Helena Ignez de Melo Silva (Salvador, 23 de maio de 1939) é uma atriz e cineasta brasileira.

Iniciou sua carreira como modelo de desfiles às fábricas de roupa de São Paulo e concorreu ao Miss Bahia de 1958. Em 1959, por influência de Glauber Rocha, com quem se casaria, atuou pela primeira vez no curta-metragem Pátio, o primeiro da filmografia do diretor. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, participou de inúmeros filmes, alguns dos quais rendendo vitórias de prêmios importantes do cinema brasileiro, bem como fez uma única incursão na televisão e algumas peças de teatro. Nesse período conheceu e se casou com Rogério Sganzerla, com quem viveu até a morte dele. Em meados dos anos 70, sua carreira entra num hiato. Helena retornou à atuação a partir de meados dos anos 1980. Volta a atuar em filmes e peças e faz duas incursões na televisão nos anos 1990. Em 2005, dirigiu seu primeiro curta-metragem (A Miss e o Dinossauro), e em 2007 seu primeiro longa (Canção de Baal).

Biografia

Helena Ignez nasceu em Salvador em 1939, 1941 ou 1942. Inicialmente cursava direito, mas decidiu abandonar o curso para estudar artes dramáticas na Universidade Federal da Bahia (UFBA), contrariando sua família. No meio, se envolveu com diretores teatrais brasileiros e estadunidenses e, sobretudo, com os movimentos vanguardistas. Um dos diretores que conheceu na universidade foi Glauber Rocha, com quem casar-se-ia. Antes de se casarem, Helena já era conhecida por participar de desfiles de moda para as fábricas de roupa de São Paulo, como a estamparia Matarazzo e a têxtil Rhodia, e concorreu no Miss Bahia de 1958.

O primeiro filme no qual participou foi o curta-metragem Pátio, de Glauber. O casal teve uma filha, a atriz Paloma Rocha, e poucos anos depois se separou. Em 1961, atuou como Ely em A Grande Feira e em 1962 como Marta em Assalto ao Trem Pagador. Em 1964, foi Mariá em O Grito da Terra. No mesmo ano, estreou no teatro com Descalços no Parque. Em 1966, foi Mariana em O Padre e a Moça, papel que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília e no Festival de Teresópolis. Em 1967, trabalhou como Luciana em Cara a Cara e na peça Verão. Em 1968, interpretou Lígia em Os Marginais, a esposa do Doutor em O Engano e Janete Jane em O Bandido da Luz Vermelha, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Troféu Coruja de Ouro, bem como esteve na peça Salomé e na novela A Última Testemunha, que foi sua primeira incursão televisiva. Helena casar-se-ia com Rogério Sganzerla. Em 1969, foi Angela Carne e Osso em A Mulher de Todos, que também lhe rendeu outro prêmio, agora no Festival de Brasília. Ainda em 1969, atuou na peça Hair e no filme Um Homem na Jaula.

Em 1970, participou de seis filmes, todos de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane: A Família do Barulho (Senhora), Barão Olavo, o Horrível (Isabel), Copacabana Mon Amour (Sônia Silk), Cuidado Madame (Empregada), Sem Essa, Aranha (Mulher) e Carnaval na Lama (Betty). Depois, em 1971, trabalhou com João Batista Ferreira em Os Monstros de Babaloo, e em 1973 com Tony Jokoska em Um Intruso no Paraíso. Sua carreira entra num hiato de mais de um decênio a partir desse momento, com Helena voltando a atuar 1985, quando esteve em Nem Tudo É Verdade. Após outro hiato de cinco anos, reapareceu em 1991 na minissérie Meu Marido da Rede Globo. Em 1992, atuou no filme Oswaldianas e na minissérie Tereza Batista da Rede Globo como Maricota. Em 1994, aparece no curta-metragem Geraldo Voador e na peça Anjo Negro. Outro hiato se segue, e Helena só tornaria a atuar em 1999, como Marcela no filme São Jerônimo.

