José DAssunção Barros (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1957) é um historiador e musicólogo brasileiro. Atualmente é professor do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
Suas principais obras foram O Campo da História (2004), O Projeto de Pesquisa em História (2005), A Construção Social da Cor (2009) e a série Teoria da História, em cinco volumes (2011) - José DAssunção Barros também escreveu uma série de artigos e ensaios sobre assuntos diversos, como História da Arte, História da Música, História da Literatura, Cinema, Teoria e Metodologia da História, Historiografia, e temas ligados à História de modo geral.
Obras Desigualdades e Diferenças O livro Igualdade e Diferença, publicado em 2016 em uma edição de mais amplo alcance - mas na verdade já antecipado em uma edição de circulação mais restrita em 2008 - principia por examinar a historicidade e a inter-relação entre os conceitos de igualdade, desigualdade e diferença. O artigo que deu origem a esta obra foi publicado no verão de 2005, no número 175 da revista Análise Social - publicação do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa - com o título Igualdade, Desigualdade e Diferença: em torno de três noções. Seu ponto de partida foi discutir a distinção entre Desigualdade e Diferença no seu contraste semiótico em relação ao conceito de Igualdade. A partir daí, o autor examina o fato de que não apenas as Desigualdades, mas também muitas das Diferenças que se tornam evidenciadas em meio à vida social, são na verdade construções culturais sujeitas à historicidade. Postula que diversos processos históricos de dominação consistem de fato na transformação de determinadas Desigualdades em Diferenças e vice-versa.
Para o autor, devem ser configurados no âmbito das diferenças aspectos como nacionalidade, religiosidade, profissão, faixa etária, gênero, percepções raciais, aspectos étnicos de todos os tipos. Enquanto isso, a pobreza ou riqueza de um indivíduo, seu grau de instrução, e outras distinções que produzem desnivelamentos entre os indivíduos, seriam relacionados ao âmbito das desigualdades. Rigorosamente falando, a escravidão, por exemplo, seria a desigualdade radical por excelência - a ausência de todos os privilégios. O problema levantado pelo autor é que frequentemente algumas diferenças são tratadas como desigualdades; e algumas desigualdades são tratadas como diferenças. Em todos estes casos, produzem-se violências de todos os tipos. O sexismo e os sistemas de dominação masculina podem tratar as diferenças de gênero como desigualdades (o autor cita a estranha máxima de Tomás de Aquino de que a mulher é um homem incompleto); e certas sociedades escravistas empenharam-se em tratar a desigualdade radical da escravidão como diferença. O estudo desenvolvido pelo autor procurou analisar os vários deslocamentos que podem se dar entre os planos da diferença e da desigualdade.
Em outro ensaio sobre desigualdades e diferenças, o autor examinou também as relações entre desigualdades e diferenças sexuais, e, em um terceiro ensaio da mesma série, buscou examinar as múltiplas trajetórias históricas da noção de Igualdade no âmbito do pensamento político, do imaginário e da história dos movimentos sociais. Neste último caso, trata-se de investigar como o imaginário da igualdade apresentou-se no homem ocidental no decorrer de sua história social, política, e identitária (NETA, 2017, p.314).
Construção Social da Cor Nesta mesma linha de reflexões, o autor escreveria depois um ensaio de maior fôlego intitulado A Construção Social da Cor, que mais tarde daria origem ao livro de mesmo nome (2009) - uma obra na qual se discute o problema histórico da escravidão de africanos nos tempos do Brasil Colonial e do Brasil Império. O Escravismo Colonial, ao transportar milhões de negros africanos para as Américas, teria consistido na sistemática reclassificação da população africana subsaariana a partir da gradual desmontagem das diversas etnias de origem da África com vistas à construção de uma nova Diferença - a noção de uma raça negra - sendo esta ainda secundada no processo de desenvolvimento do tráfico negreiro pelas chamadas etnias do tráfico (classificações de acordo com áreas geográficas ou circuitos de apresamento e exportação de escravos). Assim, em substituição a diferenças étnicas ancestrais que já existiam na África - como os mbundos, tekes, haúças, nuers, e inúmeras outras - começam a surgir gupamentos identitários que não existiam antes da instituição do tráfico atlântico de escravos, como os angolas, congos, benguela e cabindas. Mais ainda, todas estas divisões - que já tinham começado a embaralhar as etnias africanas ancestrais - logo começam a ser superpostas por uma grande diferença racial construída a partir do confronto entre o europeu branco e escravizador e a população africana subsaariana a ser escravizada: a diferença imaginada como uma grande raça negra, dentro da qual se enquadrariam todos os nativos da África subsaariana. Conforme a argumentação de Barros, para a montagem do escravismo colonial, a Diferença Negra teria se combinado à Desigualdade Escrava e à prática ocidental de obter escravos de um único continente, a África. Além disto, em fases e momentos distintos, a Desigualdade Escrava também teria sido alternativamente vista pela elite senhorial como uma Diferença Escrava (isto é, como uma essência naturalizada, e não como uma circunstância historicizada), e por isso uma das principais tarefas dos abolicionistas foi a de reconduzir a discussão da questão escravista do âmbito das Diferenças para o âmbito das Desigualdades.
