Nice (em niçardo: Niça ou Nissa; ; ; ) é a quinta cidade mais populosa da França e a capital do departamento dos Alpes Marítimos. A área urbana de Nice se estende para além dos limites administrativos da cidade, com uma população de cerca de 1 milhão de habitantes,Demographia: World Urban Areas, March 2010INSEE – Résultats du recensement de la population de 2008 – Aire urbaine de Nice – INSEE, 2008 em uma área de 721 quilômetros quadrados. Localizada na região da Costa Azul (Côte d'Azur), no litoral sul do país, nas margens do mar Mediterrâneo, Nice é a segunda maior cidade francesa na costa mediterrânica e a segunda maior cidade na região de Provença-Alpes-Costa Azul, depois de Marselha. Nice também está a cerca de 13 km de Mônaco e seu aeroporto é uma porta de entrada para o principado.

A região de Nice contém a Terra Amata, um sítio arqueológico que apresenta indícios de uso muito precoce do fogo por hominídeos. Por volta de , os gregos de Marselha fundaram um assentamento permanente, ao qual deram o nome de Niceia, em homenagem a Nice, a deusa da vitória. Através dos tempos, a cidade mudou de mãos várias vezes. Sua localização estratégica e seu porto contribuíram significativamente para a sua força marítima. Durante séculos foi um domínio do Ducado de Saboia e foi, em seguida, parte da França (entre 1792 e 1815), quando foi então devolvida ao Reino da Sardenha até a sua reanexação pela França em 1860.

A beleza natural da região e seu clima ameno chamou a atenção das classes abastadas da Inglaterra na segunda metade do século XVIII, quando um número crescente de famílias aristocráticas viajava ao local para passar o inverno. A principal avenida à beira-mar da cidade, a Promenade des Anglais (Passeio dos Ingleses) deve seu nome ao visitantes britânicos do resort.Alain Ruggiero, op. cit., p. 137 O ar claro e a luz suave, particularmente, chamaram a atenção de alguns dos pintores mais destacados da cultura ocidental, como Marc Chagall, Henri Matisse, Niki de Saint Phalle e Arman. O trabalho deles é celebrado em muitos dos museus da cidade, incluindo o Musée Marc Chagall, Musée Matisse e Musee des Beaux-Arts.

Proclamada Património Mundial pela UNESCO em 2021 como "Nice, Cidade Resort de Inverno da Riviera", a cidade tem a segunda maior capacidade hoteleira do paísUn savoir-faire et un équipement complet en matière d'accueil, Communauté urbaine Nice Côte d'Azur - CANCA e é uma das mais visitadas, recebendo mais de 4 milhões de turistas todos os anos.Les chiffres clés du tourisme à Nice, site municipal Também tem o terceiro aeroporto mais movimentado na França, após os dois principais de Paris.

História

Sabe-se que a área de Nice foi habitada pelo ser humano há anos. No sítio arqueológico de Terra Amata foram encontrados alguns dos mais antigos indícios de uso do fogo, construção de habitações e ferramentas de sílex, datados de aproximadamente 230 mil anos. Naquele tempo, o clima da região era mais quente e o nível do mar estava acima do atual, fazendo com que a colina do Castelo constituísse um ilhéu. Os grupos pré-históricos estabeleciam acampamentos sazonais em uma praia de seixos, junto a uma fonte de água doce.

Antiguidade miniaturadaimagem|esquerda|Área IX Liguria sob Augusto (entre os rios do Var e do Magra)

Nice foi fundada há cerca de 2 300 anos por colonos gregos na costa da Ligúria e recebeu o nome de Nikaia (ou Niceia), em homenagem à deusa grega da vitória, Nike. Uma outra possível origem do nome Nikaia está relacionada ao radical "nis", associado a fonte ou nascente de água doce. Em 154 a.C., Roma interveio pela primeira vez na região após os ataques dos povos lígures aos entrepostos gregos de Nikaia (Nice) e Antipolis (Antibes), a pedido de Massália (atual Marselha), aliada de Roma. Após a conquista romana, o território foi integrado à Área IX - Ligúria da Itália romana. Durante o período imperial, a administração romana criou a província dos Alpes Marítimos, cuja capital era Cemenelum (Cimiez). O rio Var marcava a fronteira entre a Gália e a Itália romana. Cemenelum entrou em declínio entre os séculos IV e VI d.C., tornando-se mais tarde um bairro de Nice.

