A guerra da Vendeia (, 1793–1795) foi uma guerra civil e contrarrevolução ocorrida na Vendeia, região costeira localizada no sul do vale do Loire, oeste da França. Aconteceu durante a Revolução Francesa e mais particularmente durante a Primeira República, quando houve enfrentamentos entre católicos e realistas, de um lado, e republicanos, de outro. A insurreição é intimamente ligada à chouannerie, que também opôs revolucionários republicanos e monarquistas da França e teve lugar na Bretanha, no norte do país. O conjunto desses dois conflitos é às vezes referido como Guerras do Oeste. A chouannerie se desenrolou na margem direita do Loire, enquanto a guerra da Vendeia teve lugar na margem esquerda.

Assim como toda a França, foi palco de manifestações de camponeses entre 1789 e 1792. Tais manifestações foram fortalecidas em 1791, após o Papa Pio VI condenar a Constituição Civil do Clero, decreto de 1790 que determinava a secularização dos bens da Igreja e a supressão dos votos religiosos. No entanto, a insurreição eclodiu apenas em março de 1793, quando a Convenção Nacional ordenou o alistamento compulsório (levée en masse) para reforçar as tropas na guerra travada contra monarquias europeias. Frequentemente ligado apenas à questões materialistas, o descontentamento com essa convocação se somou à insatisfação gerada pelos altos impostos, pela crescente perseguição ao cristianismo em relação à população local, pelo confisco das terras da Igreja e pela morte do rei Luís XVI, executado em janeiro de 1793.

Os insurgentes obtiveram importantes vitórias militares durante a primavera e o verão de 1793, conseguindo invadir as cidades de Fontenay-le-Comte, Thouars, Saumur e Angers. Porém, encontraram resistência em Nantes, a principal cidade da região. Durante o outono desse ano, o lado republicano foi reforçado pelo exército de Mainz e conseguiu conquistar a cidade de Cholet, que estava sob domínio dos vendeanos. Após a derrota, grande parte das tropas insurgentes cruzou o Loire em direção à Normandia, na tentativa de tomar um porto para facilitar a obtenção de ajuda dos britânicos e do exército de emigrados. Empurrado para a comuna de Granville, o Exército Católico e Real foi derrotado em Mans-et-Savenay no dia 23 de dezembro de 1793 pelo general revolucionário François Westermann.

Nos meses seguintes, houve violenta repressão aos vendeanos por parte das forças republicanas. Há registro de 7.013 execuções pós-julgamento na região: 3.458 em Nantes, 1.836 em Maine-et-Loire, 1.616 na Vendeia e 103 em Deux-Sèvres. Além disso, também foram utilizados alguns instrumentos ligados ao terror, como afogamentos em Nantes, tiroteios em Angers e massacres realizados nas áreas rurais, onde foram incendiadas várias aldeias e propriedades pelas “colunas infernais”. Considerando ainda as mortes em batalhas, estima-se que mais de cem mil vidas foram perdidas nos conflitos.

A repressão fomentou a resistência e, embora enfraquecidos, grupos insurgentes vendeanos continuaram a lutar contra as tropas revolucionárias, empregando táticas similares às de guerra de guerrilha. Em dezembro de 1794 os republicanos iniciaram negociações que resultaram no Tratado de La Jaunaye, assinado por representantes da Convenção Nacional e lideranças vendeanas. Esse fato marcou o fim da primeira guerra da Vendeia, em fevereiro de 1795, mas não pacificou a região.

A Segunda Guerra da Vendeia eclodiu alguns meses depois, em junho de 1795, após o desembarque de emigrados e ingleses em Quiberon. Essa insurreição, contudo, perdeu força rapidamente. As lideranças que restavam na Vendeia foram detidas ou executadas entre janeiro e julho de 1796.

A região da Vendeia abrigou, ainda, breves levantes com uma “terceira” guerra entre outubro e dezembro de 1799, uma “quarta” em 1815, já no período Napoleônico, e uma “quinta” em 1832. Esses outros conflitos, contudo, foram bem menores que a soma das duas primeiras guerras.

