O luteranismo é um dos principais segmentos do protestantismo, com aproximadamente mais de 77 milhões de fiéis,Segundo dados dos afiliados à Federação Luterana Mundial. «More than 77 million Lutherans in 148 LWF member churches». The Lutheran World Federation . 22 de julho de 2020. que tem por base a teologia de Martinho Lutero, um frade católico, reformador e teólogo alemão.MSN Encarta, s.v. " Luteranismo " por George Wolfgang Forell; Christian Cyclopedia, s.v. "Reformation, Luterano" por Lueker, E. et. al. Arquivado em 31 de outubro de 2009. Surgiu a partir dos esforços de Martinho Lutero em reformar a doutrina e prática da Igreja Católica, até então a tradição cristã dominante no ocidente, o que originou a Reforma Protestante. As Igrejas Luteranas aderem à Bíblia como a principal e maior autoridade (doutrina conhecido como Sola scriptura) e aos três Credos (Apostólico, Niceno e Atanasiano), com a doutrina luterana sendo explicada no Livro de Concórdia. Os luteranos se consideram em continuidade com a igreja apostólica original e afirmam os escritos dos Padres da Igreja e os quatro primeiros concílios ecumênicos.

A Reforma Protestante teve como início a publicação das 95 Teses, que foram divulgadas nos territórios de língua alemã do Sacro Império Romano-Germânico criticando algumas práticas da Igreja Católica, contrariando as autoridades governamentais e eclesiásticas da época. Durante a Reforma, o luteranismo tornou-se a religião oficial de vários estados do norte da Europa, especialmente no norte da Alemanha, Escandinávia e a então Ordem da Livônia (território o qual hoje corresponde a Letônia). A divisão entre os católicos romanos e os luteranos aconteceu em 1521 com a Dieta de Worms, onde Lutero e todos seus seguidores foram oficialmente excomungados pela Igreja Católica. A divisão tinha por base a doutrina da justificação, sendo que Lutero advocava-a através do princípio de que "a salvação vem somente pela graça, somente pela fé e somente por Cristo", contrariando o ponto de vista romano, que se baseava em uma "salvação pelo amor e pelas boas obras". Em 1530 foi publicada a Confissão de Augsburgo, clarificando as posições das igrejas luteranas, se tornando sua principal confissão de fé. As posições que as igrejas que se separaram e seguiram foram eventualmente codificadas no Livro de Concórdia em 1580, que possui os documentos confessionais do luteranismo.

Ao contrário de outras igrejas cristãs que surgiram por meio da Reforma, assim como o calvinismo, o luteranismo mantém muitas práticas litúrgicas, mantendo até hoje a Missa como era praticada na Alemanha no século XVI na forma do Serviço Divino (alemão: Gottesdienst), e ensinamentos sacramentais do período pré-Reforma, com uma ênfase particular na eucaristia, ou "Santa Ceia", afirmando a presença real de Cristo por meio da União Sacramental, e do Batismo, ensinando a "regeneração pelo batismo" e batismo infantil. Seguindo a doutrina da Sola scriptura, a tradição é subordinada às Escrituras e é valorizada por seu papel na proclamação do Evangelho. Os principais pontos em que o luteranismo difere das outras igrejas cristãs são o propósito da Lei de Deus, a vocação eficaz, a perseverança dos santos e a predestinação.

No seu conjunto, o luteranismo é a segunda maior confissão cristã do ocidente (atrás do catolicismo romano), contando ao todo com aproximadamente 80 milhões de fiéis, concentrados sobretudo nos países da Escandinávia. Desde 1525 com a Prússia, o luteranismo se tornou a igreja estatal de vários países europeus. As maiores igrejas locais são a sueca (a Igreja da Suécia) e a alemã (Igreja Evangélica na Alemanha).

