Frei Vicente do Salvador (nascido Vicente Rodrigues Palha; Salvador, 1564 – Salvador, 1636–1639) foi um religioso franciscano nascido no Brasil Colonial.

Sua vida é pobremente conhecida e sua fama repousa sobre dois escritos, Crônica da Custódia do Brasil, e principalmente a História do Brasil (1627), valiosos relatos históricos e corográficos sobre a vasta colônia portuguesa na América em seus primeiros tempos. Este legado documental, cuja importância a crítica reconhece em consenso, lhe valeu os epítetos de Pai da Historiografia brasileira,Willeke, Venâncio, Frei. "Frei Vicente do Salvador: Pai da História do Brasil". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1967; 277:99-112Coutinho, Afrânio; Sousa, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira, volume 2, 2ª ed. Rio de Janeiro. Global, 2001, p. 1432 ou Heródoto brasileiro.Lins, Guilherme Gomes da Silveira d'Ávila. "Frei Vicente do Salvador, O.F.M.: um breve ensaio biobibliográfico e historiográfico". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 2011; 172 (453):147-173 Sua vida como religioso também foi relevante, recebendo várias atribuições de responsabilidade e fundando o convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro.

Biografia Era filho de João Rodrigo Palha e Méssia de Lemos, tendo nascido em Matuim, Salvador, Bahia. Segundo a pesquisadora Milena de Oliveira, seu pai era fidalgo, e teria viajado ao Brasil com uma expedição organizada pelo amigo Luís de Melo Silva. Não há grande certeza sobre sua data de nascimento. A maioria dos críticos a coloca no ano de 1564 ou em torno disso, mas pode ter sido até 1567, ano em que foi batizado.Oliveira, Milena Fernandes de. Diálogos entre Caminha e Frei Vicente do Salvador. Unicamp, 2003, p. 75 Foi batizado no dia .Blake, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Rio de Janeiro, Typographia Nacional, 1883–1902, volume 7, pp. 370-371 O historiador Capistrano de Abreu, seu primeiro editor, menciona à página VI da apresentação de seu estudo sobre a obra de frei Vicente, História do Brasil, que o ano de nascimento do frade seria 1564, já que o autor menciona ao fim da obra que está com "63 annos", e segundo as pesquisas de Capistrano, teria sido concluída em 1627. Original na Biblioteca Nacional de Portugal

Frei Vicente estudou no Colégio dos Jesuítas, em Salvador. Estudou Direito e Teologia na Universidade de Coimbra, onde doutorou-se em cânones. Fez uma rápida carreira na Igreja, sendo nomeado num intervalo de poucos anos presbítero secular, cônego da Catedral de Salvador, vigário-geral e governador do bispado da Bahia. Em vista do seu sucesso como administrador, diz seu biógrafo, frei Venâncio Willeke, que causou surpresa e pesar na Bahia a decisão de Vicente de abandonar o clero secular para ingressar numa ordem mendicante, a dos franciscanos, tendo recebido o hábito a e professando a , no convento de Salvador, sendo logo transferido a Pernambuco. Segundo Willeke, Vicente fora desde cedo contagiado pelo ideal da evangelização dos indígenas, mas mantinha um especial interesse pela obra do frade Bartolomeu de las Casas e outros religiosos que defendiam os nativos. Em torno de 1603 foi nomeado para catequizar os silvícolas da Paraíba, devido ao seu conhecimento do idioma nativo e à ordem régia de fundar novas missões na área. thumb|O Convento de Santo Antônio do Rio, fundado pelo frade

Em 1606 deixou as missões e passou a lecionar Filosofia no convento de Olinda, e no fim do ano o superior o escolheu para fundar o convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro. Vicente e um grupo de outros frades desembarcaram no Rio em janeiro de 1607. O terreno que havia sido doado em 1592 não agradou o superior, frei Leonardo, que o permutou por outro, e antes de partir para o norte encarregou frei Vicente da construção de uma capela e de acomodações provisórias para o grupo. Terminados os trabalhos de fundação, foi requisitado novamente para lecionar Filosofia, mas poucos meses depois foi dispensado.

Os anos seguintes são mal documentados, reaparecendo em 1612, quando foi nomeado guardião do convento de Salvador, dedicando especial atenção aos doentes e idosos. Permaneceu na função até 1614, quando foi eleito custódio da Província de Santo Antônio do Brasil, no capítulo celebrado em Lisboa a .Willeke, Venâncio, Frei. "O estado atual das pesquisas sobre Frei Vicente do Salvador e suas obras". In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1968; 279:165-176 Sua responsabilidade recaía sobre os oito conventos franciscanos então existentes no Brasil, além de supervisionar trinta missões entre os índios. Seu governo foi marcado pela preocupação de defender os índios dos abusos promovidos pelos portugueses, mas com pouco efeito prático. O insucesso aparentemente foi a causa da entrega das missões franciscanas para o cuidado do clero secular em 1619. thumb|direita|Placa do ossário dos frades menores no convento em Salvador, Bahia, onde está inscrito o ano de 1636 como o da morte de frei Vicente do Salvador

Entre 1618-1621 provavelmente esteve em Portugal para prestar contas de sua gestão e para estar presente na instalação do Capítulo Provincial de Lisboa de 1619. Consta que nesta viagem teria levado os originais da sua primeira composição, Crônica da Custódia do Brasil, apresentando-a para seus confrades. Crê-se que o interesse despertado entre eles o tenha animado a realizar um relato mais abrangente, dando início à sua famosa História do Brasil.

