thumb|Mapa do Levante com indicação de sítios do conjunto natufiano. Sobre o período aproximado de à |290x290px A cultura natufiana foi uma cultura arqueológica epipaleolítica desenvolvida no Levante, uma região geográfica situada no Oriente Médio, abrangendo áreas como Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano e Chipre. Além disso, algumas fontes ampliam a definição do Levante para incluir partes da Turquia, Iraque, Arábia Saudita e Egito.

Estima-se que a cultura natufiana tenha surgido por volta de 13.050 a.C. e perdurado até cerca de 9.500 a.C., marcando uma transição entre o estilo de vida nômade do Paleolítico e a adoção de uma vida mais sedentária na transição para o Neolítico. Durante esse período, os natufianos desenvolveram uma série de características distintivas em sua cultura material e práticas sociais.

Os sítios arqueológicos natufianos apresentam uma variedade de artefatos, como ferramentas de pedra polida e lascada, como lâminas de sílex e micrólitos, que eram utilizados para diferentes propósitos, desde a caça até o processamento de alimentos. Além disso, foram encontrados artefatos decorativos, como contas de conchas e pedras, indicando uma valorização estética e possíveis práticas rituais.

Uma característica marcante da cultura natufiana é o seu sistema de assentamento. Os natufianos estabeleceram-se em abrigos naturais, como cavernas e grutas, que proporcionavam proteção e abrigo contra as intempéries. Um dos sítios mais conhecidos é a Caverna de Raqefet, no Monte Carmelo, localizada em Israel, que revelou uma extensa ocupação natufiana.

A subsistência dos natufianos baseava-se principalmente na coleta de alimentos, como frutas, nozes e sementes, bem como na caça de animais selvagens, como gazelas. No entanto, há evidências de um incipiente desenvolvimento da agricultura, com a presença de instrumentos agrícolas rudimentares, como foices e pedras de moer, sugerindo uma transição para a produção de alimentos.

Além da importância econômica, a cultura natufiana também demonstrou aspectos sociais complexos. Os natufianos desenvolveram estruturas sociais e simbolismo, como evidenciado pelos rituais funerários elaborados encontrados em alguns sítios, nos quais os mortos eram enterrados com ornamentos e oferendas.

Os estudos sobre a cultura natufiana têm contribuído para uma melhor compreensão da transição entre o Paleolítico e o Neolítico, evidenciando as mudanças no estilo de vida e as primeiras experiências humanas com a domesticação de plantas e animais. Essa cultura desempenhou um papel crucial no desenvolvimento das sociedades humanas e na formação das bases para as civilizações futuras na região do Levante.

Fontes arqueológicas O interesse sobre a cultura natufiana para o estudo da evolução humana recente iniciou-se quando os primeiros sítios foram escavados nas cavernas de Shukbah El-Wad, tendo atraído a atenção da arqueologia desde então, dado que seu período emergência é considerado como uma fase de inflexão na história do oriente próximo. Escavações realizadas nas décadas de 1950 e 1960 revelaram remanescentes de complexos formados por habitações, sítios funerários, instrumentos de moagem de grãos e ossos distribuídos em áreas de dimensões variadas, classificados em três categorias: pequenas (até 15 m2 a 150 m2), médias (de 400 m2 a 500 m2) e grandes (acima de 1.000 m2). Estes complexos se localizavam no cinturão de florestas em que predominavam carvalhos e pistaches, com estratos herbáceos de cereais diversos. Complexos natufianos pequenos foram também identificados em áreas de estepes do Negev e do Sinai, além de áreas do deserto da Arábia.

As camadas superiores de numerosas cavernas palestinas revelam o chamado Conjunto Natufiano. Várias determinações radiocarbônicas feitas na Palestina, indicaram uma extensão de dois milênios, atribuídos ao conjunto, que vão de a anos antes de Cristo. Além da Palestina, no Líbano e na Síria, foram encontrados vestígios da indústria natufiana de sílex. O professor Enver Bostanci encontrou vestígios de alguns utensílios do tipo natufiano em Beldibi, caverna da costa Centro-Sul da Turquia. Os produtores do conjunto natufiano viveram em cavernas, sendo a melhor conhecida a do Monte Carmelo, em vasto abrigo rochoso e no terraço fronteiro, além de um bom número de sítios a céu aberto quem tem concisamente descrito. O povo natufiano vivia em sua maior parte da caça e da coleta de alimentos, assim como nos sítios de Karim Shahir. Ao mesmo tempo, temos instrumentos que sugerem um avanço incipiente no sentido da produção de alimentos, como por exemplo: foices, pedras de moer, etc.

As interpretações sobre as origens dos natufianos salientam a importância de hábitos sedentários associados à exploração de recursos vegetais e animais; hábitos que teriam se estabelecido sob influência de mudanças climáticas e ambientais do fim do Pleistoceno e seus impactos na distribuição de cereais e castanhas nas áreas elevadas do Mediterrâneo. Admite-se, assim, que a abundância crescente destes recursos nestas áreas possa ter representado o principal fator para a expansão dos natufianos. O desenvolvimento de estratégias de coletas intensivas e de padrões de assentamento sedentário podem ter resultado em rápido crescimento populacional, seguidos de dispersão e exploração territorial. Em cerca de 1.500 anos, grupos natufianos teriam se expandido a partir das margens do Mediterrâneo, passando posteriormente a ocupar ambientes marginais, como as terras altas do Negev.

A expansão dos natufianos para ambientes mediterrâneos menos produtivos e marginais provavelmente foi precipitada pelo crescimento inicial das comunidades nas zonas iniciais de ocupação. A descoberta de um sítio natufiano precoce e bem datado (Wadi-Judayid) ao sul borda do platô jordaniano sugere uma distribuição de área central muito mais ampla do que inicialmente definida. De qualquer modo, houve claramente uma expansão natufiana tardia nas terras altas do Negev; provavelmente uma intrusão em áreas ocupadas por grupos Mushabian há cerca de 11.000 anos.

