Os Xucurus-Kariris são um povo indígena originário do sertão nordestino brasileiro desde pelo menos o século XVII, ocupando a região do município brasileiro de Palmeira dos Índios, no estado de Alagoas, continuamente desde o século XVIII. Em Palmeira dos Índios, habitam a Terra Indígena Xucuru-Kariri e outros pontos nas redondezas, e em Minas Gerais, habitam duas aldeias no município de Caldas, uma aldeia no município de Presidente Olegário e uma aldeia no município de Brumadinho.

História

Os Xukurus-Kariris geralmente são considerados o resultado da união de duas etnias distintas, Xukuru e Kariri, mas sua origem não é muito clara devido à perda de registros pela colonização, sendo originários do sertão nordestino brasileiro desde pelo menos o século XVII. "Xukuru-Kariri". Instituto Socioambiental, 2013-2018 O mais antigo registro histórico produzido localmente em Palmeira dos Índios sobre a origem deste povo foi composto pelo padre José de Maia Mello, pároco de Palmeira entre 1847 e 1899, que diz (grafia atualizada):

"No ano de 1740, desceram índios da Aldeia de Cimbres do alto sertão de Pernambuco, e se aldearam na Serra da Palmeira, e vieram outros da Aldeia do Colégio do Rio São Francisco desta Província (Alagoas). Estes da tribo Xukuru, e aqueles da tribo Kariri. Os Xukurus se aldearam à margem do pequeno ribeiro, Cafurna, entre terras da Fazenda Olhos d'Água do Accioly e a Serra da Palmeira, fizeram o nome do seu aldeamento o da sua tribo (Xukurus), que ainda hoje se conserva este nome, no lugar do seu aldeamento, e os Kariris, também, deram o nome do lugar onde se aldearam, Serra do Kariri, onde fizeram uma pequena igreja, de palha de palmeira".Apud Antunes, Clóvis. Wakona-Kariri-Xukuru: Aspectos Sócio-Antropológicos dos Remanescentes Indígenas de Alagoas. Universidade Federal de Alagoas, 1973, p. 45 thumb|right|Povos indígenas em Alagoas

Essa tradição foi baseada em relatos orais colhidos na região e não é consensual, e há diversas tradições diferentes. Uma alega que os Xukurus foram os primeiros habitantes do lugar; outra que os Xukurus sempre foram Kariris, sendo Xukuru um apelido que significa "andarilho"; outra que os Kariris do Colégio estão ligados aos Xocós de Sergipe e Bahia; outra que o grupo do Colégio é da etnia Caeté; outra que os Kariris são um subgrupo ou aparentados dos Wakonãs, e segundo Darcy Ribeiro, os Kariris fazem parte de um grupo expulso da aldeia de Pedra Branca, perto de Amargosa, na Bahia.Antunes, pp. 19-23 Analisando as diferentes tradições, Wemerson Ferreira da Silva concluiu que essa diversidade põe em séria dúvida a ideia dos Xukurus-Kariris como uma entidade estável e bem caracterizada, e sua origem mais provavelmente deriva de uma multiplicidade de etnias e coletividades que se relacionaram e transformaram dinamicamente ao longo do tempo.Silva, Wemerson Ferreira da. "É de família, é tradição": território e organização social entre os Xukuru-Kariri no agreste alagoano. Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2020, p. 51

Em 1758 foi promulgado o Diretório dos Índios, que orientou a política indigenista oficial por todo o resto do século XVIII, e embora revogado em 1798, permaneceu influente. Impunha o uso da língua portuguesa, incentivando casamentos interétnicos e o estabelecimento de colonos portugueses dentro dos aldeamentos, tendo o objetivo de assimilar os nativos na cultura portuguesa e transformar as aldeias em vilas.Silva (Wemerson), p. 32 Na década de 1770 foram catequizados pelo capuchinho Frei Domingos de São José, sendo fundada em 1773 uma capela dedicada ao Senhor Bom Jesus da Boa Morte ao sopé da Serra da Palmeira.Antunes, p. 25 Em 1798 a capela já precisava ser ampliada, passando a ser dedicada a Nossa Senhora do Amparo, e ao mesmo tempo foi criada a paróquia.Silva (Wemerson), p. 31

