mogadíscio, Barawa e Hafun. O contato comercial com os persas influenciou significativamente o vocabulário somali. Neste período, sistemas de escrita indígenas, possivelmente baseados em vogais, foram desenvolvidos pela cultura Tirri, ainda que a sua pesquisa e decodificação sejam muito superficiais.
miniaturadaimagem|upright=0.87|Tábua de pedra do século XIV com inscrições Wadaad.
A partir do século VII, o comércio marítimo possibilitou um forte contato com os árabes, causando um forte processo de islamização da Somália. Ao longo da Idade Média e Moderna, a religião se estabeleceu como predominante na região, controlada por sultanatos como de Ifat, Adal, Ajuran e Isaaq. Neste período, o árabe passou a exercer uma forte influência no vocabulário e gramática da língua. Diversos poetas somalis passaram a escrever na língua árabe, que se consolidou como língua franca e como a única língua escrita na região até o século XIX. O sistema de escrita utilizado à época na Somália recebeu o nome de escrita Wadaad (em referência aos wadaad, pessoas que dedicavam sua vida primariamente à religião), e se tratava de uma versão agramatical do árabe com a presença de algumas palavras em somali.
Posteriormente, a região da Grande Somália foi colonizada pela França, Reino Unido e Itália, tal que o somali sofreu influência das línguas dos colonizadores, ainda que bem menor se comparado à influência que o árabe exerce até hoje.
História da documentação e escrita miniaturadaimagem|upright|esquerda|Representação de um santo sufi, corrente de forte influência na poesia somali.
Apesar de iniciar o desenvolvimento de um sistema de escrita apenas ao final do século XIX, o povo somali há séculos tem a poesia como sua principal manifestação cultural, com poetas clássicos somali tendo sua obra transmitida por várias gerações através da tradição oral. O texto somali de mais antiga datação é um poema sufista de meditação à Deus pelo clérigo Cali Cabduraxmaan do século XVIII, ainda que existam outros poemas de autoria anônima que possam ser anteriores.
O documento escrito mais antigo que se tem conhecimento na Somália é um manuscrito em árabe de 1692. Entretanto, documentos anteriores devem existir, ainda que sejam de difícil mapeamento, catalogação e estudo devido à guerra civil em curso no país.
miniaturadaimagem|upright=0.9|Primeira página do poema "Abbaay sittidey" por Awees Mahamed.
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, começou a emergir um interesse na escrita de línguas da África Oriental a fim de melhor difundir o islã por meio das línguas vernaculares. Cali Cabduraxmaan foi possivelmente um dos primeiros a tentar adaptar a escrita árabe ao somali. As mais conhecidas pioneiras tentativas são atribuídas, entretanto, ao poeta e sheikh Awees Mahamed de Barawa ao fim do século XIX.
A primeira gramática da língua somali foi publicada em inglês pelo escocês Fred Hunter em 1880, impressa na cidade de Mumbai. O primeiro dicionário foi publicado em 1897 pelo reverendo Evangelist de Larajasse, impresso em Londres. Em 1900, foi publicada em Viena uma compilação de textos em somali editada pelo renomado egiptólogo Leo Reinisch.
Os estudiosos ocidentais da língua somali propuseram diversos sistemas a fim de adaptar o alfabeto latino à língua somali. Entretanto, tais propostas pouco eram conhecidas pela população, além de serem geralmente vistas de forma negativa devido a questões religiosas, uma vez que se prezava pelo uso da língua do Corão como a língua escrita oficial.
miniaturadaimagem|esquerda|upright=0.85|Bandeira da Liga da Juventude Somali.
Em meio à discussão de adesão ou não ao alfabeto latino ou a manuntenção da língua árabe como oficial no meio escrito, propostas de sistemas de escrita indígenas para a língua somali surgiram, sendo o osmanya o que obteve maior adesão, sobretudo na Somália Italiana. Em 1943, o sistema chegou a ser oficializado pela Liga da Juventude Somali, o primeiro partido político somali; entretanto, mudanças nas lideranças internas partidárias fizeram o partido se distanciar do clã Osman Mohamoud, ao qual a criação do alfabeto osmanya era atribuída, e se aproximar de lideranças religiosas, de modo a reestabelecer a língua árabe como oficial.