Conhecidos no Brasil como tesourinhas ou lacrainhas e em Portugal como bicha-cadela ou raspelho , os dermápteros são insetos hemimetábolos e terrestres, com corpo alongado e presença de cercos geralmente em forma de pinça. O nome da ordem Dermaptera provém do grego derma = pele e pteron = asas, referindo-se às asas anteriores grossas e coriáceas presentes nesses insetos. Podem ser confundidos com insetos dos grupos Staphylinidae (Coleoptera), por possuírem asas anteriores curtas, ou com Japygidae (Diplura), por possuírem cercos em forma de pinça. São encontrados em todas as regiões do mundo, exceto as polares, com predominância nas regiões mais quentes.
A maioria possui hábitos noturnos e se escondem durante o dia. Se alimentam principalmente de vegetação morta, mas alguns se alimentam de vegetação viva ou são predadores. Tem comportamento marcante de cuidado maternal, observado tanto com ovos como com ninfas do primeiro ínstar.
Considerada uma das ordens ortopteróides, contém cerca de 1800 espécies conhecidas e possui quatro subordens reconhecidas, sendo que das três ainda existentes, Hemimerina e Arixeniina são grupos pequenos de insetos vivíparos que vivem em associação com vertebrados, enquanto a maioria ovípara se encontra dentro da subordem Forficulina.
Morfologia Morfologia externa Os dermápteros são insetos de corpo alongado, estreito e um pouco achatado. Os adultos podem ser alados ou não, tendo um ou dois pares de asas quando alados. Seu tamanho varia de 3 a 85 mm. Possuem coloração predominantemente amarela, preta e marrom, apesar de ser encontrada na cabeça, protórax e pernas coloração diferente do resto do corpo. Há casos raros de espécies com coloração verde ou azul metálico. Os adultos geralmente possuem cercos em forma de pinça. miniaturadaimagem|429x429px|esquerda|Morfologia externa de um macho de Dermaptera. Clique na imagem para melhor visualização
A cabeça é prognata, larga e achatada. Nela se encontram antenas filiformes, sendo que o número de segmentos pode variar dentro de uma mesma espécie de acordo com o desenvolvimento do indivíduo, com indivíduos jovens possuindo menos segmentos nas antenas. A cada muda são adicionados mais segmentos às antenas. Também se encontra na cabeça uma mandíbula desenvolvida do tipo mastigadora, cuja molar (onde o alimento é triturado) varia de acordo com a dieta. A maxila, por conta do prognatismo, é alongada, e o palpo maxilar possui 5 artículos, o apical com papilas sensoriais. Também se encontra conectando os olhos e o vértice da cabeça um “Y”, formado pelas suturas frontal e coronal. Os olhos compostos nos dermápteros raramente são reduzidos e se conhece apenas algumas espécies cegas de caverna. Ocelos são sempre ausentes nos dermápteros atuais.
O tórax é dividido nos fragmas protórax, mesotórax e metatórax, e possui protórax móvel, com pronoto discoidal, e mesotórax curto, muito próximo do metatórax. Há maior desenvolvimento do mesotórax e metatórax em espécies capazes de voar. Se encontram dois pares de asas nos dermápteros, com o par anterior modificado em asas do tipo tégmina, curtas, coriáceas e sem venação, enquanto o par posterior é densamente dobrado, ultrapassando a uma pequena distância o tégmina. Frequentemente ambos os pares de asas são reduzidos e raramente se encontram ausentes. Os pares de asas também podem sofrer redução de forma independente, com algumas espécies possuindo tégminas normais não-reduzidos cobrindo o par posterior de asas reduzidas. As pernas dos dermápteros são ambulatórias, inseridas lateralmente no tórax, nunca possuindo modificações para saltar e cavar. Além disso as pernas possuem coxas curtas e possuem tarsos do tipo trímeros, isto é, são divididos em 3 tarsômeros.
