As Testemunhas de Jeová foram um dos grupos religiosos mais perseguidos ao longo do século XX. A oposição a este grupo religioso, espalhado pelos vários continentes, ainda permanece viva em cerca de três dezenas de países, onde as suas atividades estão banidas oficialmente e vários dos seus membros estão encarcerados. A perseguição movida contra as Testemunhas, mesmo em países considerados democráticos, tem tomado muitas formas distintas, desde a intolerância na família, na escola, no emprego e na sociedade em geral.
Intolerância por motivos religiosos A perseguição ou intolerância religiosa sempre existiu, no decorrer da História. Do ponto de vista de um dos mais antigos e conceituados livros sagrados, a Bíblia, o que motivou Caim a assassinar Abel foram as diferenças religiosas. Caim não gostou de Deus ter aprovado o sacrifício oferecido por Abel e de não ter encarado com favor o seu. Caim ficou irado, e, por fim, assassinou seu irmão, conforme relatado em Génesis 4:3-8. Visto que a Bíblia apresenta estes personagens como os primeiros filhos do primeiro casal, Adão e Eva, alguns têm considerado este relato como o primeiro episódio histórico de intolerância religiosa.
No decorrer dos séculos, as principais religiões têm entrado em conflitos umas às outras, principalmente por causa de discordâncias doutrinárias. Muitos católicos, protestantes, hindus,muçulmanos, judeus, adventistas, batistas, mórmons e outros, em nome da ortodoxia, da verdade infalível, e da salvação da alma, justificam a perseguição, assassínio e intolerância de outros. Para as Testemunhas de Jeová isto por si só caracterizaria que essas religiões são falsas. Em alguns países, os regimes políticos foram manobrados pelas religiões dominantes para conseguir o silêncio ou mesmo a eliminação de grupos religiosos minoritários. Em outros casos, a política anti-religiosa ou anti-clerical, tal como o comunismo mais radical, tem negado os direitos religiosos dos seus cidadãos.
Motivos para a oposição às Testemunhas de Jeová
Ao longo da sua curta história, as suas crenças, doutrinas e práticas religiosas têm sido alvo de várias críticas. Isto tem atraído a atenção de muitos opositores.
As Testemunhas de Jeová têm enfrentado opressão e perseguição por parte de alguns governos totalitários, sendo inclusivamente um dos grupos visados pelo regime Nazi e pelos regimes comunistas. De acordo com o historiador alemão e especialista em história europeia Robert Gerwarth, as testemunhas de Jeová foram o único grupo perseguido pelo Terceiro Reich em razão apenas de sua fé. (diferente dos judeus que eram definidos pelos nazistas como uma "raça".)
Durante os últimos cem anos, muitos governos, incluindo os chamados democráticos, baniram as suas atividades, alguns chegando mesmo a prender ou a executar os seus membros. As acusações resultavam especialmente da sua neutralidade quanto aos assuntos políticos ou militares,(visto que são propagadoras do Governo Divino, à teocracía) ou pela instigação de líderes religiosos. Até o dia de hoje, existem algumas Testemunhas de Jeová presas por motivos religiosos bem como vários países onde as suas atividades estão sob proscrição governamental. Em todos os países elas tentam estabelecer o direito à objeção de consciência solicitando a isenção do serviço militar, rejeitam participar em cerimónias patrióticas e nacionalistas, tais como a saudação à bandeira ou cantar o hino nacional.
A opinião crítica que difundem abertamente de não fazerem parte de qualquer movimento ecuménico e o empenho num proselitismo considerado "agressivo", acabou por suscitar uma forte oposição por parte dessas religiões contra elas. Visto que algumas religiões possuíam forte influência política, as autoridades governamentais foram muitas vezes instigadas a proscrever, banir ou confiscar as propriedades e publicações da Sociedade Torre de Vigia, o instrumento legal usado pelas Testemunhas para estabelecer as suas atividades, bem como a perseguir, prender ou deportar as próprias Testemunhas, incluindo mulheres e crianças. Este tipo de perseguição movida por grupos religiosos ainda acontece no Século XXI, em alguns países do mundo.
