O Holodomor (; derivado de ,Werth, Nicolas. 2007. "La grande famine ukrainienne de 1932–1933." In La terreur et le désarroi: Staline et son système, edited by N. Werth. Paris. . p. 132.Graziosi, Andrea. 2005. "Les Famines Soviétiques de 1931–1933 et le Holodomor Ukrainien." Cahiers du monde russe et soviétique 46(3): 453–472 . . também conhecido como a Fome-Terror e por vezes referido como a Grande Fome,Boriak, Hennadii. 2009. Sources for the Study of the 'Great Famine' in Ukraine. Cambridge, MA. foi um período de fome na Ucrânia Soviética entre 1932 e 1933 que causou a morte de milhões de ucranianos. Como parte da mais vasta fome soviética de 1932-33, que afetou as principais áreas produtoras de cereais do país, milhões de habitantes da Ucrânia, a maior parte de etnia ucraniana, morreram de fome numa catástrofe sem precedentes na história da Ucrânia em tempos de paz.

As estimativas iniciais do número de mortos por estudiosos e funcionários do governo variaram muito. De acordo com estimativas mais elevadas, até 12 milhões de ucranianos étnicos teriam perecido em resultado da fome. Uma declaração conjunta das Nações Unidas, assinada por 25 países em 2003, declarou que entre 7 a 10 milhões pereceram. Desde então, a investigação reduziu as estimativas para entre 3,3 e 7,5 milhões. Segundo as conclusões do Tribunal de Recurso de Kiev, em 2010, as perdas demográficas devidas à fome ascenderam a 10 milhões, com 3,9 milhões de mortes por fome directa, e mais 6,1 milhões de défices de natalidade.

Desde 2006, o Holodomor é reconhecido pela Ucrânia e outros 16 países como um genocídio do povo ucraniano levado a cabo pelo governo soviético. Se o Holodomor foi genocídio é ainda objecto de debate académico, tal como as causas da fome e da intencionalidade das mortes. Alguns académicos acreditam que a fome foi planeada por Joseph Stalin para eliminar um movimento de independência ucraniano. Outros sugerem que foi uma consequência da industrialização soviética. Part 1 – Part 2 – Part 3 – Part 4 O termo Holodomor enfatiza os aspectos artificiais e intencionais da fome, tais como a rejeição de ajuda externa, o confisco de todos os alimentos domésticos e a restrição do movimento populacional.

1929: Coletivização da agricultura e a deskulakização ("Grande Viragem") Objetivos da "Grande Viragem" No início da década de 1930, Estaline decidiu aplicar uma nova política para a URSS, através da transformação radical e acelerada das suas estruturas económicas e sociais. Essa mudança visava aos seguintes objectivos:Nicolas Werth, "Archives du Communisme: Les paysans contre Staline. ", L'Histoire, 296, p.78

A coletivação da agricultura, ou seja, a apropriação pelo Estado soviético das terras, colheitas, gado e alfaias pertencentes aos camponeses. Dessa forma, o Estado passaria a estabelecer planos de colecta para a produção agropecuária, que lhe permitiam de modo regular e quase gratuito, abastecer as cidades e as forças armadas, bem como exportar para o estrangeiro. Por outro lado, pretendia-se estabelecer um efectivo controle político-administrativo sobre o campesinato, forçando-o a apoiar o regime soviético. Esse apoio seria igualmente garantido com a eliminação da camada social mais próspera e favorável à economia de mercado, os kulaks. A industrialização acelerada da União Soviética, com base nas receitas financeiras obtidas através da exportação dos produtos agrícolas, sobretudo dos cereais.

"Guerra anticamponesa" thumb|Genrikh Yagoda (direita) na companhia do escritor Máximo Gorki (esquerda). Enquanto vice-chefe da polícia política (O.G.P.U), Yagoda foi um dos principais responsáveis pela repressão do campesinato, no âmbito da colectivização e da deskulakização

O processo de colectivização acelerada da agricultura e de "liquidação dos kulaks enquanto classe" (deskulakização), desencadeado por decisão do comité central do Partido Comunista da União Soviética, em Dezembro de 1929, teve consequências trágicas para milhões de pessoas.