Etimologia miniaturadaimagem|Martinho Lutero, uma pintura de 1529 de Lucas Cranach, o Velho O nome "luterano" surgiu como um termo pejorativo empregado por João Maier contra Martinho Lutero durante o Debate de Leipzig de julho de 1519.Espín, Orlando O. e Nickoloff, James B. Um dicionário introdutório da teologia e dos estudos religiosos. Collegeville, Minnesota: Liturgical Press, p. 796. Maier e outros católicos romanos seguiram a prática tradicional de nomear uma heresia utilizando o nome de seu líder, assim rotulando a todos que se identificavam com a teologia de Lutero como "luteranos".Fahlbusch, Erwin, and Bromiley, Geoffrey William, The Encyclopedia of Christianity, Volume 3. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 2003. p.362.CÂMARA, Jaime de Barros. Apontamentos de História Eclesiástica. Petrópolis: Vozes, 1957, 3a. ed. p. 234

Martinho Lutero, em todas suas convenções, nunca utilizou o termo "luterano", preferindo em qualquer ocasião referir o movimento da reforma como "Evangélico", o qual deriva da palavra em grego euangelion, que em português significa "boas novas", "evangelho". Com o tempo, "Evangélico" também se tornou um sinônimo de Protestante e começou também a ser usado pela Tradição Reformada (Calvinista). Para distinguir os dois grupos evangélicos, alguns começaram a se referir a eles como Evangélicos Luteranos e Evangélicos Reformados. Com o passar do tempo, o termo "evangélico" deixou de ser usado; os próprios luteranos passaram a usar o termo "luterano" em meados do século XVI, a fim de se diferenciarem de outros grupos, como os anabatistas e a tradição calvinista. Em 1597, os próprios teólogos de Wittenberg definiram-se a si próprios como "luteranos", tornando assim o termo tradicional e usado em todo o mundo até os dias de hoje.

Certas igrejas luteranas podem usar a forma completa "Evangélica Luterana" (como a Igreja Evangélica Luterana do Brasil, o Sínodo Evangélico Luterano de Wisconsin e a Igreja Evangélica Luterana da Finlândia), enquanto outras podem usar simplesmente "Evangélica" (como a Igreja Evangélica na Alemanha) ou "Luterana" (como a Igreja Luterana - Sínodo de Missouri) em seus nomes. Diversas igrejas também ao invés fazem referência à Confissão de Augsburgo em seus nomes, como a Igreja Evangélica da Confissão de Augsburgo na Polônia ou a Igreja Protestante da Confissão de Augsburgo na Áustria, entre outras.

Dito isto, muitas opiniões pessoais de Martinho Lutero não foram adotadas pelas Igrejas Luteranas na Confissão de Augsburgo (a principal confissão de fé da Igreja Luterana) e, como o luteranismo manteve muitas das práticas litúrgicas e devocionais pré-Reforma, a Reforma Luterana é geralmente considerada a mais tradicionalista dentre as tradições protestantes.

Luteranismo miniaturadaimagem Martinho Lutero, um católico romano fervoroso, decidiu entrar para o claustro num mosteiro Agostiniano, sendo ordenado padre em 1507. Segundo alguns historiadores, isto ocorreu devido a um acontecimento sobrenatural, no qual ele sobreviveu a uma tempestade na estrada, após ter dito: "Ajuda-me Santa Ana! E tornar-me-ei monge!".

No mosteiro, Lutero vivia em angústias e desespero por dúvidas que tinha sobre seus méritos espirituais. Quanto mais refletia, tanto mais cresciam suas dúvidas e incertezas. Não possuía, por isso, paz de alma e via Deus como um severo juiz pronto a castigar os pecadores.

Lutero tornou-se doutor em Teologia e passou a lecionar na Universidade de Wittenberg. Sendo um dos privilegiados a ter acesso a uma Bíblia, Lutero desenvolveu nova visão teológica lendo as palavras de Romanos 1.17: "mas o justo viverá pela fé".Bíblia Sagrada, Versão por João Ferreira de Almeida, Revisada e Atualizada (RA) Ele dizia que o perdão e a vida eterna não são conquistados por nós mediante as obras, mas nos são dados gratuitamente mediante a fé em Jesus Cristo, o que Lutero afirmou com base na Epístola aos Efésios, capítulo 2, versículos 8 e 9: "Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie".

miniaturadaimagem|A comunhão sagrada, vitral na paróquia luterana de São Mateus em Charleston, Carolina do Sul|alt=|esquerda Em 1517, na Alemanha, o professor e monge Martinho Lutero fixou à porta da Catedral de Wittenberg 95 teses criticando a atuação do papa e do alto clero. Elas se propagaram rapidamente, mesmo com a intervenção da Igreja. Lutero foi apoiado por parte da população e pela nobreza que, desejosa de conquistar terras até então sob domínio de Roma (na região da atual Alemanha), o protegeram da perseguição do papa, poupando-o da fogueira, mas não da excomunhão.