Em 2002, participou na peça Os Sete Afluentes do Rio Ota, e em 2003 foi Guida em O Signo do Caos, o último filme de seu marido. Em 2005, estreou como diretora com o curta A Miss e o Dinossauro. Em 2007, esteve no curta Jurando que Viu a Periquita e depois em Meu Mundo em Perigo de José Eduardo Belmonte, bem como atuou na peça Um Sonho e dirigiu seu primeiro longa metragem, o filme a Canção de Baal. Em 2008, esteve no filme Encarnação do Demônio do diretor José Mojica Marins (Zé do Caixão) e então em Amarar de Emanuel Mendes. Em 2009, esteve em Hotel Atlântico de Suzana Amaral. No primeiro trimestre do mesmo ano, codirigiu com o filme Luz nas Trevas — A Volta do Bandido da Luz Vermelha (2010) com base em um roteiro, de centenas de páginas, que havia sido deixado por seu marido Rogério Sganzerla ao falecer, em 2004. Nele trabalharam suas filhas Sinai Sganzerla (produção e música) e Djin Sganzerla (personagem Jane), bem como Ney Matogrosso, que estreava como protagonista de um longa metragem. O filme é uma sequência de O Bandido da Luz Vermelha, dirigido e roteirizado por Rogério nos anos 60 e no qual Helena atuou. Luz nas Trevas foi o único longa brasileiro a participar no Festival de Locarno de 2010.

Em 2012, trabalhou com Felipe David Rodrigues no filme A Balada do Provisório e em 2013, apareceu em Desculpa, Dona Madama de Juliana Rajas, e dirigiu Feio, eu? e Poder dos Afetos. Neste mesmo ano, foi indicada ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro na categoria de melhor roteiro adaptado por Luz nas Trevas e ganhou o Troféu APCA de melhor roteiro pela mesma obra. Em 2014, atou em Paixão e Virtude de Ricardo Miranda e O Fim de uma Era de Bruno Safadi e Ricardo Pretti. Em 2016, interpretou a diretora do curta-metragem Xavier de Ricky Mastro e dirigiu Ralé. Em 2017, foi Filó em Vênus — Filó, a Fadinha Lésbica e esteve na peça Tchekhov é um COGUMELO. Ainda em 2017, foi agraciada no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro com o prêmio honorário pelo conjunto da obra. Em 2018, atuou em Antes do Fim de Cristiano Burlan e dirigiu A Moça do Calendário e Fakir. Também em 2019, atuou no filme Tragam-me a Cabeça de Carmen M. de Catarina Wallenstein e Felipe Bragança, e na peça Insônia — Titus Macbeth, pela qual foi indicada como melhor atriz para o Prêmio Shell.

Entre julho e outubro de 2026, a Ocupação Helena Ignez entrou em cartaz no Itaú Cultural de São Paulo. É uma exposição que mostra todo o trabalho da artista como diretora e atriz.

Filmografia

miniatura|Helena em 1963 em foto do Arquivo Nacional

No cinema Como atriz Ano Título Personagem Direção Notas Ref. 1959 Pátio Jovem no Pátio Glauber RochaCurta-metragem 1961 A Grande Feira Ely Roberto Pires 1962 O Assalto ao Trem Pagador Marta Roberto Farias 1964 O Grito da Terra Mariá Olney São Paulo 1966 O Padre e a MoçaMarianaJoaquim Pedro de Andrade 1967 Cara a Cara Luciana Júlio Bressane1968 O Bandido da Luz Vermelha Janete Jane Rogério Sganzerla O Engano Esposa do DoutorMário Fiorani Os Marginais Lígia Moisés Kendler e Carlos Alberto1969 A Mulher de Todos Angela Carne e Osso Rogério Sganzerla Um Homem e Sua Jaula Aeromoça Fernando Coni Campos1970 A Família do Barulho SenhoraJúlio Bressane Barão Olavo, o Horrível Isabel Cuidado Madame Empregada Copacabana Mon Amour Sônia SilkRogério Sganzerla Sem Essa, Aranha Mulher Carnaval na Lama Betty 1971 Os Monstros de Babaloo Herdeira João Batista Ferreira 1973 Um Intruso no Paraíso Solange Tony Jokoska 1985 Spray JetAna Maria MagalhãesCurta-metragem 1986 Nem Tudo É Verdade Rogério Sganzerla Ondas Assaltante Ninho MoraesCurta-metragem1992 Oswaldianas Tiafa Rogério Sganzerla Segmento: "Perigo Negro"Perfume de Gardênia Burglar Guilherme de Almeida Prado 1994 Geraldo Voador Bruno ViannaCurta-metragem 1999 São Jerônimo Marcela Júlio Bressane 2003 O Signo do Caos Guida Rogério Sganzerla 2006EspetoMadame MargotGuilherme Marback e Sara SilveiraCurta-metragem2007 Jurando que Viu a Periquita Rainha da Amazônia João Marcos de Almeida2008 Encarnação do DemônioCabíria José Mojica Marins AmararNoemiEmanuel MendesCurta-metragem 2009 Hotel AtlânticoDona da pousadaSuzana Amaral2010 Meu Mundo em Perigo Mãe de Ísis José Eduardo Belmonte2011DjaliohRicardo Miranda2012A Balada do ProvisórioMãe de André Felipe David RodriguesJetlagMãeTatiana NatsuCurta-metragem 2013 Desculpa, Dona MadamaDona MadamaCaetano Gotardo e Juliana RojasTernoMãeGabriela Almeida e Luana Demange2014 Paixão e Virtude Gustave Flaubert Ricardo Miranda O Fim de uma Era Narradora Bruno Safadi e Ricardo Pretti 2016 Xavier Professora Ricky MastroCurta-metragem 2017Vênus - Filó, a Fadinha LésbicaFilóSávio Leite2018 Antes do Fim Helena Cristiano Burlan 2019 Tragam-me a Cabeça de Carmen M. Diretora Catarina Wallenstein e Felipe BragançaCarneCamila KaterCurta-metragem2020Ensaio Sobre o FracassoCartomante Cristiano BurlanBenjamim Zambraia e o AutopanópticoMãeFelipe Cataldo2022A MãeDulceCristiano Burlan 2023A Alegria é a Prova dos NoveJarda ÍconeEla mesmaO Mel É Mais Doce Que o SangueAndarilhaAndré Guerreiro Lopes Helena de GuaratibaHelenaKaren BlackCurta-metragem 2024Se Eu Tô Aqui é Por MistérioLojista Clari Ribeiro 2025Cartas Para RianNair de TefféCavi BorgesNem Deus É Tão Justo Quanto Seus JeansDra. Marina ConsiglioSergio Silva Deuses da PesteGabriela Luiza e Tiago Mata Machado 2026Eclipse Dona da Kit netDjin Sganzerla

