Inconsciente (às vezes chamado também subconsciente), é um termo psicológico com dois significados distintos. Em um sentido amplo, mais genérico, é o conjunto dos processos mentais que se desenvolvem sem intervenção da consciência. O segundo significado, mais específico, provém da teoria psicanalítica e designa uma forma específica de como o inconsciente (em sentido amplo) funciona.
No Ocidente, o conceito elaborado de inconsciente foi atribuído ao filósofo neoplatônico Plotino e, no início do século XIX, a diversos pensadores que articulavam conceitos modernos de individualidade e psicologia no romantismo, idealismo e a Naturphilosophie.ffytche, Matt (10 de novembro de 2011). The Foundation of the Unconscious: Schelling, Freud and the Birth of the Modern Psyche (em inglês). Cambridge University Press. p. 2, 145, 199, e outras. Versão em português: ffytche, Matt (15 de janeiro de 2019). As Origens do Inconsciente. Editora Cultrix
Enquanto a maior parte dos pesquisadores empíricos está de acordo em admitir a existência de processos mentais inconscientes (ou seja, do inconsciente em sentido amplo, na ciência atual chamado muitas vezes de inconsciente cognitivo), o modelo psicanalítico tem sido alvo de muitas críticas, sobretudo de pesquisadores da psicologia cognitiva.Pervin, Lawrence A.; Cervone, Daniel & John, Oliver (2005). Persönlichkeitstheorien. München: Reinhardt. ISBN 3-497-01792-2 Para evitar a confusão entre os significados, alguns autores preferem usar o adjetivo "não consciente" no primeiro significado, reservando o adjetivo "inconsciente" para o significado psicanalítico.
História Influências sobre o pensamento que se originam fora da consciência de uma pessoa já eram expressas nas antigas ideias de tentação, inspiração divina e influência dos deuses no comportamento das pessoas. Ideias semelhantes já eram expressas também nos Vedas hindus (2 500-600 a.C.).
No budismo Os primeiros textos budistas, como o Cânon Pali, apresentam uma teoria sobre tendências mentais latentes (Anusaya, "viés latente", "predisposição", "disposição latente") que são pré-conscientes ou inconscientesSilva, Padmal; Buddhist psychology: A review of theory and practice; Current Psychology Vol. 9 No. 3 Fall. 1990 Pp. 236-254 Esses padrões são mais tarde denominados "vasanás" (impressão) pelos budistas iogachara posteriores e foram considerados como residindo em uma camada mental inconsciente. O termo "grilhões" também está associado às tendências latentes.
Um texto posterior do Teravada, o Abhidhammattha-sangaha (séculos XI e XII) diz: “As disposições latentes são impurezas que 'repousam junto' do processo mental ao qual pertencem, surgindo à tona como obsessões sempre que encontram condições adequadas” (Abhs 7.9). A escola Teravada também sustenta que existe um fluxo de consciência subconsciente chamado Bhavanga. Outro conjunto de fatores mentais inconscientes responsáveis por influenciar o comportamento de alguém inclui os asavas (em sânscrito, asrava, "afluxo"). Diz-se que esses fatores "intoxicam" e "confundem" a mente. O Buda ensinou que era preciso removê-los da mente através da prática, a fim de alcançar a libertação. Diz-se que os asavas surgem de diferentes fatores: sensualidade, agressão, crueldade, corpo e individualidade são alguns dos fatores dados. Ver Klesha e Desapego (filosofia).
A escola Iogachara do budismo Maaiana (começando do século III ao V EC) estendeu essas ideias ao que foi chamado de teoria budista da mente inconsciente.Waldron, William; The Buddhist Unconscious: The Alaya-vijñana in the context of Indian Buddhist Thought (Routledge Critical Studies in Buddhism) Paperback – June 8, 2003; page Este conceito foi denominado ālaya-vijñāna (a consciência fundamental) que armazena sementes cármicas (bija) e sofre renascimento. Essa teoria foi incorporada a uma teoria Iogachara mais ampla das Oito Consciências e também é sustentada no budismo tibetano. Ver Budismo e psicologia.