Para a sua execução, os funcionários e membros do Partido Comunista que estavam presentes nos campos, foram apoiados por brigadas de operários e de "activistas" vindos dos centros urbanos.Ibidem, p.172 Sendo a União Soviética um país em que a fractura entre o mundo dominante das cidades e o mundo dominado das aldeias continuava a ser profunda, a colectivização foi sentida como uma verdadeira guerra declarada pelo Estado contra o modo de vida e a cultura camponesa tradicionais.Lynne Viola, Peasant Rebels Under Stalin. Collectivization and the Culture of Peasant Resistance, Nova Iorque, 1996. ISBN 0195101979

Os camponeses (82% da população soviética), depois de serem obrigados, através de todo o tipo de abusos e violências,Sheila Fitzpatrick, Stalin’s Peasants: Resistance and Survival in the Russian Village after Collectivization, pp. 48-79 a entregar os bens, são forçados a aderir às explorações agrícolas colectivas (kolkhozes) ou estatais (sovkhozes). Estas destinavam-se a abastecer, de forma regular e quase gratuita, o Estado com produtos agrícolas e pecuários, através de planos de colecta fixados pelas autoridades centrais.

Com base na acusação arbitrária de pertencerem à categoria dos kulaks (camponeses ricos e hostis ao poder soviético), os "socialmente estranhos" ao novo sistema agrícola kolkhoziano, são desterrados a título definitivo para outras regiões, principalmente para o Cazaquistão e a Sibéria.Donald Rayfield, Stalin y Los Verdugos, Madrid, 2003, pp. 229-238. ISBN 9707700068 Por outro lado, as operações de deportação visavam fornecer os recursos humanos necessários à colonização e exploração das imensas riquezas naturais, existentes nesses territórios desabitados.

No total, são deportadas — frequentemente de modo caótico e precipitadoIbidem, pp. 179-184 — cerca de 2,8 milhões de pessoas:

, dos quais ucranianos,Stephen Wheatcroft e R.W Davies, The Years of Hunger: Soviet Agriculture, 1931-1933., p. 490 no contexto da campanha de deskulakização (1930-1932); , devido à repressão da resistência às requisições predatórias efectuadas pelos organismos estatais encarregues de se apoderar dos cereais (1932-1933).Nicolas Werth, " Le Pouvoir Soviétique et le Paysannerie dans les Rapports de la Police Politique (1930-1934). ", Bulletin de l`Institut d' Histoire du Temps Présent, n.° 81-82, p. 7Michael Ellman, "Soviet Repression Statistics: Some Comments" , Europe-Asia Studies, Vol. 54, No. 7, 2002, p. 1159

No entanto, em muitos casos, as vítimas da repressão foram simplesmente abandonadas nesses territórios distantes e inóspitos.Nicolas Werth, L´Île aux Cannibales : 1933, Une Déportation-Abandon en Sibérie, Paris, 2006, pp. 161-169. ISBN 2262024340 Em consequência disso, aproximadamente 500 mil deportados, entre os quais muitas crianças, morreram devido ao frio, à fome e ao trabalho extenuante.Ibid., " Le Pouvoir Soviétique…",art. cit., p. 18

Os sobreviventes, trabalhando como "colonos de trabalho" nas empresas de exploração dos recursos naturais — exploração florestal, carvão, minerais não ferrosos, metalurgia, agricultura e artesanato — ou nos estaleiros de obras públicas — construção e manutenção de estradas e vias férreas — são tratados como verdadeiros párias, sendo sujeitos a todo o tipo de privações e abusos.

Por sua vez, cerca de 400 mil camponeses foram enviados para uma rede de campos de trabalho forçado (Gulag), gerida pelo O.G.P.U. — na época, sob a direcção de Vyacheslav Menzhinsky —Anne Applebaum, GULAG. Uma História, Porto, 2005, p. 89. ISBN 9722621785 e outros 30.000 foram punidos com a pena capital.Nicolas Werth, " Le Pouvoir Soviétique…", art. cit., p. 7

A resposta dos camponeses foi desesperada e muitas vezes violenta,Lynne Viola, Peasant Rebels…, op. cit., pp. 132-180 havendo numerosas manifestações, revoltas e distúrbios por todo o país (mais de casos registados pelo O.G.P.U.).Nicolas Werth, "Archives du Communisme…", art. cit., p. 79

