Gidá, também chamada Jidá ou Jedá (), é uma cidade portuária da Arábia Saudita, sede da província homônima, situada na costa do mar Vermelho, na região de Meca, no Hejaz. Localizada cerca de 70 quilômetros a oeste de Meca, historicamente constitui seu principal porto e uma das principais portas de entrada marítimas para os peregrinos que se dirigem aos lugares sagrados do islã.

A importância de Gidá desenvolveu-se nos primeiros séculos do islã, sobretudo a partir do califado de Otomão , quando substituiu Xuaiba como porto de Meca. Sua posição nas rotas do mar Vermelho fez da cidade simultaneamente um centro de recepção de peregrinos e um importante entreposto do comércio entre o Mediterrâneo e o oceano Índico. Sob os mamelucos e posteriormente o Império Otomano, a importância estratégica do porto levou à sua fortificação e tornou suas receitas alfandegárias uma importante fonte de renda para os governantes do Hejaz.

No , Gidá voltou ao controle direto otomano após um período de administração ligado ao Egito, permanecendo sob domínio imperial até a Revolta Árabe de 1916. Após a conquista de Meca pelas forças de Abedalazize ibne Saúde, tornou-se o principal centro de resistência do Reino do Hejaz até sua conquista pelos sauditas em 1925. Durante o , experimentou grande expansão urbana e econômica, impulsionada pela peregrinação e pelas receitas do petróleo, desenvolvendo-se como um dos principais centros urbanos e comerciais do país e tornando-se sede da Organização para a Cooperação Islâmica.

História

O nome de Gidá aparece na maioria dos geógrafos e léxicos árabes clássicos sob a forma Judá (Judda), à qual são atribuídos sentidos como "costa", "litoral" e "caminho", embora na língua popular tenha prevalecido a pronúncia Jidá (Jidda). Hartmann e Marr registram igualmente que autores árabes e estudiosos clássicos interpretaram Judá como "caminho", enquanto outros relacionaram o nome a Judá ou Jidá, "avó", em referência a Eva, cujo suposto túmulo se localizava na cidade. A forma Judá, embora tenha caído em desuso, ocorre, por exemplo, nos relatos portugueses dos séculos XVI e XVII. Pouco se conhece sobre Gidá no período pré-islâmico. Uma tradição atribuída a Hixame ibne Maomé Alcalbi relata que Anre ibne Luai, dos cuzaaítas, introduziu em Meca ídolos provenientes de Gidá vários séculos antes do islã. Segundo Iacute Alhamaui, Judá ibne Hasme ibne Rabane ibne Huluane, dos cudaaítas, recebeu seu nome da cidade, que fazia parte do território dos cuzaaítas. A importância de Gidá cresceu durante o califado de Otomão , que em 26 A.H./646 escolheu a cidade como porto de Meca, em substituição ao antigo porto de Xuaiba, situado um pouco ao sul. Gidá passou então a servir como porto de desembarque dos peregrinos que chegavam por mar provenientes de regiões distantes, como o Norte da África, o Egito e a Índia, ao mesmo tempo que se desenvolvia como centro de entrada de bens de consumo destinados a Meca e ao Hejaz.

