Henrique III ( – ), também conhecido como Henrique de Winchester, foi o Rei da Inglaterra, Lorde da Irlanda e Duque da Aquitânia de 1216 até à sua morte. Filho do rei João da Inglaterra e de Isabel de Angolema, Henrique assumiu o trono com apenas nove anos de idade no meio da Primeira Guerra dos Barões. O cardeal Guala Bacchieri declarou que a guerra contra os barões rebeldes era uma cruzada religiosa, e as forças reais lideradas por Guilherme Marechal derrotaram os rebeldes em 1217 nas batalhas de Lincoln e Sandwich. Henrique prometeu respeitar a Magna Carta de 1215, que limitava o poder real e protegia os direitos dos grandes barões. O início do seu reinado foi dominado primeiramente por Humberto de Burgh e depois por Pedro des Roches, que restabeleceram a autoridade real depois da guerra. Uma revolta liderada por Ricardo Marechal, filho de Guilherme, começou em 1232 e terminou com um acordo de paz negociado pela Igreja.

Henrique passou a governar a Inglaterra pessoalmente em vez de utilizar ministros. Viajou menos que monarcas anteriores, investindo pesadamente em alguns palácios e castelos favoritos. Casou-se com Leonor da Provença e teve cinco filhos. Henrique era conhecido por sua piedade, por realizar grandes cerimônias religiosas e por generosas doações à caridade; o rei era particularmente devoto à figura de Eduardo, o Confessor, adotando-o como padroeiro. Ele tirou grandes quantias de dinheiro dos judeus na Inglaterra, prejudicando a sua capacidade de conduzir negócios, e enquanto as suas ações pioravam ele apresentou o Estatuto dos Judeus, tentando segregar a comunidade. O rei invadiu o Condado de Poitou em 1242 numa tentativa para reconquistar as suas terras familiares na França, levando à desastrosa Batalha de Taillebourg. Depois disso Henrique passou a contar com a diplomacia, cultivando uma aliança com o imperador Frederico II do Sacro Império Romano-Germânico. Apoiou o irmão Ricardo da Cornualha na sua candidatura a Rei dos Romanos em 1256, porém não conseguiu colocar o filho Edmundo no trono da Sicília. Henrique planejava partir em cruzada até o Levante, porém foi impedido por rebeliões na Gasconha.

O governo de Henrique estava cada vez mais impopular em 1258, resultado do fracasso de dispendiosas políticas externas, da notoriedade de seus meio-irmãos poitevinos, os Lusinhão, e por causa do papel dos seus oficiais locais ao coletar impostos e débitos. Uma coalizão de barões, inicialmente e provavelmente apoiada por Leonor, tomou o poder num golpe de estado que expulsou os poitevinos da Inglaterra, reformando o governo real através de um processo chamado de Provisões de Oxford. Henrique e o governo de barões promulgou uma paz com a França em 1259, em que Henrique entregava seus direitos de terras na França em troca de ser reconhecido como o legítimo herdeiro da Gasconha pelo rei Luís IX da França. O regime baronial caiu, porém o rei não conseguiu reformar um governo estável e a instabilidade continuou na Inglaterra.

Simão de Monfort, um dos barões mais radicais, chegou ao poder em 1263 e iniciou a Segunda Guerra dos Barões. Henrique conseguiu convencer Luís a apoiar a sua causa e a mobilizar um exército. A Batalha de Lewes aconteceu em 1264 e o rei foi derrotado e feito prisioneiro. O seu filho mais velho, Eduardo, escapou e derrotou Simão na Batalha de Evesham um ano depois, libertando o pai. Henrique inicialmente começou uma severa vingança contra os rebeldes restantes, porém foi persuadido pela Igreja a modificar as suas políticas através da Máxima de Kenilworth. A reconstrução foi lenta e Henrique teve de concordar com várias medidas, incluindo uma maior supressão dos judeus por forma a manter o apoio dos barões e da população. Henrique morreu em 1272, deixando Eduardo como seu sucessor. Ele foi enterrado na Abadia de Westminster, que havia reconstruído durante a segunda metade de seu reinado, e foi colocado na sua presente tumba em 1290. Alguns milagres foram declarados após sua morte mas ele nunca foi canonizado. O reinado de 56 anos de Henrique é o quinto mais longo da história inglesa.