Consideradas as evidências de processamento, armazenamento e consumo de nozes e cereais entre os natufianos, não é surpreendente descobrir que a distribuição ambiental de seus assentamentos tenha acompanhado a zona montanhosa do Mediterrâneo; habitat característico de desenvolvimento de cereais silvestres e árvores produtoras de nozes. As localizações das aldeias natufianas exibem um padrão de elevação crescente para o sul e leste, de 200m a 300 m acima do nível do mar ao longo da costa do Mediterrâneo até a mais de 1000m no planalto jordaniano. Embora o ambiente regional se torne cada vez mais seco a sul e a leste, há evidências que grupos natufianos foram capazes de manter assentamentos nos habitats mediterrâneos de altitude elevada.

As configurações locais das aldeias natufianas exibem um padrão consistente de organização. Os sítios são normalmente localizados próximos a ambientes de pastagem, como planícies costeiras vales amplos, bem como encostas arborizadas das zonas montanhosas, usualmente próximos a locais com disponibilidade de água. A localização estratégica dos sítios era favorável à exploração sazonal de recursos numa mesma localização, uma vez que os cerais selvagens são de maturação típica na primavera tardia e início do verão, enquanto castanhas, amêndoas e pistaches maduros são disponíveis para colheita no outono.

A caracterização arqueológica da cultura natufiana deriva principalmente de registros tipológicos e tecnológicos de seus conjuntos líticos constituintes, além de outros elementos da cultura material, como artefatos em ossos, destinado ao uso doméstico, caça e coletas diversas ou como ornamentais. Seus conjuntos líticos se caracterizam por microtecnologias baseadas na produção de lâminas largas a partir de substratos rochosos diversos, cujos atributos evidenciam uma notável uniformidade, enquanto os conjuntos de ferramentas exibem uma variação quantitativa significativa que corresponde em parte às configurações ambientais locais e aos tipos de assentamento. A caracterização se completa a partir de formas de ocupação do espaço, como a arquitetura de habitações e de sítios funerários, que permitem diferenciá-la de outros complexos epipaleolíticos.

A seriação tecnológica dos artefatos, em conjunto com datações de radiocarbono, permitem identificar duas fases distintas da cultura natufiana: uma fase precoce, entre cerca de 10.500 a.C e 9.000 a.C, associada à predominância de acabamentos bifaciais marginais e uma fase tardia entre cerca de 9.000 e 8.500 a.C, com formas predominantes normais de acabamento abrupto dos artefatos. Os sítios precoces são restritos às áreas montanhosas da zona mediterrânea, enquanto os sítios tardios se distribuem por áreas mais amplas, incluindo zonas altas de estepes. Esse padrão reflete uma expansão natufiana tardia para o que era então um ambiente mediterrâneo marginal.

Em contraste com outras culturas complexas, como a Kebaran e a Mushabian, os sítios natufianos são tipicamente maiores, com presença características arquitetônicas diversificadas, como casas semi-subterrâneas, poços de armazenamento e pavimentações. A existência de residências permanentes é indicada pela identificação de espécies animais comensais, como ratos e camundongos. Ademais, há evidências de campos transitórios radiais de exploração com cerca de 200m2, com presença de conjuntos especializados de ferramentas e distribuição esparsa de depósitos culturais e construções. As ferramentas incluem placas de moagem, trituradores, pilões, almofarizes e foices polidas, provavelmente utilizados para o processamento de castanhas e moagem de grãos típicos de zonas montanhosas do Mediterrâneo. Exames de doenças dentárias e de atrito entre remanescentes natufianos indicam que as populações consumiam elevadas proporções de alimentos processados em pedra, assemelhando-se aos padrões dentais das populações do Neolítico Inferior.

As habitações se caracterizavam como construções circulares semi-subterrâneas de três a seis metros de diâmetro, com pisos se situavam abaixo da superfície. Eram dotadas de alicerces rochosos e parte superior formadas provavelmente por madeira e ramos de árvores, o que diferenciava a arquitetura natufiana da prática comum de construções com tijolos de barro, típicas do Neolítico. Outra forma típica da arquitetura natufiana eram as casas semicirculares com cerca de nove metros de diâmetro, interpretadas como de uso coletivo. Instalações semi-subterrâneas destinadas ao armazenamento parecem, todavia, raras, a despeito da natureza sedentária da cultura natufiana, embora admita-se a possibilidade o uso de cestos para armazenamento na superfície.

Alimentação As escavações nos sítios natufianos revelam a utilização de recursos vegetais diversos pelas comunidades. Remanescentes de megafauna mostram a predominância de gazelas, além de outras espécies como gado, cabras, ovelhas, burros selvagens, gamos e veados vermelhos. Lagartos, cobras, tartarugas, roedores, lebres, pássaros e peixes complementam os restos faunísticos. As elevadas proporções gazelas imaturas, bem como evidências de utilização intensiva da espécie, gerou especulações sobre o possível envolvimento das comunidades na criação e manejo de gazelas para colheita. Uma comparação de perfis de idade de restos destes animais, no entanto, sugere que os animais imaturos sugerem um padrão de mortalidade semelhante ao que se esperaria se tivessem sido caçados comunitariamente através de ataques, cercas e emboscadas. Esta estratégia de captura não seria apenas consistente com a idade e perfis de contribuição de gazela para a dieta, mas poderia também estar relacionada com práticas de caça comunais inerentes às sociedades de complexas de forrageamento.