No , Gidá já constituía uma próspera cidade comercial e suas alfândegas proporcionavam receitas consideráveis aos governantes do Hejaz. Almocadaci registra que, além dos impostos cobrados sobre mercadorias, os peregrinos que chegavam pelo mar estavam sujeitos a uma taxa de uma peça de ouro. Geógrafos muçulmanos como Alistacri e Almocadaci destacaram sua importância comercial e as elevadas receitas obtidas com as taxas cobradas dos peregrinos. No , Nácer Cosroes estimou a população de Gidá em cerca de cinco mil habitantes. Segundo Hartmann e Marr, descreveu-a como uma cidade sem muralhas, governada por um dependente do xarife de Meca, cuja principal função era arrecadar as receitas da cidade, e mencionou hospedarias, cisternas, mesquitas e casas particulares. Bilge, por sua vez, afirma que Nácer Cosroes descreveu Gidá como cercada por muralhas. Mais tarde, Ibne Jubair mencionou suas hospedarias de pedra e mesquitas e elogiou o sultão Saladino por ter abolido os tributos arrecadados dos peregrinos pelos xarifes. Com o declínio do Califado Abássida, grande parte do comércio anteriormente dirigido a Baçorá foi desviada para Gidá, onde navios provenientes do Egito desembarcavam ouro, metais e tecidos europeus, enquanto embarcações da Índia traziam especiarias, corantes, arroz, açúcar, chá, cereais e pedras preciosas. Segundo Hartmann e Marr, incidia sobre essas mercadorias uma taxa ad valorem de dez por cento. Mercadorias transportadas entre a Europa e a Índia passaram, assim, pela cidade, que se tornou um importante ponto de encontro das rotas comerciais entre as duas regiões.

Durante o período mameluco, Gidá recebeu especial atenção devido à sua função como porta marítima de Meca e ponto de desembarque dos peregrinos provenientes sobretudo do Egito. Em 1268, o sultão Baibars realizou a peregrinação e nomeou Xameçadim Maruane como seu naibe em Meca, a quem os xarifes consultavam em questões administrativas. Esse sistema perdurou até o fim do domínio mameluco, e em Gidá havia um naibe, cuja residência, situada junto à costa e dominando o porto, servia também ao controle das atividades comerciais. Depois de 828 A.H./1425, os sultões mamelucos, atraídos pela prosperidade do porto, assumiram diretamente a cobrança dos direitos alfandegários, embora compartilhassem parte das receitas com os xarifes de Meca. A partir de 1452, a arrecadação passou a ser realizada por coletores mamelucos, com uma parcela destinada aos xarifes. Gidá tornou-se, assim, política e economicamente dependente do Egito. No final do período mameluco, a entrada dos portugueses no oceano Índico e seus ataques à navegação muçulmana criaram uma nova ameaça a Gidá. A partir de 1502, os mamelucos e, posteriormente, os otomanos adotaram medidas para enfrentá-la. O sultão Cançu Algauri nomeou Mirocém governador de Gidá e incumbiu-o de tornar a cidade defensável. Hartmann e Marr registram que Huceine construiu uma poderosa muralha em torno da cidade e mencionam uma fonte que data a obra de 915 A.H./1509. A TDV situa em 1511 a construção, em apenas nove meses, de uma fortaleza destinada à defesa da cidade.

Em 923 A.H./1517, Lopo Soares de Albergaria, perseguindo a frota mameluca comandada por Salmane Reis, navegou até o porto de Gidá, mas desistiu de atacar a cidade devido às suas poderosas fortificações. Após a conquista otomana do Egito, o xarife de Meca enviou uma delegação chefiada por seu filho e futuro sucessor Abu Numai Maomé ao sultão , que em 6 de julho de 1517 aceitou a submissão do Hejaz. Huceine Alcurdi foi então morto por ordem do xarife de Meca, e Cácime Axiruani, um comerciante de Meca, tornou-se o primeiro naibe otomano em Gidá. Posteriormente, o posto de paxá de Meca foi abolido: o xarife permaneceu à frente de Meca, enquanto Gidá, transformada em sanjaco, passou a ser governada separadamente por um sanjaco-bei. Sob os otomanos, Gidá tornou-se sede de um sanjaco e, por algum tempo, centro do Eialete da Abissínia, que posteriormente integrou o Vilaiete do Hejaz. Em 1538, a frota otomana que partiu para a Índia utilizou Gidá como seu último porto no império antes de seguir viagem. Os portugueses tentaram repetidamente tomar a cidade, mas em 948 A.H./1541 seu ataque foi repelido pelo xarife Abu Numai . Como recompensa, o sultão Solimão concedeu ao xarife metade das receitas alfandegárias do porto. Depois da conquista do Iêmem pelos otomanos, tornou-se costume dividir as receitas portuárias igualmente entre o sanjaco-bei de Gidá e o xarife de Meca. A conquista de Adem em 1558 reforçou o controle otomano sobre o mar Vermelho e a segurança de Gidá.