Outros problemas que enfrentaram envolviam o que elas consideram ser o direito de divulgar a sua mensagem de uma forma pessoal e direta, visitando as casas dos seus vizinhos. Outros colocaram objeções legais à forma como a sua obra é financiada tentando obrigá-las a pagar impostos sobre a produção e distribuição de literatura ou sobre as contribuições recebidas de forma anónima e voluntária.
Baseando-se na sua própria interpretação da Bíblia sobre o uso do sangue, entendem que as transfusões de sangue lhes são proibidas por Deus. Isso originou conflitos com a classe médica e autoridades judiciárias, colocando diversos desafios éticos, cirúrgicos e jurídicos. No entanto, um esforço concertado de esclarecimento da classe médica bem como da opinião pública conduziu a uma melhor compreensão da sua posição, sendo que algumas poucas entidades chegam mesmo a defender a posição que elas adotam.
Entre os grupos mais perseguidos left|thumb|130px|"Triângulos roxos" - "Testemunhas de Jeová"
Durante o Século XX e XXI, as Testemunhas de Jeová são consideradas como um dos grupos religiosos mais perseguidos por todas as vertentes do poder, seja religioso, seja político. Além de esta afirmação ser várias vezes mencionada de forma frequente nas suas publicações,Uma das mais recentes revistas A Sentinela, de 15 de Março de 2007, página 24, menciona a perseguição movida contra as Testemunhas na Europa Ocidental, em particular na Alemanha, Itália, Espanha e Portugal, nas repúblicas e bloco de países anteriormente liderados pela ex-URSS, especialmente a Polónia, Moldávia, Geórgia e República Checa, bem como vários países africanos, nomeadamente em Angola, Etiópia, Malawi, Moçambique, e Zâmbia outras fontes também se referem a esta oposição. Sobre isto, o editor da United Church Observer, que se assume como uma das mais antigas e respeitadas revistas religiosas do Canadá,Site da United Church Observer (citação de Abril de 2007) escreveu:
"Não é sempre que os representantes da religião organizada se erguem a favor das Testemunhas de Jeová. No entanto, são um grupo corajoso e, provavelmente, aguentaram mais perseguição por menos ofensas do que qualquer outro grupo religioso do mundo. [...] O registo histórico das Testemunhas na Alemanha nazi foi um dos mais corajosos do mundo. Não ouvimos falar muito sobre o modo em que fizeram face a Hitler. [...] Nenhuma outra organização religiosa permaneceu tão firme e sofreu tanto em proporção ao seu tamanho."
"São intransigentes na sua resistência aos regimes totalitários e às ditaduras militares. Em Cuba, Fidel Castro conseguiu organizar as coisas com os outros grupos religiosos, mas não sabe o que fazer com as Testemunhas de Jeová. Em Malawi, bem como em muitos outros estados africanos, elas poderiam ser e são cidadãos bons, de boa moral e produtivos, se um governo tolo não tentasse obrigá-las a fazer o que creem que não devem fazer — afiliar-se a um partido e votar." Comentário publicado na revista Despertai! de 22 de Fevereiro de 1977 e 22 de Julho de 1980
A perseguição a este grupo religioso, espalhado pelos vários continentes, ainda permanece viva em quase três dezenas de países,Revista A Sentinela de 1 de Outubro de 2003, página 13 e Anuário das Testemunhas de Jeová de 2007, páginas 38 e 39 onde as suas atividades estão banidas oficialmente e vários dos seus membros estão encarcerados. Segundo as Testemunhas, a perseguição movida contra elas, mesmo em países considerados democráticos, tem tomado muitas formas distintas, desde a intolerância na família, na escola, no emprego e na sociedade em geral.