O abdômen dos dermápteros é longo, estreito e muito móvel. Os machos e ninfas possuem 10 segmentos observáveis enquanto as fêmeas possuem 8, essa diferença ocorre pois o sétimo segmento das fêmeas cobre o oitavo e o nono, que são curtos. Se observa um padrão de ziguezague na lateral do abdômen dos dermápteros, isso se dá pela sobreposição lateral dos tergitos e esternitos sobre os tergitos e esternitos seguintes, cobrindo a pleura e os espiráculos. No abdômen dos dermápteros também se encontram dobras glandulares nos tergitos 3 e 4 cuja função é a liberação de secreções que possuem odor desagradável, servindo como uma forma de defesa. Algumas espécies podem esguichar esse líquido numa distância de 75-100 mm. Nos machos dermápteros há a ejeção da genitália masculina, altamente modificada em comparação aos outros táxons, por pressão da hemolinfa. Os cercos, encontrados na extremidade apical do abdômen, são simples nas fêmeas e ninfas, sendo relativamente retos e não articulados, porém se encontra enorme variação nos cercos dos machos tanto em tamanho quanto em forma. Em algumas espécies o tamanho dos cercos se iguala ao do corpo e é muito curvado, tanto em vista lateral quanto dorsal. Nos cercos frequentemente se encontram dentes, dentículos ou flanges. A forma dos cercos geralmente é característica de cada gênero, embora cercos semelhantes possam ser encontrados em gêneros não diretamente relacionados, além de também ser usada para identificação de espécies.
Morfologia Interna O sistema digestório contém as regiões típicas anterior, média e posterior do intestino, porém o seu intestino não possui cecos gástricos. O intestino médio é caracterizado pela presença dos túbulos de Malpighi. Os túbulos de Malpighi, por sua vez, são encontrados em quantidades que variam entre 8 e 20 túbulos, normalmente em grupos de 4 ou 5. O sistema traqueal possui dois espiráculos toráricos e oito abdominais. O sistema nervoso possui cérebro, gânglio subesofágico e o cordão nervoso ventral com três gânglios torácicos e seis gânglios abdominais.
Também se encontram diferenças entre machos e fêmeas internamente, com os machos possuindo um par de testículos, um par de vasos deferentes, vesícula seminal sozinha ou em par e um ou dois dutos ejaculatórios. As fêmeas possuem um par de ovários, ovidutos laterais, um oviduto mediano, espermateca e câmara genital. Além disso, os gonóporos das fêmeas de Dermaptera abrem-se atrás do sétimo segmento abdominal. Existem espécies de Dermaptera consideradas vivíparas, nas quais o desenvolvimento e maturação dos ovos e desenvolvimento embrionário ocorrem em um vitelário alargado.
Dimorfismo sexual miniaturadaimagem|262x262px|Macho (esquerda) e fêmea (direita) de Forficula auricularia. O dimorfismo sexual em Dermaptera é observado tanto no tamanho corporal quanto no dos cercos, sendo que ambos os fatores tendem a ser maiores em machos quando comparados às fêmeas. Entretanto, assim como em boa parte dos organismos ectotérmicos, fatores ambientais como variação de temperatura e disponibilidade de recursos alimentares influenciam as características de dimorfismo sexual observadas em Dermaptera.S García-Hernández. Dimorfismo sexual na tesourinha Labdura xanthopus (Dermaptera): uma abordagem macro-ecológica a padrões e processos (Dissertação de Mestrado). Instituto de biociências, Universidade de São Paulo. O ambiente atua principalmente sobre os machos, uma vez que suas características corporais são capazes de determinar o seu sucesso reprodutivo, deixando maior ou menor número de descendentes. Machos com maior tamanho corporal e principalmente com cercos mais compridos tendem a ter mais sucesso na competição por fêmeas, já que os cercos são utilizados tanto em combates entre machos quanto no cortejo e cópula. Dessa forma, os maiores cercos permitem, de maneira geral, maior frequência de acasalamentos e maior produção de descendentes.C. de Almeida Caetano, IB Barros, JP da Silva, PE Moraes. Há diferença na resposta imune entre sexos na tesourinha labidura xanthopus (insecta: dermaptera)?.http://ecologia.ib.usp.br/curso/2015/pdf/PO3-G10.pdf
As características corporais, tanto em machos quanto em fêmeas, podem, como dito anteriormente, ser influenciadas pela temperatura e pela disponibilidade de alimento. Esses fatores atuam principalmente durante o desenvolvimento, isto é, ao longo dos primeiros instares, influenciando o tamanho final do indivíduo adulto. Temperaturas elevadas tornam o desenvolvimento mais acelerado, o que fornece menor tempo disponível para crescimento corporal, resultando em adultos menores. Dessa forma, populações de região tropical tendem a apresentar menor tamanho corporal quando comparadas a regiões de clima temperado. A disponibilidade de alimento, por outro lado, apresenta relação diferente com o tamanho corporal e dos cercos. Maior disponibilidade de alimento permite uma elevada taxa de crescimento, possibilitando que o indivíduo cresça consideravelmente em um curto intervalo de tempo, atingindo maior peso crítico e maior tamanho corporal antes da última muda, o que resulta em adultos maiores.