Com a crescente penetração de colonos brancos na região de Palmeira, os indígenas foram sendo cada vez mais pressionados para abandoná-la. Para garantir sua subsistência, em 1821 os indígenas apelaram à Junta Governativa de Alagoas para que lhes concedesse uma área reservada. Num ofício em que foram representados pelo Diretor dos Índios José Caetano Moreira e outros oficiais, foi declarado que ali viviam pacificamente há mais de 80 anos, mas se viam atacados violentamente e espoliados por posseiros com títulos fictícios, ficando impedidos de manter sua subsistência. Foi lembrado que leis do século XVII declaravam suas terras e fazendas livres e protegidas, e que não poderiam ser transferidos contra sua vontade, nem serem obrigados a pagar tributos. Solicitavam, por fim, para seu uso a demarcação de uma légua quadrada, correspondendo às terras que tradicionalmente habitavam. A petição foi atendida pela Junta em 22 de maio de 1822, quando foi passada ordem de demarcação, concluída e registrada em 9 de dezembro, com uma légua em torno da Igreja de Nossa Senhora do Amparo, mas ainda dependia de uma sentença judicial final, que não foi proferida.Antunes, pp. 58-63

Os conflitos se intensificaram, e posseiros voltaram a reclamar as terras.Antunes, pp. 63-69 Neste meio tempo, para evitar mais perseguições, os indígenas passaram a adotar costumes civilizados e ocultar sua identidade, tornando-se "caboclos", o que levou a uma profunda descaracterização linguística e cultural. Com a criação da Direção Geral dos Índios em 1845, a meta governamental passou a ser transformá-los em trabalhadores tutelados e virtualmente desprovidos de direitos. A população passou a ser sujeita a trabalho forçado em obras públicas e recrutada para servir em tropas militares, e muitas vezes submetida a maus tratos. Outros trabalharam em fazendas e engenhos particulares da região. A sentença judicial confirmando a demarcação de 1822 finalmente saiu em 17 de abril de 1861, e no ano seguinte um relatório produzido por Manuel Lourenço da Silveira listou sete aldeias Kariri e uma Xukuru na área, mas alegou que apenas uma tinha direito legítimo sobre as terras e que não se notava praticamente nenhuma diferença entre o caráter e os costumes indígenas em relação aos demais brasileiros. Com base neste relatório, pouco depois o governo declarou que já não havia verdadeiros indígenas na região, pois todos estavam civilizados. Em 1872 toda a colônia indígena foi extinta, e os indígenas deixaram de existir oficialmente.Silva (Wemerson), pp. 33-36

O governo provincial informou que após a extinção da colônia realizaria um levantamento de seus ocupantes para distribuição de lotes, mas isso nunca aconteceu.Silva (Wemerson), p. 44 Em 1874, com o território já considerado devoluto, a Câmara oficiou ao governo provincial solicitando sua doação ao município, pois "seria de grande vantagem para a prosperidade da localidade". No mesmo ano, a Câmara recebeu queixa de vários colonos contra o vereador Manuel Marques de Oliveira, que segundo eles "sem permissão de ninguém estava apossado das melhores terras do extinto aldeamento". A Lei 3348 de 20 de outubro de 1887 concedeu ao município o direito de "aforar e arrendar os terrenos da extinta Colônia de Índios", mas uma circular do Ministério da Fazenda de 4 de abril de 1888 suspendeu sua execução.Antunes, pp. 53-55

