Jogos Paralímpicos ou ParaolímpicosParaolímpico (e não “paralímpico”, nem “para-olímpico), Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 15 de janeiro de 2005.<ref>Dilma decreta: “paralímpico”, não. No Brasil, é paraolímpico, Época, 13 de setembro de 2012.</ref> é o maior evento esportivo mundial envolvendo pessoas com deficiência. Incluem atletas com deficiências físicas (de mobilidade, amputações, ou paralisia cerebral), deficiências visuais (cegueira), além de deficientes mentais. Realizados pela primeira vez em 1960 em Roma, Itália, têm sua origem em Stoke Mandeville, na Inglaterra, onde ocorreram as primeiras competições esportivas para deficientes físicos, como forma de reabilitar militares feridos na Segunda Guerra Mundial.
O sucesso das primeiras competições proporcionou um rápido crescimento ao movimento paralímpico, que em 1976 já contava com quarenta países. Nesse mesmo ano, foi realizado a primeira edição dos Jogos de Inverno, levando a mais pessoas deficientes a possibilidade de praticar esportes em alto nível. Os Jogos de Barcelona, em 1992, representam um marco para o evento, já que pela primeira vez os comitês organizadores dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos trabalharam juntos. O apoio do Comitê Olímpico Internacional após os Jogos de Seul, em 1988 proporcionou a fundação, em 1989, do Comitê Paralímpico Internacional. Desde então os dois órgãos desenvolvem ações conjuntas visando ao desenvolvimento do esporte para deficientes.
Vinte e sete modalidades compõem o programa dos Jogos Paralímpicos, sendo que vinte e sete já foram disputadas e duas irão estrear na edição de 2020 dos Jogos. Além de modalidades adaptadas, como atletismo, natação, basquetebol, tênis de mesa, esqui alpino e curling, há esportes disputados exclusivamente por deficientes, como bocha, goalball e futebol de cinco. Ao longo da história, diversos atletas com deficiência física participaram de edições dos Jogos Olímpicos, tendo conseguido resultados expressivos. O único caso registrado de atleta profissional que fez o caminho inverso, ou seja, competiu primeiro em Jogos Olímpicos e depois em Jogos Paralímpicos, é o do esgrimista húngaro Pál Szekeres, que conquistou uma medalha de bronze em 1988 e, após os Jogos, sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico. Szekeres já participou de cinco Jogos Paralímpicos.
Dentre os países lusófonos, o Brasil tem conseguido destaque nas últimas edições dos Jogos Paralímpicos. O país estreou em 1976 e conquistou sua primeira medalha na edição seguinte. Em 2008, pela primeira vez encerrou uma edição entre os dez primeiros no quadro de medalhas, ficando em nono lugar com 47 medalhas. Os nadadores Clodoaldo Silva e Daniel Dias e os corredores Lucas Prado, Ádria Santos e Terezinha Guilhermina são alguns dos destaques paraesportivos do país. Portugal também tem obtido bons resultados, com destaque para a natação e a bocha, que deram seis das sete medalhas do país em 2008. Angola compete apenas desde 1996, mas já conquistou seis medalhas, todas no atletismo. Nos Jogos de Verão de 2016, Cabo Verde e Moçambique conseguiram sua primeira medalha na história, um bronze para cada país. Timor-Leste e Macau também já participaram de Jogos Paralímpicos, mas nunca ganharam medalhas.
História Precedentes thumb|right|250px|alt=A imagem em preto-e-branco mostra um senhor com bigode usando óculos e paletó com um lenço no bolso externo|Sir Ludwig Guttmann, criador dos Jogos. Em 1939, o neurologista alemão de origem judia Ludwig Guttmann foi forçado pelo governo nazista da Alemanha a deixar o país com sua família e se estabelecer na Inglaterra, trabalhando na Universidade de Oxford. Em 1943, Guttmann foi indicado pelo governo britânico para chefiar o Centro Nacional de Traumatismos na cidade de Stoke Mandeville, sendo sua principal missão a reabilitação de soldados que serviram na Segunda Guerra Mundial.