Contexto

No final do século XVIII, a região da Vendeia era uma área rural, relativamente isolada, onde a nobreza local ainda vivia perto dos camponeses. Segundo Michel Vovelle, no final do Antigo Regime, a propriedade nobre dispunha de mais da metade das terras, com o campesinato ocupando menos de 30%. A burguesia tinha entre 10 e 20% e o clero, 5%. A densidade populacional estava entre 700 e 790 habitantes por légua quadrada e o índice de alfabetização era baixo em comparação com outras regiões do país, apenas 10 a 20% sabia assinar o nome.

A sua população era fortemente católica, graças à pregação do sacerdote São Luís Maria Grignion de Montfort (1673-1716) que promoveu de modo particular o culto mariano e a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e Maria na região, símbolo posteriormente usado pelo vendeanos insurgentes. A igreja cumpria um papel relevante na vida comunitária, sendo local de sacramentos, celebrações e outras instâncias de convívio social.

O início da Revolução Francesa foi bem recebido pelos vendeanos em 1789. Inserções nos cadernos de queixas da Bretanha, Maine, Anjou e Poitou-inferior mostram a insatisfação dos camponeses com o sistema em que viviam. Ademais, a Vendeia e Maine-et-Loire estão entre os doze departamentos que mais enviaram deputados jacobinos à Assembleia Legislativa Vários padres da região também aderiram ao movimento nesse momento, chegando a assumir novos cargos criados pela Revolução, como as prefeituras.

Essa percepção positiva sobre a Revolução Francesa começou a se modificar em novembro de 1789, quando a Assembleia votou pelo confisco dos bens eclesiásticos, que foram transmutados em bens nacionais, a fim de garantir a difusão dos assignats, títulos de dívida emitidos pelo tesouro nacional que, em 1791, tornaram-se moeda de circulação e troca. O confisco reduziu a capacidade de a Igreja cumprir seu papel tradicional na comunidade e tornou particulares bens que, antes, eram percebidos como sendo de uso comunitário, por meio de sua aquisição por burgueses, camponeses, aristocratas e até mesmo membros do clero.

Em 12 de julho de 1790, a Assembleia aprovou a Constituição Civil do Clero, decreto que foi sancionado por Luís XVI em 24 de agosto do mesmo ano. Esse decreto reorganizava compulsoriamente o clero secular nacional, estabelecendo uma nova igreja, a Igreja Constitucional, e iniciava a descristianização francesa. As dioceses foram reduzidas de 130 para 83, fazendo-as coincidir com os departamentos. Párocos e bispos tornaram-se para todos os efeitos funcionários públicos do Estado e foram obrigados a prestar juramento à constituição pelo decreto de implementação, aprovado em 27 de novembro e assinado pelo rei em 26 de dezembro de 1790.

A constituição civil do clero e o juramento foram rejeitados por membros do clero que passaram a ser conhecidos como "refratários". Esses clérigos viam o juramento como um desvio da fé católica. Apenas um terço dos membros eclesiásticos da Assembleia Constituinte concordou em prestar juramento em janeiro de 1791, quando somente sete bispos e cerca de metade dos párocos da França foram empossados.

Em 10 de março de 1791, o Papa Pio VI pronunciou-se contra o decreto com a encíclica Quod aliquandum. No mês seguinte, a encíclica Charitas quae, proibiu o exercício de qualquer ato de poder de ordem (suspensão a divinis) a todos os padres e bispos que juraram lealdade à constituição, conhecidos como "constitucionais" e por todos os bispos por eles consagrados. O bispo Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord, que fora o principal defensor da constituição civil do clero entre os primeiros sete "bispos juramentados” e que havia ordenado os dois primeiros bispos "constitucionais", foi então excomungado e demitido do estado clerical.

Conflitos gerados por paroquianos ocorriam em diversos lugares, como na comuna de Saint-Christophe-du-Ligneron, localizada ao sul de Nantes, onde a intervenção das forças de segurança nacionais, em janeiro de 1791, causou as primeiras mortes na Vendeia. Em maio desse ano, em resposta à manifestação do Papa, a Assembleia emitiu decreto sobre liberdade de culto autorizando o culto ministrado por padres refratários, mas essa medida não foi suficiente para mitigar as tensões no campo.