Infância

thumb|220px|Terras de João na França, c. 1200 Henrique nasceu no Castelo de Winchester em . Era o filho mais velho do rei João da Inglaterra e Isabel de Angolema. Pouco se sabe sobre seu início de vida. ; Foi inicialmente criado no Sul da Inglaterra por uma ama de leite chamada Ellen, longe da corte itinerante de João, provavelmente tendo relações próximas com a mãe. Henrique tinha quatro irmãos legítimos – Ricardo, Joana, Isabel e Leonor – e vários ilegítimos. Sua educação ficou com Pedro des Roches, Bispo de Winchester, em 1212; sob sua direção, Henrique recebeu treinamento militar com Filipe D'Aubigny e aprendeu a cavalgar, provavelmente com Rogério de St Samson.

Tampouco se sabe sobre sua aparência: ele provavelmente tinha por volta de 1,68 m de altura, com relatos registrados após sua morte sugerindo que tinha uma constituição forte e uma queda da pálpebra. Henrique ocasionalmente mostrava relances de um temperamento feroz, porém o historiador David Carpenter o descreve em sua maior parte do tempo como possuindo uma personalidade "amável, fácil e simpática". Era inalterado e honesto, mostrando suas emoções facilmente e caindo às lágrimas por sermões religiosos. ;

No início do , a Inglaterra era parte de um império que espalhava-se pelo oeste da Europa. Henrique teve seu nome pelo avô o rei Henrique II, que havia construído uma vasta rede de terras que vinham da Escócia e Gales, passavam pela Inglaterra, além do Canal da Mancha para os territórios da Normandia, Bretanha, Maine e Anjou no noroeste da França, e também Poitou e Gasconha do sudoeste. A coroa francesa foi fraca por anos, permitindo que Henrique II e seus filhos Ricardo I e João dominassem a França.

João perdeu a Normandia, Bretanha, Maine e Anjou em 1204 para o rei Filipe II da França, deixando o poder inglês no continente limitado à Gasconha e a Poitou. João aumentou os impostos para poder pagar campanhas militares a fim de reconquistar suas terras, porém revoltas surgiram entre os barões ingleses; o rei procurou novos aliados ao declarar a Inglaterra um feudo papal, devendo fidelidade ao papa. Em 1215, João e os barões rebeldes negociaram um potencial tratado de paz, a Magna Carta. O tratado limitaria potenciais abusos do poder real, desmobilizaria os exércitos rebeldes e armaria um arranjo de divisão de poder, porém na prática nenhum dos lados cumpriu com as condições. João e os barões realistas repudiaram a Magna Carta e iniciaram a Primeira Guerra dos Barões, com os barões rebeldes sendo auxiliados pelo filho de Filipe, o futuro Luís VIII, que reivindicava o trono inglês. A guerra logo chegou em um impasse, com nenhum dos lados alcançando a vitória. João adoeceu e morreu na noite do dia 18 de outubro de 1216, deixando Henrique, então com nove anos de idade, como seu sucessor.

Minoridade Coroação thumb|esquerda|220px|Representação da primeira coroação de Henrique em 1216 Quando João morreu, Henrique estava em segurança no Castelo de Corfe em Dorset junto com a mãe. João, em seu leito de morte, nomeou treze executores para ajudar Henrique a reconquistar seu reino, pedindo para que o filho fosse colocado sob a tutela de Guilherme Marechal, um dos cavaleiros mais famosos da Inglaterra. Os líderes realistas decidiram coroar Henrique imediatamente para reforçar sua reivindicação ao trono e legitimidade. Guilherme o fez cavaleiro e o cardeal Guala Bicchieri, legado papal, supervisionou a cerimônia de coroação que ocorreu no dia 28 de outubro na Catedral de Gloucester. Na ausência dos arcebispos da Cantuária e Iorque, ele foi ungido pelos bispos de Worcester e Exeter e coroado por Pedro des Roches. ; A coroa real havia sido vendida ou perdida durante a guerra civil, então a cerimônia usou uma simples coroa de ouro pertencente à rainha Isabel. ;