Antes da Guerra não havia registros de grandes esforços para reabilitar deficientes físicos, cuja vida era considerada de curta duração e de má qualidade. Guttmann desenvolveu uma nova filosofia de tratamento para os seus pacientes que unia trabalho e esporte. Entre as modalidades usadas no tratamento estavam basquetebol, tiro com arco, dardos e bilhar.
Com o sucesso do novo sistema, Guttmann promoveu, em 28 de julho de 1948, o primeiro evento esportivo exclusivo para portadores de deficiência. A data não foi escolhida por acaso, uma vez que, no mesmo dia, tinham início os Jogos Olímpicos de Londres, a apenas 56 km de Stoke Mandeville. Dois grupos de arqueiros paraplégicos participaram da competição. O evento continuou a ocorrer todos os anos, tornando-se internacional em 1952, quando quatro atletas dos Países Baixos competiram. O crescimento continuou de maneira acelerada até que, em 1960, a competição ocorreu pela primeira vez fora do Reino Unido.
Os primeiros Jogos Paralímpicos Roma, na Itália, foi escolhida em 1959 sede da nona edição dos Jogos Internacionais de Stoke Mandeville, como era conhecido o evento, graças aos esforços de Guttmann em unir Jogos Olímpicos e competições para deficientes (Roma também sediaria os Jogos Olímpicos de Verão de 1960), sendo a primeira vez que o evento saía de Stoke Mandeville. Quatrocentos atletas de vinte e três países competiram em provas exclusivas para usuários de cadeira de rodas.
Nos Jogos Olímpicos de 1964 em Tóquio, no Japão, os Jogos Internacionais de Stoke Mandeville aconteceram alguns dias após o encerramento dos Jogos Olímpicos. Nesta época já era comum — principalmente para a imprensa — o uso do nome "Paralimpíadas" (contração de "paraplegia" e "olimpíadas") para designar o evento, principalmente quando este ocorria em paralelo com os Jogos Olímpicos, mesmo que por vezes em locais diferentes por motivos de inacessibilidade.
A realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos na mesma cidade foi interrompida em 1968, pois a Cidade do México desistiu por problemas financeiros e por falta de acessibilidade para pessoas em cadeira de rodas nos locais de competição. Tel Aviv, em Israel, se ofereceu como sede e a proposta foi aceita, recebendo a terceira edição dos Jogos. Em 1972, mais uma vez a sede dos Jogos Olímpicos não recebeu as Paralimpíadas. Munique, na Alemanha Ocidental, desistiu da ideia de organizar os Jogos por causa da falta de acessibilidade na Vila Olímpica e optou por vender os apartamentos logo após os Jogos Olímpicos, inviabilizando a hospedagem dos atletas. Heidelberg, no mesmo país, se ofereceu como alternativa através de sua universidade.
Geopolítica, primeiras tentativas de cooperação e novos tipos de deficiência thumb|right|250px|alt=Nadadora amputada do braço direito compete nos Jogos Paralímpicos|Amputados passaram a competir nos Jogos Paralímpicos em 1976. Ainda na década de 1960, surgiu o interesse de outras organizações de apoio aos deficientes em participar dos Jogos Paralímpicos. Em 1976, ano em que mais uma vez o evento ocorreu no mesmo país sede dos Jogos Olímpicos (Canadá), mas em outra cidade (Toronto, enquanto Montreal recebeu as Olimpíadas), outras categorias passaram a integrar os Jogos. Pela primeira vez, foram realizados eventos para deficientes visuais, amputados, pessoas com lesão na medula espinhal, entre outros, totalizando 1600 atletas de quarenta países. Essa edição também é marcada pelo primeiro boicote da história dos Jogos Paralímpicos, já que a época existia uma rejeição internacional ao evento pela participação da África do Sul, que vivia o regime do Apartheid.