Idade Média No século V, Nice sofreu as invasões dos Ostrogodos como o resto da Itália e em 550 a unificação com o Império Romano do Oriente.

Após a queda do Império Romano do Ocidente, a região de Nice passou pelo domínio dos ostrogodos durante o início do século VI. Em 536, após a derrota dos ostrogodos nas Guerras Góticas, o território foi incorporado ao Império Romano do Oriente. No século VII, Nice foi submetida à dominação dos lombardos.

Durante a Alta Idade Média, Nice sofreu ataques de piratas e incursões sarracenas que afetaram grande parte do litoral mediterrâneo. A cidade fortaleceu gradualmente suas defesas e desenvolveu sua atividade marítima e comercial, beneficiando-se de sua posição entre a Provença e a Ligúria. Nos séculos XIII e XIV, Nice esteve envolvida nas disputas políticas entre as potências regionais, incluindo a Provença, Gênova e a Casa de Saboia.

Durante a Idade Média Tardia, Nice desenvolveu instituições municipais próprias e ampliou sua autonomia, mantendo intensas relações comerciais com as cidades marítimas da Ligúria, especialmente Gênova. Em 1347-1348, a Nice foi atingida pela Peste Negra e, após sucessivas ondas da doença, a cidade perdeu metade da sua população.

Em 1388, a cidade de Nice é colocada sob a protecção do Condado de Saboia, evento conhecido como Dédition de Nice à la Savoie (Dedicação de Nice à Saboia), afastando-se definitivamente da influência provençal e tornando-se o Condado de Nice. Nice se tornou a única porta do Condado de Saboia. A comunidade judaica é estabelecida na cidade com o século XIII.

Ducado de Saboia thumb|210px|Nice em 1575

Durante os conflitos entre Carlos I de Espanha e Francisco I da França, Nice sofreu a passagem dos vários exércitos, com pilhagens e fome ao longo de vários anos. Por fim, o papa Paulo III mediou a assinatura da Trégua de Nice (1538) entre os dois soberanos, que previa dez anos de paz. No entanto, o acordo não durou o tempo previsto e as hostilidades recomeçaram poucos anos depois.

Em 1543, a cidade de Nice foi atacada pela aliança franco-otomana, composta pelas forças de Francisco I da França e pelo almirante turco Barba-Ruiva. Após a capitulação da cidade baixa, as tropas de Barba-Ruiva pilharam o local e levaram cerca de 2 500 habitantes como escravos. Contudo, a fortaleza de Nice resistiu ao cerco e não foi tomada. Foi durante essa batalha que se destacou Catarina Segurana, heroína popular e símbolo da resistência de Nice contra os invasores. Mais tarde, surtos de peste voltaram a atingir a cidade nos anos de 1550 e 1580.

Em 1562, Emanuel Felisberto de Saboia, removeu o uso do latim como língua administrativa e estabeleceu a língua italiana como língua oficial da actividade governamental em Nice. Embora a população falasse a língua lígure. Em 1610, foi construída a estrada real Nice-Turim.

Conquistada pelo marechal francês Nicolas Catinat em 1691, Nice foi retomada pelo Ducado de Saboia em 1696. Entretanto, voltou a ser sitiada pelos franceses em 1705 e, no ano seguinte, a cidadela e suas muralhas foram demolidas.

Reino da Sardenha thumb|Nice em 1624

Pelo Tratado de Utrecht de 1713, Nice foi novamente devolvida ao Ducado de Saboia, cujo governante foi reconhecido como rei da Sicília. Nos anos de paz que se seguiram, a cidade foi reconstruída. Entre 1744 e a assinatura do Tratado de Aquisgrão em 1748, a cidade voltou a ser ocupada por forças francesas e espanholas.

Em 1775, o rei que em 1718 havia trocado a soberania da Sicília pelo Reino da Sardenha, suprimiu as últimas liberdades comunais de Nice. Em 1792, a cidade foi conquistada pelos exércitos da Primeira República Francesa, permanecendo sob domínio francês até 1814, quando voltou a integrar o Reino da Sardenha.