O Campo da Historia O livro que o tornou mais conhecido, na verdade o seu primeiro livro publicado na área de História, foi O Campo da História - especialidades e abordagens (2004) - obra na qual José DAssunção Barros logrou elaborar um panorama crítico das diversas modalidades em que se organiza nos dias de hoje o conhecimento histórico, examinando campos históricos como a História Política, a História Cultural, a Micro-História, a História Econômica, a História Serial, entre inúmeros outros. Sua hipótese central nesta obra é a de que qualquer bom trabalho historiográfico não pode se limitar a uma única modalidade historiográfica, mas, sim, deve chamar a si uma determinada conexão de modalidades diversas conforme o objeto de estudo e o problema histórico examinado pelo historiador. Segundo o autor, existiriam três critérios principais de acordo com os quais os historiadores estabelecem subdivisões no campo disciplinar da História: (1) as dimensões, critério que preside a divisão da História em campos como a História Econômica, a História Cultural, a História Política, a História Social, e alguns outros, e que se relaciona ao aspecto de uma sociedade que o historiador examina em primeiro plano (mas sendo na verdade possível combinar duas ou mais dimensões numa mesma apreensão historiográfica); (2) as abordagens, critério que estaria relacionado ao fazer histórico e aos encaminhamentos metodológicos, gerando modalidades como a História Oral, a História Serial, a Micro-História, e outras; e (3) os domínios, relacionados às inúmeras temáticas ou campos temáticos que se abrem ao historiador (A História da Mulher, a História da Arte, a História do Direito, a História Rural, a História Urbana, e uma infinidade de outros). No mínimo, um trabalho de história qualquer deveria combinar pelo menos uma dimensão, uma abordagem e um domínio, mas na verdade as conexões historiográficas poderiam combinar mais de uma modalidade também no mesmo campo de critérios. Assim, um estudo sobre a música de protesto em um período de ditadura poderia ser visto como uma conexão entre história política e história cultural (duas dimensões), ao mesmo tempo em que a metodologia empregada pelo historiador poderia combinar a história oral com a análise de jornais através da história serial (duas abordagens). Outra proposta claramente explicitada em O Campo da História foi a de ultrapassar o nível mais limitador da especialização histórica, investindo na intradisciplinaridade (diálogo interno entre os campos históricos) e na interdisciplinaridade (diálogo da História com outras disciplinas e campos do saber). A preocupação com a complexidade e interconexão dos campos históricos - evitando-se uma perspectiva de compartimentação da historiografia em setores estanques - dá-se a perceber em diversos artigos do autor sobre este âmbito temático de estudos de historiografia. Para além do estudo sobre os campos históricos, o âmbito da Teoria e Metodologia da História mostra-se uma constante na produção de José DAssunção Barros, particularmente atenta ao emprego historiográfico de categorias como espaço, tempo, ou a aspectos como a Operação Genealogica. É bem conhecido, e atingiu sucessivas edições, o seu livro O Projeto de Pesquisa em História (2005).
História da Arte No campo da História da Arte, José DAssunção Barros escreveu também alguns ensaios, incluindo Arte Moderna e Alteridade, no qual busca mostrar como um dos diferenciais da Arte Moderna, a partir de fins do século XIX e sobretudo no decorrer do século XX, estabeleceu-se precisamente com a capacidade que os artistas ocidentais modernos desenvolveram no sentido de renovarem seus próprios padrões criativos e suas práticas artísticas com base no que puderam aprender da arte de outros povos de sua época e de outras épocas - as artes orientais (japonesa, chinesa, islâmica), as artes da África negra, a arte do Antigo Egito, a arte bizantina, as artes dos nativos das três Américas, entre outras. Ao deixar de perceber a arte de outros povos meramente como arte exótica ou com o limitado interesse dos estudos antiquários, tal como faziam os românticos, o artista ocidental pôde utilizar estas artes oriundas da alteridade como fontes de recursos para renovar e recriar a sua própria arte, daí originando-se os vários movimentos da Arte Moderna que vão desde o Impressionismo até o Fauvismo, o Cubismo, a Arte Noveau e muitos outros. Assim, o interesse dos artistas modernos pela cultura oriental - desde os impressionistas - deixa de ser um interesse pelo oriental apenas como temática a ser representada, e passa a ser um interesse em aprender, com os próprios artistas orientais, novos padrões, estilos e recursos de representação. De igual maneira, também os cubistas, a exemplo de Pablo Picasso e Braque, souberam aprender da arte africana novos padrões de representação que terminaram por um ensejar uma verdadeira revolução na pintura e na escultura modernas. Alguns dos capítulos de Arte Moderna e Alteridade foram publicados sob a forma de artigos, como o capítulo sobre Arte Japonesa ou como o capítulo sobre As influências da arte africana na arte moderna . Outros aspectos da História da Arte Moderna, ou questões relacionadas à metodologia do estudo das obras de arte também atraíram a atenção do autor.
Cidade-Cinema