Em 1980, a União Soviética, que sediaria os Jogos Olímpicos de Verão do mesmo ano, foi convidada a sediar o evento. Entretanto, o esporte para deficientes no país não era suficientemente desenvolvido e teve notoriedade uma declaração que foi emitida, negando a existência de qualquer "inválido" por lá. A União Soviética enviou uma delegação pela primeira vez aos Jogos em 1988, exatamente os últimos jogos em que o país existiu. Em 2014, pela primeira vez na história os Jogos Paralímpicos foram realizados em solo da antiga URSS. Os Países Baixos ofereceram o recém inaugurado Centro Desportivo Nacional Papendal, em Arnhem, como sede dos Jogos e a proposta foi aceita. Durante estes jogos, foi criado o Comitê Internacional de Coordenação, o ICC, em que cada federação estava representada. Nove anos mais tarde, essa instituição evoluiria para o Comitê Paralímpico Internacional.
Houve tentativas do Comitê Olímpico Internacional de realizar os Jogos Paralímpicos de Verão de 1984 em Los Angeles, logo após os Jogos Olímpicos; entretanto, as conversas entre o LAOOC (Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Los Angeles) e o ICC não aconteceram, já que as relações formais entre as instituições não existiam. Durante o processo organizacional dessa edição, houve um "racha" entre as federações esportivas. Logo após os Jogos de Arnhem, a Associação Americana de Esportes em Cadeira de Rodas anunciou que iria realizar seus próprios Jogos para atletas dessa deficiência em um local separado e, assim, escolheu o campus da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign, a 217 quilômetros de Chicago. As novas categorias paralímpicas: deficientes visuais, amputados, paralisados cerebrais e os "les autres" foram disputadas em Nova Iorque, Estados Unidos. Três meses antes do evento, devido a problemas financeiros, Champaign renunciou ao evento e os "jogos em cadeiras de rodas" foram de última hora para Stoke Mandeville, no Reino Unido.
Seul 1988 Talvez o maior avanço para o movimento Paralímpico tenha ocorrido em Seul, durante os Jogos Paralímpicos de Verão de 1988. Essa edição que foi, até então, a maior e melhor organizada é considerada um ponto crucial na história dos Jogos, já que, pela primeira vez em 24 anos, os atletas paralímpicos puderam usar os modernos locais de competição dos Jogos Olímpicos. As relações entre os dois Comitês Organizadores (Olímpico e Paralímpíco) foram fracas, mas o relacionamento era substancial o suficiente para recrutar, treinar e capacitar muitos dos voluntários, oficiais esportivos e técnicos para os dois eventos.
As cerimônias de abertura e encerramento foram realizadas no Estádio Olímpico pela primeira vez. Diante de 75 mil pessoas, a nova bandeira paralímpica foi apresentada ao presidente do Comitê Internacional de Coordenação, Dr. Jens Bromann. Pela primeira vez na história, um revezamento da tocha paralímpica foi realizado e ele se tornou compulsório desde então.
Um ano após os Jogos de Seul, o Comitê Paralímpico Internacional foi fundado, reunindo atualmente 174 países. Em 2001, o IPC e o Comitê Olímpico Internacional assinaram um acordo de cooperação, complementado no ano seguinte com a política "Uma Eleição, Uma Cidade", segundo a qual a eleição da cidade-sede dos Jogos Olímpicos passaria a incorporar exigências relativas aos Jogos Paralímpicos.
Racha entre o IPC e o CISS O Comitê Internacional de Desporto para Surdos (CISS), o órgão internacional que organiza internacionalmente o desporto de surdos, já havia sido reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional em 1955 e realiza as duas versões dos Jogos Mundiais de Surdos (verão e inverno) desde 1924.
Durante o processo de formação e unificação do esporte adaptado na segunda metade da década de 1980, o então presidente do COI Juan Antonio Samaranch pediu formalmente que o CISS se juntasse ao Comitê de Coordenação Internacional (antecessor do IPC) para fornecer uma única estrutura organizacional para o desporto adaptado. O CISS aceitou a proposta, sob a condição de que sua autonomia fosse mantida e que os seus jogos fossem realizados normalmente e de forma independente.