Essa resistência mobilizou cerca de três milhões de pessoas, em particular nas regiões do rios Don e Volga, no Cáucaso do Norte, no Cazaquistão, e sobretudo, na Ucrânia.Ibidem, p. 79

As motivações da sublevação camponesa foram múltiplas, surgindo de acordo com os novos desafios suscitados pela intransigência do Estado soviético: recusa em aderir aos kolkhozes; oposição à política antirreligiosa das autoridades (encerramento das igrejas, confiscação dos sinos, vandalismo antireligioso dos activistas da Juventude Comunista); solidariedade com os kulaks e outros "elementos antissoviéticos", vítimas de perseguição; resistência à confiscação, pelos órgãos estatais de colecta, de uma crescente percentagem da produção agropecuária, através de "desvios" e roubos da colheita "colectiva", numa conjuntura económica cada vez mais degradada.Ibid.,"Archives du Communisme…", art. cit., p. 83Sheila Fitzpatrick, Stalin’s Peasants…, op. cit., pp. 62-68

1931: Ínício da fome soviética Âmbito geográfico A partir de 1931 — com o perfeito conhecimento das autoridades — as crescentes dificuldades alimentares começam a provocar a morte de centenas de milhares de pessoas, em várias regiões da União Soviética.

A situação é especialmente grave no Cazaquistão (ver: Fome cazaque de 1930-1933), bem como nas principais áreas cerealíferas — Ucrânia, Cáucaso do Norte e território do rio Volga — onde tinha sido oferecida maior resistência à política de colectivização agrícola.Andrea Graziosi, "Les Famines Soviétiques…",art. cit., p. 460

Causas iniciais da fome Exceptuando o caso particular do Cazaquistão,Robert Conquest, The Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-Famine, Oxford, 1987, pp. 189-198. ISBN 0195051807Niccolo Pianciola, " Famine in the Steppe. The Collectivization of agriculture and the Kazak herdsmen, 1928-34." Cahiers du monde russe et soviétique, 1-2, pp. 137-192The Kazakh Catastrophe and Stalin’s Order of Priorities, 1929-1933: Evidence from the Soviet Secret Archives, Simon Ertz, Stanford’s Student Journal of Russian, East European, and Eurasian Studies, Volume 1, Primavera de 2005 (acedido a 25 de Janeiro de 2007)Isabelle Ohayon, La sedentarisation des Kazakhs dans l'URSS de Staline. Collectivisation et changement social, 1928-1945. Paris, 2006, pp. 227-276. ISBN 2706818964Kazakhstan: The Forgotten Famine, Bruce Pannier, Radio Free Europe/Radio Liberty, 28 de Dezembro de 2007 (acedido a 28 de Janeiro de 2008) as causas iniciais desta tragédia devastadora foram globalmente idênticas:Andrea Graziosi, "Les Famines Soviétiques…", art. cit., pp. 460-461

thumb|upright|Capa da revista soviética Kolhospnytsia Ukrayiny ("Mulher Kolkhoziana da Ucrânia") de Dezembro de 1932

a grave desorganização do ciclo produtivo agrícola causada pelas medidas de deskulakização, que visavam reprimir e eliminar as elites camponesas; a colectização forçada, que levou muitos dos camponeses a reagir de forma violenta e desesperada, através da destruição de uma grande parte do seu património (alfaias, animais, colheitas, etc.); a ineficácia e a miséria que caracterizam os kolkhozes, instituídos num contexto de violência e de caos generalizados; as sucessivas e implacáveis vagas de requisição (colectas), através das quais o Estado procura dar resposta a um triplo problema (dificuldades sentidas no processo de industrialização acelerada; explosivo crescimento urbano, em resultado do êxodo rural; necessidade de travar o agravamento da dívida externa, mediante o crescimento da exportação de matérias-primas); a resistência dos camponeses face àquilo que consideravam tratar-se de uma "segunda servidão"Sheila Fitzpatrick, Stalin's Peasants…, op. cit., pp. 128-151 — designada, por Nikolai Bukharin, de "exploração militar-feudal"Nicolas Werth, " Comment Staline a affamé l`Ukraine ", L´Histoire, 188, p.78 — trabalhando cada vez menos, devido à sua rejeição do modelo colectivista imposto pelo regime, ou em consequência da debilidade física gerada pelas dificuldades alimentares;