Histórico de perseguição em alguns países Pelos motivos atrás expostos, raros foram os países onde as Testemunhas não enfrentaram períodos de perseguição intensa. Alistam-se apenas alguns dos mais notáveis.
Brasil Entre 1940 e 1947 no Brasil, meio aos governos de Getúlio Vargas e Eurico Gaspar Dutra, à Segunda Guerra Mundial e ao início da Guerra Fria, a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados teve suas publicações confiscadas, membros presos e seu registro de atividades de Associação jurídica proscrito no país. Sob alegações diversas e contraditórias, as Testemunhas de Jeová foram acusadas de propagandear o nazismo, o fascismo, o anarquismo e o comunismo.
Em outubro de 2007 o siteUniversidade de São Paulo - Biblioteca de Teses e Dissertações da Universidade de São Paulo, publicou um artigo acadêmico,Tese Eduardo Goes Castro.pdf contendo uma tese de mestrado com o título: A torre sob vigia: as Testemunhas de Jeová em São Paulo (1930-1954). Esta tese tem o objetivo de analisar a ação das Testemunhas de Jeová em São Paulo, entre os anos de 1930 e 1954.
O trabalho foi muito bem pesquisado e está balizado em documentos da época, acessados pelo autor tanto em órgãos públicos quanto no museu histórico da Associação Torre de Vigia em Cesário Lange, SP.
A dissertação busca perceber até que ponto a perseguição policial e judicial empreendida contra essa organização religiosa, que contava com menos de 1000 adeptos até 1947, encontrava eco no estreitamento de interesses entre a Igreja Católica e o Estado brasileiro.
Durante a ditadura militar os Testemunhas de Jeová foram vigiadas, interrogadas e punidas por se recusarem ao alistamento militar e a não idolatria dos símbolos nacionais. Em acervos do Arquivo Nacional, há dezenas de documentos antes confidenciais da ditadura sobre as Testemunhas de Jeová, boa parte deles escritos na década de 1970. O historiador Grimaldo Zachariadhes, coordenador do Núcleo de Estudos Sobre o Regime Militar (NERM), conta que, no período, as Testemunhas de Jeová foram vigiadas, seus líderes foram interrogados e seus filhos passaram por constrangimentos nas escolas, às vezes até mesmo chegando a ter a matrícula impedida.
Estados Unidos da América Em Abril de 1917, os Estados Unidos declararam guerra à Alemanha, tornando-se participantes da Primeira Guerra Mundial. O Império Britânico, incluindo o Canadá, já estava envolvido nessa guerra. Segundo as publicações da Sociedade Torre de Vigia, esta combinação de eventos, junto com alguns parágrafos do sétimo e último volume da série "Estudos das Escrituras", intitulado O Mistério Consumado publicado pela Sociedade Torre de Vigia, deram ao clero a oportunidade que esperavam para tentar eliminar esta Sociedade bíblica. Um tribunal distrital em Nova Iorque, expediu uma ordem de prisão contra Joseph Franklin Rutherford, o segundo presidente da Sociedade, e mais sete dos seus colaboradores. Foram acusados de cometer: "A ofensa de ilícita, delituosa e deliberadamente causar ou tentar causar a insubordinação, a deslealdade e a recusa de servir nas forças militares e navais dos Estados Unidos da América, [pela] distribuição e divulgação pública, por todos os Estados Unidos da América, de certo livro chamado "Volume VII - Estudos das Escrituras - O Mistério Consumado."
No meio da febre de guerra e de inflamado patriotismo, os oito acusados foram submetidos a um julgamento que acabou na condenação de sete deles a quatro termos concorrentes de 20 anos de prisão. O oitavo acusado foi sentenciado a 10 anos. Visto que se interpôs recurso contra a sentença, solicitou-se liberdade sob fiança. Tal pedido foi recusado. Depois de nove meses na penitenciária de Atlanta, os diretores e dirigentes da Sociedade foram finalmente soltos sob fiança e libertos das suas acusações.