Anexação de Nice pela França

210px|thumb|Protestos pró-italianos em Nice em 1871

Durante a reunificação italiana, a França obteve a anexação de Nice por meio do Tratado de Turim, assinado em 1860. A incorporação foi submetida a um plebiscito, cujo resultado oficial aprovou a anexação por ampla maioria. Entretanto, historiadores questionam a lisura da votação.

Em 1860 e 1871, a população da cidade revoltou-se com Giuseppe Garibaldi contra a França pedindo a reunificação com o Reino da Itália, mas o novo governo de Paris reprimiu a revolta de modo muito violento. Giuseppe Garibaldi nasceu em Nice e esforçou-se com os nizardos para reunificar sua cidade com a Itália, mas o exército francês opôs-se com firmeza. O idioma italiano foi proibido em Nice, pelo início de um processo de galificação.

Século XX thumb|210px|Centro de Nice por volta de 1900 Em 1900, o bondes de Nice foram eletrificados. Na década de 1930, Nice sediou corridas internacionais de automobilismo da categoria Fórmula Livre (Formula Libre), considerada uma das precursoras da Fórmula 1.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939, Nice tornou-se um refúgio para judeus que fugiam do avanço nazista na Europa Oriental. Muitos seguiram posteriormente para as colônias francesas, como Marrocos, ou emigraram para a América do Norte e do Sul. Após a instalação do Regime de Vichy, em julho de 1940, as perseguições antissemitas intensificaram o êxodo. Em 1942, forças italianas ocuparam Nice. A atuação do banqueiro judeu Angelo Donati e do frade capuchinho Père Marie-Benoît contribuiu para dificultar a aplicação das leis antijudaicas impostas pelas autoridades locais.

Em setembro de 1943, com a capitulação da Itália, Nice foi ocupada pelos alemães e as perseguições continuaram. Nessa época, a resistência francesa se intensificou com a atuação das Forças Francesas do Interior e dos Francs-Tireurs et Partisans, e a cidade se tornou palco de diversos confrontos. O sucesso do desembarque aliado na Normandia levou à retirada das tropas alemãs em direção à fronteira italiana. Em 28 de agosto de 1944, a resistência promoveu uma grande insurreição e os nazistas abandonaram a cidade.

Na segunda metade do século XX, Nice viveu um forte crescimento econômico impulsionado principalmente pelo turismo e pela construção civil.

Século XXI Em fevereiro de 2001, os líderes europeus reuniram-se em Nice para negociar e assinar o Tratado de Nice, que introduziu alterações nas instituições da União Europeia.

No dia 14 de julho de 2016, Dia da Bastilha, um caminhão atropelou uma multidão durante a comemoração no momento da queima de fogos. Foram confirmados 84 mortos e 18 feridos em estado muito grave. O motorista foi morto a tiros, segundo a polícia.

Em 2021, a cidade foi declarada Patrimônio Mundial da UNESCO como "Nice, Cidade Resort de Inverno da Riviera".

Geografia thumb|Nice, observada do topo do Museu de Arte Contemporânea (Mamac).

Situada no fundo da baía dos Anjos, perfeitamente abrigada por um anfiteatro de colinas, Nice está situada na costa do Mar Mediterrâneo, em uma baía fechada sobre o agrupamento montanhoso Mercantour, limitado ao oeste pelo vale do Var e ao leste pelo Mont-Boron. Nice está situada a leste de rio Var na zona geográfica italiana.

A cidade é cruzada por dois pequenos rios ondeados, frequentemente secos no verão: o Paillon a leste (34 km), que nasce no alto do Coaraze e recebe as torrentes de Laghet e Saint-André, e o Magnan a oeste, muito menor, vindo das montanhas de Aspremont, que cruza o bairro de la Madeleine antes de se jogar no mar, no bairro que traz seu nome.

Diversas colinas dominam a cidade, sendo a mais conhecida a de Cimiez, com seus vestígios antigos. Outra colina legendária é a do castelo (Chateau de Nice), que separa a cidade velha do porto. As diversas colinas perturbam a extensão da cidade, seja para o norte, seguindo o curso do Paillon, seja no aplainado a oeste até Saint-Laurent-du-Var.

Clima