O jovem rei herdou uma situação difícil, com metade da Inglaterra ocupada por forças rebeldes e a maior parte das possessões continentais de seu pai ainda nas mãos francesas. ; Porém, ele tinha um apoio substancial na pessoa de Bacchieri, que queria vencer a guerra civil para Henrique e punir os rebeldes. O cardeal partiu para fortalecer as ligações entre a Inglaterra e o papado, algo iniciado pela própria coroação, em que Henrique prestou homenagem e reconheceu o papa como seu senhor feudal. ; O papa Honório III declarou que o rei era seu vassalo e protegido, e que o legado tinha autoridade total para proteger Henrique e seu reino. Como medida extra, Henrique tomou a cruz e se declarou um cruzado intitulado a proteção especial de Roma.

Dois nobres destacaram-se como candidatos ao governo regencial de Henrique. O primeiro era Guilherme Marechal, 1.º Conde de Pembroke, que, mesmo em idade avançada, era renomado por sua lealdade pessoal e poderia ajudar a apoiar a guerra com seus próprios homens e equipamentos. O segundo era Ranulfo de Blondeville, 6.º Conde de Chester, um dos barões realistas mais poderosos. Guilherme diplomaticamente esperou que Bacchieri e Ranulfo pedissem para que ele assumisse o cargo antes de tomar o poder. Ele então nomeou des Roches como guardião do rei, permitindo que liderasse o esforço militar.

Fim da Guerra dos Barões thumb|300px|A Batalha de Lincoln em 1217, mostrando a morte de Tomás de Perche. Por Mateus de Paris, no Corpus Christi College. A guerra não estava indo bem para os realistas e o novo governo regencial considerou uma retirada da Irlanda. Entretanto, Luís e os rebeldes também estavam enfrentando dificuldades para avançar. Apesar de controlar a Abadia de Westminster, Luís não podia ser coroado porque a Igreja da Inglaterra e o papado apoiavam Henrique. ; A morte de João havia atrapalhado algumas das preocupações rebeldes, com castelos reais se mantendo em partes ocupadas do país. ; Tentando tirar vantagem disso, Henrique encorajou os barões a voltarem para sua causa em troca do retorno de suas terras, relançando uma versão da Magna Carta, embora tendo removido algumas cláusulas incluindo aquelas desfavoráveis ao papado. A ação não foi bem sucedida e a oposição ao novo governo do rei endureceu.

Luís foi para a França em fevereiro juntar reforços. Em sua ausência, discussões começaram entre seus seguidores e Bacchieri declarou que a guerra de Henrique contra os rebeldes era uma cruzada religiosa. Isso levou a uma série de deserções no movimento rebelde, com o conflito pendendo para o lado inglês. Luís voltou no final de abril e revigorou a campanha, dividindo sua força em dois grupos: um para o norte para cercar o Castelo de Lincoln e o outro até sul para capturar o Castelo de Dover. Guilherme Marechal arriscou derrotar os rebeldes em uma única batalha ao saber da divisão. Ele marchou para o norte e atacou Lincoln em 20 de maio; entrando por um portão lateral, Guilherme tomou a cidade em uma sequência de batalhas e saques nas ruas. ; ; Vários importantes barões rebeldes foram capturados e o historiador David Carpenter considera a batalha como "uma das mais decisivas na história inglesa".

thumb|esquerda|upright=1.5|A Batalha de Sandwich, mostrando a captura da nau capitânea francesa, a execução de Eustácio de Monk (direita) e o apoio dos bispos ingleses (esquerda). Por Mateus de Paris, no Corpus Christi College.