thumb|Vila Itororó, casarão situado no centro da cidade de São Paulo, que abrigava 86 famílias, até 2011 Parceria entre Sehab e CDHU transfere 86 famílias da Vila Itororó. Por Marcos Palhares, 28 de setembro de 2011.
Cortiço é uma forma de habitação precária de aluguel, caracterizada pela subdivisão intensiva de imóveis urbanos em cômodos individuais ou pequenas unidades, com uso coletivo de instalações sanitárias e áreas comuns, destinada majoritariamente a populações de baixa renda.
No Brasil, os cortiços se consolidaram historicamente como uma das principais modalidades de moradia popular em áreas centrais ou bem localizadas das cidades, articulando precariedade habitacional, exploração rentista do solo urbano e inserção desigual na cidade formal.BONDUKI, Nabil Georges. Origens da habitação social no Brasil: arquitetura moderna, lei do inquilinato e difusão da casa própria. São Paulo: Estação Liberdade; FAPESP, 1998. .VAZ, Lílian Fessler. Dos cortiços às favelas e aos edifícios de apartamentos — a modernização da moradia no Rio de Janeiro. Análise Social, Quarta Série, v. 29, n. 127, 1994, p. 581–597. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41011022.
Diferentemente de outras formas de habitação popular, o cortiço não se define pela autoconstrução, mas pela mediação do mercado de aluguel, frequentemente informal ou irregular, sendo produzido tanto pela adaptação de edificações preexistentes quanto por empreendimentos voltados especificamente à locação de cômodos. Ao longo do tempo, os cortiços foram objeto de discursos higienistas, intervenções urbanas repressivas e políticas públicas fragmentadas, sem que deixassem de desempenhar papel estrutural na reprodução da força de trabalho urbana.CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.GENNARI, Luciana Alem. O controle da cidade? Notas sobre a gênese da gestão urbana das construções particulares na cidade do Rio de Janeiro, 1828–1930. In: FRIDMAN, Fania; GENNARI, Luciana Alem; LENCIONI, Sandra (orgs.). Políticas públicas e territórios: onze estudos latino-americanos. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 61-87.
Formação histórica miniaturadaimagem|Aluísio Azevedo, autor do romance O cortiço (1890), obra central do naturalismo brasileiro que retrata a vida cotidiana e as relações sociais em habitações coletivas no Rio de Janeiro do final do século XIX. Os cortiços se difundiram no Brasil a partir da segunda metade do século XIX, em um contexto marcado pela intensificação da urbanização, crescimento demográfico e crise habitacional nas principais cidades do país. Esse processo esteve profundamente associado às transformações do trabalho e da estrutura social no período final da escravidão e no pós-abolição, envolvendo sobretudo populações negras, escravizadas, libertas e livres, além de imigrantes pobres e trabalhadores urbanos. miniaturadaimagem|Cortiço Cabeça de Porco, Rio de Janeiro.
Em cidades como Salvador e Rio de Janeiro, ainda ao longo do século XIX, formas de habitação coletiva e o aluguel de cômodos já constituíam alternativas centrais de moradia para essas populações. No Rio de Janeiro, Sidney Chalhoub explica que os cortiços se tornaram objeto privilegiado da medicina sanitária e das autoridades públicas, sendo associados a epidemias como a varíola, a febre amarela e, posteriormente, a gripe espanhola, em razão da superlotação, da ventilação e iluminação precária, alta densidade domiciliar e uso coletivo de instalações como os sanitários. Essa associação fundamentou políticas higienistas que priorizaram inspeções, interdições e demolições na cidade, sem a oferta de alternativas habitacionais, tendo como episódio emblemático a destruição do cortiço Cabeça de Porco, em 1893. No início do século XX, as reformas urbanas conduzidas por Pereira Passos aprofundaram esse padrão de intervenção, promovendo a remoção de cortiços nas áreas centrais da então capital federal e consolidando um modelo de modernização urbana baseado na expulsão da população pobre, em nome da salubridade, da circulação e da “civilização” da cidade.CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.PINHEIRO, Eloísa Petti. O caso da cidade do Salvador. In: PINHEIRO, Eloísa Petti. Europa, França e Bahia: difusão e adaptação de modelos urbanos – Paris, Rio e Salvador. Salvador: EDUFBA, 2002. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.7476/9788523211912.10.TEIXEIRA, Manuel C. A habitação popular no século XIX — características morfológicas, a transmissão de modelos: as ilhas do Porto e os cortiços do Rio de Janeiro. Análise Social, Quarta Série, v. 29, n. 127, 1994, p. 555–579. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41011021.DALCASTAGNÈ, Regina. Da senzala ao cortiço — história e literatura em Aluísio Azevedo e João Ubaldo Ribeiro. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 21, n. 42, p. 483–494, 2001. https://doi.org/10.1590/S0102-01882001000300011