Apesar da mudança de soberania, Gidá continuou a desempenhar papel central no comércio do mar Vermelho: navios provenientes da Índia frequentavam regularmente seu porto e, durante o , um cônsul veneziano residiu na cidade para representar os interesses comerciais de Veneza. Hartmann e Marr observam que, ao contrário do que se acreditou anteriormente, o comércio do mar Vermelho não terminou com a circum-navegação portuguesa da África, mas continuou sob proteção otomana ao longo do . A partir do final do , contudo, o transporte de trânsito entre a Europa e a Índia pelo mar Vermelho entrou em declínio, situação que perdurou até a abertura do canal de Suez. Evliya Çelebi registrou no informações sobre o porto e a fortaleza de Gidá e visitou o túmulo tradicionalmente atribuído a Eva. Segundo seu relato, o porto rendia anualmente cerca de bolsas de impostos alfandegários, enquanto a fortaleza abrigava cerca de trezentos soldados. A escassez de água constituía um problema recorrente: a população dependia em grande medida da água da chuva armazenada em cisternas. Cátibe Chelebi relata que, no reinado de Maomé IV, o Caçador , o grão-vizir Cara Mustafá Paxá providenciou o transporte de água de locais distantes e mandou construir uma hospedaria, um banho público e uma mesquita.

No início do , a expansão uaabita atingiu o Hejaz. Em 1803, forças provenientes de Négede sitiaram Gidá. Embora não conseguissem conquistá-la, obrigaram o xarife Galibe ibne Muçaíde a submeter-se. A cidade permaneceu fora do domínio uaabita direto, mas Galibe ficou submetido à autoridade dos uaabitas até 1811–1812, quando Maomé Ali restaurou a soberania otomana nominal sobre a região. O Hejaz foi administrado em ligação com o Egito até 1840, quando retornou ao controle direto da Sublime Porta, e Gidá passou a ser governada por um governador subordinado ao poder central. Em 15 de junho de 1858, Gidá foi palco de graves distúrbios, nos quais foram mortos 25 cristãos, entre eles os cônsules britânico e francês e um grupo de ricos comerciantes gregos. O navio britânico Cyclops, ancorado no porto, bombardeou a cidade durante dois dias e restaurou a ordem sem causar grandes danos; posteriormente, uma investigação foi conduzida por autoridades otomanas com a participação dos cônsules britânico e francês, e os responsáveis foram punidos.

Durante a Primeira Guerra Mundial, em 1916, com a revolta do xarife Huceine contra o Império Otomano, Gidá adquiriu grande importância estratégica em razão de seu porto, pelo qual chegavam suprimentos destinados às forças da Revolta Árabe. A cidade foi bombardeada pela marinha britânica e, depois de um ataque combinado por terra das forças de Huceine e de um bombardeio naval britânico que durou seis dias, os otomanos renderam Gidá em 15 de Xabã de 1334 A.H./17 de junho de 1916. O porto tornou-se então o principal depósito de suprimentos para as forças xarifianas que operavam contra os otomanos durante a Revolta Árabe. Durante o efêmero Reino do Hejaz, Gidá tornou-se um dos principais pontos da luta entre os uaabitas e os xarifes. Após a tomada de Meca pelas forças sauditas em outubro de 1924, tornou-se a capital do governo de Ali, que sucedera seu pai como rei do Hejaz. O cerco de Gidá começou após a ocupação de Meca e prolongou-se por cerca de um ano, de janeiro a dezembro de 1925. Apesar da resistência, Ali abdicou em dezembro, e a cidade submeteu-se a Abedalazize ibne Saúde. O reconhecimento internacional da nova situação foi consolidado pelo Tratado de Gidá, firmado em maio de 1927.

Demografia e desenvolvimento urbano

esquerda|300px|miniatura|Gidá em 1938