Identificação e coleta Algumas características presentes em Dermaptera que podem ajudar a reconhece-los são:
Forma geral do corpo: alongado, achatado dorso-ventralmente Cabeça: prognata, antenas segmentadas, peças bucais mastigadoras, ocelos ausentes, olhos compostos na maioria das espécies e reduzido ou ausente em alguns táxons. Presença de um "Y" conectando os olhos e o vértice da cabeça, formado pelas suturas frontal e coronal. Tórax: dois pares de asas normalmente presentes, com as asas anteriores modificadas no tipo tégmina, curtas e coriáceas, e posteriores membranosas e semicirculares com venação irradiando para fora. Pernas com tarsos de 3 segmentos. Abdômen: Cercos não são segmentados em forma de fórceps. Ovipositor nas fêmeas reduzido ou ausente.
A amostragem da fauna de Dermaptera, incluindo ninfas e adultos, pode ser feita com o uso de diversas técnicas e armadilhas, que incluem redes, fumigação, extração utilizando funis de Berlese-Tullgren, armadilhas do tipo Malaise e armadilhas luminosas em noites quentes para espécies que voam. Também podem ser feitas armadilhas mais simples usando papelão ou jornal dobrados em forma de lâmina ou amassados, contendo uma isca no meio para atrair os dermápteros, tais como farelo ou gérmen de trigo. Armadilhas com iscas a base de óleo também podem ser eficazes. Óleo vegetal ou óleo de peixe deve ser colocado em um pequeno recipiente afundado no chão, para onde os dermápteros serão atraídos e podem acabar ficando presos e se afogando.
Para preservar os indivíduos coletados, deve-se mata-los usando vapor de acetato de etila ou éter, e alfinetá-los, colá-los em retângulos de cartolina ou mantê-los preservados diretamente em álcool 85%.
Reprodução e ciclo de vida Entre as subordens de Dermaptera, apenas Forficulina possui espécies ovíparas. As outras duas subordens são formadas por indivíduos vivíparos. Os dermápteros de maneira geral são insetos hemimetábolos. miniaturadaimagem|311x311px|esquerda|Dermaptera ciclo de vida: 5 instares da esquerda para a direitaminiaturadaimagem|210x210px|Ninfa de Forficula auricularia em primeiro ínstarApós a cópula, os espermatozoides do macho podem permanecer meses no interior do corpo da fêmea antes que ocorra fecundação. As fêmeas podem participar de apenas uma cópula ou então apresentar comportamento multinupcial, copulando diversas vezes com um mesmo macho ou com machos diferentes. A quantidade de espermatozoides em qualquer uma das situações é suficiente para que ocorra mais que uma postura de ovos, sendo que a quantidade de ovos por postura tende a diminuir. Porém, nas espécies com comportamento multinupcial nota-se um número maior de posturas e também maior porcentagem de ovos viáveis.