Em São Paulo, os cortiços se difundiram sobretudo na virada do século XIX para o XX, no contexto da transformação da cidade em centro industrial. Analisando o bairro do Brás, Maura Pardini Bicudo Véras informa que a consolidação dessa forma de moradia esteve associada à conversão de áreas semiurbanas em bairros operários, ao impacto da abolição da escravidão (1888) sobre o mercado de trabalho e à coexistência entre imigrantes europeus pobres e populações já residentes, incluindo trabalhadores nacionais e populações negras livres e libertas. Nesse contexto, formou-se um mercado privado de aluguel popular, baseado tanto na adaptação de imóveis existentes quanto na produção deliberada de edificações subdivididas em cômodos para locação. Os cortiços paulistanos, portanto, não precedem a industrialização, mas se estruturam justamente nesse momento de passagem, quando São Paulo deixa de ser uma cidade de menor porte e se consolida, nas primeiras décadas do século XX, como metrópole industrial.VÉRAS, Maura Pardini Bicudo. Cortiços no Brás: velhas e novas formas da habitação popular na São Paulo industrial. Análise Social, v. 29, n. 127, 1994, p. 599–629. Nesse município, os cortiços são chamados tecnicamente de "habitações coletivas precárias de aluguel" (HCPA)".Lei Orgânica do Município de São Paulo. Artigo 171
A repressão aos cortiços e as reformas urbanas implementadas entre o final do século XIX e o início do século XX procuraram não apenas a eliminação física dessas moradias em áreas centrais, mas também o deslocamento social e espacial de seus moradores. No Rio de Janeiro, a destruição de cortiços e a ausência de alternativas habitacionais levaram à dispersão da população pobre para áreas menos valorizadas e menos reguladas da cidade, fora dos eixos centrais remodelados. Lílian Fessler Vaz observa que esse processo não implicou o desaparecimento da demanda por moradia popular, mas a reconfiguração das formas de habitar, com a progressiva perda de centralidade do cortiço e a expansão de outras modalidades precárias em territórios periféricos à cidade formal. Assim, as políticas sanitárias e urbanísticas contribuíram para a reorganização espacial da pobreza urbana, sem resolver o déficit habitacional.VAZ, Lílian Fessler. Dos cortiços às favelas e aos edifícios de apartamentos — a modernização da moradia no Rio de Janeiro. Análise Social, Quarta Série, v. 29, n. 127, 1994, p. 581–597. Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41011022.
Características Os cortiços se caracterizam pela subdivisão intensiva de edificações urbanas em cômodos individuais ou pequenas unidades alugadas separadamente, com uso coletivo de instalações sanitárias, cozinhas e áreas de circulação. Essa forma de moradia resulta tanto da adaptação de imóveis preexistentes, como sobrados, casarões e edifícios antigos, quanto da produção deliberada de construções voltadas à locação de cômodos, especialmente em áreas centrais ou bem conectadas da cidade.PINHEIRO, Eloísa Petti. O caso da cidade do Salvador. In: PINHEIRO, Eloísa Petti. Europa, França e Bahia: difusão e adaptação de modelos urbanos – Paris, Rio e Salvador. Salvador: EDUFBA, 2002. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/10.7476/9788523211912.10.
Uma característica central do cortiço é sua inserção no mercado privado de aluguel popular, marcada pela locação e sublocação de cômodos, pela ausência de contratos formais e pela alta rotatividade de moradores. Essa rotatividade decorre da instabilidade ocupacional de parte dos inquilinos, da cobrança individualizada dos aluguéis e da possibilidade de despejos imediatos em caso de inadimplência, configurando um regime de moradia altamente flexível e assimétrico. Ao analisar cortiços na área central de São Paulo, Luiz Tokuzi Kohara demonstra que esse modelo permite a obtenção de rendimentos superiores aos do mercado convencional de aluguel, em razão do fracionamento extremo dos imóveis e da maximização da renda por metro quadrado. O autor evidencia ainda que a exploração econômica do cortiço se sustenta em uma relação ambígua com o Estado, que, ao mesmo tempo em que reconhece a precariedade dessas moradias, tolera sua permanência diante da ausência de alternativas habitacionais. A presença de moradores beneficiários de políticas públicas de proteção social, como benefícios previdenciários e assistenciais, introduz novos fluxos regulares de renda pública nesses espaços, reduzindo riscos de inadimplência e contribuindo para a estabilidade econômica do negócio, sem que isso implique melhoria das condições habitacionais.KOHARA, Luiz Tokuzi. Rendimentos obtidos na locação e sublocação de cortiços: estudo de caso na área central da cidade de São Paulo. Dissertação de Mestrado. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1999.ALBUQUERQUE, Marcos Venancio Cavalcanti de; CYMBALISTA, Renato. As vozes dos operadores de cortiços. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 24, e202235pt, 2022. DOI: 10.22296/2317-1529.rbeur.202235pt.MARTIN, Denise; ANDREOLI, Sergio Baxter; PINTO, Rosa Maria Ferreiro; BARREIRA, Tânia Maria Hourneaux de Mendonça. Living conditions of people with psychotic disorders living in slums in Santos, Southeastern Brazil. Revista de Saúde Pública, v. 45, n. 4, 2011.