No Ocidente Platão, em diversas obras, falou sobre a realidade do irracional no ser humano. Em A República, ele descreve como os homens, no estado de sono, podem dar vazão a diversas coisas que, despertos, rechaçariam. Alguns autores, como Giovanni Reale, vêem essa passagem como uma antecipação da reflexão psicanalítica. Diversos filósofos antigos e medievais, ao se ocuparem da parte irracional do ser humano, reconheceram que há realidades encobertas, profundezas que às quais cada um não tem acesso livre. Desse modo, pode-se considerar que a filosofia falou, desde os primórdios, do inconsciente, ou ao menos apontou para a sua existência.
Historiadores como Hans Rudolf Schwyzer e E. R. Dodds reconheceram o neoplatônico Plotino como o primeiro escritor a afirmar e elaborar uma noção de inconsciente, associando-o ao Intelecto e à articulação sensorial da alma. Nas suas Enéadas, encontram-se diversas referências ao conceito, como: "Nem tudo o que está na alma é imediatamente perceptível", "estamos sempre intelectualmente ativos mas nem sempre apreendemos a nossa atividade" e "Por que então, quando temos tantas posses, não as apreendemos conscientemente, mas a maioria delas se encontra inativa, e alguns nunca se encontram sequer ativas?".
Paracelso é também tido como um dos primeiros a fazer menção a um aspecto inconsciente da cognição em seu trabalho "Sobre doenças" (1567). Sua metodologia clínica criou um sistema convincente que alguns consideram o início da moderna psicologia científica. William Shakespeare explorou o papel do inconsciente em muitas de suas peças, sem, no entanto, nomeá-lo como tal.
Alguns usos raros do termo "inconsciência" (em língua alemãː Unbewußtseyn) podem ser encontrados na obra do médico e filósofo alemão do século XVIII Ernst Platner.
Já o termo "inconsciente" (em língua alemãː Unbewusste) foi cunhado pelo filósofo idealista alemão do século XVd III Friedrich Schelling (em sua obra "Sistema de idealismo transcendental") e, posteriormente, foi introduzido na língua inglesa pelo poeta romântico e ensaísta Samuel Taylor Coleridge (em sua obra "Biografia literária"). O conceito filosófico e psicológico de inconsciente surgiu nesse contexto atrelado à tensão da individualidade moderna com as novas mudanças políticas e culturais; a uma filosofia do eu desenvolvimentista; e a uma intensa articulação entre romantismo, idealismo e a Naturphilosophie na investigação dos fenômenos do chamado "lado noturno da natureza". Em grande parte, desenvolveu-se também junto com e a partir de a prática do mesmerismo. Segundo o historiador Henri Ellenberger, "de 1784 a até cerca de 1880, o sonambulismo artificial foi o método principal de se ganhar acesso à mente inconsciente". Carl Jung, por exemplo, atribuiria a Mesmer os primórdios da noção de inconsciente, bem como ao psicólogo romântico Carus:
Filósofos ocidentais como Arthur Schopenhauer, Baruch Espinoza, Gottfried Wilhelm Leibniz, Johann Gottlieb Fichte, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Eduard von Hartmann, Søren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche já usavam o termo "inconsciente".
Em 1880, Edmond Colsenet apoiou, na Sorbonne, uma tese filosófica sobre o inconsciente. Elie Rabier e Alfred Jules Émile Fouillée realizaram sínteses do inconsciente "em um tempo em que Freud não estava interessado no conceito".
O psicólogo Jacques Van Rillaer aponta que "o inconsciente não foi descoberto por Freud. Em 1890, quando ainda não se ouvia falar de psicanálise, William James, em seu monumental tratado de psicologia ("Os princípios da psicologia"), examinou a maneira pela qual Schopenhauer, von Hartmann, Pierre Janet, Alfred Binet e outros usaram os termos "inconsciente" e "subconsciente".