Em 1620 ou 1621 já devia estar de volta ao Brasil. Vinha nomeado guardião para Salvador, mas renunciou assim que chegou, passando a empreender viagens de documentação. Visitou o Rio de Janeiro, e em meados de 1624, estando na Bahia, caiu prisioneiro dos holandeses, sendo liberado em maio de 1625. O conteúdo principal da História foi concluído antes de 20 de dezembro de 1627, quando dedicou a obra a Severim de Faria. Provavelmente esteve em Lisboa nesta altura, a fim de entregar os originais para impressão, que jamais ocorreria em sua vida. Em 1630 foi eleito novamente guardião em Salvador, atuando até 1633.

A data de seu falecimento também é incerta. Capistrano de Abreu, em sua edição da História de 1889, declara que "morreu uns dez anos depois de 1627", indicando como intervalo de segurança 2 de outubro de 1636, quando ainda vivia, tendo assinado um documento, e fins de 1639, já que no livro de óbitos do convento, iniciado em 1640, ele não consta.Abreu, Capistrano de. "Prefácio". In: Vicente do Salvador. Historia do Brazil. Rio de Janeiro: Bibliotheca Nacional, 1889, pp. i-xix Numa revisão das pesquisas posteriores, Willeke disse que até a época em que escreveu (década de 1960), ainda não se conhecia a data exata da sua morte, e definiu o mesmo intervalo. Outros pesquisadores mais recentes apoiaram essas conclusões.Bosi, Alfredo . História concisa da literatura brasileira. Cultrix, 2006, p. 25Oliveira, Halyson. Fontes para Pesquisa sobre o Brasil Colonial. Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, 2014

Obras Crônica da Custódia do Brasil A Crônica da Custódia do Brasil foi escrita provavelmente a partir de 1612 e terminada em torno de 1617, e deve ter sido levada a Lisboa pouco depois para ser impressa. Seus originais se perderam depois de 1650, mas já haviam sido utilizados pelo frei Manuel da Ilha e por Jorge Cardoso, que transcreveram várias partes da obra respectivamente na Relação e no Agiológio Lusitano. Parte já havia sido transcrita na segunda composição do próprio Vicente do Salvador, História do Brasil. Pelo que sobrevive nessas transcrições, o conteúdo não se limitava, como sugere o título, à história das missões franciscanas, mas se expandia para a narrativa de eventos políticos e da vida dos índios, além de elaborar pequenas biografias do bispo Pedro Fernandes Sardinha e do frei Francisco de São Boaventura. Provavelmente havia também biografias dos custódios de Santo Antônio desde o primeiro, frei Melchior de Santa Catarina, e de missionários e capelães importantes. Esse conteúdo aparece principalmente no capítulo 39 da História do Brasil, e aparentemente todo ele é uma transcrição da Crônica.

História do Brasil thumb|Frontispício da primeira edição da História do Brasil, 1889

A História do Brasil foi incentivada por Manuel Severim de Faria, a quem foi dedicada em 20 de dezembro de 1627. Seu conteúdo seria ampliado depois. Diz Willeke: "Embora voltasse às suas ocupações comuns da vida religiosa e da cura d'almas, o autor da história brasileira, em espírito, acompanhava os originais até Portugal e como a publicação demorasse muito, acrescentou, no decorrer dos anos, muitas correções e fatos que lhe haviam escapado".

A obra aproveita trechos da Crônica e é dividida em cinco livros. Inicia com a chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral, o descobridor, e narra a primeira organização da colonização, episódios de seus primeiros governadores, descreve o sistema dos governos-gerais e das capitanias hereditárias, as entradas para o sertão e as guerras contra o gentio, as fortalezas e táticas militares, a invasão holandesa, e outros eventos. Traça ainda um amplo panorama da fisionomia do território, sua flora e fauna, seu clima e sua geografia, seus nativos e seus respectivos usos e costumes, as primeiras povoações portuguesas, os engenhos de açúcar, as lavouras, captando de maneira às vezes poética e lírica, o jeito de falar e de viver nas terras ainda tão novas.Souza, Mariana Silveira Leonardo de. Espacializando a Historia do Brazil, de frei Vicente do Salvador. Universidade de Brasília, 2016, pp. 14-21

O manuscrito esteve em posse de Severim de Faria, que havia se comprometido a imprimi-lo, mas isso nunca aconteceu. Com ele seguramente o original ficou até 1638, pelo menos, perdendo-se depois, mas sobreviveu em diversas cópias manuscritas, que não são todas iguais. Uma cópia chegou ao Rio de Janeiro em meados do século XIX, sendo publicada pela primeira vez em 1889 em edição de Capistrano de Abreu. O manuscrito usado tinha muitas falhas, e uma edição mais próxima do original só veio à luz após três outras edições. A seguir, um excerto de sua narrativa, considerada o "primeiro clássico do Brasil":

"Inopem me copia facit, disse o poeta, e disse verdade, porque, onde as coisas são muitas, é forçado que se percam, como acontece ao que vindima a vinha fértil e abundante de fruto, que sempre lhe ficam muitos cachos de rabisco e assim me há sucedido com as coisas de mar e terra do Brasil de que trato. Pelo que me é necessário rabiscar ainda algumas, que farei neste capítulo, que quanto a todas é impossível relatá-las.

"Faz no Brasil sal não só em salinas artificiais, mas em outras naturais, como no Cabo Frio e além do Rio Grande, onde se acha coalhado em grandes pedras muito e muito alvas.

"Faz-se também muita cal, assim de pedra do mar como da terra, e de cascas de ostras que o gentio antigamente comia e se acham hoje montes delas cobertos de arvoredos, donde se tira e se coze engradada entre madeira com muita facilidade.

"Há tucum, que são umas folhas quase de dois palmos de comprido, donde, só com a mão, sem outro artifício, se tira pita rijíssima, e cada folha dá uma estriga".

Legado