Assim, em novembro de 1791 e em maio de 1792, foram publicados novos decretos contra a atuação do clero refratário. O primeiro tornava a impedir esses padres de exercer o ministério, e o segundo previa a deportação do território francês de qualquer clérigo refratário a pedido simples de vinte cidadãos. O clero constitucional, porém, não conseguiu substituir o refratário, que continuou a realizar missas clandestinas. Segundo Vovelle, menos de 35% dos padres na Vendeia e no baixo Loire pertenciam ao clero constitucional. No geral, mais de 65% do clero no Oeste da França se recusou a prestar juramento à constituição, enquanto no resto o país esse índice ficou em 48%.

Em 10 de agosto de 1792, o Palácio das Tulherias, onde estavam o rei e a rainha franceses, foi invadido por populares e o casal real foi obrigado a se refugiar na Assembleia Nacional. Posteriormente, eles foram aprisionados na Torre do Templo. A França passou, então, a ser governada por um conselho executivo provisório e eleições para uma nova constituinte foram anunciadas. Em 20 de setembro de 1792 a monarquia foi declarada extinta, sendo substituída por um regime republicano governado pela Convenção Nacional, que sucedia a Assembleia Legislativa Nacional. Luís XVI foi acusado por diversas ações que demonstravam sua intenção de “estabelecer a tirania e destruir a liberdade”, sendo condenado e, na manhã de 21 de janeiro de 1793, executado.

Conflito

Primeira guerra da Vendeia

O estopim para as revoltas campesinas foi o alistamento compulsório de trezentos mil homens, ordenado pela Convenção em 23 fevereiro de 1793. Esses homens deveriam engrossar os exércitos da República, que estavam em guerra contra monarquias vizinhas desde o ano anterior. Ao longo de 1793, diversas rebeliões de cunho federalista e monarquista eclodiram no interior francês, alcançando a Normandia e as cidade de Bordeaux, Marselha, Toulouse, Nimes e Lyon. Além do alistamento forçado, a insatisfação da população incluía os confiscos de terras da igreja católica, a perseguição aos padres refratários, a morte do rei e os altos impostos.

Cerca de quinhentos jovens vendeanos reunidos em Cholet em 3 de março de 1793 se recusaram a partir para a guerra, iniciando os tumultos na região. No dia seguinte, durante uma altercação, a Guarda Nacional abriu fogo contra os manifestantes, matando entre três e dez pessoas. Uma semana depois, o protesto havia se espalhado. Nessa primeira semana as manifestações se deram de modo disperso e foram ganhando corpo nas semanas seguintes.

Ao longo de março de 1793, os insurgentes invadiram as cidades de Chalonnes-sur-Loire, Chemillé, Cholet, Jallais, Mauges, Saint-Florent-le-vieil, e Vihiers, situadas no departamento de Maine-et-Loire. No departamento de Loire-Atlantique, eles entraram nas cidades de Machecoul e Pornic. No departamento da Vendeia, eles conquistaram Challans, Chantonnay, Clisson. La Roche-sur-yon, Les Herbiers, Montaigu, Mortagne-sur-Sévre, Palluau e Tiffauges.

Em 15 de março, uma coluna da guarda nacional comandada pelo general Louis de Marcé deixou La Rochelle, no departamento de Charente-maritime para reprimir o levante vendeano. Em 19 de março, após ter conseguido recuperar a cidade de Chantonnay, a coluna foi surpreendida na ponte Gravereau, onde foi derrotada. O episódio ficou conhecido como a batalha de Pont-Charrault. Os republicanos voltaram para La Rochelle e Marcé foi demitido, preso e acusado de traição, sendo guilhotinado seis meses depois. Essa derrota, ocorrida no interior do departamento da Vendeia, fez com que todos os insurgentes do oeste da França passassem a ser denominados “vendeanos”.