O historiador da psicologia Mark Altschule observa que "é difícil - ou talvez impossível - encontrar um psicólogo ou psiquiatra do século XIX que não reconhecia que a atividade cerebral inconsciente era não apenas real mas também da maior importância".
Van Rilliaer poderia também haver mencionado que Eduard von Hartmann publicou um livro dedicado ao assunto, "Filosofia do inconsciente", em 1869 - antes de qualquer outra pessoa.
Os psicólogos alemães do século XIX Gustav Fechner e Wilhelm Wundt começaram a usar o termo "inconsciente" em sua psicologia experimental, no contexto de múltiplos e confusos dados dos sentidos que a mente organiza num nível inconsciente antes de revelá-los num todo convincente na forma consciente.
Sigmund Freud e seus seguidores desenvolveram um registro da mente inconsciente. Ele tem um importante papel na psicanálise. Segundo a leitura lacaniana de Freud, a pulsão é o conceito psicanalítico que mais se revela inseparável da questão sobre o que é o inconsciente.
De acordo com Sigmund Freud:Segundo Carl Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço, há uma distinção crucial entre características conscientes e inconscientes da psique: consciência é o que conhecemos e inconsciência é tudo aquilo que ignoramos. "O inconsciente não se identifica simplesmente com o desconhecido; é antes o psíquico desconhecido, ou seja, tudo aquilo que presumivelmente não se distinguiria dos conteúdos psíquicos conhecidos, quando chegasse à consciência." Para Jung ainda, o ego forma o centro crítico da consciência e, de fato, determina em grande medida que conteúdos permanecem no domínio da consciência e quais se retiram, pouco a pouco, para o inconsciente. O inconsciente inclui todos os conteúdos psíquicos que se encontram fora da consciência, por qualquer razão ou qualquer duração.
De acordo com Jacques Lacan:
Análises do inconsciente também já foram feitas em relação ao conceito de potência e ato de Aristóteles. Ver Potencialidade e atualidade#Na psicologia.
Modelos do inconsciente thumb|180px|Modelo da psique proposto pela teoria de Freud
O inconsciente defineSebastian Gardner, O Inconsciente Freudiano. Acessado em 2 de agosto de 2010. um complexo psíquico (conjunto de fatos e processos psíquicos) de natureza praticamente insondável, misteriosa, obscura, de onde brotariam as paixões, o medo, a criatividade e a própria vida e morte.
Nos livros "Psicopatologia da vida cotidiana" e "A Interpretação dos sonhos", Sigmund Freud mostra que há um significado nos esquecimentos e outros atos falhos e nos sonhos, que não está em geral aparente de imediato. O fato de haver esse significado, mas ao mesmo tempo que ele não seja transparente ao indivíduo, sugere que o que consideramos nossa mente é como uma ponta de um aicebergue. A parte submersa seria, então, o inconsciente.
O conceito de inconsciente de Carl Gustav Jung se contrapõe ao conceito de inconsciente e pré-consciente de Freud. O pré-consciente seria o conjunto de processos psíquicos latentes, prontos a emergirem para se tornarem objetos da consciência. Assim, o pré-consciente poderia ser explicado pelos conteúdos que fossem aptos a se tornarem conscientes (determinismo psíquico). Já o inconsciente seria uma esfera ainda mais profunda e insondável. Haveria níveis inatingíveis no inconsciente.
O inconsciente não se confunde com o id.Vincenzo Di Matteo, DO INCONSCIENTE AO ID: gênese de uma idéia. SYMPOSIUM, Revista da UNICAP, v.28,n.1, p.118-136, 1986 (acessado em 4 de agosto de 2010).CURSO DE PSICANÁLISE INTEGRATIVA. Acessado em 4 de agosto de 2010. Este é uma parte do inconsciente, enquanto o ego e o superego possuem porções conscientes.