De toda forma, as terras tradicionais acabaram sendo ocupadas por terceiros. Com a elevação de Palmeira dos Índios à categoria de Cidade em 1889, o poder público voltou a cobrar foro sobre as terras da aldeia. Em 1894 o governador Gabino Besouro deu ao município o direito de arrecadar impostos sobre a área. A maior parte da população nativa abandonou as aldeias, passando a viver como trabalhadores mal pagos em fazendas e engenhos de açúcar da região. Muitos partiram para longe. Os que ficaram mantiveram a posse de minúsculos lotes de terra nas serras da Cafurna, do Coité, da Capela e da Boa Vista em volta da cidade, ou nos arrabaldes urbanos, vivendo na miséria, sendo perseguidos e discriminados.Silva (Wemerson), pp. 38; 45-50

No início do século XX, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) identificou o grupo restante como "remanescentes indígenas". Estavam largamente aculturados, mas mantinham algumas tradições originais. Desde então os Xukurus-Kariris são considerados um povo emergente e lutam pela regularização das suas terras e pela recuperação da sua identidade.Silva, Ana Valéria dos Santos. Entre invisibilidade e protagonismo: participação política de Maninha Xukuru Kariri no movimento indígena (1966-2006). Universidade Federal de Alagoas, 2024, pp. 19-20 Houve sempre muito trânsito de famílias e indivíduos entre as diferentes serras e outros locais em que habitam, e esses contatos contínuos entre os diferentes grupos possibilitaram a construção de um acervo comum de conhecimentos e memórias que é a base da sua reivindicação étnica e identitária, e possibilitaram também a mobilização para reivindicar a demarcação contemporânea de um território étnico.Silva (Wemerson), p. 52

Alfredo Celestino foi um cacique informal e pajé, e tendo o apoio da Igreja Católica, liderou a reivindicação pelo reconhecimento oficial dos Xukurus-Kariris como um povo indígena. O reconhecimento foi dado em 1952, sendo criado um Posto Indígena e adquirida a Fazenda Canto para sua instalação, a cerca de 6 km do centro de Palmeira dos Índios, mas o local foi uma escolha arbitrária do SPI, não tinha qualquer relação com a história dos Xukurus-Kariris, e com uma área de apenas 276 hectares, não era suficiente para o sustento de toda a população, que na época chegava a cerca de 500 pessoas. Outras áreas continuaram sendo reivindicadas, incluindo o seu antigo cemitério, local sagrado localizado na Mata da Cafurna.Silva (Ana), pp. 21-26 Mesmo assim, a aquisição da fazenda foi importante para lhes dar uma base territorial definida, a partir da qual, segundo Wemerson da Silva, "se pôde construir, e efetivamente foi construído, o grupo étnico Xukuru-Kariri".Silva (Wemerson), p. 61

Em 1970 sua situação continuava muito precária. A Fazenda Canto tem um relevo muito acidentado, pouca terra para agricultura e é atravessada por uma ferrovia. Havia uma casa de farinha artesanal, e a escola e a capela estavam se arruinando. Um pequeno açude tinha água imprópria para consumo. A água potável vinha da chuva, colhida em potes ou jarras. A alimentação básica consistia de feijão, farinha e milho. Não havia assistência médica regular, e casos de desnutrição e parasitoses eram comuns. Ali viviam 82 famílias, com quase 300 pessoas, todos agricultores e indigentes, miscigenados com brancos e negros. Muitos indígenas viviam fora da fazenda. Também já havia grupos de Fulniôs, Carijós e Pankararus.Antunes, pp. 73-83 Antônio Celestino, filho de Alfredo, foi cacique e liderou retomadas da Mata da Cafurna em 1979 e 1986, que foram reprimidas com violência.Silva (Ana), pp. 25-26 Maninha Xukuru-Kariri, filha de Antônio, tornou-se uma liderança nacional, e liderou a terceira retomada da Cafurna em 1994, que devido à grande mobilização foi bem sucedida, sendo comprada pela Funai.Silva (Wemerson), pp. 70-71 Em 2019 havia grupos aldeados na Fazenda Canto, Mata da Cafurna, Cafurna de Baixo, Serra do Amaro, Serra da Capela, Boqueirão, Macacos, Coité e Monte Alegre. Segundo o Censo de 2022, havia cerca de mil indígenas e 1,5 mil não indígenas nas terras tradicionais.