Alguns exemplos dessas teses:

"Tese 27: Pregam a doutrina humana os que dizem que, tão logo seja ouvido o tilintar da moeda lançada na caixa, a alma sairá voando."

"Tese 32: Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de cartas de indulgência."

"Tese 86: Por que o papa, cuja fortuna é hoje maior que a dos mais ricos crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos a Basílica de São Pedro, em vez de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?"

Lutero, então, passou a participar de vários debates teológicos com autoridades civis e eclesiásticas que tentavam fazê-lo abrir mão de suas ideias e retratar-se de críticas à Igreja e ao papa. Em 1520, Lutero foi excomungado pelo papa e, no mesmo ano, queimou a bula de excomunhão em praça pública, rompendo assim com a Igreja Católica da época. Em 1530, surgiu a Confissão de Augsburgo que foi escrita por Lutero e Filipe Melâncton, um fiel companheiro seu. Este documento trazia um resumo dos ensinos luteranos.

Uma das principais preocupações de Lutero era que todas as pessoas pudessem ler o livro no qual os ensinamentos da Igreja Católica estariam escritos e assim poderem tirar suas próprias conclusões. Por isto Lutero traduziu a Bíblia para o alemão para que todos pudessem lê-la em sua própria língua. Alguns anos mais tarde, a Bíblia foi traduzida para o inglês, francês e espanhol; as pessoas passaram a ler a Bíblia e terem suas próprias conclusões. Aos poucos, a Igreja Católica foi perdendo poder e influência. Depois de Lutero, a Igreja Católica nunca mais conseguiu exercer o forte domínio sobre a Europa como tinha antes da Reforma Protestante.

As Confissões Luteranas miniaturadaimagem|Lutero em um vitral da Igreja de Sternberg As Confissões Luteranas podem também ser consideradas como estandarte, em torno do qual os luteranos cerram fileiras em defesa de suas visões doutrinárias da Escritura sagrada contra o erro, ou podem ser consideradas como uma bandeira, à qual os mestres da igreja prestam juramento de fidelidade. Cada membro da Igreja Luterana deve subscrever não apenas a Bíblia, mas também as confissões como exposição correta das doutrinas bíblicas. Para o leigo isto significa, ao menos, o Catecismo de Lutero; para o pastor e professor, significam todas as confissões adotadas pela Igreja Luterana. O livro que compele todas as confissões luteranas é chamado de Livro de Concórdia, possuindo a Confissão de Augsburgo, a Apologia da Confissão de Augsburgo, os Artigos de Esmalcalda, o Tratado Sobre o Poder e Primado do Papa, Catecismo Maior e Menor de Lutero e a Fórmula de Concórdia.

Em suas constituições, os grupos luteranos – congregações, bem como sínodos – geralmente definem sua posição doutrinária mais ou menos nestas palavras: "Confessamos que os livros canônicos do Antigo e do Novo Testamento são a palavra de Deus inspirada e, portanto, a única regra de fé e vida, e que as confissões da Igreja Luterana são uma exposição correta das doutrinas desta palavra". Por que esta firme insistência, como resumido nas confissões luteranas? Porque para luteranos não pode haver nada mais importante do que as doutrinas expostas conforme sua interpretação da Bíblia.

Em vista do precedente, segundo sua interpretação, o termo "igreja" jamais deveria ser empregado para definir um grupo religioso que não pertence ao Senhor como seu corpo (Ef. 1.22,23). Uma seita que, de acordo com sua visão, nega a divindade de Jesus, como a dos unitaristas não deveria ser chamada igreja.