Como diretora Ano Título Notas 2005 A Miss e o Dinossauro 2007 Canção de Baal 2010 Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha 2013 Feio, eu? Poder dos Afetos 2016 Ralé 2018 A Moça do Calendário 2019 Fakir2024A Alegria é a Prova dos Nove

Trabalhos na TV Ano Título Personagem Notas 1968 A Última Testemunha Mina 1969 Era Preciso VoltarRegina 1991 Meu Marido Promotora 1992 Tereza Batista Maricota 2021Anjo Loiro com Sangue no CabeloNarradora

No Teatro Ano Título Direção Ref.1962 Família Pouco FamíliaAntonio do Cabo1963Victor ou as Crianças no Poder 1964 Descalços no Parque Ziembinski 1967 VerãoEros Martim Gonçalves 1968 Salomé 1969 Hair Ademar Guerra 1994 Anjo Negro Ulysses Cruz 2002 Os Sete Afluentes do Rio Ota Monique Gardenberg 2007 Um Sonho André Guerreiro e Carlos Ebert 2015O livro da grande desordem e da infinita coerência André Guerreiro Lopes 2017 Tchekhov é um Cogumelo 2019 Insônia - Titus Macbeth 2026 Fim de Partida Rodrigo Portella

Premiações Ano Premiação Categoria Trabalho Resultado Notas1966 Festival de BrasíliaMelhor AtrizO Padre e a Moça Festival de Teresópolis 1968 Troféu Coruja de OuroO Bandido da Luz Vermelha 1969 Festival de Brasília A Mulher de Todos 2013 Grande Prêmio do Cinema Brasileiro Melhor Roteiro Adaptado Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha Troféu APCA Melhor Roteiro Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha 2017 Grande Prêmio do Cinema Brasileiro Prêmio Honorário Conjunto da Obra 2019 Prêmio Shell Melhor Atriz Insônia Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro Guarani Honorário Homenagem

Bibliografia

Leitura complementar PUPPO, E.; HADDAD, V. Cinema Marginal e Suas Fronteiras: Filmes Produzidos nas Décadas de 60 e 70. Centro Cultural Banco do Brasil, 2004. 160p. RAMOS, F. P.; MIRANDA L. F. Enciclopédia do Cinema Brasileiro. 2. ed. São Paulo: SENAC, 2000. 664 p. STERNHEIM, A. Abrindo a Boca. Revista SET. Dez 2005. GARDNIER, R. Helena Ignez. In: Femina, 2., 2005, Rio de Janeiro. MOTTIN, M. La Femme du bandit: Hommage à Helena Ignez. In: Festival International de films de Fribourg, 20., 2006, Fribourg. p. 87-101

Ligações externas Entrevista com Helena Ignez à Revista Contracampo 1 Entrevista com Helena Ignez à Revista Contracampo 2

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